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09 ago 2020

RITA VON HUNTY SOBRE “ARTIVISMO POLÍTICO”, CONSERVADORISMO E AUTOCRÍTICA NA ESQUERDA

COMO UMA DRAG QUEEN COMBATE O SENSO COMUM NUMA PLATAFORMA INFESTADA POR IDEAIS DA EXTREMA DIREITA COM BOM HUMOR E FATOS

Em outubro de 2014, uma série brasileira inspirada no reality de sucesso “RuPaul’s Drag Race” estreou no Youtube. Criada pelo cineasta Alexandre Carvalho e com apresentação de Silvetty Montilla, a “Academia de Drags” trouxe oito integrantes batalhando em provas ligadas ao aperfeiçoamento de cada queen, mostrando habilidades de dança, caracterização, humor, dentre outros. Uma das revelações daquela primeira temporada foi Rita Von Hunty (criação do professor Guilherme Perreri), que apesar de não ter levado o prêmio principal para casa, ganhou o título de “Miss Arrasa Bixa” em votação popular.

Esta não seria a única vez em que Von Hunty apareceria na plataforma de compartilhamento de vídeos mais famosa do mundo. Em 2015, ela lançou o canal “Tempero Drag”, repleto de títulos bem humorados como “Suco Acorda Viado”, “Please Don’t Stop the Mousse” e “Guacadura ativa fora do meio com local”.

Com participações de outras drags e quadros que serviam como bastidores e brincavam com sua fiel assistente Roxelle, o canal trazia a performer como uma dona de casa atrevida cujo objetivo era ensinar receitas veganas para seus espectadores.

Rita funcionava como uma mistura de Ana Maria Braga com Palmirinha no universo LGBTQ+, temperada com looks retrô e humor afiado. Embora tenha conquistado fãs fiéis, o conteúdo gastronômico de seu projeto se tornaria passado nos anos seguintes.

Na chamada para a segunda temporada do “Tempero Drag”, Alexia Twister tomou a frente da câmera dizendo que, dali em diante, ela seria a comandante do espetáculo. Só que isso não passava de uma brincadeira: no upload seguinte, realizado em abril de 2016, nós – e também Perreri – descobrimos que o anúncio tratava-se de uma pegadinha do Dia da Mentira e que o programa seguiria nas mãos de sua musa criadora.

O título – “TelegramaTruqueiro #RitaFica #NãoVaiTerGolpe” – fazia alusão ao que ocorria no Brasil da época: a crise política que se acentuava com o longo e inquietante processo de impeachment da então presidenta Dilma Rousseff. O exemplo definitivo de que o canal estava ganhando contornos ainda mais políticos veio através da inauguração do “Rita em 1min”.

Com o livro “Quem Manda no Mundo?”, de Noam Chomsky, em mãos, Von Hunty declara no primeiro episódio deste novo quadro que se identificar como apolítico “é característica de quem não depende da saúde do estado, educação do estado, transporte público ou qualquer tipo de assistência ou de retorno”.

Pouco tempo depois, ela estenderia a duração do projeto para 5 minutos, num conjunto de gravações que trataria assuntos em voga como padrões de beleza, “ditadura da juventude”, pensamentos binários, consciência de classe etc.

Foi assim que, aos poucos, Rita Von Hunty se tornou uma das mais interessantes e importantes vozes da esquerda na internet brasileira. O visual sempre no ponto, a didática exemplar, o humor ácido e as referências ricas serviram e continuam servindo como “artivismo” político (como a mesma colocou em um de seus envios mais recentes), num espaço e país conquistados pela retórica da extrema direita.

Em entrevista exclusiva à Híbrida, Rita fala sobre o conservadorismo no país, o processo de produção de seus vídeos e a tão demandada “autocrítica da esquerda”. Leia o resultado dessa conversa abaixo:

Híbrida: A vitória de Jair Bolsonaro nas urnas de 2018 pode ser explicada, dentre outros fatores, pela popularidade e disseminação dos ideais da extrema direita nas redes sociais – incluindo o Youtube, com seu controverso algorítimo. Quando você transformou o “Tempero Drag” em forma de ativismo político, imaginava esse nosso ambiente conservador pela frente?

Rita Von Hunty: Bom, quando transformei o canal, o ambiente conservador já estava posto. De uma outra forma, mas estava lá. Esta atmosfera que estamos vendo agora não é nova: vamos nos lembrar de junho de 2013, quando “o gigante acordou” – só que acordou sem escolarização, sem consciência política e, quando não voltou a dormir, acabou sendo manobrado por interesses que não eram os dele. Então, o cenário já estava colocado e, de certa forma, eu estava me movendo contra ele.

