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08 ago 2020

O QUE PODE O CORPO DE JUP DO BAIRRO? TUDO O QUE QUISER!

EM SEU EP DE ESTREIA, A ARTISTA USA A INFÂNCIA NO CAPÃO REDONDO PARA PINTAR UM QUADRO COLETIVO DE MEDOS E RESILIÊNCIA

por JOÃO KER

Jup do Bairro está dividida entre “pensamentos ok” e momentos de medo, angústia, ansiedade, insegurança e revolta. Não bastasse o isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus, ela estava lançando naquela semana “Corpo Sem Juízo”, seu primeiro EP e “o trabalho mais importante de sua vida”. Com letras escritas há mais de 13 anos, a artista acredita que, de alguma forma, esse tempo todo foi uma preparação para mostrar a obra ao mundo “em um momento como esse”.

“Tenho tomado bastante cuidado com o meu trabalho e com a minha carreira para que eu consiga executar o entretenimento, mas que eu não seja uma cúmplice dessa distração. Tenho aprendido a me manter presente”, conta Jup por videochamada.

Com sete músicas e as participações de Deize Tigrona, Linn da Quebrada, Rico Dalasam e Mulambo, “Corpo Sem Juízo” foi produzido a partir de uma campanha de arrecadação lançada no ano passado, cujo planejamento foi amplamente impactado pela Covid-19. E se a pandemia de proporções inéditas na nossa sociedade já impõe grandes desafios aos artistas que contam com megaestruturas, a cena queer e independente tem sido mais uma vez entregue à própria criatividade para se desdobrar com o que está ao seu alcance.

“Naquele momento [de arrecadação], não era interessante para as marcas me fortalecerem porque eu ainda não acarreto grandes números. A Jup do Bairro só é interessante até a página dois, porque ela é quase uma inimiga pública do Estado. Quando a gente precisa realmente falar o que distancia e diferencia artistas nesse momento”, explica Jup.

Ao longo da nossa conversa, essa não é a única vez em que ela denuncia a forma como marcas e empresas se apropriaram da luta LGBTQ para venderem diversidade através de artistas já estabelecidos no mainstream. Com “Corpo Sem Juízo”, um de seus objetivos é usar o apoio e a responsabilidade que ganhou dos fãs para virar a mesa e propor ao próprio público o lugar de agente dessa mudança no comportamento de consumo cultural e artístico. 

“Não é só sobre mim. Por isso há essa honestidade tão grande, porque realmente acho que pode tocar vidas. Fiz um trabalho que julgasse importante pra minha geração e precisava de pessoas tão responsáveis comigo para reverter esse cenário.”

NOVAS ALIANÇAS E NARRATIVAS

Jup gosta de pensar que “Corpo Sem Juízo” é como “uma faixa única”, uma história sobre as três fases do corpo material, com início, meio e sem fim. Nessa viagem, ela expõe problemas, vivências íntimas e delícias reais ou imaginárias, ao mesmo tempo em que propõe soluções, destruindo e construindo narrativas e protagonismos no processo. Musicalmente, a jornada narrada passeia por influências que vão do hip hop ao heavy metal, passando por momentos de trance, jazz poético e R&B.

A música que dá nome ao EP foi lançada há um ano, em junho de 2019, com seus mais de sete minutos, uma leitura de Conceição Evaristo e a participação póstuma de Matheusa Passarelli. Na faixa-manifesto, a artista usou molduras atuais para um retrato atemporal da vivência negra e transexsual no Brasil. “Sou um corpo que já morreu inúmeras vezes”, ela disse na época, em entrevista à Híbrida.

Em tema e estrutura, as faixas de “Corpo Sem Juízo” desafiam o padrão ao qual a indústria fonográfica tem adestrado os ouvintes na era do streaming. É como se Jup, ciente de que artistas como ela raramente ocupam o topo de espaços pré-estabelecidos por gatekeepers, abdicasse daquilo de antemão e propusesse algo novo, onde ela caiba como quer ser.

“As marcas vendem essa ideia de fortalecer artistas, mas só os que já ocupam esse lugar de mainstream. Está chegando a hora de nós, artistas realmente independentes, pensarmos em nossas próprias estratégias. Eu ainda não sei o que é, mas de certa forma, me dá um ‘alívio’, porque quando comecei a minha carreira também não sabia como seria.”

Jup do Bairro: "A população preta produtora de cultura e arte vive nesse medo de que, em algum momento, pode ser cancelada" (Divulgação)
Jup do Bairro: "A população preta produtora de cultura e arte vive nesse medo de que, em algum momento, pode ser cancelada" (Divulgação)

No disco, é possível ter um extrato dessa aliança preta e independente que Jup propõe para garantir o mínimo de segurança a artistas fora do mainstream. Entre os convidados, estão Deize Tigrona e Rico Dalasam. Ela, a primeira mulher do funk carioca a ter sua arte sampleada e tocada no exterior só para, anos depois, ver suas conquistas esquecidas e ser obrigada a se reinventar. Ele, um dos primeiros exemplos de “cancelamento” por parte da própria comunidade LGBTQ após reivindicar direitos autorais em sua parceria com Pabllo Vittar.

“A população preta produtora de cultura e arte vive nesse medo de que, em algum momento, pode ser cancelada. Vira e mexe fico pensando ‘gente, nossa, que louca essa sensação de que a qualquer momento posso ser cancelada por qualquer exposição da minha opinião’”, conta.

