Coroando uma campanha de marketing surpreendente, excitante e exemplar, Madonna finalmente jogou pro mundo o Confessions II, “irmão espiritual” do seu disco de mesmo nome que foi lançado em 2005 e é considerado um dos pontos mais altos de sua longa, longeva e respeitada carreira.
Com 16 faixas que se estendem por pouco mais de 1 hora, a Rainha do Pop reclama seu trono como maior autoridade das pistas de dança (é dela o recorde de mais #1’s nas paradas de Dance Club da Billnboard — foram 50 músicas no topo do chart!). E, como tem feito desde 1990, quando lançou “Vogue” no auge da crise causada pela Aids, mais uma vez ela mira exatamente no seu público LGBTQIA+ com um trabalho que, apesar de feito para dançar e se divertir, também tem um forte aspecto crítico e político, ainda que muitos não consigam enxergar.
Confessions II é um projeto musical coeso, provocante, ousado, original e atual cujo mérito é igualmente devido a Madonna e Stuart Price. E, por mais que tenha sido anunciado como uma continuação do primeiro e aclamado volume lançado originalmente em 2005, é algo que nenhum dos dois conseguiria fazer nem individualmente nem com outras colaborações.
Desde os primeiros indícios que poderia sair dos sonhos dos fãs e da lista de projetos inacabados da Rainha do Pop, Confessions II foi automaticamente visto como um “fan service” para agradar os seguidores fiéis de Madonna com um retorno a uma de suas principais e mais aclamadas eras; ou, como muitos críticos apontaram, um trabalho que atestaria a falta de originalidade da artista, que agora precisava “requentar seus tacos” e recorrer a fórmulas do passado pra “hitar” de novo.
A boa notícia é que Confessions II nega logo de cara qualquer uma dessas expectativas para deixar claro que não é nada do que o público queria, pedia ou apostava. Ouso dizer inclusive que, no futuro, esta vai ser a “confissão” de Madonna mais aclamada pela crítica.
Isso porque a trajetória recente da Rainha do Pop foi difícil e cheia de percalços, com mais erros do que acertos no que diz respeito até entender hoje, nos seus 67 anos, qual o papel que ela quer, pode e deve ocupar na cultura – seja ela jovem, LGBTQIA+ ou geral. E a campanha do Confessions II deixou claro que agora ela finalmente encontrou seu lugar numa indústria que em nada lembra aquela de quando ela conseguia hits pelas rádios, pelo VMA ou por videoclipes e shows tão disruptores que provocavam debates públicos de Washington ao Vaticano.
Confessions II é quase todo, mas quase mesmo, pensado e feito para as pistas de dança, com faixas como “Danceteria” (um dos pontos altos, se não o ponto mais alto! do álbum), “Love Sensation” e “School”, que passeiam por vertentes atualíssimas da música eletrônica e tornam a bateção de cabelo instintiva e irresistível. Inclusive, é a própria Madonna quem decreta em “Love without words”: “Chame isso de trance. Chame isso de house. Chame de techno. Chame de amor sem palavras”.
De fato, importa mesmo qual subgênero da eletronic dance music (EDM) ela está usando de guarda-chuva dessa vez? A resposta é não. Em Confessions II, Stuart Price repete sua habilidade de entregar uma produção tão meticulosa, refinada, de referências variadas e inspiradas que é difícil escolher algum rótulo capaz de encaixá-lo, inclusive porque ele também passeia por várias BPMs ao longo da mesma faixa e, às vezes, no mesmo refrão.
No fim das contas, quando falamos de Madonna, estamos falando de uma mulher que se joga em tudo o que seu ouvido consegue alcançar e já lançou faixas de hip hop nos anos 1980; misturou Prince e Elvis Presley em uma suruba com homens pelados nos anos 1990; dividiu palco com hologramas dos Gorillaz nos anos 2000; fez uma música sobre crise climática com o Timbaland na década seguinte; e, há apenas sete anos, gravou um funk lusitano cantando baixarias em português e dividindo vocais com Anitta.
Isso tudo pra dizer que, sim, Confession II é um disco que segue as mesmas intenções do seu primeiro volume ao incitar que o ouvinte dance e dance e dance até suar a camisa, mas se difere do seu antecessor por beber de outras fontes e vertentes das músicas dance e eletrônica . O novo lançamento consegue atingir o legado do Confessions de 2005 ao criar um som que já pode ser considerado atemporal – faixas como “Bizarre”, “Danceteria” e “Love Sensation” têm potencial de conquistar pistas de dança por décadas, sejam elas de antes ou adiante na linha do tempo atual, tal qual “Sorry”, “Jump” e “Hung Up” tocam desde 2005 nas baladas e sempre conseguiram/conseguem/conseguirão botar as gays pra dançar.
