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17 set 2021

TOP 5 DO CARNAVAL CARIOCA

OS MELHORES BLOCOS LGBTQ NO RIO

POR JOÃO KER

 SEREIAS DA GUANABARA 

A história do Sereias da Guanabara no carnaval carioca começou ainda no ano passado, quando o cardume bateu as barbatanas da Pça. Marechal Âncora até a Pça. Tiradentes com a caixa de som estourando o que eles chamam de “música molhada”.

Sereias (afrontosas) da Guanabara (Foto: Roberta Clapp)
Sereias (afrontosas) da Guanabara (Foto: Roberta Clapp)

“É um pop Brasil, tropical, latino sensual”, explica Leo Sales sobre a setlist que vai de Deborah Blando, Xuxa e Daniela Mercury a Anitta, Pabllo e uma mistura de pop atual com ícones dos anos 2000.

Leo Sales sereiando na Guanabara (Foto: Roberta Clapp)
Leo Sales sereiando na Guanabara (Foto: Roberta Clapp)

Leo divide o comando do som com Jorge Badauê, que o ajudou a finalmente colocar o Sereias na rua no mar. Os dois se conheceram há alguns anos nos ensaios da Acadêmicos do Salgueiro e da paixão mútua pelo carnaval veio a ideia de criarem o próprio bloco “aberto a todas as formas de nadar”. A inspiração na Guanabara, eles explicam, veio tanto da visão romântica sobre a baía como uma crítica ao estado da mesma.

Jorge Badauê divide o som do Sereias com Leo Sales (Foto: Roberta Clapp)
Jorge Badauê divide o som do Sereias com Leo Sales (Foto: Roberta Clapp)

“O Rio de Janeiro começou exatamente aqui e olha como isso tá hoje”, diz Jorge, lamentando como aquela praia é agora “o esgoto de tudo”.

“A temática marinha e essa relação com o mar vêm exatamente da necessidade de nadar contra o lixo e contra a maré”, ele completa. É nessa vibe que Felipe Braga segue com seus “achados de rua” e “restos de carnaval” que compõe a estética do Sereias com bastante purpurina furta-cor e maiôs metalizados.

Felipe Braga é responsável pelos achados de produção do Sereias (Foto: Roberta Clapp)
Felipe Braga é responsável pelos achados de produção do Sereias (Foto: Roberta Clapp)

Nadando à margem do calendário oficial carioca, o bloco estreou durante o 1º carnaval oficializado pelo bispo Marcelo Crivella (PRB) e marcou presença ao longo do ano com 12 festas paralelas.

Com o burburinho de que a repressão contra a folia alternativa seria ainda mais forte em 2018, o Sereias da Guanabara sente-se pronto para juntar seu cardume e invadir a baía de novo: “A rua é pública e o bloco é ocupação. Vamos encarar essa contando com quem estiver do nosso lado”.

O cortejo desse ano promete fazer borbulhas de amor às 16h do sábado, saindo da Zona Portuária do Rio.

Filipe Nogueira, presença cativa e membro honorário do Sereias (Foto: Roberta Clapp)
Filipe Nogueira, presença cativa e membro honorário do Sereias (Foto: Roberta Clapp)

 MINHA LUZ É DE LED 

Luzes nas pernas, nos pés, nos peitos, na cara e na cabelereira. Desde que entrou no calendário alternativo de blocos cariocas, o Minha Luz é de LED tem arrastado uma multidão de foliões piscantes pelo centro do Rio de Janeiro com um objetivo em comum: comemorar o início do carnaval.

“É um bloco divertido, com todos os tipos de música. Tem pra todo gosto!”, avisa Julia Jacobina sobre a setlist que mistura pop, funk, axé, eletrônica e tudo o mais que tiver cara de carnaval. Ela, ao lado de Carla Ferraz, Dulce Penna, Leonardo Magalhães, Arthur Ferreira, Claudio Serrano e Vicente Coelho, ajudou a criar o LED em 2014, após dois anos usando a Bananobike em outros blocos alternativos como Viemos do Egyto e Bunytos de Corpo. No ano seguinte, Guigga Tomaz entrou para reforçar o time.

Os foliões cintilantes do Minha Luz É de LED (Foto: Roberta Clapp)
Os foliões cintilantes do Minha Luz É de LED (Foto: Roberta Clapp)

O nome “Minha Luz É de LED”, por sinal, veio do refrão de “Pissaicou”, uma sátira bem humorada da banda Biltre (“Tipo o Reidioureeed”), que também conta com Arthur, Claudio e Vicente, além de Diogo Furieri e Pablo Tupinambá na formação original.

