Notícias

26 fev 2021

ENTRE A CRUZ E O ARCO-ÍRIS: CRISTIANISMO É A PRINCIPAL DOUTRINA ENTRE LGBTIs

PESQUISA INÉDITA DA ‘TODXS’ MOSTRA QUE A FÉ CRISTÃ É A MAIS VOTADA ENTRE MAIS DE 15 MIL PESSOAS DA COMUNIDADE LGBTI+; MAIORIA AINDA NÃO TEM RELIGIÃO

Um raro sinal de diálogo e empatia pelo Cristianismo foi dado às famílias homoafetivas pelo líder mundial da Igreja Católica, que revelou ser favorável a união civil e proteção legal desses casais. “O que temos que ter é uma lei de convivência civil. Dessa forma, eles são legalmente cobertos. Eu lutei por isso”, afirmou o Papa Francisco num trecho do documentário “Francesco” (Evgeny Afineevsky, 2020), exibido no Festival de Cinema de Roma em 21 de outubro e imediatamente repercutida em todo o mundo.

Agora, a inédita Pesquisa Nacional por Amostra da População LGBIT+, feita pela startup TODXS ao longo de 2019, aponta que o Cristianismo é a principal doutrina escolhida entre mais de 15 mil pessoas LGBTI+ espalhadas pelas 27 unidades federativas do País. Enquanto mais da metade dos respondentes não têm uma religião definida (“sem religião”, “ateus” e “agnósticos” formam  56% das respostas), a maioria daqueles que têm segue alguma fé de base cristã.

Apenas o Catolicismo foi escolhido por 15,39% dos LGBTIs que responderam à pesquisa, enquanto a segunda religião mais votada foi o Espiritismo (7,79%). Somadas aos que declararam seguir as diferentes correntes do Evangelismo ou do Protestantismo, esse total chega a 30,48%, contra 8,8% dos que afirmaram frequentar religiões de matriz africana, como a Umbanda (5,53%) e o Candomblé (3,27%).

A (im)possibilidade de conciliar orientações sexuais ou identidades de gênero que não sejam cisheteronormativas com a fé cristã não é um debate exatamente novo e vem envolvido nas ideias de culpa, pecado e perdão. Mas impulsionados pelo aceno inicial do papa e a pesquisa da TODXS, a Híbrida quis saber de LGBTIs cristãos como eles conciliam abertamente ambas as identidades.

Aos 22 anos, Osmir Paulo nasceu em uma família evangélica da Congregação Cristã do Brasil e, durante a adolescência no município de Governador Valadares, em Minas Gerais, preferiu frequentar a Igreja Católica por considerá-la mais aberta a novos “costumes”. Ao chegar lá, se deparou com o mesmo preconceito de antes.

“Já entrei no templo com uma camiseta da causa LGBT e vi muita cara feia. Outra vez, participei de um curso e ouvi muita indireta do palestrante [durante o sermão]”, relembra o estudante de Enfermagem, hoje membro da Pastoral da Juventude e da articulação regional das Comunidades Eclesiais de Base na cidade mineira. “Todo esse conservadorismo dentro da Igreja acaba criando barreiras para a felicidade das pessoas.”

Osmir (de azul, segurando a Bíblia) com o grupo de amigos da Pastoral da Juventude, em Governador Valadares (Foto: Arquivo Pessoal)
Osmir (de azul, segurando a Bíblia) com o grupo de amigos da Pastoral da Juventude, em Governador Valadares (Foto: Arquivo Pessoal)
Mesmo sendo membro ativo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, a catarinense Rafaela Scherer é alvo do moralismo de amigos religiosos dos pais (Foto: Arquivo Pessoal)
Mesmo sendo membro ativo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, a catarinense Rafaela Scherer é alvo do moralismo de amigos religiosos dos pais (Foto: Arquivo Pessoal)

A experiência de Osmir é similar à de Rafaela Scherer. Estudante de Psicologia e bissexual, ela afirma que sempre sofreu preconceito de um casal religioso amigo de seus pais em Curitibanos, no interior de Santa Catarina. “Eles ligam esporadicamente para avisar que estão rezando pela minha cura!”.

O assédio é tão constante que Rafaela, com 21 anos, não consegue sequer participar das missas na Paróquia Nossa Senhora da Conceição por se sentir julgada quando encontra com os dois. O que ajudou a ressignificar sua vida foi uma experiência espiritual que reforçou seu propósito. “Participei de uma missão em um prostíbulo e senti uma enorme gratidão nos olhos daquelas pessoas. Naquele momento, consegui perceber que a Igreja é um caminho para fazer o bem”, afirma, reforçando que “quando estamos separados como irmãos, estamos distante de Deus”.

