Recém-coroada a vencedora da 11ª temporada de RuPaul’s Drag Race: All Stars, Crystal Methyd chega ao Brasil no próximo sábado (29) para se apresentar como headliner do The Realness Festival, em São Paulo.
“Ainda estou fazendo a minha tour da vitória”, comemora a club kid e fashion queen, em entrevista à Híbrida.
Crystal Methyd ganhou destaque quando passou pela 12ª temporada de RuPaul’s Drag Race, em 2020, ao apresentar uma estética camp, com looks mirabolantes, excêntricos e bem elaborados e seu humor nonsense. Nascida em Springfield, no Missouri, e de descendência mexicana, ela começou sua carreira criando no bar hétero da cidade uma “noite das club kids”, como a própria descreve, para poder se apresentar.
Em Drag Race, Crystal rapidamente chamou a atenção pela montação e o carisma, chegando até a final da temporada com Gigi Goode e Jaida Essence Hall. Apesar de não ter vencido (daquela vez), ela fez do limão uma limonada.
Restrita a uma performance final em vídeo por causa do isolamento durante a pandemia da covid-19, conseguiu marcar a história do programa com um lip synch de “I’m Like a Bird” (Nelly Furtado), no qual olhou o campo nos olhos, se vestiu literalmente de um pássaro e regurgitou na própria boca.
Seis anos depois, Crystal retornou à franquia para a 11ª temporada de RuPaul’s Drag Race All Stars, agora com a experiência de quem já entendia o nível do favoritismo que conquistou entre os fãs do programa e assumindo novamente excentricidade em uma assinatura artística. Em 17 de julho, ela finalmente levou a coroa há muito merecida.
“Tem sido umas semanas muito divertidas. Tenho viajado para todos os lados e conseguido encontrar muitos dos meus amigos, que têm sido muito carinhosos e me dado muito apoio”, conta.
Abaixo, Crystal conta como tem se adaptado ao posto de rainha do 11º All Stars, as lições que passa adiante como Mãe da Casa Get Dusty, o impacto que o segundo mandato de Donald Trump teve na cena queer e a única coisa que ela teve coragem de fazer em seu primeiro show no Brasil, mas pretende tentar desta vez.
HÍBRIDA: Acho que primeiro quero te parabenizar pela vitória. Ainda é tudo muito recente. Como você está se sentindo?
CRYSTAL METHYD: Bom, obrigada. Sim, ainda está tudo muito recente e acho que a ficha nem caiu completamente.
Tem sido umas semanas muito divertidas. Tenho viajado para todos os lados e conseguido encontrar muitos dos meus amigos, que têm sido muito carinhosos e me dado muito apoio.
Então, ainda estou fazendo minha pequena turnê da vitória e sinto que vou continuar nesse estado de êxtase quando estiver de volta ao Brasil, porque estou realmente vivendo meu momento. Sei que o público vai me receber com muito amor.
H: Esta é a sua segunda vez como finalista, mas a primeira foi durante a pandemia. E foi ótima porque nos deu o icônico momento de “I’m Like a Bird”. Desta vez, entretanto, você tinha pessoas ao vivo com você. Foi diferente fazer o lip sync diante da RuPaul e do público?
CM: Bom, sempre dá um frio na barriga se apresentar na frente da RuPaul e, claro, fazer a final no palco principal foi algo que eu nunca tinha feito antes.
Mas não, ainda foi muito divertido.
Sou grata por ter (dedos cruzados) sido a única finalista a fazer uma final pelo Zoom. E sou grata porque, apesar de todos nós estarmos passando por aquele momento difícil, pelo menos tive a oportunidade de usar minha criatividade e ir além das expectativas que todo mundo tinha sobre como seria a final.
Então, isso é uma das minhas coisas favoritas que pude fazer no programa. É algo que nunca mais vai acontecer.

H: Os fãs também adoraram, então você não é a única que se sente assim. Eu não sabia que você também tinha feito uma audição para a 11ª temporada. O que você acha que mudou na sua drag, na sua arte, entre aquela época e agora? O que fez você se tornar uma vencedora, depois de ter sido finalista?
CM: Bom, na primeira vez que fiz a audição para o programa, eu não tinha nenhuma intenção de conseguir participar. O processo do programa é muito longo. Você precisa criar o vídeo de audição, que envolve perguntas de entrevista, uns 14 looks, eles fazem você preparar uma esquete, pedem para você criar alguma coisa de papel… São tantas coisas que eu pensei: “Ok, vamos tentar e ver como é”.
E acho que passar por todo o processo da 11ª temporada me deixou com a cabeça voltada para a 12ª durante o ano inteiro. Então, em vez de gravar meu vídeo durante um único fim de semana para enviar a inscrição, eu estava gravando conteúdo em todos os shows, juntando minhas coisas e preparando ao longo do ano inteiro.
Não foi algo planejado demais; foi uma fita muito orgânica, mostrando simplesmente o que eu estava fazendo. Acho que foi isso que a diferenciou.
