Híbrida
TEATRO

Hugo Bonèmer e o subtexto homoerótico em “O Talentoso Ripley”

Hugo Bonèmer estrela primeira adaptação teatral de "O Talentoso Ripley" no Brasil (Foto: Peter Wrede | Divulgação)

Pela primeira vez nos palcos brasileiros, O Talentoso Ripley chega à sua segunda e última temporada em cartaz no Teatro Laura Alvim, em Ipanema, zona sul do Rio, levando a história de um malandro que atravessou décadas no imaginário popular. Uma mistura de galã e sociopata que vive de dar golpes nos anos 1950, o personagem é vivido por Hugo Bonèmer, que também assina a produção e divide a direção da peça com Kamilla Rufino.

“Eu apresentei essa peça pra dez diretores. Você sabe que houve dois diretores que não entendiam que a peça tratava de assuntos LGBTs? Eu fiquei tão chocado! Porque é tão explícito, é tão nítido”, diz à Híbrida. Na sua montagem, Ripley fala em primeira pessoa para o público, que conhece melhor as motivações do personagem.

Criado pela escritora Patricia Highsmith em 1955, Tom Ripley se tornou um dos personagens mais marcantes da literatura policial do século XX. Golpista sofisticado, capaz de mentir, matar e assumir identidades com extrema naturalidade, ele protagonizou cinco romances conhecidos como Ripliad, e ultrapassou as páginas dos livros para ganhar adaptações marcantes no cinema, na televisão e no teatro.

Na sétima arte, Tom Ripley já foi encarnado por Alain Delon (1960), Dennis Hopper (1977), John Malkovich (2002) e Matt Damon (1999).

Nesta última versão, o diretor Anthony Minghella criou uma versão quase definitiva que, com a ajuda de nomes como Gwyneth Paltrow (Marge), Jude Law (Dickie/Richard) e Cate Blanchett (Meredith) no elenco, se popularizou e ficou no imaginário do público pelas décadas que se seguiram.

Matt Damon (Ripley), Jude Law (Dickie) e Gwyneth Paltrow (Marge) em "O Talentoso Ripley", de 1999 (Foto: Divulgação)
Matt Damon (Ripley), Jude Law (Dickie) e Gwyneth Paltrow (Marge) em “O Talentoso Ripley”, de 1999 (Foto: Divulgação)

Pois é. Ainda que ambientada nos anos 1950, a saga de Ripley tem mantido um apelo perene no século XXI, seja pelas novas adaptações (a Netflix lançou em 2024 uma minissérie estrelada por Andrew Scott) ou pelas inspirações “não-intencionais” (Saltburn, dirigido e produzido por Emerald Fennell, é praticamente uma versão gen Z da história).

“Estamos falando de um cara que, nos anos 1950, podia falsificar a assinatura de uma pessoa e já virava ela. Imagina hoje, com inteligência artificial, redes sociais, aplicativos que simulam a voz de outra pessoa…”, observa Bonèmer.

Por baixo desse anti-herói, entretanto, vive uma série de inseguranças e carências que ele projeta na amizade com o playboy Richard, uma relação com vários tons homoeróticos que são explorados no cinema, na TV e na adaptação assinada por Hugo Bonèmer.

Hugo Bonèmer e elenco em “O Talentoso Ripley” (Foto: Peter Wrede | Divulgação)

Prestes a encarar seu último fim de semana como Ripley e sem previsão de voltar com o personagem aos palcos – Phyllis Nagy, autora original da peça, proibiu a continuação dessa montagem pela forma como o texto de 3h foi editado para 1h40 –, Hugo Bonèmer discute na entrevista abaixo por que Tom Ripley é um personagem atemporal e, sim, vive uma história de amor homoafetivo.

HÍBRIDA: Por que você decidiu adaptar essa história para o teatro?

HUGO BONÈMER: Eu acho que essa história fala sobre ganância e sobre loucura. E eu sinto que falar sobre esses dois temas, nesse momento, é muito necessário.

H: Mas por que esse momento? O que que você vê no estado atual das coisas que faz a peça se encaixar nisso?

HB: Eu sinto que isso habita o nosso cotidiano, né? A necessidade de produzir, de enriquecer… A pergunta que a gente faz hoje no mundo das redes sociais: na vida que as pessoas mostram, o que é verdade e o que não é? Estamos falando de um cara que, nos anos 1950, podia falsificar a assinatura de uma pessoa e já virava ela. Imagina hoje, com inteligência artificial, redes sociais, aplicativos que simulam a voz de outra pessoa…

Eu sinto que tem um um olhar sobre o Tom Ripley, nesse recorte feito pela Phyllis Nagy (autora da peça original), que enfatiza as possíveis motivações também. É o fato de que ele tem um diagnóstico severo de alguma patologia. A gente não tem a pretensão de justificar as ações dele, mas sabe quando no começo do filme do Coringa, é negada a ele a medicação?!

H: Uhum. E aí isso meio que cria empatia pelo personagem.

