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Playlist LGBT+: os melhores lançamentos musicais de abril/25

Brandi Carlile com Elton John e Catto são destaques musicais de abril

Brandi Carlile com Elton John e Catto são destaques musicais de abril

Na coluna Playlist de abril de 2025, Fabiano Moreira* comenta os principais lançamentos musicais de artistas LGBTQIA+ do último mês. A leva de novidades inclui os álbuns de Ventura Profana, Aqno, Elton John com Brandi Carlile, Josyara e Felipe de Oliveira; os EPs de Leffs, Lelê Azevedo e Enme; além dos singles de Kalef Castro, Aiafe e Catto.

Abaixo, confira a seleção. E não deixe de seguir também a nossa playlist para não perder os próximos lançamentos.

Ventura Profana – “Todo cuidado é pouco”

Na Playlist de março, eu já tinha cantado a pedra de que a pastora missionária, cantora evangelista, escritora, compositora e artista visual baiana Ventura Profana lançaria um grande álbum a partir da escuta do belo single “Giramundo”.`Pois veio aí Todo cuidado é pouco, seu disco de estreia. Já na minha lista de melhores do ano, esste é um trabalho sensível, profundo, sincero, verdadeiro e virtuoso. Tão vivo, orgânico e natural quanto o vestido de folhas que ela usa na capa, como uma força da natureza. Há uma certa tristeza impressa em suas impactantes faixas, uma pulsão Linikeresca. “Esse álbum é regado por muitas lágrimas, moldado por muitas mãos e temperado em inúmeras esquinas. Não se engane, há muito sangue banhando essas composições e foi necessário muito tempo de cozimento, portanto, há também muita paciência nessa receita”, explica a artista. O projeto celebra elementos de reggae, jazz, R&B, pagodão, afrobeat e rock, com participações especiais da MC Preta QueenB Rull, na faixa “Tranquila”; Beá Ayòólaá na composição e Gabi Guedes, na percussão de “Giramundo”; e Rico Dalasam nos interlúdios. Apesar das dores, há um compromisso com o bem viver no álbum, “feito como cerâmica, de melodias por mãos moldadas, música experimentada na fogueira, mergulhada em rio de batuque incomum”. “Me machuquei, mas sou a cura pra ferida”, canta em “Fôlego”. Vem aí, ainda, um curta metragem de ficção documental. O álbum tem produção de Eloá Souto

Aqno – “Latino brega love”

Aqno é um dos artistas mais potentes, talentosos e corajosos de sua geração, admiração que nutro desde nossa entrevista para a Sexta Sei, por ocasião do lançamento do seu álbum de estreia, O retorno de Saturno (2021). Me chamou a atenção e me inspirou, pessoalmente, a sua coragem de se assumir como Pessoa vivendo com HIV (PVHIV), metáfora principal de se colocar como habitante de Saturno no álbum. Aqno é pupilo da grande mestre da música paraense Dona Onete, que participa de forma bem afetiva e carinhosa deste seu segundo álbum, o potente Latino Brega Love, em “Jambu no Cuxá”. O artista dá um show de performance no álbum visual, que faz um mergulho na música popular e na latinidade amazônica paraense, apresentando uma evolução da linguagem pop do Norte, com participações de Gang do Eletro, recentemente entrevistada na Sexta Sei, na maconhista “Maniçoba”, que ainda traz no clipe a Casa de Maniva, uma das primeiras casas de Ballroom do Pará, e da multi instrumentista, compositora, pesquisadora e produtora musical Layse, no tecnomelody marcante e romântico “Sobrou pra você”. O álbum ainda traz mistura de ritmos como zouk, na maravilhosa “Zouk love”; o reggae digital “Reset”, ritmo muito comum na periferia do Maranhão; além de cumbia, lambada e brega. Também adoro “Carniceira” e o verso atrevido “agora quero ver você dar conta de bancar sua gracinha”. A produção é de Sandoval Filho, parceiro do primeiro álbum; do guitarrista paraense Felipe Cordeiro; e do soteropolitano Cuper, que colaborou em “Olhos de Navalha”, uma mistura de rock, piseiro, bregadeira e funk. Eles fizeram um álbum que transborda Amazônia, latinidade e fervo. “Eu amo construir texturas visuais para a minha musicalidade, por meio da moda, das artes visuais e da cena. O filme usa esses elementos para aumentar o alcance do som e o impacto da experiência, reunindo criadores de várias áreas e aproximando o público desse ‘fazer arte’, como se estivesse ali no set com a gente”, conta o artista. Um dos melhores álbuns do ano, disparado.

Josyara“Avia”

Abril não foi de brincadeira e tem mais um álbum que vai direto pra lista de melhores do ano: Avia, o terceiro disco da baiana Josyara, que é de delicadeza e sensibilidade únicas. Ela divide a produção e os arranjos com Rafael Ramos, da Deck, e tem parcerias com Liniker, em “Peixe Coração”; Pitty, em “Sobre Nós”; Juliana Linhares, em “Prova de amor”; e Iara Rennó, em “Seiva”; releituras de Anelis Assumpção (“Eu gosto assim”) e Cátia de França (“Ensacado”); e divide os vocais com Chico Chico, em “Oasis (A Duna e O Vento)”; e Pitty, em “Ensacado”. Chique, né, como tudo que a gata faz. O álbum reflete a riqueza e a diversidade de referências que integram o repertório da artista e a sua facilidade em transitar por todas as áreas: de letrista a arranjadora, de intérprete a violonista. “Avia significa deixar correr, caminhar, despachar, adiantar, concluir. A escolha por esse nome para o disco sugere exatamente essa interpretação: seguir em frente, fazer acontecer”, comenta Josyara.

Elton John e Brandi Carlile – Who believes in angels?

Eu já tinha falado aqui na Playlist do single “Who believes in angels?”, que dá nome ao belo álbum homônimo feito em parceria pela gay elementar do pop, sir Elton John, em parceria com sua amiga estadunidense e ícone sandalinha Brandi Carlile, estrela do folk rock e do country alternativo. Segundo o The Guardian, esse é o melhor álbum de Elton neste século, com um mergulho no universo sonoro de Carlile, que mistura pop e country music, uma espécie de pocnejo americano. A faixa no foco, “Little Richard’s Bible”, reflete sobre a jornada da lenda do rock and roll, Little Richard, de escandaloso astro gay a cantor de gospel cristão e depois voltando a ser astro gay do rock, com piano frenético, riff de metais e linha de baixo inspirada na clássica banda de glam rock britânica T. Rex. O álbum de estúdio é genuinamente colaborativo entre Elton e Brandi, trazendo músicas com Bernie Taupin, parceiro de longa data de Elton, e produção de Andrew Watt. A banda é classe A, com Chad Smith (Red Hot Chili Peppers), Pino Palladino (Nine Inch Nails, Gary Numan e David Gilmour) e Josh Klinghoffer (Pearl Jam, Beck). O resultado é um álbum que mescla baladas, rock cru, pop, country e psicodelia carregada de sintetizadores. 

Felipe de Oliveira – “Velho bandido”

A vida e a obra do cantor e compositor popular brasileiro Sérgio Sampaio, nome associado a ritmos como samba, bolero, rock e blues, que nos deixou em 1994, tem sido revisitada desde que Edy Star (que partiu em abril, deixando um vazio queer) e Cida Moreira gravaram álbuns com a sua obra, Meu amigo Sérgio Sampaio (2023) e Sérgio Sampaio: poeta do riso e da dor (2023), ambos lançados pela Joia Moderna, da veia Zé Pedro. Pois o talentoso mineiro Felipe de Oliveira também resolveu visitar essa obra em Velho Bandido, no ano quando o capixaba de Cachoeiro de Itapemirim completaria 78 anos. Felipe sublinha a verve antissistema de Sampaio e constrói um disco a partir de um recorte que traz a marca do capitalismo na música e em nossas vidas. E, se questiona o capitalismo, a “manada dos normais” e os “dias maquinais”, a gente adora, como canta em “Roda Morta”. O artista mineiro chega agora ao seu terceiro álbum de estúdio, marcando uma década de carreira. A insubmissão aos imperativos da indústria e do capital é a marca do autor ressaltada neste volume. Felipe escolheu essa abordagem temática sobre o jugo capitalista. O disco tem produção musical, mixagem e masterização de Fillipe Glauss e teve os arranjos desenvolvidos de maneira coletiva pelos músicos envolvidos na gravação. Na mixagem, prevaleceu a escolha pela não utilização, de forma geral, do recurso de correção da afinação da voz, que é vastamente utilizado atualmente. Isso se deveu ao desejo de abrigar, na estética do álbum, uma característica que respeitasse a figura gauche de Sampaio, que, ao longo da vida, “desafinou” em suas decisões e das determinações impingidas pela indústria musical.

Enme“Movediça”

Enme é uma potente artista do Maranhão que aparece aqui na Playlist desde que assumi, há três anos. Ela lançou um EP curtinho, de quatro faixas, Movediça, que deixou desejo de álbum cheio tamanha a qualidade do projeto, que tem participações do mineiro FBC, em “Esperando você”; e da pernambucana Uaná, em “Lua Cheia”, destaque aqui da Playlist de janeiro. Em sua nova era, Enme navega por uma sonoridade envolvente, nas interconexões da música preta, trazendo elementos que mesclam referências do trap, afrobeat, amapiano e reggae. Influenciada por artistas nigerianos e europeus, Enme construiu uma tapeçaria de ritmos ao longo do projeto que se interligam com a música global, guiada pelo produtor Kafé.

Leffs“Leviana”

A talentosa cantora e compositora Leffs já passou aqui pela Playlist com os singles “Saliva” e “Mergulhar”, este último anunciando o EP Leviana, que saiu agora em abril. Artista da nova MPB e do indie pop, como a própria se identifica, ela reúne baladas românticas e R&Bs sensuais com elementos que transmitem brasilidade e latinidade nesse EP. “Depois de cinco anos de carreira, percebo o quanto a dor é algo que vende, especialmente enquanto travesti. Porém, o custo disso é alto demais. Em Leviana, celebro minha trajetória de forma honesta: se for pra rir ou pra chorar, faremos isso juntas. Espero que, dessa forma, a possibilidade de ser Leviana, hoje privilégio de poucos, possa ser estendida a pessoas como eu”, analisa. A campanha de divulgação do EP prevê, ainda, o lançamento do curta-metragem Amiga da solidão. Todo o projeto é liderado por uma equipe majoritariamente formada por mulheres, pessoas negras e LGBTQIAPN+, reforçando um compromisso com a equidade de gênero e a valorização de talentos diversos. O EP conta com a produção de Chá di Lirian.

Catto“Eu te amo”

Catto cortou o Filipe do nome artístico e trocou os cabelos negros de pantera pelo louro rebelde para encarnar sua nova era após o sucesso do fabuloso álbum Belezas são coisas acesas por dentro, com o qual levou a obra de Gal Costa até o Japão. O single “Eu te amo” é o primeiro do seu novo disco de inéditas, Caminhos Selvagens, que chega no dia 15. Este seá o primeiro disco de autorais lançado por Catto em oito anos, depois de outros cinco volumes assinados por ela. Composta por Catto, a faixa tem produção assinada em parceria com Fabio Pinczowski e Jojo Inácio. Indo de encontro ao clima etéreo do rock dos anos 1990, “Eu te amo” é uma balada sobre um amor dilacerante, marcada por pianos fantasmagóricos, guitarras sujas e letra intensa e direta. A música chegou acompanhada de clipe dirigido por Juliana Robin. No vídeo, Catto aparece de vestido rosa pink, uma peça exclusiva assinada pelo estilista Andre Betio, vagando entre hotéis decadentes, rodovias misteriosas e ambiente selvagem com direito a fogueira e muito cigarro.

Aiace – Jornada do Prazer”

Mais do que nunca, precisamos da sabedoria, da filosofia e da entrega ao amor de Gonzaguinha, um dos poetas mais intensos da nossa MPB. A cantora e compositora baiana Aiace lançou clipe homoafetivo com releitura da música “Jornada do Prazer”, escrita por Gonzaguinha em 1985 e lançada pela cantora em fonograma em 2023, no álbum Eu andava como se fosse voar. Em sua interpretação marcante, que transita entre doçura e sensualidade, a releitura ganha um acento moderno e pop com toques de afrobeat, que tem a assinatura do produtor musical Paulo Mutti. O vídeo passeia pelas intimidade e rotina de amor entre um casal lésbico da vida real, Alylian Pimentel e Mara Santos, com direção, filmagem e edição de Vini Ribeiro“O clipe é um convite para enxergar o belo, o sublime, o êxtase e o prazer em ações simples do dia a dia, como acordar com quem se ama ao nosso lado. Porque é na banalidade do dia a dia, dentro das nossas realidades, que devemos semear o amor”, destaca Aiace.

Kalef Castro, Boninho do Corsa e DJ HTA Bass – “Magrelo pirocudo

Depois de “Putífero”, hit com Dornelles e PZZS que já ultrapassou meio milhão de streams, o muso aqui da Playlist, Kalef Castro, lançou “Magrelo pirocudo”, “criador de conteúdo” que “tá fazendo arte, tá botando tudo”. A batida marcante é uma loucura, parece que a casa vai cair. A canção exalta a figura do criador de conteúdo adulto como um artista que transforma desejo em arte, fortalecendo a representatividade e a autenticidade dentro do cenário musical. A produção é da talentosa DJ HTA Bass, alter ego de Agatha Miranda, que mescla o funk com elementos eletrônicos em uma sonoridade única. “Usei um bass de bruxaria e um kick potente na parte do Kalef, acompanhados de um assobio e um laser marcante”, revela a produtora. A capa do single traz o criador de conteúdo carioca Douglas Silvestre. “Já que tu quis dar, pediu, agora aguenta, a pentada do magrinho, ela é violenta”, avisa a letra.

Moreira também está ouvindo:


*Fabiano Moreira é jornalista desde 1997 e já passou pelas redações de O Globo, Tribuna de Minas, Mix Brasil, RG e Baixo Centro, além de ter produzido a festa Bootie Rio. Atualmente, escreve no Baixo Centro, fazendo a Sexta Sei, e aqui na Híbrida.


As opiniões e comentários expostos na coluna são de responsabilidade do autor.

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