Híbrida
MÚSICA

Gagacabana: uma carta de amor de Lady Gaga ao Brasil e à comunidade LGBTQIA+

Mais de 2,1 milhões de pessoas ocuparam a Praia de Copacabana na noite do último sábado (3) para assistir ao retorno de Lady Gaga ao Brasil, quebrando o recorde mundial de maior público para o show de uma artista feminina. Ao longo das mais de duas horas em que tocou, a Mother Monster provou que hoje é uma estrela de apelo global, talvez uma das últimas a atingir um status dessa magnitude, mas também fez questão de honrar a comunidade de fãs que apoiaram seu início e ajudaram a carregar sua carreira até aqui.

O show que Lady Gaga apresentou no Rio de Janeiro seguiu o mesmo roteiro das suas apresentações no festival Coachella, em abril, com poucas alterações. O repertório é majoritariamente apoiado no Mayhem (leia a nossa crítica aqui), lançado menos de dois meses antes, e nas suas duas outras eras de dark pop, The Fame Monster (2009 e 2010) e Born This Way. Ao longo de cinco atos, Gaga encena uma ópera gótica, resgatando a teatralidade e o bizarro de quando surgiu no final dos anos 2000 e rapidamente cavou seu espaço na indústria musical.

Quem esperava um show celebratório de sua carreira se decepcionou. Ao invés de emendar hit atrás de hit, Lady Gaga deixou alguns de seus maiores sucessos na gaveta para apresentar os deep cuts conhecidos pelos fãs. Saem sucessos como “Just Dance”, “Telephone” (com Beyoncé) e “Rain On Me” (com Ariana Grande), entram antigas como “Scheiße”, “Bloody Mary” e 12 das 14 músicas do Mayhem.

Para a maioria dos artistas, arriscar músicas tão recentes em um show aberto ao público seria um tiro no pé, que impactaria diretamente na animação e no engajamento da plateia. Não foi o que aconteceu. Com uma devoção que só o público brasileiro consegue entregar, boa parte do novo repertório foi cantado na ponta da língua, especialmente “Abracadabra”.

Lady Gaga e o amor do público brasileiro

“Obrigada por cantarem o meu novo álbum, Mayhem, todas as noites em que eu estava aqui no hotel. Eu ouvi vocês todas as noites, a noite inteira, cantando cada música, disse Gaga durante o show, comentando a muvuca de fãs e curiosos que se amontoaram na porta do Copacabana Palace desde a segunda-feira (28), quando ela aterrissou por aqui. “Que presente foi aquilo!”

“Eu cantei todas as músicas hoje à noite para vocês. Mas esta música, esta é para os meus superfãs que estão aqui hoje à noite. Esta é para os little monsters. Esta é para os fãs que cantaram todas as palavras de algo novo, que tiraram o tempo para ouvir a minha música e aprender as letras. Obrigada! Eu agora vou cantar de volta para vocês.”

Imagem viral de Lady Gaga emocionado durante o show na Praia de Copacacabana (Foto: reprodução redes sociais)
Imagem viral de Lady Gaga emocionado durante o show na Praia de Copacacabana (Foto: reprodução redes sociais)

Logo de cara, Gaga também pediu desculpas pela demora em voltar ao Brasil e agradeceu ao público por ter esperado o retorno desde 2012, quando trouxe a Born This Way Ball. Apesar de exageradas, as desculpas não foram sem cabimento: o cancelamento repentino do seu show como headliner do Rock In Rio 2017 traumatizou boa parte dos fãs e contribuiu para a ansiedade generalizada de quem aguardou quase uma década para saciar aquela vontade.

Uma prova disso foi a euforia coletiva quando logo na segunda música do show, “Abracadabra”, Gaga trocou o vestido vermelho habitual por um verde com faixa azul e amarela por baixo da capa. Os vídeos de cima mostram o tamanho do frisson geral na Avenida Atlântica, tão alto que provocou uma das muitas quebras de personagem da artista ao longo do espetáculo.