Mas apesar dessa intenção, Confessions II traz algo que Madonna não estava pronta ou disposta a entregar no primeiro volume. Algo que ela avisou em “Bring Your Love”, sua parceria com Sabrina Carpenter que foi também o primeiro single oficial do álbum, quando disse: “Eu tenho algo pra confessar / falar sobre”.
Aos 67 anos, Madonna não tem mais por quê esconder o que realmente sente sobre certas coisas, e mergulhar de cara numa verdade que começou a revelar em Rebel Heart. Agora, ela até pode ter voltado pra pista de dança, onde começou sua carreira e sempre pertenceu, como faz questão de frisar nesse álbum, mas também leva pra balada as lágrimas e angústias que carrega sobre questões pessoais e todas as inseguranças, vulnerabilidade e emoções íntimas que vêm no pacote.
Essa é a faceta humanda de Madonna que ela mais tenta esconder do público, que raramente faz barulho na mídia, mas que, ao mesmo tempo, sempre esteve presente em sua discografia e é cuidadosa e carinhosamente acompanhada pelos fãs mais atentos.
Na segunda metade do Confessions II, Madonna mostra mais uma vez que é a maior iconoclasta do pop e confessa, por exemplo, a complexidade e profundidade de tudo o que sentiu com a morte do irmão, Christopher Ciccone, em 2024. No mesmo dia que descobriu que sua situação, quando ele já estava em cuidados paliativos e apenas aguardando a morte, ela entrou no estúdio, compôs e gravou “Fragile”, música em que narra sua relação com ele desde a infância através de versos como “Eu sei que você está frágil/ Porque você foi machucado e decepcionado/ Você não podia ser você mesmo agora/ […] Você apareceu pra mim em um sonho / Você disse ‘não esqueça de mim’/ ‘Não esqueça de ser feliz'”; admite as diferentes traições românticas e afetivas em geral que viveu ao longo da vida por ser rica e famosa, em “Betrayal” (“Essa é uma história sobre traição/ […] Você nunca vai ocupar o lugar da minha mãe”); e o amadurecimento de também assumir, aceitar, amar e se orgulhar do papel de mãe que assumiu há décadas .
Ouvir a Madonna-mãe, uma das suas muitas facetas que só se apresenta eventualmente por ensaios de moda ou livros infantis, é um raro e quase inédito deleite para os fãs e, para o público geral, um banquete de empatia que humaniza a maior popstar do planeta. “The Test”, música que marca sua primeira parceria com a primogênita Lourdes Leon, traz uma produção menos parecida com o primeiro Confessions do que com Ray of Light, seu outro álbum aclamado que até hoje é considerado um marco da música pop e pelo qual os fãs também imploram há anos por um “segundo volume” em parceria com o produtor William Orbit. Não coincidentemente, esse foi o primeiro disco que ela lançou depois de incluir “mãe” entre os muitos rótulos que assumiu na vida pública.
Todas essas “confissões”, por mais que tenham cargas psicológicas e emocionais pesadas, são quase todas ditas em sussurros, sobre as batidas sempre envenenadas, mas nem sempre necessariamente frenéticas, de Stuart Price. Depois de viver e ser tudo o que viveu e foi, Madonna não quer apenas usar a pista de dança para festejar e esquecer o mundo. Ela reconhece que uma boa balada pode, sim, ter essa função, mas hoje ela também sabe que não dá pra correr eternamente da dor que está dentro da nossa cabeça e do nosso coração e que faz nossos pés dançarem até de manhã, como os dela já dançaram um dia.
A diferença de 2005 pra hoje é que, agora, Madonna sabe e nos ensina como a pista de dança pode ser um refúgio de fuga dos problemas, mas também pode ser o ringue que usamos para enfrentá-los e celebrar que, apesar de ainda doer, conseguimos superá-los.
Ao enaltecer as pistas de dança, Madonna retoma o seu passado como uma artista iniciante no Lower East Side de Nova York (o que ela conta e canta na delicadíssima “L.A.S. Girl”), mas também usa essas memórias para lembrar seus fãs e a si mesma da importância social e emocional que uma balada tem, por mais que isso possa parecer para muitos uma declaração superficial.
