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17 out 2019

A INVASÃO LGBT NO FUTEBOL BRASILEIRO

BICHAS APAIXONADAS POR FUTEBOL SE UNEM PARA CRIAR UMA LIGA PRÓPRIA E REVOLUCIONAR A HETERONORMATIVIDADE NO ESPORTE 

Era 1894 quando Charles Miller encantou as elites das principais cidades brasileiras com uma bola de futebol vinda da Inglaterra e algumas regras usadas pelos ingleses para jogar o esporte.

Ao decorrer dos anos, o futebol deixou de ser evento para ricos, atingindo pobres, negros e operários e transformando-se no esporte mais praticado e acompanhado pelo Brasil, uma verdadeira paixão nacional.

Suas partidas e seu espírito de coletividade conseguiram a proeza de unir classes sociais, velhos e jovens, homens, mulheres e crianças. Por outro lado, ele nunca conseguiu realmente agregar os LGBTs.

Justin Fashanu, primeiro jogador de futebol a se assumir gay. Justin se matou como medo de um julgamento injusto (por ser negro e gay) após uma acusação de abuso sexual de um menor. Em seu bilhete de despedida, escreveu: "Não abusei sexualmente desse garoto. O sexo foi consensual. (...) Finalmente encontrei a paz"
Justin Fashanu, primeiro jogador de futebol a se assumir gay. Justin se matou como medo de um julgamento injusto (por ser negro e gay) após uma acusação de abuso sexual de um menor. Em seu bilhete de despedida, escreveu: "Não abusei sexualmente desse garoto. O sexo foi consensual. (...) Finalmente encontrei a paz"

O país que mais vezes foi campeão mundial de futebol é também o recordista em assassinatos de travestis e transexuais.

Em 2017, a cada 20 horas uma pessoa morreu por motivação homotransfóbica, de acordo com o relatório anual apresentado pelo Grupo Gay da Bahia. Os dados podem ser interpretados na prática do próprio futebol no Brasil, onde nunca um jogador de elite teve coragem de se assumir homossexual e os cânticos de teor homofóbico são entoados por torcedores dentro e fora dos estádios há décadas.

Jogador Richarlysson, atualmente no Guarani de Campinas, é alvo constante de ataques homofóbicos de torcedores de futebol, apenas por conta de seus trejeitos, já que se declara heterossexual

Por isso, não é de se estranhar que foi apenas no final de 2017, mais de 120 anos depois de Miller, tivemos o primeiro campeonato de futebol para gays do país, a Champions Ligay (uma referência à Champions League, tradicional torneio de clubes da Europa).

Em uma tarde ensolarada no Rio de Janeiro, oito equipes de seis estados se juntaram para fazer história dentro do futebol brasileiro.

FOTO RETIRADA DO FACEBOOK OFICIAL DA CHAMPIONS LIGAY

CHAMPIONS LIGAY

Futeboys e Unicorns (SP), Beescats e Alligaytors, Bravus (DF), Magia (RS), Sereyos (SC) e Bharbixas (MG) são times formados apenas por jogadores gays, diante de uma necessidade de inclusão de homens apaixonados por futebol, mas que sempre foram impedidos ou não se sentiram à vontade de jogar bola em equipes tradicionalmente heteronormativas.

E o que para muitos começou como hobby, tornou-se aos poucos uma forma de luta, visibilidade, quebra de padrões e reivindicação de direitos.

Equipe do time Bharbixas, de Minas Gerais (Foto: Champions Ligay | Reprodução Facebook)
Equipe do time Bharbixas, de Minas Gerais (Foto: Champions Ligay | Reprodução Facebook)

A ideia inicial dos criadores da LiGay Nacional de Futebol – LGNF era realizar um campeonato com a ajuda de patrocinadores. Como não houve nenhum anunciante que cobrisse todos os custos, eles resolveram produzir uma festa cujo lucro pagasse pelo campeonato.

E foi a partir daí que a Champions LiGay foi crescendo, chamando a atenção do público, da mídia e tornando-se mais do que um simples campeonato de futebol, mas um evento que celebra simultaneamente o esporte e os LGBTs.

Selo da LiGay Nacional de Futebol
Selo da LiGay Nacional de Futebol

O pontapé inicial foi às 13h, com a apresentação dos oito times, divididos em dois grupos.

Os dois melhores de cada chave seguiram para as semifinais, cujos vencedores disputaram a grande final da 1ª Champions Ligay (ou “o primeiro torneio de times gays do Brasil”), já sob a luz dos holofotes na noite primaveril carioca.

E enquanto a bola rolava dentro das quatro linhas, famílias, amigos, torcedores e apaixonados por futebol acompanhavam tudo nas arquibancadas e no lounge montados especialmente para o evento, com DJs, comidas, bebidas, massagem, barbearia, sorteios e uma série de apresentações de drag queens durante os intervalos dos jogos.

Tudo para reforçar ainda mais o caráter de diversidade que a Champions LiGay quer imprimir no futebol.

O comando da festa ficou por conta de Bárvara Pah, que após ser convidada para um evento das Beescats, tornou-se a mascote da equipe, participando de toda a programação dos cariocas.

Para ela, foi uma decisão natural assumir o papel de mestre de cerimônias da Ligay, anunciando os jogos e sorteios, narrando e, principalmente, divertindo muito o grande público que acompanhou o torneio.