HB: É, você cria uma ideia de que se não tivessem negado os medicamentos dele, nada daquilo teria acontecido. E o diagnóstico dele, seja qual for, estaria controlado. No caso do Tom Ripley, a gente conhece a fundo uma tia dele (vivida por Laura Gabriela na peça). Ela é extremamente violenta e ultraconservadora e aí você vê como essa tia influencia na forma como ele vai enxergando as coisas. Isso tá muito presente na história.

H: É meio que mostrando como que ele virou o que ele virou?

HB: Talvez mostrar como ele virou seja justamente justificar. E não acho que essa seja a nossa pretensão. É mais sobre não impedir, sabe? O fato de ele ter tido uma tia violenta não impediu que a sociopatia dele viesse à tona dessa forma.

H: Tem um aspecto do filme que é o subtexto homoerótico entre o Ripley e o Rickie. Eles ficam flertando o tempo inteiro, tem uma coisa meio obsessiva entre os dois…

HB: Eu apresentei essa peça pra dez diretores. Você sabe que houve dois diretores que não entendiam que a peça tratava de assuntos LGBTs? Eu fiquei tão chocado! Porque é tão explícito, é tão nítido! Dirigir não era o meu plano. Eu dirigi porque fui escalado para ser ator da peça e, de repente, assumi a produção por uma questão de necessidade.

H: Mas é um aspecto tão explícito, tão nítido, né? Nos primeiros 20 minutos do filme você já vê os olhares entre eles, tem aquela cena da banheira…

HB: Ah, a cena da banheira é icônica! Eu trago a banheira para o cenário da peça, e um dos motivos é justamente fazer esse fan service porque essa é uma cena muito querida pelo público que gosta dos filmes.

Mas a peça e a série da Netflix são muito diferentes do filme. O filme romantizou e gourmetizou a relação dos dois. A Patrícia Haysmith deixa claro logo de cara que o Tom Ripley acha o Richard um idiota. O que o cinema americano fez foi criar uma paixão, enfatizar que existe essa obsessão. E aí a pergunta que a gente faz é: ele realmente ficou encantado pelo Richard? Ou ele só demonstra que tá encantado pelo Richard?

Hugo Bonèmer em “O Talento Ripley” (Foto: Peter Wrede | Divulgação)

H: Eu fui rever o filme essa semana e tem uma fala da Gwyneth Paltrow (Marge) que me pegou bastante, quando ela descreve o charme do Richard: “Quando ele olha para você, quando ele te dá atenção, é como se você fosse a única pessoa do mundo, é como se o sol brilhasse em cima de você”. Como vocês trabalham isso na peça?

HB: É exatamente isso. Inclusive, tem uma fala minha que é parecida. Quando eu descrevo o Richard no começo, eu digo “ele fala comigo sem me deixar falar e quanto mais ele fala, mais eu fico lisonjeado pela atenção dele”. Mas eu tenho a oportunidade de ser um para o Richard e outro para a plateia, que sabe desde o começo quais são as minhas motivações. O público é meu confidente.

H: No início, o Rickie também fica um pouco fascinado pelo Ripley. Ele até fala “se você tirasse os óculos, você seria bonito”. Então, eu acho que parte do Ripley também conseguiu conquistar o Rickie. Vocês chegam a levar essa ambiguidade para a peça?

HB: Com certeza. O Richard fica completamente seduzido pelo Tom, mas não entende o que está sentindo. Então, existe uma possível leitura na nossa montagem de que o Richard poderia ser um cara bi-afetivo, mas ele não está disposto e nem pronto para aceitar isso. O que acontece com o filme americano também. Como a gente assiste àquilo de fora, vemos que esse encantamento é mútuo.

H: O que me traz de volta à cena da banheira. Ali, eu acho que ele chega a entreter a ideia de deixar o Tom entrar na banheira também. E aí você fala que ele é “bi-afetivo” e não tem coragem de agir sobre isso…

HB: Essa é minha leitura enquanto Hugo, vendo de fora. A peça não deixa isso explícito. Eu acho que ele é um cara solto e livre, mas livre na natureza, não no comportamento. Eu sinto que existe uma outra leitura também, que é como eu dirigi o Francisco (Paz, que vive Rickie). O Richard é um cara absolutamente vaidoso e que adora a atenção – como tem muitos héteros que adoram a atenção do amigo gay. Eles sabem que o amigo gay tá completamente apaixonado e aí abraçam, dão beijo no rosto e manipulam… Porque eles adoram essa atenção, né? A questão é que esse cara seduz tanto o Tom, que quando ele vai e rejeita, ele tá lidando com um cara que vai além do limite moral, né? O Tom é um amoral.

Serviço – “O Talentoso Ripley”

Local: Casa de Cultura Laura Alvim – Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema, Rio de Janeiro

Temporada: de 3 a 31 de maio

Sessões: sextas e sábados, às 20h; e domingos, às 19h

Valor: R$70 (inteira) e R$35 (meia entrada)

Duração: 2h

Classificação indicativa: 18 anos

Gênero: suspense/terror

Ingressos aqui.

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