Aos 52 anos, o galês Gareth Thomas, lenda do rúgbi mundial, tem dedicado as últimas décadas da sua vida à luta por dignidade às pessoas que vivem com HIV. Líder da campanha Tackle HIV, ele esteve no Brasil para participar do Congresso AIDS 2026, o maior fórum internacional dedicado ao tema, e falou com a Híbrida sobre o que viu e ouviu ao redor do mundo trabalhando para diminuir o estigma contra pessoas soropositivas, o que mudou nesse cenário desde que tornou seu diagnóstico público em 2019 e o que ainda precisa evoluir no esporte profissional para que ele se torne de fato um espaço inclusivo e acolhedor para pessoas LGBTQIA+.
Sua trajetória de ativismo começou em 2009, ainda que de maneira meio involuntária, quando Gareth Thomas fez história ao tornar-se o primeiro jogador de rúgbi em um time de elite a se declarar publicamente gay. Capitão da seleção galesa, ele estava no limite da sua saúde mental quando decidiu falar abertamente sobre sua orientação sexual, em uma época muito menos receptiva do que hoje.
“O verdadeiro problema é esse medo do desconhecido. E esse medo poderia ser eliminado pelos órgãos que administram o esporte e pelas pessoas responsáveis por essas modalidades”, avalia.
Dez anos depois, Gareth também teve a coragem de contar ao mundo que vive com HIV. Com isso, descobriu que um dos maiores dilemas que precisaria enfrentar não era o vírus em si, mas o preconceito que o rondava.
Apesar de os avanços da medicina terem revertido a sentença de morte imediata que vinha com a doença quando ela foi descoberta nos anos 1980, uma pesquisa inédita patrocinada pela ViiV Healthcare, organização financiadora da Tackle HIV, descobriu que 36% dos brasileiros ainda acham que homens heterossexuais não correm risco de contrair o HIV; 37% acreditam no mesmo em relação a mulheres heterossexuais.

Os dados da pesquisa ilustram a ignorância sobre o HIV e também apontam que apenas 29% da população sabe que pessoas sob tratamento eficaz e com carga viral indetectável não transmitem o vírus em relações sexuais. Ao mesmo tempo, 19% dos brasileiros ainda acreditam erroneamente que quem vive com HIV não pode manter uma vida sexual ativa.
“Quando percebi que pessoas vivendo com HIV podiam ter uma vida normal, feliz e saudável, pensei que essa era uma informação extremamente importante e todas as pessoas, independentemente da orientação sexual ou da condição de saúde, deveriam ter.”
Agora, Gareth Thomas tomou para si a missão de diminuir o estigma em torno de pessoas soropositivas e viaja o mundo com a Tackle HIV levando informação e educando as pessoas sobre a verdadeira realidade de quem vive com o vírus.
“Eu queria combater esse estigma mostrando que continuava capaz de realizar grandes feitos físicos, exatamente como antes do meu diagnóstico”, diz Gareth Thomas, na entrevista cuja íntegra você lê abaixo.
HÍBRIDA: O que fez você querer trabalhar com a pauta do HIV? Sei que você já falou sobre isso antes, mas o que o motivou a dedicar seu trabalho a esse público?
GARETH THOMAS: O principal motivo foi o autoestigma que senti quando recebi o diagnóstico. Depois, veio a percepção de que eu não precisava carregar esse autoestigma. Descobri que, com a informação correta e com o tratamento adequado, eu não iria morrer.
Quando passei a entender os fatos e percebi que tantas pessoas pensavam exatamente da mesma forma que eu havia pensado, ficou claro para mim o tamanho do problema.
Nunca falávamos sobre HIV em casa, nas escolas, em restaurantes, cafés ou bares. Era um assunto que simplesmente não fazia parte das conversas
Foi então que decidi usar a plataforma que eu tinha por meio do esporte, do rugby, para transmitir essa mensagem. Queria influenciar as pessoas e contribuir para a criação de um ambiente melhor para quem vive com HIV, para quem é afetado de alguma forma pelo vírus e, de maneira mais ampla, para construir uma sociedade melhor.
