Terceira artista incumbida da missão de lotar a Praia de Copacabana, Shakira subiu ao palco do Todo Mundo No Rio no último sábado (2) para uma apresentação que exaltou o povo da América Latina do início ao fim e reuniu 2 milhões de pessoas na orla carioca. Mais que isso, a estrela colombiana aproveitou a oportunidade e usou o maior show de sua carreira para provar, mais uma vez, o amor e gratidão que tem demonstrado desde o início ao Brasil.
É impossível não traçar alguma comparação com as duas artistas que precederam a colombiana. Mas, enquanto Madonna e Lady Gaga também reverenciaram pontualmente o Brasil com participações, discursos e/ou looks temáticos em suas apresentações, a colombiana foi até agora a que se mostrou mais grata pela oportunidade. Desde o anúncio, ela publicou uma série de conteúdos exaltando nosso país e reforçando o tanto que ela conhece e ama tudo que é referente ao Brasil.
Essa devoção transpareceu tanto na escolha dos figurinos confeccionados pela ETRO, cuja maioria trazia tons de verde e amarelo ou a bandeira do Brasil customizada, quanto da setlist, em boa parte inspirada na sua turnê mais recente, Las Mujeres Ya No Lloran (que inclusive estreou por aqui, como contamos). <as, desde o início, os gritos de “Sha-Sha-Shakira La-La-Latina” durante o hit “Girl Like Me” já ditavam o tom da noite, que em muitos aspectos lembrou a exaltação à América feita por Bad Bunny no SuperBowl.
Apesar de ter versões reduzidas (“Empire”) e/ou remixadas (“Whenever Wherever” com guitarras e levada mais rock) de alguns hits, algo que desagradou parte do público, a artista abriu espaço para surpreender o público com alguns mimos nacionais, fugindo do óbvio na escolha de participações especiais e do que cantaria com elas.
Caetano Veloso e Maria Bethânia subiram ao palco em sequência para cantarem “Leãozinho” e “O que é, o que é” (Gonzaguinha). Shakira ficou à beira das lágrimas em ambas e o público também. Houve alguns problemas de sincronia e harmonização com Bethânia, mas tentar comparar a voz da brasileira com qualquer outra é sacanagem.
Ivete Sangalo, com quem a colombiana mantém amizade pública há mais de uma década, foi a surpresa meio que esperada. Juntas, elas aumentaram ainda mais a energia da noite com “País Tropical” (Jorge Ben Jor), enquanto Veveta pedia pro público pular: “É carnaval da Shakira!”.
Já ao lado de Anitta, com quem ela tinha lançado há poucos dias a parceria “Choka Choka”, Shakira deu um espetáculo pop com energia dançante, coreografia (ainda que tímida) e um encontro que vai ficar na história das areias de Copcabana. Agora como convidada com voz, Anitta provou também que está mais do que pronta para subir ao maior palco do Brasil.
Ciente do seu papel para o povo latino e da sua importância nessa cultura, Shakira reforçou o vínculo específico com o Brasil quando discursou mais tarde sobre a surpresa de descobrir que 40 milhões de lares brasileiros são sustentados por mães solo. O tema já tinha sido abordado em um artigo que ela publicou n’O Globo, mas ver a voz da colombiana declarando com a voz embargada “eu sou uma delas” foi mais significativo ainda.
Ao longo da noite, a bateria da Unidos da Tijuca bateu tambor no palco e o grupo Dança Maré chegou para a aguardada apresentação conjunta de “Waka Waka”, uma promessa de anos desde que a versão coreografada por Raphael Vicente na Maré viralizou até a Colômbia. “Rapha? Cadê o Rapha? Vem cá, Rapha!”, disse Shakira, antes de abraçar o dançarino/influenciador.
Shakira, Rio e as muitas versões de um mesmo show
Há três versões do Todo Mundo no Rio que precisam ser levadas em conta: o show que passa na TV, cujo impacto depende muito da edição ao vivo e da qualidade do som e da imagem; o que é exibido nos telões da praia, sujeito à sincronicidade da transmissão e ao trabalho de enquadramento da câmera; e aquele que o público da frente assiste, sem a necessidade de nenhum meio intermediário para ter uma visão limpa do palco e do conceito proposto pelo artista.
Existe também um quarto ângulo, talvez o mais viral deles, dos shows na Praia de Copacabana: as filmagens de quem consegue um camarote no Palace ou em algum apartamento alto da Avenida Atlântica. Nelas, é ´possível ter a dimensão completa do impacto de milhões de pessoas cantando hits pop e batendo leques em uníssono.
Nas redes sociais, pelo menos dois desses modos de transmissão parecem ter prejudicado o show de Shakira: a edição transmitida ao vivo pelo Globoplay e pela Globo teve momentos de cortes frenéticos que diminuíram o impacto das apresentações; além disso, os 16 telões espalhados pela areia muitas vezes cortavam a cantora, o palco e os dançarinos, atrapalhando de forma irremediável a experiência do público em algumas músicas.
Sim, é verdade que alguns erros partiram da própria produção. Logo no início, o intervalo de quase cinco minutos entre o show absurdo de drones e o início da apresentação diminuiu o impacto que o espetáculo criado em parceria com a equipe do Studio Drift poderia ter tido em manter o público animado. Ainda assim, o esforço foi louvável.
Não contente em ocupar as areias de Copacabana, Shakira trouxe uma inovação até então inédita e resolveu estender o espetáculo até o céu do “altar do mundo”, como a prória descreve a praia. A imagem da loba gigante uivando ao lado da lua cheia, unindo tecnologia e natureza, foi de arrepiar. O detalhe da projeção dos olhos que só eram vistos pela câmera do celular também merece destaque pelo fator surpresa, que acrescentou uma camada ainda maior de grandiosidade ao espetáculo todo.
Há também algumas escolhas criativas de gosto meio duvidoso, como o uso excessivo de IA nos interlúdios e o próprio conteúdo de alguns (os 10 mandamentos da loba, por exemplo). Mas ainda assim, esse é um problema de preferência pessoal da artista e de parte do público, que pode não se identificar com o que vê.
Com a confirmação de que o Todo Mundo no Rio vai durar até pelo menos 2028, é preciso manter em mente que o formato do evento foi desenvolvido como uma vitrine da cidade e não do artista. Shakira, até agora, parece ter sido a que melhor entendeu e se rendeu a esse conceito.
