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16 abr 2021

FORA DO AQUÁRIO COM VICTOR HUGO TEIXEIRA

O PSICÓLOGO FALA COM A HÍBRIDA SOBRE OS DESAFIOS DE SER ASSEXUAL NO BBB E NA COMUNIDADE LGBTQ

Participar do maior Big Brother Brasil até hoje, definitivamente, marcou a vida de Victor Hugo Teixeira, maranhense de Imperatriz. Primeiro participante assumidamente assexual a entrar no reality show mais popular do país, o psicólogo de 26 anos viveu altos e baixos dentro e fora da casa, após sua eliminação com 85,22% dos votos em um paredão com duas das figuras mais populares do programa: Babu Santana e Manu Gavassi.

Uma das maiores taxas de rejeição da edição ilustrou um pouco do ódio recebido nas redes sociais e motivou Victor Hugo a falar não apenas sobre sua sexualidade, como também sobre saúde mental. Foi assim que muita gente descobriu que ele era muito mais que a “planta” da edição, se é que podemos definir assim o protagonista de um dos barracos mais icônicos do BBB20.

Só me sinto realmente feliz quando vejo que fiz alguém feliz

Victor Hugo se define como alguém que gosta de ajudar as pessoas. Filho orgulhoso de dois maranhenses, ele já fez intercâmbio voluntário nos EUA, Austrália, Bolívia e Chile. É um apaixonado por novelas e sonha ser autor de dramaturgia. Para isso, teve aulas com Aguinaldo Silva e está investindo em cursos de mentoria e roteiros, inclusive com outras duas auroras da Rede Globo.

Com duas graduações, em Psicologia e Letras, e um mestrado em Saúde Pública, o ex-BBB é um cara complexo, estudioso e bem-humorado. À Híbrida, VH falou com exclusividade sobre ter se tornado uma espécie de porta-voz da comunidade assexual, mesmo que essa não fosse sua intenção, e também contou os novos desafios e objetivos à frente, que extrapolam sua sexualidade.

HÍBRIDA: Como você se descobriu assexual?

VICTOR HUGO: Durante uma aula do mestrado sobre orientações sexuais a professora disse que a assexualidade era muito complexa e que não ia entrar muito no assunto devido a isso. E eu fiquei muito curioso e quis estudar em casa. Pesquisei um artigo e logo na definição comecei a chorar porque havia me encontrado. Eu já pensei que fosse hétero, gay, bi… Mas nunca me identificava. Quando descobri a assexualidade não tive dúvidas.

H: De que forma você lida com a sua virgindade, pessoalmente e diante da sociedade?

VH: Ser virgem é mal visto pela sociedade, um sinônimo de rejeição. É como se ser virgem te fizesse alguém passível de pena ou gozação. Antes de me entender assexual, eu sentia bastante peso por isso. Mas depois se tornou um alívio, porque percebi que era apenas uma pressão social. Não tenho nenhum problema em falar sobre a minha virgindade e também não teria vergonha em dizer quando eu a perder. Se eu a perder.

H: Com quem foram seus relacionamentos românticos? E quais os desafios que encontrou como assexual?

VH: Só namorei uma vez. Foi uma menina, durou um mês e foi ótimo. Mas depois disso, nos meus relacionamentos românticos eu só saía, dava beijinhos e não pretendia avançar na relação por não me sentir apaixonado. Nunca beijei nenhum homem, mas saí com vários.

H: Como você interpreta a visibilidade assexual na sociedade em geral e também dentro da comunidade LGBTQIA+?

VH: Ainda temos pouca visibilidade, inclusive dentro da própria comunidade. Mas acredito que a assexualidade ainda vai ter um destaque melhor, à medida que mais assexuais estiverem na mídia. Fico feliz por ter contribuído em ajudar tantas pessoas quanto à sua orientação sexual.

H: Como psicólogo, de que forma você avalia a saúde mental de pessoas assexuais?

