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HISTÓRIA QUEER

Billie Jean King: A Rainha que Transformou o Esporte, o Feminismo e a Luta LGBTQIA+

illie Jean King: A Rainha que Transformou o Esporte, o Feminismo e a Luta LGBTQIA+ (Foto: Wilson Sporting Goods Co./Reprodução)

A história do esporte mundial carrega muitos nomes de destaque, mas poucos são tão revolucionários quanto o de Billie Jean King. Ícone do tênis, pioneira na luta por igualdade de gênero e uma das primeiras figuras públicas do esporte a assumir sua orientação sexual, Billie usou sua raquete como megafone para defender causas que transcendem as quadras. Sua trajetória é um marco não só para o esporte, mas para os movimentos feministas e LGBTQIA+ ao redor do mundo.

O talento e a resistência de Billie Jean King nas quadras

Nascida em 1943, na Califórnia, EUA, Billie Jean King se destacou ainda jovem no tênis e, com apenas 22 anos de idade, conquistou o seu primeiro título de Grand Slam – como são chamados os quatro maiores e mais importantes torneios de tênis do mundo: Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open. No total, foram 39 títulos de Grand Slam ao longo de sua carreira, uma conquista impressionante por si só. Mas Billie nunca se contentou com vitórias apenas no placar.

Em 1973, Billie Jean protagonizou um dos eventos mais assistidos da história do esporte: a “Batalha dos Sexos”, na qual ela derrotou o ex-campeão Bobby Riggs, depois de este afirmar que o tênis feminino era inferior. A vitória de Billie, transmitida para mais de 90 milhões de pessoas ao redor do mundo, foi um soco no estômago do machismo e um espetáculo esportivo transformado em símbolo de resistência. Tanto, que a história foi levada aos cinemas. 

Dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris (“Pequena Miss Sunshine” e “Ruby Sparks”), o filme A Guerra dos Sexos foi lançado em 2017, trazendo Emma Stone na pele de Billie Jean e Steve Carell como Riggs. Os dois foram indicados ao Globo de Ouro por suas atuações na produção. 

Pioneira do feminismo no esporte

Muito antes das redes sociais e dos discursos encomendados, Billie já cobrava igualdade com coragem e contundência. Incomodada com a disparidade de prêmios entre homens e mulheres, ela liderou a criação da Women’s Tennis Association (WTA) e, em junho de 1973, pressionou o US Open até que o torneio se tornasse o primeiro Grand Slam a pagar prêmios iguais a atletas de ambos os gêneros.

Sua atuação foi fundamental para abrir caminhos para que atletas mulheres pudessem disputar as mesmas partidas que os homens, ganhar e serem justamente recompensadas por isso. Mais do que uma atleta, Billie Jean King foi uma arquiteta de estruturas feministas dentro de um meio historicamente dominado por homens.

Billie Jean King celebrando uma de suas vitórias no tênis em 1973 (Foto: AELTC/Michael Cole/Reprodução)
Billie Jean King celebrando uma de suas vitórias no tênis em 1973 (Foto: AELTC/Michael Cole/Reprodução)

Um marco para a representatividade LGBTQIA+

Em 1981, Billie Jean King revelou publicamente a sua orientação sexual, em meio a um processo judicial. Ao invés de se esconder, ela escolheu assumir sua bissexualidade, mesmo sabendo que poderia perder patrocínios, apoio institucional e respeito por parte da mídia.

“Dentro de 24 horas [do processo ter sido iniciado], eu perdi minhas garantias. Eu perdi tudo. Eu perdi dois milhões de dólares pelo menos, porque eu tinha contratos de longo prazo. Eu tinha que jogar apenas para pagar os advogados. Em 3 meses, eu gastei 500 mil dólares. Eu estava chocada. Eu não tinha ganho 2 milhões de dólares na minha vida inteira, então isso representava praticamente tudo o que eu tinha ganho”, disse a tenista, anos depois. 

Foi um momento decisivo. Numa época em que ser LGBTQIA+ era sinônimo de invisibilidade, ela se tornou uma das primeiras grandes figuras do esporte a sair do armário. Sua postura corajosa inspirou — e ainda inspira — uma geração inteira de atletas queer.

Desde então, Billie Jean King tem sido uma das vozes mais ativas na promoção de diversidade e inclusão no esporte. Criou instituições como a Billie Jean King Leadership Initiative, que defende a equidade de gênero e a representatividade LGBTQIA+ no ambiente de trabalho. Em todas as arenas onde atua — seja em conferências, eventos esportivos ou bastidores de campanhas —, sua luta continua viva.

Billie Jean King foi uma das grandes figuras do esporte a se declarar LGBTQIA+ (Foto: Art Seitz/Reprodução)

Qual o legado de Billie Jean King?

Hoje, aos 81 anos, Billie Jean King é reverenciada não apenas por suas conquistas atléticas, mas por sua atuação política e social. Seu nome está em arenas – como a quadra principal do US Open, em Nova York -, livros, documentários, e, mais importante, no coração de quem luta por justiça, dentro ou fora do esporte.

Após mais de 40 anos de relacionamento, em 2018 ela se casou com a também ex-tenista Ilana Kloss. Apesar de ter criticado publicamente a instituição do casamento, King decidiu oficializar a união com sua companheira em homenagem aos ativistas que lutaram pela legalização do casamento homoafetivo nos EUA. Elas fundaram a Billie Jean King Leadership Initiative juntas. 

Em 2009, ela foi condecorada pelo presidente Barack Obama com a Medalha da Liberdade, que é considerada a mais alta honraria a um civil nos EUA. Em abril deste ano, uma nova homenagem: ela se tornou a primeira mulher esportista a ganhar uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood. 

Para a comunidade LGBTQIA+ e para o feminismo interseccional, Billie Jean King é mais do que um exemplo, é um pilar. Sua história nos lembra que quebrar recordes é importante, mas quebrar o silêncio, as regras injustas e os muros da opressão é o que transforma o mundo.

Billie Jean King condecorada pelo presidente Barack Obama com a Medalha da Liberdade (Foto: Instagram/Reprodução)

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