Um dos maiores e principais nomes na cena eletrônica do país, BadSista lançou no último mês o EP CuteBoyz, que ao longo de cinco faixas inéditas mostra por que o DJ e produtor é referência nas pistas daqui e da gringa. Regado a batidas frenéticas e hipnóticas, o trabalho é resultado do que ele considera uma evolução tanto sonora quanto pessoal, apresentando sua nova forma de produzir e também de existir.
“Foi muito legal como todo o processo convergiu pro mesmo lugar, onde tudo se conecta e faz sentido”, diz BadSista durante chamada de vídeo feita diretamente de Berlim, onde estava para tocar em uma das cenas eletrônicas mais reconhecidas e disputadas do mundo.
Desde que lançou há quatro anos o disco Gueto Elegance (parte da nossa lista dos melhores lançamentos de 2021), BadSista tem vivido uma série de processos, em cima e fora dos palcos. Divulgando o trabalho pelo mundo afora, ele descobriu a coragem para arriscar uma nova forma de fazer música. Paralelamente à liberdade do processo criativo, o artista também se sentiu confortável para começar sua transição de gênero e adotar pronomes masculinos.
“Não é como se eu tivesse passando de um ponto A para um ponto B. Eu também vou descobrindo o que serve pra mim e o que não serve”, explica.
Clicadas por Victor Cazuza e com direção criativa de Thaís Regina, esposa de BadSista há 18 anos, as fotos de divulgação para CuteBoyz mostram o artista acompanhado de outras pessoas trans, em poses e cenários tipicamente associados ao universo masculino. A ideia por trás das imagens era rejeitar a ideia do “macho clássico que, tira camisa, grita e não sei quê”.
BadSista, no estúdio e na pista
Nascido, criado e ainda morando na zona leste de São Paulo, BadSista construiu na última década um currículo de respeito como DJ e produtor. Além de ter crescido lado a lado com algumas das festas mais populares da cena paulistana, como a Mamba Negra e a Capslock, ele também colaborou com uma boa parcela de artistas que vão de Linn da Quebrada e Jaloo a Pabllo Vittar e Pitty.
Agora, depois de ter trabalhado com uma penca de nomes do mainstream e da cena underground, lançado seu álbum de estreia e um EP na sequência, BadSista chega salivando em CuteBoyz, no qual aproveita o frenesi da música eletrônica para falar dos sentimentos que guiaram seus últimos anos, ainda que não use palavras para isso.
“Na verdade, acho que usei a linguagem que mais domino. Mais do que a própria linguagem falada, a linguagem da música”, ele explica durante nossa conversa. `Pra quem sabe ouvir, um tuntz tuntz é poesia, e nesse disco BadSista fala sobre muitas formas de amor, principalmente o que sente por si mesmo. Leia a entrevista completa e ouça CuteBoyz abaixo.
HÍBRIDA: Qual foi o ponto de partida para o EP. Por que lançar CuteBoyz agora?
BADSISTA: Nos últimos dois anos, eu tava fazendo muitas coisas com o último álbum, principalmente shows ao vivo.E isso foi criando um jeito diferente de produzir, pensando em momentos catárticos. Eu tenho uma expressão que é meio besta, mas que ajuda bastante a entender. É aquele momento “Deus da pista”, onde você dá uma imergida no que está sendo feito. Acho que o EP foi nascendo desse jeito.
O nome veio de uma forma muito natural, como se tivessem soprado no meu ouvido. Quando eu parei pra pensar, foi muito legal como todo o processo, tanto de produção das músicas quanto de escolhas visuais, convergiu pro mesmo lugar, onde tudo se conecta e faz sentido, entendeu?
Isso também faz muito parte do meu processo de transição de gênero pra esse lugar que não é tão binário assim. Não é como se eu tivesse passando de um ponto A para um ponto B. Eu também vou descobrindo o que serve pra mim e o que não serve, como eu gostaria de ser chamado ou não.
H: Você falou que sentiu uma forma diferente de produzir ao longo desse processo, que alguma coisa mudou desde o último disco. Teve alguma coisa específica que mudou no som desde que você começou a se apresentar como O Rafa?
B: É uma palavra muito engraçada, mas é como se eu estivesse “empoderado” da situação toda, sabe? O processo de fazer o show do Guetto Elegance ao vivo, que eu fazia com a Malka e com a Vênus, era muito de freestyle, mas ao mesmo tempo muito organizado. A gente pensava na música de um jeito diferente. Foi uma coisa de achar o conforto, achar a liberdade dentro da minha vida na música.
Já me perguntaram se o EP (CuteBoyz) tem algum sample. Não teve nada sampleado! Eu toquei tudo, inclusive teclado, que eu não domino. É tipo o medo do desconhecido, mas que quando começa a fazer, vê que não é um monstro. Tudo isso faz eu me sentir bem mais confortável pra tocar, pensar o arranjo e não ser só uma música de pista que você usa uns truques para dar certo.
Eu acho muito engraçado. No outro álbum, eu falei pencas e nesse eu não falei nada.
Por mais que seja eletrônica, muito “pista” e sem letras, esse tipo de música também pode carregar significados
H: E ainda assim disse o que você queria dizer, né?
B: Na verdade, acho que usei a linguagem que mais domino. Mais do que a própria linguagem falada, a linguagem da música. É como se você tivesse medo de ser feliz, sabe? Doideira.
