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17 out 2019

A APOTEOSE DE MILTON CUNHA

O CARNAVALESCO, CENÓGRAFO E COMENTARISTA CONTA COMO LARGOU BELÉM PARA SE TORNAR UM SINÔNIMO DO CARNAVAL CARIOCA

Animado, disposto e brincalhão, o psicólogo de formação e carnavalesco por opção ganhou o gosto popular com uma irreverência única na forma de comunicar e agradar às massas, mas é na sutileza que ele engrandece. Mestre, Doutor e Pós-Doutor pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o que Milton Cunha quer é dialogar.

“A minha intelectualidade não me afasta do povo, na verdade ela me aproxima. Ela só me serve se for abrir minha cabeça. Se for me enclausurar, me manter distante, não me interessa. Quero viver”, celebra do alto dos seus muito bem vividos 55 anos.

Milton Cunha. Foto: @@alexnunesrj (retirada do Instagram pessoal do carnavalesco)
Milton Cunha. Foto: @@alexnunesrj (retirada do Instagram pessoal do carnavalesco)

Aos quatro anos, o carnavalesco já se aventurava entre uma remada e outra nos igarapés de Soure, na Ilha de Marajó, no Pará, onde nasceu. “Criança viada”, ele se lembra, com carinho pelas chuvas e pelos rios habitados por piranhas da ilha paraense, diferente dos anos que viveria posteriormente em Belém, aonde se mudou para estudar.

“Eu já era gay, então era um embate muito grande com meu pai. Era uma luta horrorosa. Não havia conflito comigo: ou eu era gay ou eu não existia. Mas os de fora não aceitavam que eu era. E eu era gay! Foi muito tapa, porrada, voava coisa e (eu) pensava: ‘pode bater’. Como eles são maiores, eles batem mesmo, são muito violentos. Eles, os adultos, pais, irmãos, tios, todo mundo”, conta.

Não havia conflito comigo: ou eu era gay ou eu não existia. Mas os de fora não aceitavam que eu era

– Milton Cunha

Criado a tapas em casa e submetido às regras dos colégios de padres e freiras na escola, Milton recorda como superou a solidão de ter se descoberto gay já na infância.

“Como ninguém quer que o outro seja gay: ou ele muda, ou ele finge; ou ele mente, ou ele é solitário. A criança tem que arranjar outras coisas para ter exemplo de amor. Ela não tem esse exemplo de pai e de mãe. Eu não tive!”, explica.

“Passada essa solidão, você supera na raça. Senão, fica só para sempre. Temos que lutar para ganhar a vida e sermos felizes. A outra opção, que é a hipocrisia em viver atrás de uma máscara, é muito ruim. Ainda jovem, eu já entendi que a minha felicidade dependia de mim. Eu tinha que ser feliz, não tinha que ficar esperando”, lembra.

ILUSTRAÇÃO RETIRADA DO INSTAGRAM PESSOAL DE MILTON. AUTORIA DESCONHECIDA.

RUMO AO RIO

Decidido que o Pará não tinha espaço para tudo o que queria do mundo, aos 16 anos, Milton entrou na curso de Psicologia e, aos 20, com o diploma em mãos, pegou um pau-de-arara rumo ao Rio. Como muitos recém-chegados à cidade, morou dois anos em uma vaga em Copacabana, com outros sete rapazes.

“Comecei como assistente de produção de moda, passador de roupa, engraxate… Nada me parava e eu resolvia tudo que me pediam. Passava 100 peças de roupa feliz da vida! Fazia qualquer coisa para aprender. Meu objetivo naquela época era ter um trocado e aprender. Ver gente, fazer contato, conhecer. Eu ansiava por isso”, lembra.

Do diploma de psicólogo, só guardou o conhecimento, já que nunca exerceu a profissão. Mas, após 11 anos de Rio e já com um nome feito na indústria de moda da cidade, Milton comprou seu primeiro apartamento, que também marcou a mudança na carreira. Melhor amigo da modelo Fabiola Oliveira, ele foi o responsável por apresenta-la a Aniz Abrahão David, da G. R. E. S. Beija-Flor de Nilópolis, enquanto ela tratou de levá-lo ao Carnaval.

Em 1994, durante seu primeiro desfile, Milton levou o 5º lugar com a Beija-Flor de Nilópolis (Reprodução Youtube)

“Ela me contou que o Anísio iria abrir um concurso para enredo e queria que eu participasse. Neguei dizendo que eu havia estudado, era de ópera, balé, cinema etc. O Anísio então me perguntou como eu faria um balé e contei a história de Margaret Mee (1909 – 1988), uma artista botânica londrina que foi morar com os índios da Amazônia. Dormi psicólogo e acordei carnavalesco da Beija-Flor”, conta empolgado.