E, mesmo que seja a reordista das pistas de dança com sucessos que vêm desde o início da sua carreira, ela nunca deixou de exaltar esse aspecto da cultura e vivência não só da população LGBTQIA+, mas de todas as pessoas marginalizadas, como ela foi um dia quando era apenas uma mulher pobre que tentava construir seu sonho na maior metrópole do mundo em plena década de 1980.
Confessions II e a importância da pista para pessoas LGBTQIA+
A prova mais recente disso é “God Control”, uma gema subestimada na discografia de Madonna, esquecida por ter nascido em meio à bagunça do Madame X. No clipe dirigido pelo mestre Jonas Åkerlund, Madonna revive momentos da sua própria juventude como uma mulher que sai pra ser feliz na noite e é agredida a caminho da boate. Rapidamente, ela encontra conforto e refúgio em amigas “da noite” com quem decide se jogar na pista de dança.
Ainda que tenha uma estética disco e pop, o vídeo de “God Control” é claramente um protesto contra a política de acesso às armas de fogo dos Estados Unidos e foi diretamente influenciado pela tragédia da boate Pulse. Um dos principais pontos gays de Orlando, a Pulse foi invadida em 12 de junho de 2016 por Omar Mateen e se tornou palco de um dos maiores massacres na história dos EUA. Motivado apenas pelo ódio a pessoas LGBTQIA+, o terrorista abriu fogo contra o público da balada e matou 49 pessoas, deixando outras 58 feridas.
Madonna faz uma releitura desse episódio no clipe de “God Control” e ao mesmo tempo mostra a importância que a cena noturna tem não só na vida de pessoas LGBTQIA+, mas na de “deslocados”, no geral. É uma carta de amor, de desculpas e de revolta pela forma como um espaço de acolhimento e liberdade foi maculado pela violência e pelo ódio a quem é diferente.
A espinha dorsal de Confessions II parece nascer exatamente daí, como uma forma consciente de venerar, valorizar e divulgar esses espaços onde você pode “se esconder nas sombras”, “criar uma nova persona, uma nova identidade” e “ser quem quiser ser”, como ela canta em “I Feel So Free“.
Não coincidentemente, “I Feel So Free” foi o primeiro teaser de Confessions II e é também a faixa que abre o disco. “É perigoso para apenas uma pessoa. / Não é um sentimento legal. / Mas aqui, na pista de dança, eu me sinto tão livre”, canta Madonna.
Desde que foi lançada em meados de abril, essa música penetrou meu cérebro e não quis mais sair dali, especialmente por causa dos versos “That’s why I like to go dancing / Safety in numbers / It’s dangerous with just one person (“É por isso que eu gosto de sair pra dançar / Segurança em números / É perigoso com só uma pessoa”).

Desde que ouvi esses versos de “I Feel So Free”, especialmente o que fala sobre se sentir seguro em um grupo, não consegui parar de pensar em como as boates e baladas são, de fato, os espaços onde mais podemos ser livres para assumir nossas sexualidades, identidades, estéticas e personalidades LGBTQIA+ verdadeiras, sem julgamentos. São nessas poucas horas entre o auge da lua e o nascer do sol que nos sentimos completamente confortáveis para usar as roupas, passar as maquiagens, falar gírias com vozes soltas e agir sobre os impulsos que somos forçados a incubar ao longo da semana por medo da rejeição, da hostilidade e da punição que nosso jeito “sem filtro” pode provocar se emergir.
Em “One Step Away”, Madonna repete essa ideia em versos como “As pessoas acham que a dance music é superficial, mas elas estão erradas. / A pista de dança não é só um lugar, é um abrigo / Um lugar ritualístico onde o movimento substitui a palavra”.
Se você é uma pessoa não-heterossexual e/ou não-cisgênera que cresceu e viveu em um mundo e em um Brasil que era muito menos receptivo à diversidade do que é hoje, você provavelmente deve se lembrar da primeira vez que foi a um bar, sauna, boate ou qualquer espaço que fosse majoritaria e abertamente LGBTQIA+. Esses lugares realmente são pontos ritualísticos, como bem apontou Madonna, onde você pode “soltar a franga”, “desmunhecar”, “dar pinta”, “fazer aloka”, “servir cunt” ou agir de acordo com qualquer outra gíria geracional que essencialmente significa “ficar à vontade para agir, falar e fazer o quê e como quiser, sem ter medo de ser repreendido, mas sabendo que será celebrado por isso”.
