“Os diretores queer brasileiros são muito bons em misturar algo muito sexo com algo muito político”, afirma Franck Finance-Madureira. Durante sua passagem pelo Festival do Rio, no qual foi jurado do Prêmio Félix, o jornalista responsável pela criação da Queer Palm conversou com a Híbrida sobre como o cinema LGBTQIA+ tem saído do nicho para o mainstream nos últimos anos, como a mostra paralela ao Festival de Cannes tem ajudado na fomentação de novos talentos e por que o futuro está na ampliação de vozes trans.
Criada em 2010, a Queer Palm premia os filmes de temática LGBTQIA+ exibidos na seleção oficial do Festival de Cannes. A inspiração veio do Teddy Awards, premiação paralela criada em 1987 para reconhecer os melhores filmes de temática LGBTQIA+ exibidos na programação do Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale).
Mas apesar de o Teddy ter sido oficialmente incorporado ao festival alemão em 1992, a Queer Palm ainda não recebeu o reconhecimento institucional de Cannes – algo que também não chega a ferir o seu prestígio no cenário internacional. “Depois de 15 anos, é melhor não se importar mais”, diz Franck.
“Eu criei [a Queer Palm] basicamente porque achei importante ter esse ponto de vista sobre a programação dos filmes queer no maior festival de cinema do mundo”, complementa. “Mas eles não veem de fato a importância do que fazemos. Eles não entendem que isso beneficia a imagem global do festival.”
Novos talentos no Queer Palm Lab
Em 2024, a Queer Palm lançou uma incubadora para novos talentos queer de todo o mundo. Dentre as mais de 200 inscrições, cinco cineastas estreantes da França, da Espanha e do México foram selecionados para receber a mentoria de Lukas Dhont, diretor de Close (2022). “Acho que foi algo bem importante para eles. É muito difícil fazer o seu primeiro filme, mas é mais difícil ainda quando é um filme sobre tópicos queer.”
Na próxima edição da Queer Palm Lab, cuja mentoria começa em 2026, a tutora será Charlotte Wells, diretora de Aftersun (2022). Dentre os cinco nomes selecionados, está o primeiro brasileiro, Renato Sircilli. Assim como no ano anterior, os novos cineastas participam de encontros focados no desenvolvimento em diferentes áreas do projeto, da produção ao roteiro.
“A Queer Palm tem uma reputação muito boa no mercado internacional de cinema. Isso é muito bom para a visibilidade deles, especialmente nessa área, quando é muito difícil lançar um projeto sem ter nada filmado ainda”, comenta Franck, observando que a faixa etária dos cineastas no primeiro grupo variava dos 25 aos 50 anos. “Porque sim, é possível fazer seu primeiro filme aos 50 anos!”, ri.
“Hoje em dia, você consegue fazer um filme com o seu celular. E isso vai te dar a oportunidade de mostrar às pessoas o que você quer dizer.”
Cinema brasileiro na Queer Palm e o futuro do cinema LGBTQIA+
Ainda que o cinema brasileiro não tenha levado nenhum prêmio para casa, a Queer Palm tem aberto mais espaço para as nossas produções nos últimos anos, à medida em que o nosso audiovisual também consegue pouco a pouco expandir a presença de personagens, histórias e temas LGBTQIA+ em diferentes gêneros.
Ainda em 2025, Marcelo Caetano, diretor de Baby e Corpo Elétrico, foi convidado para integrar o júri da Queer Palm. A lista de brasileiros que também ocuparam o posto em edições anteriores inclui ainda Juliana Rojas, de Cidade;Campo e As Boas Maneiras, em 2024; a dupla Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, de Ato Noturno e Tinta Bruta, em 2019; e Ricky Mastro, em 2014.

Não é só o cinema brasileiro que tem aberto as portas para tópicos queer, mas o cinema mundial, de certa forma, tem se mostrado mais receptivo a investir no que antes era considerado um risco comercial e de crítica. O aumento no volume de títulos com temas e personagens LGBTQIA+ cada vez mais complexos tem invadido festivais e premiações, refletido no público que enche as salas de cinema e, inevitavelmente, alimentado o ciclo que possibilita a Queer Palm e o Prêmio Félix impulsionarem novos talentos locais e globais, seja no Rio ou em Paris,
“Acho que, há 15 anos, os filmes queer eram apenas cinema independente. Era realmente ‘de nicho’. Agora, com a evolução da sociedade, vemos mais e mais o cinema comercial sobre tópicos queer”, avalia. “De certa forma, está menos independente, mas ainda é um período de normalização.”
Entre os destaques da Queer Palm neste ano estavam The History Of Sound, romance gay de época estrelado por Paul Mescal e Josh O’Connor; e Pillion, a polêmica e elogiada “dom-com” (trocadilho com “rom-com”, de comédia romântica, mas nesse caso referente a uma “comédia de dominação”), como tem sido descrita a história picante de amor e BDSM estrelada por Alexander Skarsgård e Harry Melling, que vem fazendo barulho pelos quatro cantos da internet.
Apesar disso, o filme que saiu vencedor foi A filha mais nova (La petite dernière), de Hafsia Herzi, que acompanha o despertar sexual da protagonista Fatima (Nadia Melliti), uma jovem muçulmana e lésbica que acaba de chegar à faculdade.
“Os filmes queer estão um pouco menos gays e mais lésbicos e trans, e isso é uma coisa boa. É uma boa evolução”, avalia Franck, sobre o que mudou no cinema LFGBTQIA+ desde o início da Queer Palm. “O que eu realmente quero é descobrir mais diretores trans, porque até as histórias trans às vezes são criadas por pessoas cisgêneras. Então acho que esse é um dos pontos-chave para o futuro: ter vozes trans. É muito importante ouvirmos todas as vozes.”
O primeiro passo para fazer sua voz ser ouvida, ele garante, é mais simples do que pode parecer. “O que eu sempre digo é que com o seu telefone você consegue fazer um filme. Então, não espere. Você consegue fazer um curta-metragem com o seu telefone e isso vai te dar a chance de mostrar ao mundo o que você tem a dizer.”