É por isso que Jup não gosta de celebrar pioneirismos individuais nesta ou naquela área. Porque ao mesmo tempo que eles mostram como alguém conseguiu chegar “lá”, uma pessoa sozinha não é suficiente para mudar as estruturas que dificultaram o acesso até ali. Essa força para levantar e continuar levantando transparece em “Pelo Amor de Deize”, sua parceria-homenagem com uma das maiores vozes do funk brasileiro.

O ouvinte que espera um proibidão vai se surpreender ao descobrir que a faixa é um rock pesado com bateria carregada e sem letras escrachadas (apesar de que uma parceria assim foi gravada pelas duas e Jup pretende lançá-la eventualmente). “Acredito que grande parte da minha geração dançou ‘Injeção’ em festas infantis, sem nem saber o que significava. Eu sempre fui muito atravessada pela arte e pela vida dela”, conta.

A admiração se materializou em convite para uma parceria quando Deize participou de “TransMissão”, programa de entrevistas do Canal Brasil apresentado por Jup e Linn, que chegou à sua segunda temporada neste junho. “Quando a gravação terminou, eu precisei me levantar para chorar escondida, de tão emocionada que fiquei. Me arrepio só de lembrar”, relembra.

Na carnaval deste ano, foi a vez de Deize se emocionar com a amiga, quando ouviu pela primeira vez a faixa que elas gravaram juntas. “Quantas vezes eu chorei sem saber o que fazer? Quantas vezes a solidão foi o seu lugar?”, pergunta a letra. “É um chamamento pra se levantar. Outra parte que me emociona muito é do áudio, ela jamais conseguiria gravar aquilo intencionalmente.”

Já o single “All You Need Is Love”, uma ode ao orgasmo que transborda carência e desejo nos versos, na entoação e na produção, mostra uma outra faceta da vulnerabilidade de Jup e, consequentemente, de Linn e Rico. Jup conta que a intenção de ruptura e discurso proposta na faixa é colocar essas pessoas numa posição de afeto: “São três artistas LGBTs com corpos pretos que não sabem o que é amor, de fato. A gente acaba a destruir o que é esse conceito e construir uma nova possibilidade. Estou tentando dar um imaginário que eu mesma não tive.”

“NUNCA FUI FEIA, SEMPRE FUI PRETA”

As inquietações e entendimentos entre Jup do Bairro e seu corpo material passaram por um processo de anos, que começou na infância e está longe de terminar. Apesar de hoje se identificar como travesti, a artista faz questão de esclarecer que sua identidade de gênero não é uma exclamação, mas uma constante interrogação. “O que o meu corpo pode ser agora?”

O ponto de partida para essas questões, entretanto, foi sua pretitude e a forma como isso se refletia na sua autoestima, mesmo quando criança. Na época, Jup se comparava com primas e amigas de pele mais clara sem ver figuras como ela mesma na mídia, em bonecas ou em qualquer posição de admiração. Com a orientação dos pais, ela começou a juntar as peças monocromáticas desse quebra-cabeças.

“Comecei a entender as possibilidades de leitura do meu corpo quando me achava uma criança feia e não tinha nenhuma noção de recorte racial. Com o meu amadurecimento e minha formação, entendo que nunca fui feia, sempre fui preta. Esse foi o meu primeiro estalo”, lembra.

Logo depois de se entender como preta e entender o lugar que pessoas como ela ocupavam na sociedade, vieram as inquietações com o gênero, muito antes da sexualidade. “Eu tinha a ideia até errônea de que, na verdade, nasci num corpo errado. ‘Minha alma é feminina’ e outras coisas que a gente fala sem informação. Até eu perceber que não sabia o que era esse ‘corpo certo’ que tanto imaginava.”

Todas as perguntas e respostas que Jup encontrou no caminho acabam, de uma forma ou de outra, sublimando-se em versos de “Corpo Sem Juízo”, como um rio que desemboca no epitáfio de “Luta Por Mim”, parceria forte com o rapper Mulambo. A letra da música dialoga tanto com o contexto nacional e mundial das últimas semanas que é quase evidência paranormal da existência de um oráculo. Infelizmente, ela é na verdade um desabafo comovente sobre uma situação repetida tantas vezes na história do povo preto que sua confirmação já é quase inevitável.

“Ai que tá, sabe. Eu sempre fico muito reflexiva com essas coisas. Uma letra que escrevi há tanto tempo dialogar tão bem com o agora. O mundo tá passando agora pelo que os corpos marginais já passavam, o medo de andar na rua e ser contaminada por alguma doença, física ou social. Isso já percorria meu corpo, perpetuava minha cabeça e, agora, parece que a gente tá vivendo isso de forma coletiva”, avalia.

Nos versos, Mulambo denuncia como corpos pretos são negligenciados em vida e homenageados apenas em morte, enquanto Jup pede forças pra quem continua na luta. “Nosso sonho acaba sendo ter vida, ultrapassar as estatísticas do corpo preto e do corpo T”, conta. “O que me preocupa é se esse roteiro vai continuar como é na música, mais um corpo preto no chão e nada muda nunca. Nossas vidas pretas realmente importam? Pra quem?”.

JOÃO KER

Mineiro de nascença e carioca de alma, João é formado em jornalismo pela UFRJ e já passou por empresas como Canal Futura, Jornal do Brasil, Sony, Yahoo e The Intercept, antes de lançar a Híbrida. É também repórter do jornal O Estado de S. Paulo.

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