Temos orgulho de quando um artista gringo diz que somos um público apaixonado, que proporcionamos o melhor show da carreira, que cantamos todas as músicas na ponta da língua, ainda que o inglês não seja nosso idioma oficial. Em retorno, aceitamos de bom grado e com um sorriso largo no rosto a nossa bandeira no palco ou num figurino, um apenas um “obrigado” e “eu te amo” em português.

“Vocês esperaram mais de 10 anos. Eu demorei porque estava me curando. Vocês pediram que eu voltasse quando estivesse pronta. Brasil, eu estou pronta! Obrigada por me esperarem”, declamou Gaga, enquanto lia uma carta com atrás da bandeira do Brasil. “Eu posso prometer a vocês agora que, da última vez que saí daqui, nós nos tornamos amigos. Mas agora, nós somos família”, disse mais tarde.

Lady Gaga: de ícone LGBTQIA+ a uma estrela global

Antes de ser uma artista global praticamente unânime entre o público, Lady Gaga era e continua sendo um ícone LGBTQIA+. Sua carreira como popstar começou nos inferninhos gays de Nova York (another club, another club, plane, next place), onde começou a criar a estética camp que seria sua assinatura registrada e mais tarde abriria caminho para uma artista como Chappell Roan dizer que é uma cantora drag queen.

Em 2009, ainda no início do seu estrelato, foi Lady Gaga a única superestrela que subiu em um palanque para gritar com Barack Obama, no seu primeiro mandato como presidente dos Estados Unidos, e exigir o fim da “Don’t ask don’t tell”, uma lei que proibia os soldados de se declararem gays. Ano após ano, ela continuou a defender os mesmos direitos fundamentais.

É preciso destacar também a importância de Born This Way, a música e o álbum, na construção desse relacionamento. Quando entrevistei Daniel Garcia (Gloria Groove) para o programa Efeito Lady Gaga, da GloboNews, ele disse algo que ficou na minha cabeça: “Lady Gaga trouxe a mensagem certa na hora certa para uma geração que precisava ouvir aquilo”.

Claro, Madonna foi a primeira artista do pop mainstream a apoiar publicamente a população LGBTQIA+ e a lutar de forma ferrenha contra o estigma de pessoas vivendo com HIV nos anos 1980 e 1990. Mas se você cresceu dos anos 2000 em diante, esse não era mais o ponto central no trabalho da Rainha do Pop, e esse vácuo só foi preenchido quando Lady Gaga surgiu emanando a torto e a direito discursos, performances, clipes e letras sobre autoaceitação e amor à nossa comunidade.

“Eu só quero dizer enquanto estou aqui: meu amor à comunidade LGBTQ+ do Brasil. Eu amo vocês. Obrigada. Obrigada por ensinarem a todas nós”, declarou Gaga durante o show, antes de cantar “Born This Way”, a primeira música da história com as palavras “gay”, “bissexual” e “transgênero” capaz de alcançar o topo da lista de mais ouvidas do mundo. “Esse é o momento!”, gritou.

Enquanto ela terminava a música com as “patas pra cima”, recebendo de volta o mesmo gesto do público, ficou claro que aquele, de fato, era o momento mais aguardado por parte da plateia. Quando levantou a bandeira do Orgulho LGBTQIA+ antes de passar pelo público cantando “Vanish Into You”, ela deixou ainda mais claro o seu posicionamento de celebração dessa comunidade.

Do camarote no Copacabana Palace aos garis limpando a Avenida Atlântica, das donas de casa assistindo pela TV aos fãs colados na grade, Lady Gaga conquistou uma parcela muito maior do Brasil do que aquela que acampou na fila do Parque dos Atletas, em 2012. Uma parcela que estava pronta para gritar a plenos pulmões o tanto que ela foi amada por aqui no 3 de maio de 2025 e continuará sendo nos anos que virão.

Notícias relacionadas

As 30 melhores músicas LGBTQIA+ de 2024

Revista Híbrida
1 ano atrás

Sophie vai ganhar álbum póstumo; saiba os detalhes

Revista Híbrida
2 anos atrás

Montage apresenta: 15 artistas LGBTQs do Ceará para ficar de olho

Daniel Peixoto
6 anos atrás
Sair da versão mobile