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16 abr 2021

A HISTÓRIA DAS PARADAS DO ORGULHO: DEMOCRATIZAÇÃO E CELEBRAÇÃO DA LUTA LGBTQ

DEPOIS DE UMA DITADURA MILITAR, EPIDEMIA DO HIV E DESPREZO DA ESQUERDA E DA DIREITA, QUAL A IMPORTÂNCIA DE CELEBRARMOS NOSSA COMUNIDADE NO BRASIL?

“Say it clear, say it loud, gay is good, gay is proud!” (Diga claro, diga alto, gay é bom, gay tem orgulho!). Esta foi a palavra de ordem entoada na 1ª Marcha da Libertação da rua Cristopher, em Nova York, a primeira Parada do Orgulho LGBTQ de todas. Muito diferente das versões de hoje e sem o reconhecimento dos órgãos oficiais, ela aconteceu em junho de 1970, um ano após a famosa rebelião de Stonewall. Hoje, exatos 50 anos depois, as Paradas do Orgulho, no Brasil e no mundo, tentam se reinventar para que a data não passe batida, mesmo em meio à pandemia do novo coronavírus.

Quase três décadas depois dos Estados Unidos, a primeira Parada do Orgulho só foi acontecer no Brasil em 1997, quando ocupou apenas metade da Avenida Paulista, em São Paulo. Renan Quinalha, professor de direito na Unifesp, militante dos Direitos Humanos e autor do livro “História do movimento LGBT no Brasil”, explica que esse atraso se deu, em grande parte, por conta do momento político brasileiro na virada dos anos 60 para os 70.

Casal lésbico se beijando durante a 1ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em 1997 (Foto: Reprodução)
Casal lésbico se beijando durante a 1ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, em 1997 (Foto: Reprodução)

“O Brasil, quando eclodiu Stonewall, em 1969, passava por uma ditadura, inclusive em seu momento mais difícil e mais duro, que foi logo após o AI-5, de 1968”, explica Renan.

Concentrado não apenas em driblar a repressão da ditadura militar, ele destaca que o movimento também direcionou suas forças no combate à epidemia do HIV/Aids, que monopolizou a agenda LGBT durante grande parte das duas décadas seguintes.

Só então a tática das paradas do orgulho foi adotada no Brasil, com cerca de 2 mil pessoas tomando a Avenida Paulista pelos direitos da comunidade. Segundo Renato Viterbo, vice-presidente da Associação do Orgulho LGBT de São Paulo, a primeira edição do evento foi um esforço coletivo de vários grupos sociais, que lutavam pelos direitos e pelo reconhecimento da comunidade LGBT, reconhecida na época como GLT (Gays, Lésbicas e Travestis).

O tema da 1ª Parada do Orgulho GLT foi “Somos muitos, estamos em todas as profissões” (Foto: Reprodução)
O tema da 1ª Parada do Orgulho GLT foi “Somos muitos, estamos em todas as profissões” (Foto: Reprodução)

“Quando os movimentos surgiram, havia apenas três segmentos mais à frente [da demanda] por reconhecimento de suas identidades. Eram as pessoas mais vulneráveis, que alavancaram a luta”, observa.

Pouco mais de duas décadas depois, o evento saltou de um público com 2 mil pessoas para 3 milhões, tornando-se o maior desse tipo em todo o mundo e entrando para o “Livro dos Recordes” (“Guinness Book”).

“Ser a maior do mundo trouxe visibilidade para questões sociais da população LGBT do Brasil e cobrança ao poder público das nossas demandas”, avalia Renato.

Para ele, o evento ganhou essa proporção por fatores que incluem desde os temas escolhidos – o deste ano será “Democracia” – à aliança com artistas e setores de hotelaria e turismo. “Mas, como tudo, isso implica em mais responsabilidades. São Paulo é uma metrópole com todos os olhos voltados pra cá.”

COMUNISTAS!

De 1997 até hoje, muita coisa mudou. É comum, nos tempos de Jair Bolsonaro, defensores dos direitos LGBTs serem tachados de “comunistas” ou “esquerdopatas”, mas isso nem sempre foi assim. Segundo Renan Quinalha, a relação do movimento com ambos os espectros políticos nunca foi tranquila.

“A direita sempre perseguiu a comunidade. A esquerda às vezes perseguiu, e às vezes foi mais tolerante. Essa mesma relação com as esquerdas faz parte da fundação do movimento no Brasil”, explica.