H: Acho que, no geral e não só para a transição de gênero, a maioria das pessoas LGBTs têm um pouco disso. “Será que eu tô autorizado a viver isso? Será que eu não vou fazer mal a ninguém?.”
B: O rolê de gênero foi um processo muito meu, mas que já tinha acontecido antes de certa forma. Acho que cada pessoa LGBT tem o seu processo, né? A gente só vai se conhecer depois de velho, né?
H: É, até certa idade a gente não pode ser quem nós somos, porque precisamos apresentar uma versão nossa que seja mais palatável para a sociedade. Depois que as fichinhas vão caindo direito. Isso também é muito verdade para relacionamento, porque até pouco tempo não existia exemplo de relacionamento entre pessoas LGBT, aí você vai aprendendo meio que na marra, né?
B: É, e demora.
H: O que você queria passar com as imagens de divulgação do disco?
B: É muito piegas, mas durante muito tempo eu me senti destacado de mim mesmo. É como se tivesse existido vários Rafas durante a minha vida. Como se eles fossem de certa forma desgrudados e não uma continuidade (de mim). Eu sempre fiz exercício físico, mas quando voltei a fazer depois de velho, já com esses questionamentos, isso tomou uma outra forma. É como ter um domínio do seu próprio corpo, sabe?
Pensamos em trazer outro lado da masculinidade, que não é uma masculinidade cis, de tirar a camisa e ficar gritando, por exemplo… Isso é algo que me deixou relutante no meu processo. De pensar que talvez eu não quero ser isso. Mas todo mundo que tá ali é porque faz sentido dentro disso. A gente conseguiu fazer tudo muito rápido. Óbvio, usando alguns truques de imagem. Por exemplo, o peso que eu tava levantando não era um peso gigantesco.

H: Na hora que eu vi a foto, eu falei “nossa, ele tá bem, porque eu jamais conseguiria nem pagar”.
B: Porra, não, amigo, era de isopor, não tinha nem 1 kg aquilo ali. Mas quem sabe eu chego lá já já, hein?
H: No mundo todo, a cena clubber de São Paulo é muito respeitada. O que você vê de particular nela que não tem em nenhum outro lugar?
B: Nos últimos anos, a gente tem conseguido atingir uma pluralidade na cabine de DJ, fora da cabine e nas músicas que estão sendo tocadas também. Temos produzido muito pra nós mesmos. Tipo, dentro dessa cena, vamos falar “queer”, de São Paulo, a gente tem essa pluralidade muito estabelecida.
Falando especificamente de São Paulo, eu e vários outros DJs temos educado muito a nossa pista. A gente tem feito muita coisa e tem muita gente na plateia que ouve isso. Aí pode ser uma pessoa que também produz e fica inspirada pelo que tava ouvindo ali, entendeu?
É uma coisa que fica se retroalimentando numa velocidade muito grande. Os últimos três anos foram muito fortes de novas produções. Não só de funk, mas de coisas que misturam os sons e são super eletrônicas. Parece uma bolha, um caldeirão que fica fervendo de referências.
H: Nesses últimos três anos de pós-pandemia, o povo voltou com muita sede, né? Eu pelo menos sinto que esse período de isolamento me fez perceber o tanto que me fazia falta uma festa e essa coisa de comungar com seus iguais.
B: É, comungar e excomungar também. Eu acho que o rolê das festas, principalmente em São Paulo, tem um sentido de as pessoas lembrarem “Nossa, eu estou viva! Eu estou aqui! Tem outras pessoas iguais! Eu também me divirto, eu danço, eu beijo na boca, eu abraço, eu faço amigos…”, sabe? O que às vezes pode não ser uma reflexão da vida da pessoa no dia a dia, morando onde ela mora, trabalhando, estudando… Tipo, “Nossa, eu tô aqui, hoje eu vou quebrar tudo”. Eu já saí de casa nessa energia do “demônio” várias vezes.
H: Sim, de “perigo, hoje é melhor não cruzarem comigo” (risos).
B: Mas dentro desse meu nicho, fica meio chato você fazer algumas coisas que são excludentes às vezes. Eu lembro que era muito normal ir numa festa e todas as pessoas que tocavam eram brancas. O palco começou a mudar conforme a gente foi chegando. Porque chega uma hora que não dá mais para ignorar.
Às vezes vem um gringo tocar e todo mundo bate palma. Mas, na verdade, eu ou alguém tipo o Clementaum vai ser muito mais ovacionado do que essa pessoa, entendeu? Porque a gente entende, a gente faz parte, a gente sabe o que quer. Quem chega de fora e não tá aberto a esse diálogo, no fim, fica boiando. A gente tem personas muito únicas.
H: Bom, o nosso tempo tá acabando. Mas antes, o que você espera provocar nas pessoas quando elas ouvirem o CuteBoyz?
B: Eu quero resgatar o que a música eletrônica foi para mim, quando eu era mais jovem. As coisas que eu ouvi quando eu era mais novo me marcaram muito, tipo o Skazi, aquelas antigas do David Guetta…
Espero causar isso, que cada música faça com que a pessoa tenha uma memória diferente. Que não seja uma música passageira, mas uma música que marque. Como se fosse os Power Rangers, sabe?, cada uma com a sua cara.