Aos 31 anos, o colombiano Cristian Suaréz teve uma relação ainda mais profunda com a religiosidade ao morar cerca de cinco anos em seminários da Igreja Católica. Durante a sua passagem por essas casas de formação, ele afirma que a sexualidade não era sequer mencionada. Porém, isso não o impediu de conciliá-la com a sua espiritualidade: “Todos somos parte do plano de Deus, o divino deseja a nossa existência. Ser gay é algo inerente à minha vontade, então é obra de Deus! O Pai é perfeito e n’Ele não há descontrole!”, defende.

Na periferia de São Paulo, Gabriel Jadson encontrou na Igreja um espaço para conciliar a sua fé com as lutas sociais. Coordenador da Pastoral da Juventude da Região Episcopal Brasilândia, ele afirma que revelou sua orientação sexual pela primeira vez para o grupo de jovens que frequenta. “O ambiente eclesial pode formar pessoas engajadas na promoção da vida, que buscam mudar todas as estruturas desiguais”, explica.

Edvaldo Alves viveu 10 dos seus 40 anos na Ordem dos Franciscanos Menores. Formado em Teologia, o professor revela que falar sobre sexualidades dissidentes é um tabu nas Casas Religiosas, mas que é preciso encontrar o divino em todas as dimensões do ser humano. “Ninguém olha para uma freira e enxerga sua sexualidade. Parece que essas pessoas não possuem desejos. Para reverter esse cenário é preciso nos aprofundarmos em uma teologia que nos aproxima de Deus e nos leve a ver a beleza que são as atividades sexuais humanas.”

Aos 31 anos, o colombiano Cristian Suaréz, abandonou os estudos no Seminário e saiu da vida religiosa porque "Deus lhe deu algo a mais para amar" (Foto: Arquivo Pessoal)
Aos 31 anos, o colombiano Cristian Suaréz, abandonou os estudos no Seminário e saiu da vida religiosa porque "Deus lhe deu algo a mais para amar" (Foto: Arquivo Pessoal)
A primeira vez que Gabriel Jadson falou sobre sua orientação sexual foi para os amigos da Pastoral da Juventude da Região Episcopal Brasilândia (Foto: Arquivo Pessoal)
A primeira vez que Gabriel Jadson falou sobre sua orientação sexual foi para os amigos da Pastoral da Juventude da Região Episcopal Brasilândia (Foto: Arquivo Pessoal)

Em uma pequena sala da região central de São Paulo, próxima ao Largo do Arouche, a reverenda Alexya Salvador ministra cerimônias inclusivas pela Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), uma corrente evangélica protestante fundada em 1968, nos Estados Unidos, que chegou ao Brasil em 2003.

Aos 39 anos, Alexya foi anunciada em janeiro como a primeira reverenda transexual em toda a América Latina. Após ter conhecido a ICM em 2010, quando participou de um casamento coletivo realizado pela igreja no Largo de São Francisco, ela fez sua transição de gênero no ano seguintes, meses antes de ser ordenada como diaconisa. “No passado, a igreja foi opressão, mas aqui foi onde me entendi, me aceitei e encontrei mecanismos para ser a trans e travesti que sou. Foi por causa da igreja que eu transicionei”, conta em entrevista à Híbrida.

Se não fosse a ICM, talvez eu teria concluído o suicídio ou seria como os homens gays que querem fazer a transição e não conseguem

Criada pelo reverendo Troy Perry e já presente em mais de 30 países e ministrada em mais de 200 templos, a ICM tem sua história ligada ao movimento LGBTI+ dos Estados Unidos. Seu fundador foi peça fundamental da 1ª Parada do Orgulho de São Francisco, em 1970, para celebrar o primeiro aniversário da Revolta de Stonewall, em Nova York. Não à toa, tanto Marsha P. Johnson quanto Sylvia Rivera, duas das principais líderes da revolução, também frequentavam a ICM.

