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17 set 2021

DANIELA MERCURY, MAJESTADE DO CARNAVAL: “NÃO VÃO CALAR A ARTE”

A RAINHA DO AXÉ E DA BALBÚRDIA FALA SOBRE ATIVISMO NA POLÍTICA E NA FOLIA, SEM DEIXAR A PETECA CAIR

por JOÃO KER

Quando Daniela Mercury fala ao telefone, não há nenhum sinal de cansaço indicando que ela trabalhou até altas horas da noite anterior gravando um videoclipe com Preta Gil e Quabales para “Balacobaco – Up and Down”. Sempre com alto astral, até quando comenta as políticas discriminatórias do governo atual, ela começa a nossa entrevista falando da importância de apoiar artistas que estão começando e como sempre fez isso, ao longo dos seus mais de 20 anos de carreira.

“Na minha carreira e nos meus carnavais, sempre trago os colegas que não têm o mesmo espaço de mídia, como os blocos afro, que são a base do meu trabalho. É um reconhecimento natural, mas também sempre no sentido de trazer o que é valioso e relevante”, observa.

“Balacobaco” marca a primeira parceria dela com Preta, uma promessa que ambas se faziam há anos e até então não tinham conseguido tirar do papel. Mas além disso, Daniela também está feliz de poder ajudar o Quabales, grupo fundado pelo bailarino baiano Marivaldo dos Santos, com quem ela trabalhou em suas próprias turnês e que usou toda a expertise adquirida após anos em Nova York para criar um projeto de transformação social através da arte.

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“A solista Carol [Oliveira] tem uma voz belíssima, o Vitor [Portella] é um rapper maravilhoso, e eles já estão lá com 400 alunos”, faz questão de pontuar. “É uma música muito interessante e linda, em tom menor com uma beleza melódica e também uma tristeza de fundo, como todo bom samba.” 

Essa não é a única novidade com a qual Daniela entra na próxima década. No ano em que a axé music completa seus 35º aniversário, a Rainha do Axé lança o disco de inéditas “Perfume”, o primeiro desde 2015, com 15 faixas e um remix bônus. “Pensei em algo que pudesse tocar as pessoas diretamente, sem racionalidade. O disco quer conectar a gente e nos lembrar de quem somos”, explica. 

O resgate e a exaltação da memória, cultura e história do povo brasileiro é a saída que Daniela encontrou desde o início de sua carreira, no final da década de 1980, para misturar arte e consciência social. Afinal, o que é “O Canto da Cidade” se não uma canção de amor às raízes baianas e perseverança de um povo com uma força “que ninguém explica”?

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Foi com essa mensagem que Daniela Mercury se tornou um nome inescapável ao longo da década que viria a seguir, expandindo o reconhecimento que já tinha conquistado em Salvador para o resto do País. Naquela época, o axé ainda não havia cruzado as fronteiras do Nordeste de forma tão maciça, e sua presença em rádios, canais de TV, capas de revista e palcos fez com que o ritmo entrasse para a casa e para os corações dos brasileiros, fixando o samba reggae no imaginário popular como sinônimo de carnaval.

Quando querem calar as pessoas, a arte precisa libertar mais do que nunca

– Daniela Mercury

“Era claramente o final dos anos da ditadura militar, por mais que já tivéssemos começado o período democrático. Quando cantei ‘O Canto da Cidade’ no Canecão, a Beth Carvalho veio no camarim, me deu um abraço e disse ‘Você devolveu o samba aos pés do Brasil”. Você sabe o que é ouvir isso de Beth Carvalho? O axé nem tinha esse nome ainda”, relembra.

Um pouco antes de receber a benção da Madrinha do Samba, Daniela já havia se tornado a primeira mulher a liderar um bloco como vocalista principal em cima do trio elétrico, mais de 30 anos após ele ter sido inventado em Salvador por Dodô, Osmar e o Fobica. Agora, com “Perfume”, ela reforça esse título e traz para 2020 a guitarrada elétrica, a percussão e toda a estética sonora dos blocos afro que sempre tocou.

“Muita gente dessa meninada não sabe o que é o ilê ayê, aí eu recupero coisas do meu próprio trabalho, porque a turma não sabe onde começou”, explica. “Há muitas formas de luta contra as nossas opressões históricas. A gente precisa espantar muitos sentimentos e pensamentos ruins, precisamos nos educar continuamente.”

O que não falta ao longo do disco é a identidade musical por qual Daniela ficou conhecida, atrelada às mesmas mensagens de defesa da liberdade e dos direitos humanos que seus milhões de fãs e seguidores estão acostumados a ouvir dela. “Proibido o Carnaval”, sua parceria com Caetano Veloso lançada no início de 2019, é “uma música vibrante e alegre que fala contra o autoritarismo, independente de um governo ou não”.

O single, que entrou para a nossa lista de apostas para a folia do ano passado, faz referências diretas ao discurso da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves sobre “menina veste rosa e menino veste azul”. No final de novembro, “Rainha da Balbúrdia” foi lançada com homenagens à Bacurau” e ao Nordeste, pouco depois de o ministro da Educação Abraham Weintraub ter chamado as universidades públicas de “balbúrdia”.

“O meu canto é a fé em nós, é a força da nossa voz. É a resistência”, ela canta, apoiada por guitarras e bateria poderosas de fundo. “A Rainha da Balbúrdia vem pra reforçar a voz dos professores, dos estudantes”, ela conta.

