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17 out 2019

O RECIFENSE QUE GANHOU AS REDES: CAIO BRAZ

APRESENTADOR, YOUTUBER E STYLIST, CAIO CONTA COMO VIU NA MODA UM MEIO PARA SE LIBERTAR DA HETERONORMATIVIDADE

Ele se define como um artista multimídia. E não é pra menos. Prestes a completar 31 anos, o apresentador e stylist Caio Braz saiu de Recife para figurar entre os principais digital influencers do Brasil.

São quase 100 mil inscritos em seu canal no YouTube e outros 138 mil seguidores no Instagram. Mas a apresentação de Caio não se resume aos números: gay assumido, ele também usa sua visibilidade como plataforma pública para discutir pautas relevantes em relação aos LGBTs.

"O arquétipo do macho alfa é uma bobagem" - Caio Braz (Foto: Reprodução Instagram)
"O arquétipo do macho alfa é uma bobagem" - Caio Braz (Foto: Reprodução Instagram)

“Eu sugiro a todos os gays que saiam do armário o quanto antes. A gente nunca está preparado o suficiente, mas adiar o sofrimento só piora as coisas e machuca mais”, declara Braz, afirmando que sempre teve o apoio da sua família quando se assumiu. Aliás, é da mãe estilista, Dona Lúcia Nunes, que ele herdou a paixão pela moda.

Caio Braz no colo da mãe, Dona Lucia Nunes, estilista que o ajudou a produzir sua linha de camisas em 2012 (Foto: Reproduçao Instagram)
Caio Braz no colo da mãe, Dona Lucia Nunes, estilista que o ajudou a produzir sua linha de camisas em 2012 (Foto: Reproduçao Instagram)

Há seis anos, Caio mergulhou de vez nesse mundo ao lançar sua própria linha de roupas para “homens modernos”, a Caio Braz Casa de Modas. A produção era feita em parceria com a sua mãe e as peças, além de terem preços acessíveis, eram vendidas online.

“A moda funcionou para eu me libertar dos meus próprios preconceitos e da autoimagem machista que tinha criado para me defender”, ele observa.

Além da presença forte nas redes, Caio também pode ser visto no “Marmitas e Merendas”, seu primeiro programa solo no GNT. Foi na emissora que ele ganhou o pontapé inicial para a projeção nacional, integrando a equipe do “GNT Fashion”, com Lilian Pacce, e brilhando através de entrevistas e coberturas dos maiores eventos de moda do país.

Depois do sucesso como repórter do "GNT Fashion", Caio Braz conquistou seu próprio espaço na grade do GNT com o "Marmitas e Merendas" (Foto: Divulgação)
Depois do sucesso como repórter do "GNT Fashion", Caio Braz conquistou seu próprio espaço na grade do GNT com o "Marmitas e Merendas" (Foto: Divulgação)

Abaixo você lê o papo que a Híbrida bateu com Caio, que fala sobre carreira, autenticidade no meio digital, homofobia e, claro, orgulho, tema da nossa segunda edição: “Nossa diferença é nosso brilho”.

 Caio, o que foi mais difícil nessa sua trajetória ao sair de Recife para figurar entre os influencers gays mais famosos da nova geração brasileira? Apesar do mundo da moda não ser um lugar muito homofóbico, ser abertamente gay desde o início te prejudicou de alguma forma ou não? 

Caio: O começo é difícil para qualquer pessoa que precisa encontrar a sua verdade para se estabelecer.

A moda não é homofóbica e eu sempre me posicionei de uma maneira livre. Difícil é não deixar que o padrão te formate e você perca sua autenticidade, o que é um exercício diário. O preconceito não pode abalar nossa autoestima, aquilo que nos faz diferente, que é exatamente o nosso brilho.

"Difícil é não deixar que o padrão te formate e você perca sua autenticidade, o que é um exercício diário", Caio Braz (Foto: Reprodução Instagram)
"Difícil é não deixar que o padrão te formate e você perca sua autenticidade, o que é um exercício diário", Caio Braz (Foto: Reprodução Instagram)

 Você já disse em entrevistas anteriores que se considerava “bem podre e cafonérrimo” e que se vestia “de forma desinteressada para ser aceito”. Como você conseguiu se libertar desse sentimento? 

Caio: Eu não tinha muitas referências e seguia um padrão heteronormativo. Isso pra mim é cafonérrimo, porque não havia identidade. A moda funcionou para eu me libertar dos meus próprios preconceitos e da autoimagem machista que tinha criado para me defender.

 Como nasceu essa sua identificação com o mundo da moda e a partir de que momento você decidiu de fato seguir nisso?

Caio: Na moda eu me senti livre e acolhido por pessoas que pensavam iguais a mim, gostavam das mesmas músicas, filmes, festas, cores, gírias. Eu senti que o mundo underground da moda era a minha gangue e onde eu pertencia. Vivi lindos anos de 2010 a 2016, respirando moda sem parar. Ganhei um repertório incrível, intelectual e social.

