Em 2014, O Jogo da Imitação, de Morten Tyldum, chegava aos cinemas. Com Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode e Allen Leech no elenco, o longa abordou a história do matemático Alan Turing durante a Segunda Guerra Mundial e sua imprescindível ajuda para realizar a quebra do Enigma, o código usado usado pela Alemanha Nazista para enviar mensagens aos submarinos. Embora tenha ajudado a apresentar a genialidade ímpar de Turing ao público, o filme foi criticado por não ter se aprofundado num aspecto importantíssimo de sua vida: o fato de que ele era LGBTI+.

Nascido em 1912, na cidade de Paddington, Inglaterra, Alan Turing demonstrou sinais de seu invejável intelecto desde a infância, resolvendo problemas avançados sem sequer ter estudado cálculo elementar. Apesar disso, foi subestimado na escola, tido como impróprio para uma educação formal e julgado pelos professores, que consideravam seus trabalhos sujos e desleixados. “Se ele vai permanecer na escola pública, ele deve ter como objetivo ser educado. Se ele vai ser apenas um especialista científico, está perdendo tempo em uma escola pública”, disse, certa vez, o diretor da escola Sherborne aos seus pais, Ethel Sara e Julius Mathison Turin.

Nesse clima opressivo, o jovem conheceu, em 1928, Christopher Collan Morcom, grande amigo que partilhava a paixão pela matemática e também tido como seu primeiro amor. Morcom estimulava a curiosidade de Turing como ninguém e acabou incentivando empreendimentos futuros do cientista. Infelizmente, a amizade entre os dois acabou quando, em outubro de 1930, Christopher faleceu em decorrência da tuberculose. Mais tarde, Alan chegou a mencionar uma premonição que teve sobre a morte do amigo, poucos dias antes de ele ter adoecido.

O matemático ficou devastado. Havia perdido seu parceiro, primeiro amor e a única pessoa que o compreendia profundamente. A tristeza foi tamanha que acabou perdendo também a fé em Deus. Isso fez com que ele virasse sua atenção completamente para a ciência, na intenção de tentar compreender a morte de Morcom.

Benedict Cumberbatch viveu Alan Turing no filme "O Jogo da Imitação", de 2014 (Foto: Divulgação)
Benedict Cumberbatch viveu Alan Turing no filme “O Jogo da Imitação”, de 2014 (Foto: Divulgação)

De 1931 a 1934, Turing estudou na Universidade Colégio do Rei de Londres, onde conseguiu explorar e aceitar melhor sua sexualidade. Lá, se relacionou com os amigos e também matemáticos James Atkins e Fred Clayton. “Foi com Atkins que ele teve um relacionamento sexual de vai-e-volta mais extenso, sobre o qual tinha sentimentos ambivalentes, porque Atkins, em sua mente, não se comparava com o falecido Christopher”, escreveu Nigel Cawthorne na biografia Alan Turing: The Enigma Man.

Após deixar a faculdade com o diploma de matemático, foi estudar na Universidade de Princeton, sob a orientação de Alonzo Church, cientista renomado que deu precisão e foco à mente livre de Turing. Foi em 1936, entretanto, que ele escreveu o artigo On Computable Numbers“, onde teorizou sobre uma máquina que poderia resolver qualquer equação matemática que tivesse resposta. Alonzo já havia publicado tese semelhante, mas a ideia de Alan sobre uma máquina universal (que é o que hoje conhecemos como computador) foi mais acessível que a de seu mentor.

Em 1938, ele retornou para a Inglaterra e, durante a Segunda Guerra Mundial, liderou a quebra de cifras alemãs para a Escola de Código e Cifra do Governo (GC&CS) do governo britânico. Ele se concentrou, ao lado de Dilly Knox, na análise criptográfica da Enigma, usada pela Alemanha Nazista.

Com o fim da Guerra se aproximando, Alan tornou-se um herói no Parque Bentley, onde ficava a GC&CS. Ali, seu comportamento também lhe rendeu a reputação de “excêntrico”.

Além de sua cooperação para derrotar a Alemanha Nazista, Turing conheceu Arnold Murray em 1952, enquanto retornava de um passeio no cinema. Murray mudaria para sempre o rumo da vida de Alan.

Turing dava sinais de sua genialidade desde a infância e juventude (Foto: Reprodução)
Turing dava sinais de sua genialidade desde a infância e juventude (Foto: Reprodução)

Ao fim de janeiro daquele ano, a casa do matemático foi assaltada por um conhecido de Murray. Após reportar o crime, Turing foi questionado sobre o parceiro. À polícia, admitiu que estavam em um relacionamento, o que fez com que ambos fossem presos pelo que era considerado, à época, uma “indecência grosseira”.

Ele acabou se declarando culpado das acusações e, uma vez condenado, foi obrigado a escolher entre a prisão e um período de condicional que incluiria “tratamento” para sua sexualidade através de injeções com estrogênio sintético (castração química). Turing optou pela segunda alternativa e, no ano seguinte, foi submetido à impotência e ginecomastia (aumento da mama masculina).

O cientista que ajudou seu país a vencer uma guerra também perdeu o certificado de segurança que havia ganhado do Serviço de Inteligência Britânico, já que as autoridades consideravam sua orientação sexual como risco potencial de chantagem que poderia ser usada para obter segredos de Estado. Em carta ao amigo Norman Routledge, ele confessou que temia o quanto sua sexualidade pudesse ser usada para desqualificar suas ideias intelectuais.

Memorial dedicado a Alan Turing em Sackville Park, na cidade de Manchester, Inglaterra (Foto: Chris Skoyles)
Memorial dedicado a Alan Turing em Sackville Park, na cidade de Manchester, Inglaterra (Foto: Chris Skoyles)

Apesar de toda a tortura que sofreu, o matemático seguiu seu trabalho. Inclusive, há indícios de que tenha namorado um homem na Noruega – relacionamento, inclusive, que só não foi pra frente porque os serviços de segurança o vigiavam.

Em junho de 1954, aos 41 anos, Alan Turing foi encontrado morto em sua casa. Uma autópsia confirmou que a morte foi provocada por intoxicação de cianeto. Um inquérito determinou que ele havia cometido suicídio, embora a causa exata nunca tenha ficado clara. Andrew Hodges e David Leavitt, que já escreveram biografias sobre Turing, especularam que ele estava ensaiando uma cena do filme Branca de Neve e os Sete Anões, seu conto de fadas favorito, graças à presença de uma maçã semi-comida (e possivelmente envenenada) ao lado da cama do matemático.

59 anos após sua prematura morte, a coroa britânica, enfim, concedeu um perdão póstumo ao matemático – assim como a milhares de homens que foram condenados por serem homossexuais ou bissexuais no Reino Unido. “Turing merece ser lembrado e reconhecido pela sua fantástica contribuição aos esforços de guerra e por seu legado à ciência. Um perdão da Rainha é um tributo apropriado a esse homem excepcional”, escreveu o ministro da Justiça, Chris Grayling, em nota.

Embora tenha vivido pouco tempo, o legado de Alan Turing se mantém longevo, tanto na área científica, com a existência e proliferação dos computadores, quanto a respeito de sua “indecência grosseira”, como o governo britânico havia o julgado.