Mas também acho que ser finalista da 12ª temporada colocou muitas expectativas sobre mim em relação a entregar uma grande arte, bons looks de passarela e bom desempenho nos desafios. Então, eu sabia que queria ter um momento para realmente crescer, para que, quando voltasse, houvesse uma diferença clara em relação à minha temporada original.
E acho que esperei exatamente o tempo certo. A principal mudança foi simplesmente o nível de confiança.
Na sua primeira temporada, você ainda não foi exposta ao mundo e não sabe como as pessoas vão reagir a você. E as pessoas também não conhecem você. Então, tudo é um mistério. Desta vez, foi mais como: “Eu já sei que meus fãs estão por aí. Sei que eles vão gostar de mim de qualquer maneira”.
E, claro, eu não sabia que a RuPaul estava se divertindo tanto comigo na minha temporada. Eu estava tão deslumbrada o tempo inteiro! Então pensei: “Ah, a RuPaul vai querer brincar comigo. Vai ser mais divertido”. Eu estava despreocupada e pronta para me divertir.
H: Uma das suas “filhas” (Daya Betty, na 14ª temporada) também esteve em RuPaul’s Drag Race. Como mãe da família Get Dusty, existe alguma lição que você tenta ensinar às suas filhas? Qual seria a primeira?
CM: Sim. A família Get Dusty… Quando eu estava começando, elas eram minhas irmãs. Nós nos incentivávamos a ser melhores na drag, a fazer performances melhores, e devo muito à Daya Betty por me incentivar a tentar ser uma drag queen melhor. Foi muito, muito bom poder torcer por ela em All Stars 10.
E depois de vê-la passar por aquilo e ouvir sobre a experiência dela, eu pensei: “Ah, é óbvio que eu tenho que dizer sim a All Stars 11”. Simplesmente pareceu que era o momento certo.
E ainda temos a nossa irmã Lux Queen. Estamos tentando colocá-la no programa, tentando fazê-la voltar, mas ela ainda não está pronta. E tudo bem também.
H: Mas, falando de maneira geral sobre ser uma drag queen, existe alguma lição — seja sobre maquiagem, criação de looks ou sobre como construir sua própria presença no meio — que você tenta passar para elas?
CM: Acho que o que eu tentei passar para minhas irmãs mais novas foi que eu comecei meu próprio show mensal de drag porque não via as mesmas coisas que eu queria acontecendo na cena local. Então pensei: “Eu vou fazer isso acontecer, porque quero que exista uma noite divertida das club kids”.
Acho que o que tentei ensinar a elas foi: você precisa criar suas próprias oportunidades. Eu tinha meu evento mensal, um brunch mensal, um bingo mensal. E, claro, eu contratava minhas irmãs para essas coisas. Mas chegou um momento em que pensei: “Vocês também precisam fazer suas próprias coisas”.
Lembro que, no começo, ela ficou muito ofendida quando eu disse que deveria fazer outras coisas. Mas acho que, no fim, ela entendeu o que eu estava dizendo. E olha para ela agora: ela está incrível.
H: Eu estava lendo sobre o seu show e vi que você deu uma entrevista falando sobre como a ascensão da extrema direita nos Estados Unidos estava tornando as coisas mais difíceis para artistas queer e drag queens e, agora, estamos vivendo um segundo mandato do Trump. Você percebe alguma mudança nesse cenário, especialmente em termos de negócios? E como você lida pessoalmente com isso?
CM: Meu Deus! Sim. As mudanças estão aí e são muito claras, especialmente depois da temporada do Mês do Orgulho (junho). Você simplesmente percebe que o apoio diminuiu em relação aos anos anteriores, o que é realmente desanimador de ver por parte das grandes empresas americanas.
H: Aconteceu da mesma maneira no Brasil, na verdade.
CM: Ao mesmo tempo, nós ainda precisamos fazer isso. Ainda vamos atrás dessas oportunidades, e as pessoas que realmente estão do nosso lado, esperamos, vão continuar conosco.
Porque, sim, isso está acontecendo. As empresas estão retirando seus investimentos. As Paradas estão recebendo menos dinheiro para realizar seus eventos. É claro que isso é triste, mas acho que nossos verdadeiros aliados vão se posicionar.
H: De fato, eles sempre fazem isso. Existe alguma coisa que você fez quando veio pela primeira vez no Brasil e gostaria de fazer novamente? E alguma coisa que não conseguiu fazer naquela ocasião e gostaria de fazer agora?
CM: Eu adoraria poder assistir a um show de drag. Porque eu simplesmente amo drag. Amo. Eu faria isso todas as noites. Iria a dois shows de drag por noite se pudesse.
E alguma coisa que eu não fiz da última vez… Acho que, na última vez que estivemos aí, alguém fez crowd surf, e eu estava com medo demais. Mas talvez, se eu estiver realmente no clima, eu faça. Sinto que os fãs brasileiros não me deixariam cair.
H: Eu acho que não.
CM: Acho que estou segura com vocês.
H: 100%.