Ficou na escola de Nilópolis por quatro desfiles. No carnaval de 1998, estava na G. R. E. S. União da Ilha do Governador, onde ganhou o primeiro Estandarte de Ouro com o enredo “Fatumbi, Ilha de Todos Os Santos”.

No ano seguinte, apresentou “Barbosa Lima, 102 anos do Sobrinho Do Brasil”, mas um incêndio na quadra 40 dias antes do desfile queimou mais que fantasias e alegorias.

“Junto com a comunidade, nós refizemos o desfile, entramos na avenida e não só eu e a escola não caímos como ficamos em 10º, de 16 posições. Aí, nos anos 2000, tirei um ano sabático e fui embora para a praia. O incêndio tinha queimado o meu prazer. Estava oco, vazio, cansado. Com 38 anos, fiquei na praia comendo peixe frito e bebendo cachaça. Nesse tempo eu consegui olhar o carnaval de fora”, afirma.

Em 1998, Milton Cunha entrava para a União da Ilha
Em 1998, Milton Cunha entrava para a União da Ilha

Em 2002, já estava na G. R. E. S. Unidos da Tijuca, onde ganhou seu segundo Estandarte de Ouro com o enredo “O Sol brilha eternamente sobre o Mundo da Língua Portuguesa”.

Repetiu o feito em 2003, na mesma escola, com “Agudás: Os que levaram a África no coração e trouxeram para o Coração da África, o Brasil”.

“Com isso, ganhei um prestígio gigantesco e decidi que entraria no mestrado. Sempre gostei de estudar, sou rato de biblioteca. Gosto de ópera, de balé, de teatro… E saio da biblioteca e vou para o bar, beber e comer com os bêbados e com as prostitutas”, ri.

FOTO RETIRADA DO INSTAGRAM PESSOAL DE MILTON.

CHEGADA À TELEVISÃO

Do Carnaval de 2004 ao de 2010, Milton passou pelas escolas São Clemente, Viradouro, Porto da Pedra e Cubango. Junto com os desfiles, o carnavalesco começou uma carreira midiática em ascensão.

Na Band, foi locutor da transmissão dos desfiles do grupo de acesso da Sapucaí e do desfile das Campeãs, além de transmitir o Festival de Parintins.

“E, com isso, eu comecei a minha carreira internacional. Faço Carnaval em Toronto, Londres, Buenos Aires, Tóquio, Lausanne, África do Sul… Então, além de me expor para o público, nos anos 2000 eu também ganhei dinheiro. E quanto mais rico eu fiquei, mais perto do povo fiquei. Não quero saber, comigo é no corpo a corpo. O fato de ser mais famoso e ter mais dinheiro não me torna nada. Sou igual a qualquer bêbado de esquina”, afirma.

“O fato de ser mais famoso e ter dinheiro não me torna nada. Sou igual a qualquer bêbado de esquina”, diz Milton Cunha
“O fato de ser mais famoso e ter dinheiro não me torna nada. Sou igual a qualquer bêbado de esquina”, diz Milton Cunha

Em 2013, há três carnavais longe dos barracões, voltou ao coração das escolas como repórter da TV Globo.

“E digo que dei muita sorte na minha chegada à emissora. Tinha estudado, sabia falar, era povão e as pessoas me deram chance. A vida é uma conjunção de talento, amigos, perseverança e sorte. Hoje, passados cinco anos, só posso dizer que tudo deu certo: a ralação de barracão, passar fome nos anos 80 e tudo o mais para chegar aqui e saber que a vida é luta, é respeito, e é ser doida, doida, doida até a página oito. Na nove, você respeita as pessoas e mostra a sua verdade”.

FOTO: PATRICK MONTEIRO

10 ANOS CASADO

Discreto, Milton conta que mantém uma vida reclusa, mesmo que tripla. Ele se divide entre o palhaço da mídia, o acadêmico respeitado e o empresário de 55 anos, morador de Copacabana, que é casado há uma década com o professor de educação física Eduardo Costa.

“Acordo, tomo café, leio todos os jornais ouvindo música clássica bem baixinha. Mas, as pessoas quando me encontram acham que vou pular, gritar, fazer uma pose. O personagem é maior que o humano e o acadêmico, ele vai na frente. As pessoas me veem e abrem um sorriso”, conta.