Pela Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), Alexya Salvador se tornou a primeira reverenda transexual da América Latina (Foto: Rafael Monteiro | Revista Híbrida)
Pela Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), Alexya Salvador se tornou a primeira reverenda transexual da América Latina (Foto: Rafael Monteiro | Revista Híbrida)

“A ICM é uma igreja da comunidade, então é a comunidade que escolhe o pastor e delibera sobre tudo. Quando fui convidada para ser diaconisa, como pastora auxiliar leiga que auxilia o reverendo, fui estudar Teologia Queer e me aprofundar nos estudos da Bíblia para ser clériga”, conta Alexya.

Apoiada no trabalho de filósofos como Michel Foucault, Gayle Rubin, Eve Kosofsky e Judith Butler, a Teologia Queer é um desdobramento da Teoria Queer proposta por esses autores. Em “Radical Love: An Introduction To Queer Theology” (Church Pulishing, Inc., 2011), Patrick Cheng a define em três pilares principais: um método de teologia feito por e para pessoas LGBTs, baseado na aceitação; a proposta de apagar limites e se contrapor às categorias binárias de gênero e sexualidade; e uma transgressão consciente, focada na forma com que “derruba os poderosos e exalta os humilhados” pelas normas sociais.

Na prática, a corrente propõe uma releitura dos ensinamentos bíblicos focada no acolhimento incondicional e no “amor radical” a todo e qualquer indivíduo criado por Deus. Inevitavelmente, a Teologia Queer acaba se deparando com dogmas e interpretações tão enraizadas na cultura cristã que é impossível desafiá-los sem receber uma reação contrária por isso. 

[Minhas filhas] sabem que a transfobia pode matá-las ou me matar, que uma hora um transfóbico pode tirar a minha vida

“Para você renunciar o que te ensinaram é muito complicado. Quando trazemos essas perspectivas para quem nunca ouviu falar, a pessoa dá um nó na cabeça”, explica Alexya. É na Teologia Queer que ela também refuta uma das principais passagens bíblicas citadas por conservadores que tentam justificar a LGBTfobia como ensinamento cristão de Levítico (18:22): “Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação”.

“Quando Levítico diz isso, quer dizer que a condição feminina é maldita. Ou seja, a mulher é a penetrada, a invadida, a subalternizada e dominada. Como você, homem que domina, se deixa dominar? Você é maldito. Na linguagem do autor, você sai de uma hierarquia de poder”, explica. “[Essa passagem] não está condenando o amor entre duas pessoas do mesmo sexo, e sim a renúncia do lugar no patriarcado. Mas essa leitura não é feita nas igrejas tradicionais, porque fica focada no ato sexual.”

Alexya cita que outras condenações, mesmo que explícitas na Bíblia, não são seguidas nem criticadas por cristãos conservadores. “Maldito também é o homem que usa roupa com fios de dois tecidos, que planta duas flores no mesmo jardim, come carne de porco… Tudo isso é maldito também, [de acordo com a bíblia]. Mas as pessoas só focam na homossexualidade.”

Alexya realizou o sonho antigo de ter três filhos: Gabriel, de 15 anos; Ana Maria, de 12; e Deise, de 8, ambas trans (Foto: Rafael Monteiro | Revista Híbrida)
Alexya realizou o sonho antigo de ter três filhos: Gabriel, de 15 anos; Ana Maria, de 12; e Deise, de 8, ambas trans (Foto: Rafael Monteiro | Revista Híbrida)

Dono do canal “Muro Pequeno”, com mais de 130 mil inscritos e outros milhões de visualizações, Murilo Araújo ministra cursos livres sobre a Teologia Queer e explica que, durante a infância na comunidade Senhora Sant’Ana, em Ibicuí, Bahia, a Igreja sempre foi um refúgio para os ataques homofóbicos que sofria. “Como eu era afeminado, sentia muita exclusão na escola, mas na Igreja não era assim, lá eu me sentia acolhido. Considero a Igreja um espaço organizador da minha vida, sou católico antes de qualquer coisa!”

“A abordagem na violência não é evangélica e, quando age assim, a Igreja se afasta do projeto do Reino de Deus”, completa. Hoje, aos 30 anos e como pesquisador das interseções entre sexualidade e religião no catolicismo pelo doutorado em Linguística Aplicada, Murilo interpreta sua sexualidade como um dom de Deus. “A primeira vez que tomei consciência da minha orientação sexual foi quando achei um menino bonito na universidade. Tive uma sensação de liberdade muito grande, interpreto como ação do Espírito Santo, um abraço de Deus.”