Decidimos fazer isso de várias maneiras: falando sobre o tema na imprensa, em entrevistas e na mídia, mas também realizando ações que ajudassem a quebrar o estigma, como desafios físicos.
H: As pessoas ainda têm essa ideia de que quem vive com HIV se torna uma pessoa frágil e está sempre doente. Acho que esse é um dos maiores estigmas que a doença enfrenta desde que foi descoberta. Mas, trabalhando para ampliar a conscientização sobre o HIV, qual foi a parte mais difícil desse trabalho até agora?
GT: Acho que a parte mais difícil foi reeducar as pessoas. Quando alguém tem uma visão estigmatizada, isso acontece porque acredita que aquelas informações são verdadeiras.
Depois, vem o desafio de fazer com que elas me escutem e entendam que não estou dizendo isso porque vivo com HIV e quero que me tratem melhor. Estou dizendo porque são informações verdadeiras, baseadas em fatos.
Há pessoas que carregam esse preconceito por causa de mitos transmitidos de geração em geração ou simplesmente porque nunca tiveram acesso à informação ou oportunidade de conversar sobre o assunto. A situação é ainda mais difícil em determinados países, onde a religião exerce uma influência muito forte e onde o impacto do HIV sobre a comunidade gay faz com que um homem soropositivo seja automaticamente visto como gay.
Quando esse fator religioso entra em cena, tudo se torna muito mais complicado. E ainda vivemos em um mundo em que, em 63 países, ser gay é ilegal.
Por isso, quando as pessoas têm medo de serem associadas à homossexualidade por causa do HIV, elas também passam a evitar fazer o teste. E, quando menos pessoas se testam, os números (de casos) acabam aumentando.
O que tentamos fazer com a campanha Tackle HIV é justamente não direcionar nossa mensagem a um único perfil de público. Às vezes, conversar com pais é a melhor maneira de educá-los para que eles possam transmitir esse conhecimento aos filhos. Em outras ocasiões, falar com os avós também é uma excelente estratégia, porque a informação acaba sendo passada de geração em geração.
H: Ao longo dos anos, você percebeu alguma melhora na aceitação dessas informações? Você acha que a situação está melhor hoje do que quando começou esse trabalho?
GT: Sim. Todos os anos, quando realizamos nossas ações, fazemos pesquisas para medir os resultados. Mas perceber que estamos em um lugar melhor não significa que estejamos em um lugar bom.
Quando olhamos para o cenário global e para o estado do mundo, vemos que a discriminação está se tornando, em muitos casos, um comportamento quase aceito, legitimado por pessoas muito poderosas. E isso acaba se espalhando pela sociedade.
Foi por isso que, tanto como integrante da campanha quanto agora, participando da Conferência Internacional sobre Aids aqui no Brasil, percebi o quanto o combate ao estigma continua sendo necessário e importante — e precisará continuar sendo.
H: foi mais difícil assumir publicamente que era gay enquanto jogava rugby ou revelar que vivia com HIV?
GT: Acho que as duas experiências têm muitas semelhanças. O que sempre tentei mostrar às pessoas é que nem a minha condição de saúde nem a minha orientação sexual definem quem eu sou.
Elas não definem minha capacidade, não definem minha personalidade e não determinam do que sou capaz. Ao mesmo tempo, as duas situações se parecem muito por causa das ideias e percepções que as pessoas têm sobre alguém que é gay ou sobre alguém que vive com HIV.
Foi por isso que usei o esporte para derrubar essas barreiras de percepção, para mostrar que aquilo que as pessoas acreditam que gays ou pessoas vivendo com HIV podem ou não fazer simplesmente não corresponde à realidade.