"A moda funcionou para eu me libertar dos meus próprios preconceitos e da autoimagem machista que tinha criado para me defender", Caio Braz (Foto: Reprodução Instagram
"A moda funcionou para eu me libertar dos meus próprios preconceitos e da autoimagem machista que tinha criado para me defender", Caio Braz (Foto: Reprodução Instagram

 Em 2012, você lançou sua própria etiqueta com peças masculinas que fazem sucesso até hoje. O que motivou essa criação? 

Caio: A vontade de criar roupas masculinas mais ousadas. Tudo o que eu queria não encontrava com facilidade, só em brechós, ou custava muito caro. Resolvi fazer roupas para homens mais modernos, usando as estampas como uma linguagem e deu supercerto. Este ano devo lançar coleções novas.

Apostando em estampas vibrantes e preços acessíveis, Caio Braz lançou sua primeira linha de camisetas em 2012 (Foto: Reprodução Instagram)
Apostando em estampas vibrantes e preços acessíveis, Caio Braz lançou sua primeira linha de camisetas em 2012 (Foto: Reprodução Instagram)

 Como você faz pra continuar sendo um influencer, digamos, autêntico, uma vez que várias marcas devem se “estapear” para te vestir? 

Caio: Gosto muito de garimpar roupas em brechós. Acho que além de sustentável, é possível encontrar muita coisa única. Trabalho em parceria com poucas marcas e dou preferência a marcas autorais de novos designers.

 Você acredita em um “manual de como um gay deve se vestir”?

Caio: Jamais.

 Você já viajou por todos os continentes do mundo e, com certeza, por países que têm uma relação com a homossexualidade diferente do Brasil. Já vivenciou algum tipo de preconceito ou presenciou algo que te marcou durante essas viagens?

Caio: Na Irlanda, achei que pudesse sofrer um ataque homofóbico. É um país católico e a homossexualidade era criminalizada até 1996. Estava sozinho e foi difícil. Em Cuba, também foi bem difícil encontrar um namorado, por exemplo. Conto essa aventura no meu Youtube.

Caio Braz procura um namorado em Cuba

 Boa parte dos homossexuais enxerga a “saída do armário” como um “nascer de novo”. Como foi o seu processo? Quando você se descobriu? Sua família teve algum tipo de rejeição? 

Caio: Não houve rejeição da família, ainda bem. E sim, é um renascer.

Eu sugiro a todos os gays que saiam do armário o quanto antes. A gente nunca está preparado o suficiente. Adiar o sofrimento só piora as coisas e machuca mais. O mundo está cada vez mais esclarecido, apesar desta guinada conservadora em ascensão.

Outro dia vi um rapaz com as pernas cruzadas, unhas pintadas e sombra nos olhos no metrô. Ele estava com a namorada. Você acha que o homem de hoje está se desprendendo mais daquele conceito arcaico de masculinidade? Ou você acredita que ainda é um processo longo para romper essa barreira? 

Caio: Masculinidade é uma construção completamente social e o arquétipo do macho alfa é uma bobagem. Me interessa muito mais ser e cultivar amizades com homens que apoiam a luta das minorias, que trabalham diariamente para diminuir seja qual for o preconceito, dentro de suas famílias, empregos, empresas, comunidades.

Este é o verdadeiro papel do homem contemporâneo, e não ser um ‘macho’ imbecil. A sensibilidade é também um exercício e o homem ter se permitido ser mais sensível é uma vitória.

Caio Braz durante sua viagem a Cuba (Foto: @roncca)
Caio Braz durante sua viagem a Cuba (Foto: @roncca)

 Ser um artista gay assumido no Brasil para você é um ato político. Sendo uma figura pública, como você enxerga a importância de se posicionar diante de assuntos como política e homofobia, por exemplo, ainda mais em um Brasil cada vez mais polarizado? 

Caio: Precisamos de mais LGBTs assumidos em lugares de excelência, presidindo bancos, empresas etc. Governadores, prefeitxs, deputadxs, ou mesmo umx presidente gay assumidx. Ser artista gay assumido é difícil por conta dos contratos de publicidade. Atores e atrizes sofrem bastante com isso, morrem de medo. Mas sou otimista, sei que já melhoramos e vai seguir melhorando.

“O preconceito não pode abalar nossa autoestima, aquilo que nos faz diferente, que é exatamente o nosso brilho

Caio Braz

YURI FERNANDES

Yuri, apaixonado e formado em jornalismo pela UFJF, já passou pelas redações do Bom Dia Brasil, Jornal Nacional e do site EGO, além de escrever para o Projeto Colabora. Acredita que a profissão pode e deve ajudar no combate ao preconceito, seja ele qual for.

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