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24 ago 2019

BOLA NO PÉ E SALÁRIO NO CHÃO: A VEZ (QUE ERA PRA SER) DELAS

A EXCELÊNCIA E CORAGEM DE MULHERES EM UM ESPORTE QUE NÃO AS VALORIZA

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ão é fácil ser uma mulher que joga futebol, ainda mais no Brasil. Nem mesmo para quem é a melhor jogadora de todos os tempos, com seis troféus de Melhor do Mundo, um vice mundial e duas pratas olímpicas. Seja para Marta, Cristiane, Debinha ou muitas outras, o futebol feminino carece de investimentos que coloquem a categoria no nível que precisa estar.

Nos últimos 40 anos, o que não faltou foi luta. Por três vezes, a Seleção Brasileira bateu na trave em dolorosas finais: Atenas 2004 e Pequim 2008, nos Jogos Olímpicos; e China 2007, na Copa do Mundo. Marta, a camisa 10, estava em seu auge, surgiu para o mundo em sua gloriosa técnica e habilidade, sempre lutando e pedindo por melhorias no futebol para mulheres no país.

Mesmo sem títulos, esperava-se que algo fosse feito para ajudar a profissionalizar o futebol feminino no Brasil. Mas, ao contrário das promessas (que foram muitas!), o que se fez pelas mulheres no país do futebol foi quase nada. Sequer os seis títulos individuais e consecutivos de Marta como Melhor Jogadora do Mundo fizeram com que entidades brasileiras de esforçassem para descobrir outros diamantes a serem lapidados como ela, Cristiane e Formiga, alguns dos principais nomes da melhor geração de futebol feminino que o país já viu.

Seleção Brasileira de Futebol Feminino (Foto: Reprodução | CBF)
Seleção Brasileira de Futebol Feminino (Foto: Reprodução | CBF)

No Brasil, o futebol é disputado por homens desde que Charles Miller trouxe a bola redonda e suas regras inglesas em 1884. Mas, para mulheres, a prática chegou a ser proibida por lei até 1979. A Seleção Canarinha já era tricampeã mundial quando surgiu a possibilidade de que pessoas do sexo feminino também pudessem buscar a conquista de um título com a camisa amarela.

Naturalmente, não aconteceu. Faltou apoio e investimento, mas nunca paixão. E foi isso que levou as mulheres às três finais dos anos 2000, com Marta como estandarte principal, após a alagoana ter feito as malas, largado o Vasco da Gama, onde começou, e rumado ao futebol europeu e americano. Fora de Pindorama, o futebol feminino tem mais valor.

E, ainda assim, nada pode ser comparado ao que entidades e clubes de futebol estrangeiros investem na modalidade masculina. Só para dar uma noção da disparidade dos salários, a mulher mais bem paga, a norueguesa Ada Hegerberg, atacante do Olympique Lyonnais, recebe menos de 1% do salário de Lionel Messi, o homem com maior cachê.

A disparidade entre o Top 5 de jogadores e jogadoras com os melhores salários no futebol
A disparidade entre o Top 5 de jogadores e jogadoras com os melhores salários no futebol

Nem juntando o Top 5 dos maiores salários das mulheres, formado por Amandine Henry, Wendie Renard, Carli Lloyd, Marta e Ada, supera o astronômico contracheque de Messi. Como consequência, Hegerberg se recusou a defender a França na Copa do Mundo de 2019 como protesto.

A rainha Marta também tem protestado a favor de salários mais igualitários entre homens e mulheres. Ela se recusou a renovar seu patrocínio com a Puma, com quem mantinha uma parceria há mais de uma década, graças ao valor ínfimo oferecido pela empresa – que não foi divulgado por nenhuma das partes. Desde então, a melhor do mundo não tem patrocínio de material esportivo.

Sem patrocinadores, Marta aponta para símbolo da campanha "Go Equal" em sua chuteira (Foto: Divulgação)
Sem patrocinadores, Marta aponta para símbolo da campanha "Go Equal" em sua chuteira (Foto: Divulgação)

Na partida contra a Austrália, ainda pela fase de grupos da Copa do Mundo 2019, Marta usou chuteiras pretas com o símbolo azul e rosa da Go Equal, movimento que luta por equidade de gênero. No Mundial mais midiático da história do futebol feminino, sua atitude teve um grande impacto na imprensa tradicional.

E não dá para falar de gênero no futebol sem falar também de sexualidade. Se até hoje nenhum jogador homem é assumidamente LGBT, só na Copa do Mundo da França tivemos 39 atletas abertamente LGBT+ disputando o título mais importante do futebol. E esse número só não é maior porque algumas nasceram em países onde é proibido ser homossexual, como Nigéria, Jamaica e Camarões.

Enquanto futebol masculino continua sem um jogador LGBT, mulheres lésbicas e bissexuais se empodeam no futebol feminino
Enquanto futebol masculino continua sem um jogador LGBT, mulheres lésbicas e bissexuais se empodeam no futebol feminino

Entre as que vivem fora do armário, estão quatro brasileiras: a goleira Bárbara, Cristiane, Debinha e ela, Marta. Mulheres que hoje podem mostrar seu amor por suas parceiras nas redes sociais e que lutam silenciosamente ou ativamente pelos seus direitos, seja como mulheres ou como lésbicas.

Na Copa do Mundo da França, o Brasil mais uma vez foi embora sem soltar o grito de campeãs, após ter sido derrotado pelas anfitriãs nas oitavas de final. Um resultado até esperado, visto que a Seleção passa por uma renovação e alguns medalhões como Marta, Cristiane e Formiga fazem seu último mundial juntas.

Isso só explicita ainda mais o quão necessário é o investimento nessa modalidade, a fomentação de um campeonato nacional com força e categorias de base que busquem novas joias para um futebol livre de preconceitos contra mulheres, lésbicas e bissexuais. E que pague mais também.

LÍVIA MUNIZ

LÍVIA MUNIZ_editora

Niteroiense apaixonada pelo Vasco, Livia é formada em Jornalismo pela UFRJ. Trabalhou como repórter e colunista na Goal Brasil durante quatro anos. É nerd, feminista e sonha ser uma ranger rosa.

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