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16 abr 2021

BIXA PRETA: VINÍCIUS MONTEIRO, ENTRE TRANÇAS, QUADRILHAS E SERPENTINAS

DRAG QUEEN, TRANCISTA E DESTAQUE DA SALGUEIRO, O JOVEM CARIOCA CONTA COMO TEM VIVIDO EM MEIO À PANDEMIA DA COVID-19

A coluna Bixa Preta segue apresentando novos personagens do nosso dia a dia LGBTQI+ que, assim como boa parte da população, luta para viver em sua plenitude em meio à pandemia do novo coronavírus. Para a edição #5 da Híbrida, apresentamos uma pessoa muito especial, principalmente por estarmos em uma temporada de festas tradicionais e, simultaneamente, de celebração do Orgulho LGBTQ.

Apresento a vocês Vinicius Monteiro. Carioca de 23 anos, ele vive na comunidade de Padre Miguel, no Rio de Janeiro, e trabalha profissionalmente como trancista há oito anos. Contou com a ajuda de outras pessoas para aprender a função que exerce, num processo em que trançava e era trançado, aperfeiçoando sua técnica com o tempo.

Admirador dessa arte, principalmente por ela trazer consigo algo importante, a ancestralidade, Vinicius também exerce outras funções: é aderecista de carnaval, produzindo de fantasias luxuosas a carros alegóricos, já foi passista da bateria. Hoje, ele compõe uma ala coreografada especial na G. R. E. S. Acadêmicos do Salgueiro, a Maculelê do Salgueiro.

Apaixonado pela arte da dança, Vinícius se apresenta em quadrilhas desde os 5 anos, quando teve seu primeiro contato com o meio artístico, e dançou como cavaleiro até o final da adolescência. Como dama, atualmente na pele da drag queen Vivian Vinix, ele já coleciona títulos, sendo nomeada Rainha Junina e Rainha da Diversidade pelo concurso regional Festrilha Junina. Também já recebeu os prêmios de Melhor Mascote do Arraiá do Rio, competindo com 150 quadrilhas, três prêmios de melhor dançarino e reconhecimento e como melhor dançarino da diversidade.

É um grande prazer ter Vinicius nesse espaço. Abaixo, fiquem com a nossa conversa.

TIAGO BASTOS: Queria muito saber como está sendo vivenciar algo tão inusitado para nós como essa pandemia de Covid-19, que está causando grandes transformações não só na nossa vida, como também na saúde, economia e na qualidade de vida da população?

VINICIUS MONTEIRO: Nesse momento que está o caos no mundo, eu tenho trabalhado pouco. A produção caiu muito, o comércio fechou, a economia parou e eu não consigo comprar material para atender meus clientes. Consequentemente, fiquei sem dinheiro por um tempo.

Graças a Deus, agora minha fornecedora passou a fazer entregas e eu, com todo o cuidado, pude retomar os trabalhos com muito álcool em gel, máscara e pedindo para que meus clientes colaborassem para nossa própria saúde. Também consegui o auxílio-emergencial pago pelo governo federal, o que me ajudou.

TB: Você participa de eventos e concursos muito comuns nessa época do ano, que são as festas juninas. Como esse setor tem lidado com o isolamento, sem poder reunir pessoas e celebrar?

VM: Esse ano, infelizmente, não teremos São João, assim como também não sabemos se teremos outras festas. A pandemia calhou de acontecer bem no início dos preparativos para o projeto, que é logo no início de março, então tivemos que cancelar devido a nossa saúde estar exposta.

Minha quadrilha está sempre fazendo lives e trocando prosas com outros quadrilheiros, conversando sobre o momento e pensando propostas do que fazer para a fogueira não apagar. Estamos fazendo lives e recordando os melhores momentos.

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TB: Quando surgiu a ideia de inserir a sua drag na quadrilha? Já encontrou outras queens nesse meio?

VM: Minha drag só existe por conta da quadrilha. Na verdade, bem antes de eu dançar quadrilha já existiam drags e travestis dançando. Havia um grande preconceito por homens como mulher, até os anos 1990. Dos anos 2000 em diante, isso de os homens dançarem no papel de mulher se tornou comum aqui no Rio de Janeiro e, acredito, no Nordeste também. Hoje em dia, a maioria das quadrilhas no estilo Salão têm drags queens como damas.

Entre 2012 e 2016, eu dancei como homem (cavaleiro) e, no ano seguinte, mudei de quadrilha. A linha de frente da quadrilha (puxados) é formada por quatro casais, mas tínhamos cinco meninos e três meninas. Um amigo perguntou se eu toparia dançar com ele de mulher e topei! Eu já tinha um pouco de vontade, mas não havia me arriscado ainda, para mim era tudo muito recente. Este seria meu quarto ano dançando como a Vivian Vinix, se houvesse uma temporada.

TB: Você é aderecista e sempre está produzindo algo, o que é nada mais nada menos que uma atividade bem produtiva para um momento em que estamos em isolamento social. Como tem feito para ocupar seu tempo?

VM: Tenho produzido muito para aprimorar o que eu sei, aprendendo coisas novas e polindo cada vez mais a minha maquiagem, acertando cada ponto do meu rosto. Tenho trabalhado as minhas tranças e produzi uma peruca Wig com cola quente.

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TB: No período atual, temos a consciência de que precisamos manter nossos corpos e mentes em funcionamento e sintonia. Uma tarefa difícil, mas extremamente necessária. O que você tem feito para movimentar o seu dia a dia e que seja uma boa dica para quem possa ler essa entrevista?

VM: Eu tenho ocupado muito a minha mente nesse período com exercícios em casa, passando um tempo a mais com a minha família reunida, conversando mais, socializando mais dentro de casa. Tenho produzindo muitas maquiagens e fotos, atualizando as séries que eu não tinha assistido e tomando um vinho que eu amo. Sempre prevenido e usando a máscara.

TB: Ter um referencial, uma pessoa ou artista com quem nós possamos nos identificar, é super importante. Como LGBTQI+, ter uma imagem de influência torna nossos caminhos menos árduos e mais primorosos. Quais são as suas influências de vida e arte?

VM: Me inspiro muito na Esther Gomes, dona do Ateliê Badu, um espaço de valoração e cuidados para com a beleza negra. É uma trancista que também trabalha com a Ludmilla e está arrasando muito. Acompanho o trabalho dela desde o começo e isso me inspira muito. Como artista, minha referência é a Beyoncé. Ela é muito versátil na dança e na música, desde as Destiny’s Child, sempre se destacou e sempre correu atrás para realizar seus sonhos e metas. É isso que eu busco também.

Raphael Fonseca

TIAGO BASTOS

Carioca, Tiago tem 24 anos e atua como produtor de conteúdos e eventos, além de ser graduando em Publicidade. É também coordenador de produção do Voz das Comunidades, produtor da 4:24 e colaborador da Treta Magazine.

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