Desde então, o Minha Luz É de LED invade a rua sempre às últimas quintas de pré-carnaval, com um trajeto que só é revelado no dia (alguns dos pontos anteriores incluem a Praça Tiradentes, a Praça Marechal Âncora e o Beco do Rato, na Glória).

O público, respeitando a origem democrática da festa de rua, engloba gente de tudo quanto é jeito, estilo, corpo, cor da pele e orientação sexual, todos sob uma regra básica: respeito às diferenças.

“Não toleramos de forma alguma misoginia, racismo e homofobia. Trabalhamos muito pra sermos uma zona de diversão e conforto para todo mundo. Se você se sente incomodado com gays, lésbicas, bichas afeminadas e não sabe aceitar não como resposta de mulher, procure outro bloco…”, avisa Julia.

"Se você se sente incomodado com gays, lésbicas, bichas afeminadas e não sabe aceitar não como resposta de mulher, procure outro bloco”, diz Julia Jacobina (Foto: Roberta Clapp)
"Se você se sente incomodado com gays, lésbicas, bichas afeminadas e não sabe aceitar não como resposta de mulher, procure outro bloco”, diz Julia Jacobina (Foto: Roberta Clapp)

A recepção do LED entre o público foi tão positiva que o grupo transcendeu os limites do carnaval e passou a ser figura constante na noite carioca, unindo-se a outras festas e blocos ao longo do ano e mantendo uma agenda ativa de eventos.

Ainda assim, Julia garante que a experiência de pular atrás da Bananobike pelo Rio tem um apelo especial: “As nossas festas são ótimas, o publico é sempre o mais animado, mas o carnaval é uma explosão louca”.

Para o cortejo de 2018, o LED mantém o mistério em torno do ponto de concentração, mas já adianta que terão Eduardo Castelo, da festa V de Viadão, como Dj convidado.

Sobre colocar o bloco na rua em meio à onda de repressão moralista encabeçada pelo prefeito Marcelo Crivella, Julia deixa claro: “Acho que [esse ano] vai ser um carnaval de cunho politico, de ir pra rua se mostrar vivo e contra esse pastor ridículo que está como nosso prefeito. De mostrar que corpos purpurinados e em êxtase vão existir sim e que somos laicos!”.

Irreverência, criatividade e muita luz: Minha Luz é de LED é a cara da cena alternativa carioca (Foto: Roberta Clapp)
Irreverência, criatividade e muita luz: Minha Luz é de LED é a cara da cena alternativa carioca (Foto: Roberta Clapp)

 PAGODE NOSTÁLGICO E PÚBLICO PLURAL NO “TRUQUE DO DESEJO” 

Pra quem não catou a referência logo de cara, esse é aquele bloco que você vai jogar as mãozinhas pro alto, fechar os olhos e viajar no tempo com o caviar (nunca vi, nem comi) do pagode 90s. O “Truque do desejo” tirou a inspiração para o seu nome direto da música “Palpite”, de Vanessa Rangel, que hoje já se tornou antológica graças à novela “Por Amor”, de 1997.

Apoiado por um repertório que passeia de Araketu e Os Travessos até Negritude Junior, Katinguelê e Exaltasamba, o grupo de amigos que toca no Aterro do Flamengo pretende despertar a nostalgia daquela época em meio à folia de carnaval.

Por sinal, foi graças a essa mesma nostalgia, que se manifestava nos encontros informais através da coletânea “Pagode na real” (2004), que veio o conceito inicial de criar um bloco dedicado apenas ao ritmo.

“Nas nossas viagens, [o CD] tava sempre lá, tocando no repeat”, conta Diana Moraes, vocalista do Truque. A primeira oportunidade para a ideia virar realidade veio no carnaval de 2013, quando eles tomaram um perdido em pleno carnaval carioca.

“Fomos para o Bloco Secreto, mas assim como várias outras pessoas, caímos na pegadinha do horário e chegamos muito mais cedo do que o próprio bloco! Como no nosso grupo temos alguns músicos que tinham levado seus instrumentos, começamos a puxar os pagodes e a adesão foi total! Uma música atrás da outra e, quando alguém tentava puxar alguma fora desse repertório, não colava!”, Diana lembra.  

Foto: reprodução.
Foto: reprodução.

Os amigos então perceberam o potencial que o pagode tinha de agregar pessoas diferentes e, no ano seguinte, resolveram tocar com hora e local marcados. “Não fizemos nenhuma divulgação, foi tudo no boca-a-boca, e tivemos umas 300 pessoas por lá. Então vimos que, para o próximo Carnaval, precisaríamos de um som melhor, bateria maior e daí em diante o bloco só cresceu. Nós sempre ficamos surpresos com a energia da galera que soma com a gente nessa nostalgia!”, comemora Diana.

Mais do que nostalgia, o Truque também prega respeito às diferenças dos seus foliões, seguindo o velho (e sempre atual) mantra do “fervo também é luta”.

