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17 set 2021

CONEXÃO ANGOLA: “A HOMOSSEXUALIDADE NÃO FAZ PARTE DA CULTURA AFRICANA”

POR QUE A MENTIRA CONTADA PELA COLONIZAÇÃO EUROPEIA APAGA PROPOSITALMENTE OS COSTUMES ORIGINAIS DO CONTINENTE-MÃE

“A homossexualidade não faz parte da cultura africana”. Atualmente, vemos e lemos muito essa afirmação descabida por parte de muitos jovens angolanos e, em particular os ditos “defensores da cultura africana”. Ela é usada para disfarçar uma conotação LGBTfóbica e de não pertencimento, mas será mesmo que as práticas sexuais homoafetivas e a diversidade de gêneros não fazem parte da identidade africana e dos nossos costumes?

Na década de 1920, o antropólogo alemão Kurt Falk registrou a vida entre duas pessoas do mesmo sexo em “algumas tribos” de Namíbia e da Angola, por onde ele viajava. Os grupos nativos Wawihe e Ovingangellas apresentavam níveis diferentes de práticas e aceitação desses relacionamentos.

“Entre os Wawihe, não somente os jovens, mas também os homens adultos se gratificavam dos relacionamentos homossexuais”, escreveu o antropólogo, que observou o mesmo comportamento entre mulheres. “É de se imaginar que essas tribais [como ele as chamava] fossem mulheres velhas, não mais visitadas por homens, ou mulheres sem maridos, mas o caso era quase o contrário: apenas as esposas jovens, recém-casadas, que não podiam reclamar da oferta de coito heterossexual, praticavam o coito homossexual umas com as outras de forma quase insaciável.”

Kurt explicou também que “a existência deste tipo de atração geralmente era negada na presença de estranhos como ele”, mas após os Wawihe se acostumarem com a presença do antropólogo, a maioria dos homens admitia que tinham um parceiro sexual masculino. A linguagem usada tinha várias palavras para caracterizar a diferença entre “amigo não-sexual” e “amigo sexual”.

Nas culturas Swahilis, da África Oriental, a relação entre pessoas do mesmo sexo é conhecida como Mashoca, Mabasha e Macai, para os homens; e Wasagaji ou Mkelimune, para as mulheres.




EM 2013, Tshepo Cameron Modisane e Thoba Calvin Sithol realizaram na África do Sul a primeira cerimônia de casamento africano "tradicional" entre dois homens desde a colonização (Foto: Reprodução)
EM 2013, Tshepo Cameron Modisane e Thoba Calvin Sithol realizaram na África do Sul a primeira cerimônia de casamento africano "tradicional" entre dois homens desde a colonização (Foto: Reprodução)

São muito poucos os estudos feitos até hoje sobre esse aspecto das tribos nativas africanas, em especial as angolanas, o que convém para o sistema patriarcal. Infelizmente, pela falta de pesquisas sobre a diversidade sexual na Angola, essa realidade foi apagada durante a colonização europeia e nos foram obrigatoriamente incutidas as normas e leis bíblicas, cristãs e deturpadas, que lhes favorecia no processo de nos colonizar.

Essa diversidade sexual, entretanto, não estava limitada apenas à Angola. Os antropólogos Stephen Murray e Will Roscoe, no livro “Meninos-esposas e Maridos Femininos – Estudos da Homossexualidade Africana” (“Boy-Wives and Female Husband’s – Studies Of African Homossexuality”, 1998), apresentam evidências claras que sustentam que, por toda a história da África a homossexualidade tem sido uma constante e lógica característica das sociedades.

Em 2004, Marc Epprecht publicou “Hungochani: A História de uma Sexualidade Dissidente na África Austral” (“Hungochani: The History of a Dissident Sexuality in Southern Africa”), onde nas primeiras páginas do livro há uma imagem pintada pelos San Bushmen (Bosquímanos) nas pedras e “datada de pelo menos dois mil anos atrás”, que retrata “o que parece ser três homens envolvidos em relações sexuais anais, além de dois casais masculinos, em abraços frente a frente, enquanto um dos parceiros guia um pênis ereto em direção ao traseiro do outro”.

imagem pintada pelos San Bushmen (Bosquímanos) e encontrada no livro "Hungochani: A História de uma Sexualidade Dissidente na África Austral" (Foto: Reprodução)
imagem pintada pelos San Bushmen (Bosquímanos) e encontrada no livro "Hungochani: A História de uma Sexualidade Dissidente na África Austral" (Foto: Reprodução)

Mais do que existirem em sociedade, os LGBTs nativos da África também chegavam a ocupar posições de lideranças em suas tribos. Em 1640, um militar holandês documentou que a rainha Nzinga Mbandi (também conhecida como Ginga Ambandi ou Ana de Sousa), guerreira angolana do reino do Ndongo, governou como “Rei” ao invés de “Rainha”, vestida como um homem e rodeada de pessoas visivelmente masculinas travestidas como mulheres, que foram suas esposas.

O Rei Mwanga Bwanda II, no território onde hoje fica a Uganda, era conhecido como “O Rei Gay”, por ter mantido relações homossexuais com os seus súbditos masculinos durante o período de seu reinado, entre 1884 e 1889.




Retrato daa rainha Nzinga Mbandi reproduzido por litografia (Foto: Reprodução)
Retrato daa rainha Nzinga Mbandi reproduzido por litografia (Foto: Reprodução)

Hoje, diversas pesquisas realizadas no continente berço demonstram a existência de interações homoafetivas em distintos contextos africanos, tais como os estudos de Charles Gueboguo e Neville Hoad, como também os ensaios de Thabo Msibi, Achille Mbembe e dos autores citados acima. Murray e Rescoe defendem que “a homossexualidade existe na África há milénios, sendo uma prática pré-existente à colonização europeia, tendo nomes e formas específicas conforme a região e contexto histórico”.

A existência de homossexuais e outros indivíduos que se envolvem em relações afetivas com pessoas do mesmo sexo tem sido marcada pela negação brutal e pelo silêncio. Os pesquisadores aqui mencionados, entretanto, são unânimes em afirmar que o discurso sobre a homossexualidade na África foi imposto pelo mundo ocidental. As primeiras leis contra a sodomia foram importadas pela colonização europeia, assim como o ideal de família patriarcal e heterossexual (antes, o continente era matriarcal), instituído pelo cristianismo e reforçado mais tarde com o advento do marxismo.

Poucas pessoas sabem (e algumas preferem fingir não saber) que as relações íntimas entre duas mulheres e dois homens já existiam nas sociedades tradicionais africanas. A verdade é que o povo africano expressou uma ampla gama de sexualidades antes de os colonizadores chegarem e lutaram para erradicá-las. Como escreveu a autora Bernardine Evaristo, “o desafiar os sistemas sociais e religiosos indígenas do continente, eles demonizaram a homossexualidade na África, abrindo caminho para os tabus que prevalecem hoje”.

É importante percebermos que os costumes e a diversidade sexual na África foram demonizadas e apagadas pelo ocidente, destruindo a nossa essência e nos obrigando a aprender seus costumes bíblicos e cristãos. As culturas africanas não surgiram apenas 50 ou 80 anos atrás.

David Kanga

DAVID KANGA

David Kanga, 22 anos, nasceu e cresceu em Luanda, na Angola, é ativista social em defesa das pessoas LGBTQIAP+. Estudante do curso de Direito, formado em Gestão de Empresas e Empreendedorismo pelo programa YALI, em Moçambique, e fundou em 2018 a primeira revista digital LGBTQIAP+ Angolana, a Queer People.

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