Olhando para a história, podemos entender um pouco o por quê do plural de “esquerdas”. Em 1922, na recém-nascida União Soviética, as penas por “atos de sodomia consentidos entre adultos” foram retiradas do código penal, um avanço imenso para a época.

Cerca de 12 anos depois, porém, já sob o comando de Josef Stalin (1878 – 1953), a URSS retrocede e volta a penalizar a homossexualidade. A lei perdurou até a queda do regime, no início dos anos 1990, e ainda nos ajuda a entender a homofobia latente nos países do antigo bloco comunista.

Imagem dos gulags criados por Stalin, onde homossexuais eram mandados para trabalharem até morrerem de exaustão, frio ou espancamento (Foto: Reprodução)
Imagem dos gulags criados por Stalin, onde homossexuais eram mandados para trabalharem até morrerem de exaustão, frio ou espancamento (Foto: Reprodução)

O reflexo deste retrocesso pôde ser sentido nas “esquerdas” de todo o mundo: partidos alinhados à URSS, os PCs, consideravam a homossexualidade como um desvio pequeno burguês, enquanto organizações com leituras críticas tinham mais simpatia à causa.

Um exemplo é o setorial LGBT de uma ex-corrente interna Trotskista do Partido dos Trabalhadores (PT), a Facção Homossexual da Convergência Socialista. “Esse é um dos primeiros casos na América Latina de um setorial LGBT dentro de um grupo político”, lembra Renan.

Independente do posicionamento político, Renato, por sua vez, considera que todos são bem-vindos à Parada do Orgulho LGBT de São Paulo.

“Todos os oprimidos são ou estão ligados aos movimentos de esquerdas, pois é ela que muitas vezes levanta as pautas e bandeiras dessa população. Mas aqui, tivemos e temos pessoas da direita que trabalham em conjunto com as pautas da nossa população. O que verdadeiramente importa é uma legislação igualitária e baseada no direito de todos e para todos”, pondera.

PARADA NA PANDEMIA

Paradas do Orgulho LGBT são sinônimo de aglomeração, uma situação altamente não recomendada nos tempos de pandemia do coronavírus. No mundo todo, a covid-19 fez com que esses eventos se adaptassem para o formato online, adiassem suas datas na esperança de tempos melhores para o fim de 2020 ou simplesmente cancelassem suas edições para o ano.

Em São Paulo, a marcha oficial foi adiada para novembro. Mas, com o andar da carruagem, não é possível afirmar que o evento vá de fato acontecer este ano. “Não sabemos. Também não queremos colocar nossa comunidade LGBT e nem a população como um todo em risco”, afirma Renato.

Isso não significa, porém, que não haverá comemorações para o mês de junho. “Criamos uma versão digital”, contou Renato, “mas que terá um super conteúdo com pautas da comunidade LGBT. Agregamos depoimentos de pessoas importantes e que nos ajudam, além de atrações artísticas que darão um toque especial à manifestação”.

No domingo, 14 de junho, a 1º Parada Virtual LGBTQIA+ tomou as redes sociais e foi exibida ao vivo pelo GNT, com participações de nomes como Katy Perry, As Bahias e a Cozinha Mineira, Ivete Sangalo, Paula Fernandes, Carol Biazin, Priscila Tossan, Brunelli e Danna Paola.

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Falando em atrações artísticas, é comum ouvir de pessoas que a Parada não é uma manifestação política, mas sim uma festa, um comentário sempre acompanhado de tom pejorativo.

Renan, entretanto, não vê problema na alcunha e considera que há vários modos de ativismo. “Todos eles contribuem e são necessários.” O professor observa ainda que o evento desempenha um grande papel de acesso social à celebração.

A Parada tem uma questão de classe importante. A comunidade ainda é muito classista, muito elitizada e ainda se cultiva essa ideia de que a Parada, com muitas pessoas, virou uma festa. Acho que tem um grau de elitismo nesses comentários por, no Brasil, ela ser muito popular”, avalia.

Raphael Fonseca

PEDRO PAIVA

Jornalista formado pela UFRJ, meio mineiro, meio paulista e carioca por acidente. Apaixonado por política, já trabalhou em diversas campanhas de esquerda no Rio de Janeiro e é voluntário do Democratic Socialists of America, dos Estados Unidos

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