Diana explica que o bloco “não poderia deixar de se manifestar sobre as questões de opressões, uma vez que ele é composto e liderado principalmente por LGBTs, mulheres, negras e negros”. Tanto que, ano passado, ela mesma pediu em casamento a então namorada e produtora do Truque, Mariana, com direito a estandarte e música de fundo (um pagode, claro!).   

Diana pede Mariana em casamento ao som de "Beijo Doce", do Pixote (Foto: Arquivo Pessoal)
Diana pede Mariana em casamento ao som de "Beijo Doce", do Pixote (Foto: Arquivo Pessoal)

Por sinal, no último dia 28 de janeiro, véspera do Dia Nacional da Visibilidade Trans, Diana se vestiu de Super LGBT “pra lembrar de forma irreverente que juntos temos super-poderes no combate às opressões”, explica. Ela completa: “Desde o princípio, nos esforçamos pra que o Truque do Desejo fosse um espaço de total liberdade e tolerância. Nós nos manifestamos e intervimos quando acontecem situações que constrangem ou violentam. O público nos apoia e também ajuda a inibir esse tipo de comportamento”.

Em 2018, o Truque vai rolar no sábado de Carnaval, a partir das 9h, no Aterro do Flamengo, próximo ao Quiosque ZeroNove, na altura da estação de metrô do Catete.

 BECO DO RATO 

Após atravessar um período duvidoso desde que a Casa Nuvem se transformou em Casa Nem, o ponto da Glória promete ferver novamente e lotar as ruelas e janelas do Beco. Se o pré-carnaval já teve a estreia do “Sai, Hétero”, o calendário oficial estoura o confete às 22h do domingo, com o lançamento do “Carnakoo”, bloco oficial da Batekoo. Espere ouvir a nata da black music, de popstars como Beyoncé e Rihanna a funkeiras como Anitta e Ludmilla e rappers como Cardi B e Karol Conká.

Carnakoo
Carnakoo

 BAR DO NANAM 

Mais um dos pontos hypados do centro carioca, o Bar do Nanam aka Beco das Artes ferveu durante todo o carnaval de 2017 e, para este ano, pretende repetir o feito. Além de ser uma aposta certa para os foliões perdidos na cidade, o local ainda recebe na sexta o abre-alas da Manie Gang, além de um eterno “PRéFTER” da folia, que já conta com as viagens eletrônicas da O/NDA garantidas no sábado.

Foto: reprodução.
Foto: reprodução.

 BÔNUS: FESTAS 

A HUB, que já foi NAU, tornou-se o espaço queridinho da noite carioca e tem despontado desde 2017 como um dos melhores pontos pra bater cabelo, fritar e beijar na boca. No carnaval não vai ser diferente. Algumas das festas já confirmadas por lá são a La Cumbia, na sexta-feira; a  Digitaldubs, na “quarta de brasas”; e o #TRETABLOCO, pras atrasadinhas que quiserem manter o fervo até o dia 16.

Outro agito amado pelos cariocas ao longo do ano é a Selvagem, que vai investir no combo de glitter com confete em pleno sábado para uma edição carnavalesca e secreta. Pra saber os detalhes, tem que se escrever bonitinho no hotsite e, se possível, lembrar de checar o email no dia pra descobrir o local da festa.

Por último, mas nunca menos importante, a V de Viadão também entra na disputa pela atenção dos foliões e une o melhor de dois mundos com uma pool party de carnaval no Boqueirão, enchendo a sexta-feira com música pop, eletrônica e closeee.

 BÔNUS: BLOCOS IMPERDÍVEIS

Se você ainda estiver indeciso e querendo mais opções de onde gastar teu glitter e tua onda, é possível esbarrar com o Bloco Secreto que, bem, é secreto e você tem que catar informações entre a galera, nas redes sociais ou rezar pra trombar com ele pelo centro.

O Technobloco, que também é meio imprevisível, mas no ano passado foi a salvação de quem quis curtir a terça-feira de carnaval, principalmente depois da decepção que foi o Viemos do Egyto.

Fora isso, tem o Boi Tolo, que se ninguém te falou ainda, não acaba nunca. O Cordão sai no domingo e nem deus sabe quando e onde termina. No ano passado, ele se dividiu em cinco mini-grupos espalhados pela cidade que eventualmente se encontraram e reza a lenda que está acontecendo desde então.

João Ker

JOÃO KER

Mineiro de nascença e carioca de alma, João é formado em jornalismo pela UFRJ e já passou pelas redações do Canal Futura, Site Heloisa Tolipan, Sony e Yahoo antes de realizar seu sonho com a Híbrida. Hoje, se divide entre a revista e o mundo publicitário na Pixelfordinner.

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