Usei o rugby como uma ferramenta para desafiar e desconstruir esses preconceitos
Nós buscamos conscientizar e educar a sociedade porque, por algum motivo, muitas pessoas acreditam que aspectos da vida privada de alguém — como sua sexualidade ou seu estado de saúde — são informações das quais elas têm o direito de saber ou opinar, quando, na verdade, isso não é da conta de ninguém além da própria pessoa.
H: Ainda hoje me parece muito difícil para atletas de qualquer modalidade assumirem publicamente que são gays, bissexuais ou parte da comunidade LGBT. Acho que isso não acontece apenas no rugby, embora a situação tenha melhorado. Aqui no Brasil, o futebol é enorme e não temos nenhum jogador assumidamente gay.
Você se lembra de como foi esse momento para você? E, lendo a sua biografia, fiquei pensando se foi ainda mais difícil por você ser capitão da equipe. Afinal, você tinha a responsabilidade de liderar o grupo e talvez tivesse medo de perder o respeito dos outros ou algo do tipo.
GT: Sim. E acho que esse é justamente um dos maiores problemas: o medo. E é o medo do desconhecido. Quando eu tornei pública a minha homossexualidade, também não havia jogadores de rugby assumidamente gays. Então, o verdadeiro problema é esse medo do desconhecido. E esse medo poderia ser eliminado pelos órgãos que administram o esporte e pelas pessoas responsáveis por essas modalidades.
Dois dias depois de eu anunciar publicamente que era gay, a União de Rugby do País de Gales, que é a entidade que administra o rugby no país, me chamou para uma reunião e perguntou: “Existe alguma coisa que possamos fazer por você agora?”
E eu respondi: “Agora não há mais nada que vocês possam fazer por mim, mas agradeço por perguntarem. O problema é que havia muita coisa que vocês poderiam ter feito antes.”
Havia muito que poderia ter sido feito para que eu nunca chegasse a pensar que talvez precisasse tirar a própria vida por acreditar que meu futuro estava determinado. Havia muito que poderia ter sido feito para que eu nunca cogitasse abandonar o rugby, porque saberia que existia um ambiente seguro e protegido para mim dentro do esporte.
É preciso criar um ambiente permanente em que um jogador de futebol — ou qualquer atleta profissional — seja julgado apenas pela sua capacidade esportiva. Um ambiente em que ele não passe o resto da vida com medo de sofrer discriminação por algo que não tem absolutamente nenhuma relação com seu desempenho: a sua orientação sexual.
Acredito sinceramente que deve haver tolerância zero à discriminação
Seja a discriminação vinda das arquibancadas, das redes sociais, dos jornais ou de qualquer outro lugar. Porque tudo isso alimenta o medo: o medo do que as pessoas vão pensar caso alguém seja gay, o medo de perder patrocinadores, de ficar isolado, de perder amigos.
H: Acho que o medo do desconhecido é algo comum para qualquer pessoa gay ou LGBT, mas nem consigo imaginar como isso deve ser para alguém que vive do esporte.
GT: Concordo. E acho que existe outra questão, que é difícil de explicar. O medo do desconhecido existe porque o desconhecido é, de fato, uma realidade. Mas o medo que nós criamos costuma ser muito maior do que a realidade em si. Nós ampliamos esse medo porque precisamos justificar para nós mesmos por que estamos mentindo.
H: Se você pudesse deixar uma mensagem para os jovens — sejam eles pessoas vivendo com HIV ou jovens LGBT que ainda têm medo de se assumir —, o que diria?
GT: Eu diria que sejam autênticos.Se você quer ser a melhor versão de si mesmo ou alcançar o máximo do seu potencial, nunca conseguirá fazer isso sem viver de forma plenamente autêntica.
A autenticidade permite que você aprenda. Permite que você erre e cresça com esses erros. Por isso, minha mensagem é: não chegue ao ponto de olhar para trás e carregar arrependimentos por causa de algo que nunca definiu do que você era capaz.
H: Concordo cem por cento com essa mensagem. Foi exatamente a minha experiência também.