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18 jan 2019

LED E O BICHA POWER DE CÉLIO DIAS

POR MARIA EUGÊNIA GONÇALVES

A vida do estilista mineiro Célio Dias, de apenas 26 anos, deu uma reviravolta no último semestre.
À frente da sua marca LED, ele integrou pela primeira vez o line-up de duas das principais semanas de moda do país: a São Paulo Fashion Week, na qual participou com mais quatro marcas pelo Top Five do Sebrae; e o Minas Trend, onde teve sua grande estreia solo.

Liniker veste LED durante show em Belo Horizonte (Foto: @LED_CD | Instagram)
Liniker veste LED durante show em Belo Horizonte (Foto: @LED_CD | Instagram)

Quem já acompanhava o crescimento da label sabia que o resultado não poderia ser diferente, principalmente após a estreia incensada pela crítica e a aprovação de artistas como Liniker, Ludmilla, Jaloo e Rico Dalasam, que têm exibido suas criações nos palcos e nas redes sociais.

“É muito, muito louco para uma marca pequena ver as coisas acontecerem assim em um prazo de seis meses”, revela o designer que, diga-se de passagem, apresentou duas coleções complementares no espaço de cinco semanas.

Idealizada em 2013 e oficialmente lançada em meados de 2014, a LED nasceu em Belo Horizonte.

De dois anos para cá, Célio reformulou o conceito da marca, apostando em modelagens e estampas fortes para redefinir o que é conhecido como “roupa agênero”, uma tendência comumente associada a peças de tons opacos e modelagens pouco inovadoras .

Na imagem, coleção apresentada pela LED durante a última edição do Minas Trend
Na imagem, coleção apresentada pela LED durante a última edição do Minas Trend

“Às vezes, a moda sem gênero fica muito focada em preto, branco, bege e toda essa coisa neutra. Na verdade, acho que a roupa de fato não precisa ter gênero – quem escolhe isso ou não é o indivíduo. É daí que nasce a LED”, defende.

O conceito da marca ele define como “uma que faz roupas para corpos, independente da configuração estética que eles assumam em suas relações sociais”.

Essa nova aposta “livre das amarras convencionais” colheu bons frutos entre o público jovem, principalmente após a investida em uma cobinação irreverente de frases, cores e símbolos pop espalhados por camisetas, maiôs e canecas, numa coleção limitada para o último Carnaval.

“Estamos super conectados com os movimentos sociais que acontecem. [A LED] é uma marca que nasceu do boom digital, então isso vai estar cem por cento ligado ao nosso trabalho, nessas estampas como ‘Bicha Power’, ‘Caguei’ e ‘Vai Planeta’. Esses bordões não estão lá à toa, só porque são engraçados ou divertidos. Existe uma pitada política e crítica ali dentro”, ele explica sobre as estampas que foram sucesso de vendas e uma espécie de assinatura da LED pelas ruas, reforçada mais tarde nas passarelas.

BICHA
POWER

O “BICHA POWER” de Célio e da LED começou a ganhar força em abril, quando a grife foi selecionada pelo programa “Ready To Go”.

Promovido pelo Sindicato das Indústrias do Vestuário em Minas Gerais (Sindivest-MG) e organizado pelo TS Studio dentro do Minas Trend, a proposta do concurso é revelar talentos locais.

Na época, ele apresentava a segunda parte de “Andarilhos”, uma coleção inspirada principalmente no estilo urbano. O mood não poderia destoar mais do que foi apresentado posteriormente nas passarelas de Belo Horizonte e São Paulo: uma paleta reforçada por cores contrastantes que se espalhavam pelo hibridismo entre o orgânico e o artificial com linhas de crochê e de plástico, estampas ainda mais imponentes que antes e caimentos folgados.

“A construção veio de como a gente queria ser visto pelo mundo, exatamente porque a SPFW é a quinta semana de moda mais importante do planeta”, conta sobre o conceito.

Célio queria sair da zona de conforto, desafiar a si mesmo para ir em busca de novas técnicas e materiais que ainda não havia usado, como o crochê. “Nós nos perguntamos: ‘como queremos que essa marca seja vista? Como mais uma que faz preto, branco, bege e cinza, ou como uma explosão de cores e questionamentos?’”.

Embora seja possível conceber a marca como um sonho para o jovem estilista, que produz em média 50 peças por coleção, Dias gosta de pontuar sua conquista de outra forma:

“Nós nos perguntamos: ‘Como queremos que essa marca seja vista? Como mais uma que faz preto, branco, bege e cinza, ou como uma explosão de cores e questionamentos?’”, explica Célio
“Nós nos perguntamos: ‘Como queremos que essa marca seja vista? Como mais uma que faz preto, branco, bege e cinza, ou como uma explosão de cores e questionamentos?’”, explica Célio

“A LED não era sempre um sonho. Eu quis trabalhar com criação, mas não conseguia emprego na área que pretendia. Ganhava super bem para fazer aquilo, mas não era feliz. Então a LED veio como um grito.

Tanto que ela surgiu sem representar o que de fato eu queria ser. Ela surgiu meio que sem identidade, e dali pra cá foi sendo moldado tanto o meu gosto como a minha forma de trabalhar e de criar, o que foi refletido também na LED”.