A drag queen Bárvara Pah arrasando na animação do evento (Foto: Reprodução Facebook)
A drag queen Bárvara Pah arrasando na animação do evento (Foto: Reprodução Facebook)

Foi preciso também muita disposição e investimento dos próprios organizadores para que tudo acontecesse tão rápido.

Da fundação da LGNF à realização do campeonato passaram-se apenas quatro meses, três em que o foco foi totalmente voltado para viabilizar a Champions. Embarcaram na empreitada equipes mais antigas como os Unicorns e Magia, além de recém-criadas como Bharbixas e Sereyos.

O resultado foi uma tarde inteira de futebol sendo jogado em dois campos de grama artificial da academia Rio Sport, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio.

Equipe dos Sereyos FC, time formado recentemente que competiu na Ligay (Foto: Reprodução Facebook)
Equipe dos Sereyos FC, time formado recentemente que competiu na Ligay (Foto: Reprodução Facebook)

Mas a grande meta das equipes e dos organizadores da LiGay não terminou com a festa daquela noite de 25 de novembro do ano passado.

Longe disso.

Segundo André Machado, criador das Beescats e da LGNF, o objetivo é seguir ampliando a liga para outros estados, promovendo a criação de mais equipes para homossexuais, mas também participando de outros torneios e campeonatos que não sejam focados no público LGBT+. A ideia é justamente transpor as barreiras e os preconceitos no futebol como um todo.

Equipe mais antiga, os Beescats disputaram a final contra os novatos Bharbixas (Foto: Reprodução Facebook)
Equipe mais antiga, os Beescats disputaram a final contra os novatos Bharbixas (Foto: Reprodução Facebook)

“O legado disso é muito bacana. Eu recebi ligações de Joinville, Chapecó, Sergipe, Manaus, Vitória, Goiânia, Araçatuba, de gente pedindo para montar times e jogar na LiGay. Então eu acho que isso que estamos fazendo de tomar o Brasil é algo que não tem mais freio. O que começou pequenininho foi crescendo e ninguém mais segura. E esse era o nosso objetivo. Em tempos de retrocesso, eu acho que é muito importante o que estamos fazendo”, contou André à Híbrida.

“Veio a geração da Marta e mostrou que mulher pode jogar bola. Agora os gays estão vindo e criando uma terceira cultura de futebol no país, que é o futebol fair play, sem discussão, brincando, dançando, dando pinta, sendo quem você quiser e sem se esconder”, completou.

Nada de imposição da heteronormatividade: na Champions LiGay, a pinta é liberada e torna-se um ato político. (Foto: Alligaytors | Reprodução)
Nada de imposição de heteronormatividade. Na Champions Ligay, a pinta é liberada e torna-se um ato político. Foto da equipe Alligaytors.

Na primeira edição da Champios Ligay, o que se viu foram jogos de qualidade, poucas faltas e, de fato, muito fair play.

Essa é uma das principais metas da liga, dos times e dos jogadores envolvidos: tornar o futebol mais amistoso e divertido não só para os LGBTs, mas para todos no esporte.

Em uma final emocionante decidida nos pênaltis, os mineiros dos Bharbixas FC bateram os favoritos Beescats e levaram o troféu. Um dos times mais carismáticos da competição organizou sua própria festa para ajudar a custear o ônibus da viagem de 7 horas entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro e, além do título, levou também a admiração dos torcedores e das outras equipes.

Bharbixas, de Minas, foram os vencedores da primeira edição da Champions LiGay (Foto: Reprodução)
Bharbixas, de Minas, foram os vencedores da primeira edição da Champions LiGay (Foto: Reprodução)

O sucesso da 1ª Ligay foi tão grande que a segunda edição já tem data e local marcados: 14 e 15 de abril, em Porto Alegre, e dessa vez maior, com 12 times.

Juntam-se aos oito times que participaram da primeira edição o CapiVara (PR), os PampaCats (RS), os Bulls (SP) e o Afronte FC (SP).

Está nos planos da LGNF crescer ainda mais e realizar duas edições por ano da Champions. Uma no primeiro semestre, que será volante, passando de cidade em cidade, e outra em novembro, sempre no Rio de Janeiro.

O clima amistoso e de confraternização entre as equipes é notável.
O clima amistoso e de confraternização entre as equipes é notável.

Mas o ano de 2018 promete ainda mais para o futebol LGBT.

É que entre os dias 4 e 16 de agosto acontece em Paris a 10ª edição dos Gay Games, as Olimpíadas dos LGBTs. Criados em 1982 pelo atleta norte-americano Tom Wadell, os Gay Games contam com mais de 36 modalidades, já têm 6.000 atletas confirmados e promovem a confraternização e acolhimento não só dos LGBT, mas também de outras minorias sociais como negros, mulheres e deficientes.

A Delegação Espírito Brasil já prometeu que pretende levar uma equipe de futebol formada pelos melhores jogadores dos times da LGNF e, pelo que vimos nos jogos da Champions Ligay, qualidade é o que não vai faltar para essa Seleção.

Esperamos grandes partidas dessa galera!

Lívia Muniz

LIVIA MUNIZ

Niteroiense apaixonada pelo Vasco, Livia é formada em Jornalismo pela UFRJ. Trabalhou como repórter e colunista na Goal Brasil durante quatro anos. É nerd, feminista e sonha ser uma ranger rosa.

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