Milton com seu marido, Eduardo Costa (Foto: Vera Donato | Reprodução)
Milton com seu marido, Eduardo Costa (Foto: Vera Donato | Reprodução)

O carnavalesco explica que o professor era seu fã e começou a mandar mensagens através da internet para buscar uma aproximação.

“Respondi e marcamos um encontro. Como era época do Carnaval, não poderia dar atenção para ele e ficamos um mês sem nos vermos. Logo depois, nos grudamos e nunca mais largamos. E, como sou famoso, ele precisava entender que sou agarrado, beijado, atracado, enlouquecido e quando chego em casa olho nos olhos dele e pergunto: ‘Tu sabes que é o meu marido? Confia nisso? Sabe que aquele é o personagem que ganha dinheiro? Se sim, está tudo ok’”, diz.

“O personagem é maior que o humano e o acadêmico, ele vai na frente. As pessoas me veem e abrem um sorriso”

– Milton Cunha

FOTO: PATRICK MONTEIRO

RELAÇÃO COM OS PAIS

A partida de Belém, em 1982, significou uma ruptura muito maior que o habitual ‘deixar a casa dos pais’.

“Quando eu disse para eles que estava indo embora no dia seguinte e que iria até a rodoviária pegar o pau-de-arara, minha mãe desmaiou para um lado e meu pai disse: ‘Não vou te ajudar’. Disse que não estava pedindo ajuda, estava comunicando minha partida. Na madrugada, quando acordei e desci a escada com a mala de papelão, ele estava me esperando na mesa e já pensei: ‘Porrada! Vai já explodir!’”, conta Milton, sério ao lembrar do episódio.

“Mas, ele disse que ia me levar na rodoviária. Entramos duros no carro, os dois olhando para frente. Ele dirigindo e eu olhando para o futuro. Nós dois chorávamos cascatas porque sabíamos que nunca mais nos veríamos. Ele disse que eu estava fazendo o que ele deveria ter feito com a minha idade. Respondi dizendo que o tempo dele havia passado e o meu era agora. Saí do carro sem olhar para trás e entrei no ônibus.”

Depois de chegar ao Rio e lutar para se estabelecer, Milton conta que quando estreou na Beija-Flor, em 1994, virou outra pessoa aos olhos de seus familiares, que ainda moravam no Pará.

“Eles mudam. Eles! Eu não mudei. Eles me procuram como se eu fosse outra pessoa. Eu vi o mundo e tinha a referência do que fizeram comigo no passado. As pessoas que estavam me procurando agora não eram as mesmas que me educaram. Os que diziam que gostavam de mim, nunca gostaram”, rebate.

Milton, livre, leve e bem-sucedido com sua autenticidade
Milton, livre, leve e bem-sucedido com sua autenticidade

Os anos de abuso e maus tratos, coroados pelo sucesso profissional e a aclamação popular, não só abriram seus olhos para o que ele foi um dia, mas também para quem poderia ser.

“Eu olhava e dizia: ‘Desculpa, mas não sinto nada. Se lá em 1972 você não tivesse me espancado tanto, se eu não tivesse apanhado tanto, talvez agora eu te olhasse com algum amor. Mas, você é uma estranha. Uma fã que eu nunca vi. Essa mulher que está me aplaudindo agora não é a mulher que tanto me espancou. Como você vem me aplaudir?’”, comenta.

Hoje, os dias de sofrimento aos pés de igarapés deram lugar à felicidade da avenida. Sem arrependimentos, Milton segue em frente, sabendo o que passou para conquistar seu lugar.

“Entendi que ela ia ficar na plateia, me aplaudindo. Que não viesse cobrar amor de mim porque eu não tinha amor para oferecer. Amor é um sentimento de volta, não nasce do nada. Você não ama quem te maltrata. Qualquer criança maltratada no mundo, não ama. Ela me colocou no mundo, me espancou pra caralho e, agora, chegamos os dois à idade adulta. A senhora escolheu o seu destino e eu o meu”.

PATRICK MONTEIRO

PATRICK MONTEIRO

Jornalista apaixonado por contar histórias e crente que há bondade na humanidade. Adoro entrar em uma treta na internet quando o que falta ao outro é apenas informação real. Me Formei no Espírito Santo, mas me criei na profissão no Rio de Janeiro. Já trabalhei para o Vírgula, Purepeople, Quem Acontece, MTV Brasil e Cosmo. Troco likes, mas não sigo de volta ?

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