Tal crescimento e transformação funcionaram como um espelho das próprias experiências do jovem, que agora sim se identifica com a própria marca e a enxerga como um projeto objetivo dentro do setor vestuário.

“Hoje vejo que fazendo o que faço sou muito mais feliz. Hoje, com a LED a gente ocupa um lugar no mundo, de certa forma. Somos pequenos, tem isso e aquilo, mas temos um propósito. Acredito que a moda, de forma geral, caminha para isso. Porque moda sem propósito – ou com propósitos falsos – é chata. Acho que ela sempre precisa de um propósito. E esse é o caminho daqui para frente.”

O CRIADOR

Enquanto a indústria da moda pode ser cruel para muitos com sua eterna dança das cadeiras, Célio acredita que o setor é mais do que uma área individualista permeada por rivalidades e egos. Tanto que o modelo ideal de negócios para o estilista é o colaborativo, uma via de mão dupla que tem crescido nos últimos anos como tendência de mercado para marcas pequenas.

“Eu faço roupa e se tenho uma marca amiga que faz bolsa muito bem, por que não chamá-la para fazer comigo, sabe?! As colaborações são importantes. Na verdade, o que eu quero para a LED é fazer parcerias, tanto com marcas pequenas, quanto com marcas enormes”, pontua.

"Por ser afeminado, por ter o cabelo grande, por fazer o que eu faço ou por botar a cara à tapa. Todos os dias, eu encaro como se tivesse que lutar contra o mundo pra poder me reafirmar. Mas a necessidade de reafirmação vem justamente de dentro da própria comunidade" - Célio Dias
"Por ser afeminado, por ter o cabelo grande, por fazer o que eu faço ou por botar a cara à tapa. Todos os dias, eu encaro como se tivesse que lutar contra o mundo pra poder me reafirmar. Mas a necessidade de reafirmação vem justamente de dentro da própria comunidade" - Célio Dias

Nascido em Caratinga, cidade com a população estimada em aproximadamente 90 mil habitantes e localizada a 298 km da capital, Célio saiu de casa ainda na adolescência para procurar um caminho mais independente e seguir o sonho de se tornar estilista.

No interior, ele trabalhava na loja multimarcas da avó, o que desde cedo lhe despertou o encanto pela profissão, mesmo que, em algum nível, sofresse preconceito, principalmente por ele ser gay assumido.

“Sempre fui eu. E para mim, sempre foi natural ser eu. Como muitos, eu também tive problemas na escola por bullying. Mas reconheço que, por pertencer à camada vista como classe-média alta, não tive tantos problemas como imagino que alguém de classe econômica inferior teria. Então, teoricamente, eu já era aceito pelos cidadãos de lá”, avalia.

Ainda assim, assumir livremente seu “poder de bicha” não é algo que passa impune no país que mais assassina LGBTs no mundo e, para Célio, a discriminação acabou vindo por pessoas de orientação semelhante à sua.

“Pelo que vivo, percebo muito mais um preconceito dentro da comunidade LGBT+ do que fora dela. Por ser afeminado, por ter o cabelo grande, por fazer o que eu faço ou por botar a cara à tapa. Todos os dias, eu encaro como se tivesse que lutar contra o mundo pra poder me reafirmar. Mas a necessidade de reafirmação vem justamente de dentro da própria comunidade”.

Ainda assim, Célio não deixa de reconhecer que, mesmo com a aceitação de sua cidade-natal, despedir-se de Caratinga permitiu que ele encontrasse a versão de si mesmo que ele sempre procurou.

“Ter saído de lá me abriu infinitas possibilidades de conhecer pessoas, de lidar com situações diferentes e de evoluir. Talvez eu tivesse me tornado alguém que não queria, se permanecesse ali”, reflete.

Ele avalia também a liberdade que finalmente teve de seguir seus ideais: “Foi bom ter saído. Acho que, no mundo, você tem de vir com uma missão, tem que fazer alguma coisa por ele. E eu acho que a minha evolução foi alcançada por isso. Sair de lá, trilhar o meu caminho e, embora tenha demorado um tempo, construir o que eu queria ver no mundo, que é a LED”.

"Acho que no mundo você tem de vir com uma missão, tem que fazer alguma coisa por ele" - Célio Dias.
"Acho que no mundo você tem de vir com uma missão, tem que fazer alguma coisa por ele" - Célio Dias.

E assim, propondo gás para um mercado anteriormente habitado por uma monotonia das grandes marcas e da ratificação de gêneros binários no ramo do vestuário – cada vez mais vistos como antiquados por uma juventude ávida por um protagonismo mais plural -, a LED e, consequentemente, seu criador Célio Dias, têm tudo para continuar trazendo êxito para uma moda influenciada pelo discurso da diversidade dos corpos e, também, dando espaço aos seres influenciados e moldados por ela.

Maria Eugênia Gonçalves

MARIA EUGÊNIA GONÇALVES

Maria Eugênia (Jeane, para os íntimos) já caminhou pelo Design, pelo Direito, pelo Jornalismo e pela Publicidade, mas agora está se graduando nas Ciências Humanas pela UFJF. Fã de cultura pop desde criança, sua grande paixão é a sétima arte e tudo que envolve o mundo audiovisual: da produção até a forma que reflete o mais íntimo de nosso cotidiano.

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