Provando que vive sua melhor fase pessoal e artística em anos, Lady Gaga lançou na madrugada desta sexta-feira (7) o aguardado Mayhem, seu sétimo disco de inéditas com o qual vem se apresentar no Brasil para um show histórico na Praia de Copacabana, em maio. Como já dava para imaginar pelos singles anteriores, “Disease” e “Abracadabra”, a artista voltou à boa forma do pop chiclete, dançante e esquisito que a consagrou quase de imediato quando surgiu como uma das popstars mais interessantes e definitivas deste século.
O álbum é inteiramente escrito e produzido pelo mesmo time de colaboradores, uma restrição até incomum para a artista. Lady Gaga assina composição e produção de todas as faixas, ao lado de Andrew Watt, responsável pela maioria dos sucessos que estouraram na última década; e Cirkut, nome artístico de Henry Walter, outro queridinho de longa data do pop e dos charts. As parcerias adicionais são de Gesaffelstein (Mike Lévy), o DJ francês considerado um visionário da eletrônica; e Michael Polanski, noivo da artista e creditado pelo seu retorno ao bom, velho e saudoso pop radiofônico.
Mergulhado em sintetizadores marcantes, baterias eletrônicas e vocais distorcidos, Mayhem é repleto de autorreferências melódicas, sonoras e líricas Algumas óbvias, como o paralelo entre “Telephone” e “Don’t Call Tonight”, ou a reflexão sobre o estrelato de “Perfect Celebrity”, quase uma resposta póstuma ao que ela ansiava em “The Fame”; outras estão mais disfarçadas e a princípio só perceptíveis para os fãs mais atentos, como as semelhanças entre o início de “Zombieboy” e o refrão de “Manicure”, os acenos da produção aos seus discos anteriores ou a citação à demo perdida de “Princess Die”.

A Lady Gaga original está de volta em Mayhem
Em 2008, quando Lady Gaga surgiu se esfregando em uma orca inflável, cantando despudoradamente sobre sua ânsia de ser famosa e se vangloriando de andar com os “lindos, sujos e ricos”, o mundo pop estava no auge do caos, pegando carona no início das redes sociais à medida em que a internet globalizada dava seus primeiros passos.
No meio do turbilhão de informações que invadiam os primeiros tweets, tumblrs, fóruns e comunidades, Britney Spears passava por seu surto público e planejava um retorno histórico, Rihanna e sua franja lateral disparavam hit atrás de hit nas rádios, Katy Perry cantava sobre beijar garotas, Beyoncé subvertia as expectativas de uma popstar com um clipe em preto e branco e uma coreografia em plano sequência, enquanto Madonna continuava chocando o mundo por manter sua sexualidade ativa e exposta, agora aos 50 anos de idade. Desde então, não vimos de novo um período com tantos artistas plurais, sons originais e estéticas individuais.
No meio desse turbilhão, Lady Gaga conseguiu cavar seu espaço entre novatas e veteranas, destacando-se diariamente pelo talento inegável, looks extravagantes, declarações polêmicas e performances cada vez mais mirabolantes, onde a teatralidade andava lado a lado com a sua destreza vocal e presença de palco. Ora vestida como uma lagosta, ora com uma peruca enorme em forma de telefone, ela criou seu próprio universo online, alimentando sites como TMZ e Perez Hilton dia após dia com imagens de paparazzi, teorias mirabolantes e construindo uma comunidade de fãs que batizou “little monsters”.
Musicalmente, Lady Gaga também se destacava pelo teor das letras e pela produção singular, fruto de uma parceria com nomes até então desconhecidos, como RedOne e Space Cowboy. Seu primeiro disco falava sobre fama, um amor obsessivo como os paparazzi, relacionamentos bissexuais, poker faces e cavalgar em um disco stick. Não demorou muito e ela se tornou onipresente nas baladas, foi abraçada pela comunidade LGBTQIA+, pela mídia e começou a ser comparada com Madonna, o que deu pano pra manga nos anos que se seguiram.
Essa contextualização é necessária para dizer que, hoje, são poucas as contemporâneas de Lady Gaga que se mantêm em atividade e, principalmente, ainda sustentam o nível de dedicação, relevância e originalidade artística que ela se propõe repetidamente e que prova ser capaz de atingir novamente em Mayhem, uma ode à artista que o público conheceu há quase duas décadas.
O disco resgata não só uma época em que o pop era mais leve e divertido, mas também quando a própria Lady Gaga se preocupava mais em fazer músicas dançantes e grudentas para falar de amor, traição e relacionamentos ao invés de cantar sobre saúde mental, política ou qualquer outro tema pesado que tem infiltrado sua discografia nos últimos anos.
Faz sentido que as imagens de divulgação do disco apresentem uma Gaga fragmentada em um espelho quebrado, como a personalidade que ela apresenta no trabalho estivesse dividida entre os anos de “cherry cherry boom boom” e a música eletrônica que predomina nas baladas atuais, onde estão hoje os fãs que acompanharam o seu surgimento no pop. Ao invés de percorrer esse caminho ao longo do disco, ela carrega o ouvinte por jornadas dentro de cada música, como na explosão pop eletrônica de “Killah”, que muda de forma em três minutos e meio.
A sonoridade de Mayhem é como uma gangorra subindo e descendo entre referências dos anos 1980 e dos anos 2000, por vezes suspensa no ar entre os dois períodos, misturando acenos a David Bowie, Prince, Nine Inch Nails, Nile Rodgers, Grace Jones e Michael Jackson. O disco também costura algumas das partes mais interessantes da discografia da artista e exibe sua flexibilidade vocal acumulada ao longo dos anos, variando entre a profundidade grutural de “Disease” e “Perfect Celibrity”, a pureza vulnerável da balada romântica “Blade of Grass” e os gritos estridentes de “The Beast”, a faixa mais obscura do disco, como uma filha bastarda do Born This Way.
Nas últimas semanas, a internet tem investido num meme sobre “requentar nachos” para se referir a artistas que bebem da fonte de ícones passados ou no próprio trabalho anterior. Perguntada sobre o tema, Gaga disse que inventou seus nachos e está feliz de requentá-los. Com a volta da estética Y2K e o vazio de popstars capazes de fazer o que as estrelas dos anos 2000 faziam, seu retorno às próprias raízes é uma forma de apresentar sua genialidade às novas gerações, retomar o carinho dos fãs originais e provar que ela não perdeu a mão para construir refrões, produções e melodias cativantes.
Mayhem é um disco autorreferencial e intencionalmente nostálgico, mas que não deixa de ser experimental à sua própria maneira. É o trabalho de uma artista com suficiente experiência, estabilidade e segurança, que sabe dosar na medida certa o quanto pode se repetir e também inovar sem perder a própria identidade.
Abaixo, escute Mayhem, o sétimo disco de inéditas de Lady Gaga: