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Playlist LGBT+: os melhores lançamentos musicais de fevereiro/25

Doechii, Danny Bond e Lady Gaga estão nos lançamentos musicais de fevereiro

Doechii, Danny Bond e Lady Gaga estão nos lançamentos musicais de fevereiro

Na coluna Playlist de fevereiro de 2025, Fabiano Moreira* comenta os principais lançamentos musicais de artistas LGBTQIA+ desse pré-carnavaç. A leva de novidades inclui os álbuns de Danilo Dunas, Alexys Agosto, Olly Alexander e Danny Bond; além dos singles de Lady Gaga; Shakira com Papatinho, Mia Badgyal, Lia Clark, Katy da Voz & As Abusadas com CyberKills, Elton John com Brandi Carlile, Doechii, Guitarricadelafuente, Leffs com Majis, Almério e Hilreli.

Abaixo, confira a seleção. E não deixe de seguir também a nossa playlist para não perder os próximos lançamentos.

Danilo Dunas – “Amor meio amargo”

Passou lá pela Sexta Sei o irreverente “Põe coentro dentro”, dueto do multiartista paulista Danilo Dunas com a icônica Maria Alcina presente no álbum Amor meio amargo. “Cada um come o que quer, seja homem ou mulher”, diz a letra, carnavalizada e irreverente. “A gente sabe o que gosta de por dentro.” Para o artista, em papo comigo, a música mais queer do volume é “Lontra”. “Você me reconhece pelos pelos e quer fazer de mim seu cobertor”, canta esse “mamífero”, que não chega a ser um urso. “Malhar é o pior do pesadelos, passar a maquininha, eu sou contra”, continua. Lontra é a gíria gay para descrever os caras magros e esguios, normalmente altos, de corpo peludo e barba crescida. “Pica nos lábios, pica no queixo, pica até no nariz. Pica na testa, pica que eu deixo”, canta, em “Máscara branca”. O álbum transcende gêneros e tem fado, marchinhas, blues, bolero, tango e o que mais for veículo para esse sósia do saudoso Lauro Corona, que convida os ouvintes a embarcarem em uma jornada musical única, repleta de sarcasmo, paixão e liberdade criativa. Produzido por César Benzoni, diretamente da Irlanda, o disco é uma demonstração de como a distância não é barreira para a criatividade. Com arranjos detalhados e participações de Anastácia, Grace Gianoukas, Verónica Valenttino e Pedro Buarque, o trabalho é um exemplo de colaboração artística.

Danny Bond – “EPica2 (Deluxe)”

Primeira travesti negra a atingir o topo do iTunes Brasil seis vezes e a segunda mais ouvida do país, Danny Bond reafirma sua potência artística ao transformar suas vivências em música “sem pudores em EPica2 (Deluxe). Ela finalmente entrega o aclamado feat com as Irmãs de Pau, a música no foco do lançamento, “Chacina”, que libera a putaria durante 24h, com o “c* no varal”, postando “no Twitter, a PrEP de todo dia”.  A nova versão se aprofunda no universo sonoro barulhento e acelerado, com beats agressivos e texturas urbanas que é moda entre os jovens produtores (e a gente ama) e traz cinco novas faixas. A artista alagoana inaugura uma nova era, mantendo a parceria de sucesso com o produtor PZZS, que promove a mistura de pop, brega funk, hip hop/rap e reggae, enquanto ergue com orgulho a bandeira dos sons regionais. “Quem quer cu quer m*rda”, professa, em “Quem quer?” O álbum ainda traz colaborações com Cyberkills, RaMemes, Clementaum, MC Naninha em “Cachorra absurda”, e Reis do Swing em “Melô do Chupa Chupa”. “São faixas  provocativas para dançar e se divertir nas pistas de funk”, afirma Danny Bond.

Olly Alexander – “Polari”

Filho do Daft Punk, Elton John e Michael Jackson, o inglês Olly Alexander é de uma dinastia da excelência musical e um dos maiores artistas de seu tempo, como prova em sua estreia solo com este nome, em Polari, depois de quatro álbuns lançados com a extinta e estupenda banda de electropop Years & Years. O álbum é inspirado no universo da polari – uma linguagem secreta perdida falada por homens gays na Inglaterra ao longo dos últimos cem anos. Uma coisa bem gayluminatti, geral sentiu.  A produção executiva é de Danny L Harle, e o  álbum é inspirado no electropop e em outras músicas da década de 1980, como Pet Shop Boys, Kate Bush e Erasure. O álbum inclui referências a cowboys, deuses e executivos da música, e seus temas incluem intimidade, desejo, voyeurismo e destino. A estética de Polari é inspirada no cineasta e ativista dos direitos dos homossexuais Derek Jarman. “When we kiss” passou por aqui na Playlist de janeiro. A primeira música de Alexander em seu próprio nome, “Dizzy”, foi lançada em 1º de março de 2024 e faturou o 18º lugar no Festival Eurovision. Também ganharam clipes “Archangel”, “Polari” e “Cupid´s bow”. Ser gay é bom demais, e tem trilha sonora.

Alexys Agosto – “Fabulosa viagem de Futurística”

“Do futuro que eu vim, você foi desprogramado”, avisa a artista paulista Alexys Agosto, em “Desprogramado”, faixa que abre seu primeiro álbum, Fabulosa viagem de Futurística. A cantora, compositora, produtora musical e dramaturga de 27 anos nasceu em Itaí, interior de São Paulo, mas está radicada na capital, onde gravou nos estúdios da Rizoma Coletiva, uma rede de artistas da música e poesia com sede localizada na região do Jardim Ângela. O disco é uma espécie de aventura musical interplanetária, em três atos, na qual Futurística, a protagonista pessoa-ciborgue que se perdeu no espaço-tempo e ficou presa no planeta Terra, enfrenta a realidade. “Tudo tão prostético”, como comenta, em “Ciborgue”. “Essa música fala sobre o que são os gêneros masculino e feminino na nossa sociedade, criticando essa ideia de que ser homem ou ser mulher é algo natural. Tem forte inspiração no Paul Preciado, que, no Manifesto Contrassexual, diz que o gênero é prostético, no sentido de aquilo que a gente entende e identifica como marcadores de género e a gente incorpora como prótese, não podendo dizer que é algo natural”, me explica. “De que lado você quer estar do fim do mundo?”, questiona em “Fim do mundo”. O som tem referências de pop, rock, funk e música brasileira psicodélica da década de 1970. A solidão, a plasticidade do gênero em nossa sociedade e a libertação em se assumir como fora da norma são alguns dos temas.  “Por meio dessas músicas, achei espaço para expressar a solidão que enfrentei ao longo desses últimos anos, especialmente na pandemia de covid, e a minha relação com a não-binariedade, que é a identidade de gênero com a qual me identifico”, conta. Formada como Bacharel no curso de Artes Cênicas da USP, ela participa do Coletive Avertere, com o qual integrou o espetáculo teatral Tremores: sobre a luz dos vaga-lumes.

Lady Gaga – “Abracadabra”

A Lady Gaga do Antigo Testamento está de volta, cada dia mais envolvida com o obscuro, a bruxaria e a coreografia para servir entretenimento pop. The category is dance or die na ballroom de terror da mother monstrona. Ela lançou o clipe para comemorar a vitória no Grammy, na categoria Melhor Performance Pop em Duo ou Grupo, no intervalo da premiação. Seu sétimo álbum de estúdio, Mayhem, chega no próximo dia 7 de março, um retorno triunfante às raízes pop. O álbum explora temas de caos e transformação. Marcada por elementos de trance e dance, “Abracadabra” teve clipe dirigido por Lady Gaga, Parris Goebel e Bethany Vargas e traz uma intensa batalha de dança entre os lados claro e sombrio de Gaga. A artista colaborou com a icônica Parris na criação das épicas sequências de dança, que ganharam vida por meio de um grupo de 40 bailarinos. Estilizado por Peri Rosenzweig e Nick Royal, os figurinos de Gaga incluem peças marcantes, como uma capa branca feita a partir de vestidos de noiva vintage, adicionando um toque de design conceitual à produção. 

Shakira – “Estoy Aquí (Papatinho remix)”

A gravadora até lançou um clipe gravado na Maré e protagonizado pelo coreógrafo e bailarino Raphael Vicente, com 25 dançarinos do grupo Dança Maré, mas eu gosto de me deixar envolver, ui, pelo dançarino Well Gonzales nessa versão aqui da Filtr para “Estoy aqui Papatinho remix”, da Shakira, por oportunidade da passagem da diva entre nós, com shows no Rio e em São Paulo (veja aqui como foi a estreia da turnê). O homem rebola de forma tão envolvente que me vendeu essa versão cariocarizada do clássico. A música, de 1995, é sucesso do álbum Pies Descalzos. “Esse lançamento mostra como a música brasileira, e o funk em especial, têm ganhado espaço internacional. Eu sempre acreditei que o funk tem algo único, algo que vai além das fronteiras. É incrível ver artistas como a Shakira abraçando esse som e a cultura”, comemora Papatinho. A tour que passou pelo Brasil é de seu décimo segundo álbum de estúdio, Las Mujeres Ya No Lloran, testemunho de sua resiliência e do poder da música para transformar as experiências. 

Almério – “Malabares”

O clipe mais lindo desse carnaval é “Malabares”, do pernambucano Almério, que captura a tradição popular do frevo e do carnaval de Olinda, fazendo uma apologia às nossas melhores tradições, parte da divulgação do álbum Nesse Exato Momento, de 2024, sobre o qual conversei com o artista na Sexta Sei.  “Essa canção é uma declaração de amor rasgada e nada melhor que um frevo para enaltecer essa paixão. Frevo vem da expressão ‘fervo’, de ‘ferver'”, comenta Almério que, no clipe, aparece usando chifres e beijando muito, como o carnaval gosta. O clipe foi gravado em Olinda, que é um patrimônio cultural de Pernambuco, assim como o frevo e o Carnaval. Os foliões são recebidos por um Caboclo de Lança, figura folclórica do Carnaval pernambucano, que vai proteger os carnavalescos enquanto eles saem dançando pelas ladeiras. “Só me resta pedir, que Deus proteja o seu rolê.”

Mia Badgyal, Lia Clark, Katy da Voz & As Abusadas e CyberKills – “Rave de Boneca”

O que encanta acompanhar a jornada de Mia Badgyal é que trata-se da jornada de uma heroína. A multiartista travesti da Zona Leste de SP, que encantou Charli xcx e abriu também o show da americana Ashnikko em São Paulo, é cantora, compositora, DJ e estilista; já vestiu nomes como Ebony, Irmãs de Pau, Budah e outras; e já passou algumas vezes aqui pela Playlist. Com Lia Clark e Katy da Voz & As Abusadas, o star quality gritando lá no alto, ela lança o primeiro single de seu segundo álbum, “Rave de Boneca”, um funk automotivo com produção assinada por CyberKills, FUSO! e PZZS, nomes de destaque na cena underground da capital paulista. Além de ser um funk automotivo, a faixa também traz a temática da sexualidade, que será explorada no novo álbum da artista. “O que quis desde o início é que a track pudesse transmitir a energia das festas eletrônicas que costumo frequentar – um hino e um momento novo para as pistas”, conta. 

Elton John e Brandi Carlile – “Who believes in angels?”

Sir Elton John e Brandi Carlile, que são melhores amigos na vida real,  anunciaram um álbum colaborativo e apresentaram o single e clipe de“Who believes in angels?”, provavelmente o rolê mais queer e camp desse fevereiro. Toda a viadagem acontece dentro de uma máquina de fliperama, com direito a guitarra-asa. Os fãs também já podem conferir um trailer do álbum, que sai no dia 4 de abril, via Interscope Records. “Este álbum foi um dos mais difíceis que já fiz, mas também uma das maiores experiências musicais da minha vida”, disse John. Os músicos começaram a trabalhar no projeto em outubro de 2023, com Bernie Taupin e Andrew Watt. O álbum foi completamente gravado do zero em apenas 20 dias, com arranjos apoiados por Chad Smith, do Red Hot Chili Peppers, Pino Palladino, do Nine Inch Nails, e Josh Klinghoffer.

Doechii – “Nosebleeds”

Vivemos em tempos de Doechii, a estrela do rap que explodiu no palco do Grammy, apresentando ao vivo “Denial is a river”, com coreografia e figurinos impecáveis que emulam a alfaiataria masculina e o funcionamento mecânico das máquinas. Em comemoração ao seu primeiro Grammy de Melhor Álbum de Rap, ela presenteou os fãs com o single “Nosebleeds”, com um baixo agressivo que define o tom da música e sua força lírica brilhando por meio do instrumental com versos como “Todo mundo quer saber o que Doechii faria / Se ela não ganhasse, acho que nunca”, referindo-se ao discurso de aceitação do Grammy de 2005 de Kanye West. A faixa tem instrumentais de violino, batidas pesadas de sintetizador e um padrão de bateria acelerado. Doechii reflete sobre sua jornada para o estrelato.  Ela tira um momento para provar sua sagacidade rimada enquanto presta homenagem às pessoas e lugares que moldaram sua arte, como SZA. A arte da capa do single apresenta um Grammy com um padrão de pele de jacaré, aludindo a “The Swamp”.

Guitarricadelafuente – “Full time papi”

Não é a primeira vez que o cantor valenciano Guitarricadelafuente, 27 anos, aborda o homoerotismo em seus clipes, como em “Quien encendió la luz” ou  “Mil y Una Noches”, de seu álbum de estreia. Mas “Full time papi”, primeiro single divulgado de seu segundo álbum, traz a questão de forma bem mais explícita. “Este segundo álbum é uma exploração da jornada interior dos meus últimos anos. Eu mergulhei em minhas emoções, impulsos e desejos, enfrentando-os abertamente. A sexualidade tem um papel central em tudo isso e, neste álbum, ela surge com ainda mais força”, explica o artista, que fez recente parceria com Troye Sivan em “In my room”. “Es un amor de postmodernidad / Quiero ser tu full time papi”, reflete na letra sobre “o amor da flor de cactus”, como definia João Ricardo, da banda Secos e Molhados. No clipe, dirigido por Albert Moya, diretor catalão radicado em Nova York que já trabalhou com Arca e, aqui, brinca com correntes, marcas na pele, lutas na lama, flexões e corpos nus. Em Hollywood Men, seu filme de 2016, ele já tinha capturado os corpos e as frustrações de strippers masculinos em Los Angeles.  

Leffs e Majis – “Mergulhar”

Eu falei aqui, na Playlist de setembro, da Leffs, cantora e compositora paranaense, “artista travesty” e amiga do Irakytan. Pois seu trabalho amadureceu bastante desde então, como prova “Mergulhar”, em parceria com Majis, um pop vibrante e dançante de verão com identidade cultural brasileira. As batidas são sensuais e o flow contagiante. “Mergulhar é sobre sentir um desejo insaciável por outra pessoa. Aquela sensação que toma seu corpo inteiro e transborda mais e mais e mais”, comenta Leffs. O clipe marca o início da divulgação do EP Leviana, que conta com músicas já lançadas e outras inéditas. A  faixa foi produzida por Chá di Lirian, um nome de destaque na cena musical independente. O projeto é liderado por uma equipe majoritariamente formada por mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+, reforçando um compromisso com a equidade de gênero e a valorização de talentos diversos. 

Hilreli – “Abalou”

Fã que sou de versões, achei bem gracinha essa versão de “Abalou”, clássico conhecido na voz de Ivete Sangalo, na releitura do mineiro Hilreli, e uma certa “silvalização” da canção, com batidas de arrocha e uma guitarra cachorrona do craque Nathan Itaborahy. A nova versão estará em Dance Aqui, álbum de estreia que está vindo aí e propõe uma celebração da liberdade e do pertencimento por meio da música. Hilreli é cantor, compositor, fotógrafo e videomaker e colabora com coletivos e movimentos culturais de Barbacena (MG) desde 2011. É formado em canto pela Bituca Universidade de Música Popular.

Moreira também está ouvindo:


*Fabiano Moreira é jornalista desde 1997 e já passou pelas redações de O Globo, Tribuna de Minas, Mix Brasil, RG e Baixo Centro, além de ter produzido a festa Bootie Rio. Atualmente, escreve no Baixo Centro, fazendo a Sexta Sei, e aqui na Híbrida.


As opiniões e comentários expostos na coluna são de responsabilidade do autor.

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