Décadas atrás, bares, boates, saunas e fervos LGBTQIA+, como as Casas e os Balls de voguing dos anos 1980/90, que mais tarde dariam lugar às raves e aquilo que hoje chamamos de techno, surgiram dessa necessidade. A cena “descolada” e “vanguarda” criada por pessoas LGBTQIA+ nasceu exatamente porque precisávamos construir e sentir um senso de “comunidade”, principalmente porque muitos de nós fomos expulsos de nossas casas cedo demais e não tínhamos mais uma família “de sangue” na qual nos apoiarmos. As festas sempre foram necessárias porque, mesmo que durasse apenas algumas horas, essa confiança que uma música, uma dança, um grito e/ou uma bateção de leque conseguem embutir nos nossos corpos e na nossa mente nos ajuda até hoje a ter forças pra levantar da cama, lutar e sobreviver no dia seguinte.
E Madonna sempre entendeu isso. Não só como a pista de dança era importante para a nossa comunidade, mas como nossas necessidades e identidades iam além das festas e da alegria que a gente demonstrava e/ou performava nos fins de semana. Essa aliança sempre existiu, mas ficou mais clara ainda quando ela, ainda no que hoje pode ser considerado o início da sua carreira, usou dinheiro do próprio bolso para suprir uma lacuna do governo dos EUA e imprimir no encarte do seu disco um folheto com informações sobre como se prevenir de e buscar tratamento para HIV/Aids.
Madonna estende pra longe um legado que já ´é gigante
Em junho de 2023, logo antes de terminar a Celebration Tour, a mesma que trouxe ao Brasil menos de um ano depois, Madonna deu um susto nos fãs e no mundo inteiro quando contraiu uma infecção bacteriana que evoluiu para sepse e acabou evoluindo para um coma induzido que a deixou inconsciente por quatro dias.
A possibilidade de perder Madonna espantou muita gente, mas, objetivamente, muitos acharam que ela já tinha deixado um legado considerável para ser lembrada por décadas e décadas à frente. Se tivesse terminado sua jornada carnal naquela época, a Rainha do Pop já estaria cimentada na história como uma pioneira incomparável e que precisaria ser eternamente respeitada na música, no Pop e na indústria do entretenimento, tal qual outras lendas que nos deixaram muito cedo, tipo Whitney Houston, Kurt Cobain, Amy Winehouse, Janis Joplin e, especialmente no Brasil, Marília Mendonça, Mamonas Assassinas e Paulo Gustavo etc..
Mas não, Madonna não só sobreviveu ao susto que mataria muitas pessoas mais jovens que ela, como também fez questão de terminar a turnê que estava fazendo durante a internação, cantar sobre o episódio ao lado de Kylie Minogue (um favor generoso aos fãs!), apresentar o maior show da sua carreira em Copacabana e, agora, nos presentear com o que ela chama de “irmão espiritual” de um dos seus melhores, mais elogiados e importantes discos para a cultura.
E não é só pela qualidade musical que Madonna marcou a cultura pop e mundial quando lançou Confessions On a Dance Floor em 2005. Foi porque, mais uma vez, ela desafiou o que a sociedade esperava de uma mulher e os limites que elas tinham até então sobre a própria sexualidade, sensualidade e liberdade quando atingiam mais de 40 anos (na época do lançamento, ela tinha 47).
Com seu collant rosa, sua franja escovada e seus passos de dança ousados e fisicamente desafiadores, Madonna se tornou a primeira popstar a mostrar que era possível criar hits no modelo de música, imagem e discurso que ela inventou e que, desde que começou a carreira artística décadas antes com “Burning Up” (1983), contestava e incomodava o establishment do patriarcado.
Claro, Madonna não era e ainda não é a única diva titã do pop que está viva e produzindo. Outras de suas contemporâneas, veteranas ou novatas diretas, como Dolly Parton, Cher, Janet Jackson, Mariah Carey, Céline Dion e Cindy Lauper, também seguem até hoje com carreiras e agendas agitadas e eventualmente lançam algum material inédito. Mas nenhuma delas, nem as que vieram antes nem as que vieram depois, se mostra disposta a não apenas se inserir, mas redefinir a cultura pop como Madonna.
Confessions II é a prova magnânima de que a Rainha do Pop tem esse título porque merece e consegue mantê-lo, mesmo às vésperas de completar 68 anos, uma barreira etária que até então parecia intransponível para uma popstar, mas que em breve vai parecer apenas mais uma porta a ser atravessada, graças à sua coragem, determinação, força e à já endossada visão criativa singular.