Murilo aborda as relações entre sexualidade e espiritualidade em seu canal no Youtube e acredita que "ninguém deve tirar do LGBT a consciência de que somos sagrados" (Foto: Arquivo Pessoal)
Murilo aborda as relações entre sexualidade e espiritualidade em seu canal no Youtube e acredita que "ninguém deve tirar do LGBT a consciência de que somos sagrados" (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi esse mesmo pertencimento que encantou Alexya e fez com que ela abandonasse o Catolicismo presente em sua vida desde a infância em Mairiporã, no interior de São Paulo. Passei a vida toda nesse contexto religioso. Com quase 21 anos, fiz o seminário para me tornar padre. Na volta de um simpósio em Campinas, passei em um prostíbulo e conheci as travestis que trabalhavam lá. Nunca tinha visto nem ouvido uma travesti, daí que fui entender. Olhei e falei: ‘Eu sou isso’”, relembra. Em meio à falta de referenciais dos anos 1980, a reverenda se considerava até ali apenas um rapaz gay que gostava do universo feminino.

Apesar de ter sido seu refúgio na infância, a Igreja Católica se transformou em um local de violências para Alexya, à medida em que ela ia descobrindo sua sexualidade e seu gênero, mas era obrigada a ouvir pregações que a incutiam “culpa, pecado e abstinência” com falas como “Deus não te fez assim” e “você vai para o inferno”. “Eu entrava na neura, mas eu só tinha aquilo, minha vida era casa e igreja. Hoje, fico imaginando adolescentes que ainda vivem isso, principalmente no interior, onde a igreja dita a vida social.”

O tratamento recebido pela ICM, entretanto, não poderia ser mais diferente do preconceito nada velado que ela encontrou antes. “A Teologia Queer me mostrou que sou filha de Deus como qualquer pessoa e que não há nada a mais ou a menos que eu possa fazer para Ele me amar ou não. Ela me equipara a todos os seres humanos e me mostra que o amor de Deus é incondicional.”

É essa noção de uma vivência sem pecados só por existir e de Deus inclusivo que ela passa para os três filhos adotivos, frutos do seu sonho antigo de ser mãe: Gabriel, de 15 anos; Ana Maria, de 12; e Deise, de 8, ambas também transexuais e com seus nomes e gêneros certificados nos documentos oficiais. “Saber que elas vão crescer protegidas e com direitos me deixa muito feliz, porque eu não cresci assim.

[A ICM] me equipara a todos os seres humanos e me mostra que o amor de Deus é incondicional.

Alexya passa para as filhas não só o ensinamentos que aprendeu com a ICM, mas também a história raramente contada do movimento LGBTI+, suas líderes como Marsha e Sylvia, e também os riscos de não seguir um padrão heteronormativo e cisgênero no Brasil. “Embora não precisassem, elas vão crescer sabendo da importância de dizer que são travestis, não apenas trans, até pelo que a travesti passa historicamente. Elas sabem que a transfobia pode matá-las ou me matar, que uma hora um transfóbico pode tirar a minha vida.”

A declaração não é descabida nem exagerada, uma vez que Alexya tem sofrido ameaças de morte regularmente, desde que viralizou uma entrevista sua na qual ela fala sobre Jesus Cristo ter sido um homem trans por ter transicionado do gênero divino para o humano. O processo foi o mesmo vivido pela amiga Renata Carvalho com a peça “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha dos Céus” (Jo Clifford), alvo de boicotes, censura e até tentativas públicas de agressão contra a atriz. “As pessoas não conseguem enxergar a figura de uma travesti ou trans sem colocá-la em um contexto de sexualização”, observa.

Em 2011, Alexya começou sua transição de gênero, poucos meses depois de entrar para a ICM (Foto: Rafael Monteiro | Revista Híbrida)
Em 2011, Alexya começou sua transição de gênero, poucos meses depois de entrar para a ICM (Foto: Rafael Monteiro | Revista Híbrida)

JOÃO KER

Mineiro de nascença e carioca de alma, João é formado em jornalismo pela UFRJ e já passou por empresas como Canal Futura, Jornal do Brasil, Sony, Yahoo e The Intercept, antes de lançar a Híbrida. É também repórter do jornal O Estado de S. Paulo.

Facebook| TwitterInstagram 

ALEX JORGE

Alex Jorge Braga é formado em Filosofia, estudante de comunicação social pela PUC-Rio e interessado em jornalismo político. Negro e periférico, acredita que o amor sempre vencerá o ódio.

Instagram 

RAFAEL MONTEIRO

Formado em moda, Rafael é fotógrafo cearense baseado em São Paulo.

Instagram