VH: A saúde mental dos assexuais, em geral, atravessa muitos momentos. Antes da descoberta, há dúvidas e, em alguns casos, muitos sofrimentos. Mas em geral, o assexual é uma pessoa que tem muita consciência do que gosta e do que não gosta e apenas se incomoda quando as pessoas o tratam com indiferença ou quando duvidam de suas preferências.

No processo de “sair do aquário” (assumir sua assexualidade), o assexual percebe que se assumir é difícil pela incompreensão e pela dúvida que gera em outras pessoas, até mesmo nos relacionamentos de uma maneira geral. Mas depois que ele se assume, ele se sente mais livre e mais feliz. Daí a importância de um grupo de apoio e da comunidade LGBTQIA+ acolher e apoiar, pois em situações difíceis o ace saberá com quem contar.

H: Sobre sua experiência no BBB, quais suas expectativas como um fã do programa e como foram as vivências depois que participou de uma edição histórica?

VH: Foi incrível. A melhor e mais desafiante experiência da minha vida. É um jogo difícil lá dentro e aqui fora. Tenho orgulho de ter participado da melhor edição de todas! Todos ali foram importantes para a boa história acontecer. Minha expectativa é usar tudo o que aprendi no programa para converter em muito trabalho. Meu foco é ser roteirista, mas também quero compartilhar alguns outros talentos, como cantar e compor músicas, falar sobre ciência e cultura. Enfim, quero comunicar!

H: O BBB 20 foi movido por dois temas muito importantes: machismo e racismo. Você não esteve diretamente envolvido nessas duas polêmicas, e mesmo assim saiu com a maior porcentagem de eliminação até aquele momento, mais inclusive do que outros participantes com falas vistas como preconceituosas pelo público. Como enxerga isso?

VH: Enxergo como totalmente desproporcional. Mas tenho consciência que caí num paredão com duas pessoas muito fortes.

Foi difícil porque eu nunca estive na mídia, não sabia como lidar [com os ataques]

H: Você se arrepende ou gostaria de mudar algum comportamento e/ou fala que teve no BBB?

VH: Me arrependo muito de não ter saído daquela briga com a Manu. Eu deveria ter simplesmente saído e deixado a cabeça dos dois esfriarem pra gente conversar e desfazer o mal-entendido.

H: Após sua saída, você continuou recebendo muitos ataques pelas redes sociais. Até que fez um desabafo forte nas suas redes e sobre como isso estava afetando sua saúde mental.

VH: Eu não estava entendendo muito bem as coisas quando saí. Mas depois comecei a entender a maldade dos haters e o quanto isso era pra me afetar. Então, ao entender que esse era o objetivo, foi fácil não me importar mais com eles. Mas agora, tudo está muito melhor.

H: Você acha que houve preconceito com você? Especialmente por ser assexual e/ou gordo?

VH: Vivemos em uma sociedade padronizada e preconceituosa, então ter uma orientação sexual, gênero, cor de pele ou por estar fora de um padrão físico já é motivo de haters. E tá tudo bem, é uma construção de formiguinha. Aos poucos, vamos nos mostrando melhor.

H: Apesar dos ataques, há também o carinho do público e, é claro, os memes. Como você recebe as mensagens acolhedores e divertidas?

VH: Adoro receber os memes e meus seguidores são muito carinhosos. Eles são incríveis. Me acolhem, me incentivam e torcem muito por mim. Eu costumo falar que eles são minha herança do BBB. (risos)

A grande maioria da população não sabe o que de fato é ser assexual, me julgaram muito por não entenderem

H: Agora você é também um ex-BBB. Pretende se agarrar a isso ou quer se afastar?

VH: Eu amei participar do programa. Ser chamado de ex-BBB é uma honra. Mas espero ser reconhecido pelos meus trabalhos daqui pra frente e não apenas pela minha participação no reality.

LÍVIA MUNIZ

LÍVIA MUNIZ_editora

Niteroiense apaixonada pelo Vasco, Livia é formada em Jornalismo pela UFRJ. Trabalhou como repórter e colunista na Goal Brasil durante quatro anos. É nerd, feminista e sonha ser uma ranger rosa.

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