“Toda vez que o governo dificultar que a sociedade se expresse livremente, é lógico que a arte é um grito de liberdade. E precisa ser. Quando querem calar as pessoas, a arte precisa libertar mais do que nunca, assim como a educação e a imprensa. Ninguém vai conseguir calar a arte.”

FILHA DO ARCO-ÍRIS

Em 3 de abril de 2013, Daniela Mercury usou o Instagram para postar fotos ao lado de Malu Verçosa e anunciar ao mundo seu casamento com a jornalista, enquanto elas curtiam férias por Paris. Por mais que já houvessem boatos sobre sua bissexualidade na imprensa e nos bastidores, e que aqueles próximos a ela soubesse do relacionamento, a decisão de vir a público com suas próprias palavras e em seus próprios termos foi um ato de representatividade e exercício político, vindo de uma das pessoas públicas mais conhecidas, respeitadas e queridas do Brasil.

Nos dias seguintes, não se falou de outra coisa na imprensa nacional e internacional. Nas bancas de jornais, a capa da Veja dizia que elas tornaram o casamento gay “uma questão inadiável no Brasil” e a Época, estampando as cores do arco-íris sobre o rosto do casal, afirmou que a cantora havia “transformado em protesto político o ato de assumir seu lado homossexual”.

Desde o início, levantar a bandeira LGBTQ foi para Daniela um ato político em favor de uma comunidade à qual ela pertencia, mais uma causa humanitária para ela defender, depois de já ter defendido crianças, se tornado embaixadora da Unicef e se envolvido com uma infinitude de ONGs e lutas sociais.

“Todos os cidadãos são seres políticos. As pessoas falam que artista não pode fazer política, mas isso é algo que impacta o todo. Não é só um direito, é o dever de opinar”, ela afirma, contando que esse lado político foi ensinado em casa, pelos pais, o mecânico Antônio Fernando Abreu Ferreira de Almeida e a assistente social Liliana Mercuri de Almeida.

Quando pergunto como ela se sente ao ler o presidente Jair Bolsonaro fazer declarações como a que “só existe uma definição de família, aquela da bíblia”, ela não pestaneja: “E a minha família? O ataque aos nordestinos e a homofobia me atingem diretamente, atingem a minha família e as famílias de todos nós da comunidade LGBTQIA+, que já sofremos tanto preconceito. Esses ataques às minorias são de uma covardia imensa!”.

A maioria da população brasileira quer paz e justiça social, mas estamos discutindo ainda como fazer isso

– Daniela Mercury

Para Daniela, “esse atraso e obscurantismo não vão nos levar a lugar nenhum”, e mesmo com a seriedade do tema, ela prefere apontar para um caminho de esperança e resistência. “São muitos ataques contínuos e desnecessários, que eu não sei exatamente com qual objetivo. Talvez seja calar as pessoas. Mas é possível trazer axé, arte e humor pra contornar isso tudo e mostrar que não é assim, que a Terra não é plana”, ri.

“A gente precisa manter a lucidez e clareza”, completa. “A maioria da população brasileira é a favor do casamento LGBTQ, dos direitos civis, e é contra o racismo. A maioria da população brasileira quer paz e justiça social, mas estamos discutindo ainda como fazer isso.”

Em maio do ano passado, Daniela e Malu foram até Brasília participar da audiência pública que o Supremo Tribunal Federal convocou para debater a criminalização da discriminação por orientação sexual e identidade de gênero. Dias antes, ela havia se reunido com o presidente da Suprema Corte, Dias Toffoli, para pedir que ele finalmente realizasse o julgamento, adiado há anos graças à pressão da Bancada Evangélica.

Um mês depois, elas foram homenageadas em sessão da Câmara dos Deputados dedicada aos 50 anos da Revolta de Stonewall. Ambas discursaram e pediram pelo reconhecimento e reafirmação de direitos à comunidade e às família LGBTQ. “A sociedade está atenta e espera que esse governo tenha políticas públicas que contemplem toda a população brasileira. Não há mais tempo para nos desrespeitar”, disse a cantora. Antes de irem embora, Daniela e Malu se beijaram no Plenário.

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Mãe de quatro meninas e um menino, ela explica que não consegue deixar de usar sua influência para as causas que acredita. “Minha política é cidadã, porque não sou ligada a nenhum partido. Sempre tive essa vontade de dar voz à massa. Por isso que amo Paulo Freire, quando fala que a educação é feita para dar voz às pessoas, para que elas falem por si mesmas”, esclarece.

É inegável a relevância cultural e política de Daniela Mercury quando artistas que vieram antes e depois dela muitas vezes escolhem não se pronunciar sobre temas espinhosos e que podem lhes custar um ou outro patrocínio. Só que mais do que falar sobre as causas em que acredita, Daniela canta. E, através de sua arte, encontra uma maneira de alegrar, consolar e incentivar o público que a segue. “A gente ainda está segurando nossa democracia. Ela está sendo cuidada, só precisamos continuar firmes e fortes.”

João Ker

JOÃO KER

Mineiro de nascença e carioca de alma, João é formado em jornalismo pela UFRJ e já trabalhou para veículos como The Intercept, Canal Futura, Jornal do Brasil, Sony e Yahoo antes de realizar seu sonho com a Híbrida. Hoje, se divide entre a rotina de repórter no Estadão e a revista.

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