H: Houve alguma hesitação ou medo de sua parte em manter a “persona” da Rita para ser levada a sério quando decidiu fazer essa transformação? E qual foi a inspiração para unir a arte drag ao discurso mais politico?

RVH: Eu nunca tive medo, nem ressalvas sobre manter ou não a persona drag e ser levado a sério. Sempre me levei a sério, sempre levei drag a sério e sempre levei a minha drag muito a sério. Passei noites trabalhando, finais de semana montando show, economizando dinheiro pra poder fazer looks etc. E só uma pessoa que leva o seu fazer a sério consegue fazê-lo de forma sensível e sincera.

Na medida em que comecei a me montar e entender do que se tratava esta arte, sua história e sua luta, entendi muito rápido que era algo marginal que conseguia colocar dedos em feridas. Então, acho que drag tem esse impacto porque consegue mobilizar afetos e a política também é sobre isso.

H: Você utiliza muitas referências filosóficas, sociológicas, culturais etc. em seu conteúdo. Como se dá a escolha de temas e como é o processo de produção dos vídeos?

RVH: Os temas são escolhidos de acordo com as necessidades que sinto, que vejo, que falo com pessoas que me circulam e vice-versa. Vêm também das minhas aflições, dos meus desejos, das minhas dúvidas.

Os vídeos são gravados nas quintas e soltos às terças. Estudo para eles durante as segundas, terças e quartas. Normalmente, defino os temas aos finais de semana.

H: Como a tarefa de utilizar as redes sociais para território de divulgação e educação é relativamente nova, muitas pessoas não conseguem enxergar importância ou necessidade até de remuneração no trabalho de um criador de conteúdo digital. Como você lida com isso?

RVH: Eu nunca lidei com isso de as pessoas não enxergarem a importância. As pessoas que acompanham o meu conteúdo enxergam e é para elas que produzo. Então, não me pego pensando pra fora disso. Sempre trabalho sem fazer cobranças para a militância e quando não é pra ela, não faço sem remuneração. É uma posição que posso tomar porque sempre tive outros trabalhos antes de começar a fazer drag.

Drag consegue mobilizar afetos e a política também é sobre isso

H: Os conteúdos mais à direita comumente são carentes de embasamento histórico, econômico, sociológico etc. Isso permite que eles acabem se tornando breves e opinativos, o que atrai a atenção de muitos que se identificam com o que assistem por conta da linguagem fundamentada no senso comum. Diante disso, como a esquerda pode combater essa narrativa?

RVH: Essa pergunta é muito antiga. Por exemplo, podemos pensar na história da Filosofia, quando Platão começa a falar sobre doxa – um conceito que vem desde a Grécia Antiga sobre uma aparência da consciência; sobre o senso comum, por assim dizer. Platão, e depois Aristóteles, vai combater essa aparência do senso comum como a verdade por vias diferentes. Porque se a aparência do senso comum fosse a verdade, a gente não precisaria da teoria da ciência. Bastava olhar para o mundo para descobri-lo.

Então, vejo o papel da esquerda como fundamentar o discurso, mas em especial localizar o que está sendo transmitido aos outros e desmontar isso. É preciso também fundamentar outros discursos nesse lugar. Os comunicadores de esquerda que conheço, sigo e são meus amigos fazem isso muito bem – com um conhecimento pautado pela história, pela práxis, por uma metodologia séria.

H: A propósito, qual você acredita que seja a autocrítica mais importante que a esquerda, de forma geral, deva fazer a si mesma?

RVH: Eu não posso falar sobre “a esquerda” no singular. Acho que seria até cair num erro. Mas fico pensando que a principal autocrítica deva ser entender em quem esse discurso chega e como chega, pensar em quem ele pode chegar e como chegar.

Também acho que é sempre super importante que a gente vá se despindo de lógicas colonizadoras – de que se detém a verdade e o conhecimento, de que a partir daí a gente vai iluminar o outro. Não é bem assim. É muito mais sobre entender qual é a realidade do outro e descobrir ou perguntar o que o outro gostaria de saber ou mudar sobre a realidade dele.

Maria Eugênia Gonçalves

MARIA EUGÊNIA GONÇALVES

Maria Eugênia (Jeane, para os íntimos) já caminhou pelo Design, pelo Direito, pelo Jornalismo e pela Publicidade, mas agora está se graduando nas Ciências Humanas pela UFJF. Fã de cultura pop desde criança, sua grande paixão é a sétima arte e tudo que envolve o mundo audiovisual: da produção até a forma que reflete o mais íntimo de nosso cotidiano.

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