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26 fev 2021

PORTFÓLIO: O QUE EU VI E VIVI MORANDO NA CASA NEM

POKIRA, FOTÓGRAFA TRANS E NÃO-BINÁRIA, COMPARTILHA COM A HÍBRIDA COMO FOI OCUPAR O RIO DE JANEIRO COM SEU CORPO POLÍTICO

por POKIRA

Pokira é trans não-binária e ex-moradora da Casa Nem, lugar onde residiu de dezembro de 2019 até novembro deste. Aos 19 anos, ela viu como o centro de acolhimento “resignificou suas perspectivas de luta e resistência, sendo telespectadora e parte do objeto de telespecto”.

Fundada em 2016, a CasaNem resistiu até este ano como uma ocupação que já passou por imóveis na Lapa, em Vila Isabel e em Copacabana. Em outubro, a organização sem fins lucrativos finalmente conseguiu seu lar definitivo na rua Dois de Dezembro, no Flamengo, habitando um espaço cedido pelo governo estadual do Rio de Janeiro.

Abaixo, confira o depoimento de Pokira sobre o período que morou na CasaNem, o que ela aprendeu com isso, e veja as fotografias registrada pela perspectiva única de quem viveu e entende a importância histórica e social desse centro de acolhimento no Rio de Janeiro.

Cláudia, ex-moradora trans da Casa Nem que morou lá por quatro anos e acompanhou toda a trajetória (Foto: Pokira | Revista Híbrida)
Cláudia, ex-moradora trans da Casa Nem que morou lá por quatro anos e acompanhou toda a trajetória (Foto: Pokira | Revista Híbrida)
Fachada com bandeira LGBTIA+ da antiga ocupação Stonewall Inn, da CasaNem, dias antes do despejo (Foto: Pokira | Revista Híbrida)
Fachada com bandeira LGBTIA+ da antiga ocupação Stonewall Inn, da CasaNem, dias antes do despejo (Foto: Pokira | Revista Híbrida)

Eu vim de um contexto familiar de rejeição e dor, com parentes ausentes e presença constante de agressões e negligências desde a infância até a adolescência, quando fui morar no meu primeiro abrigo, um orfanato do interior de São Paulo. Isso, após diversas recorrências ao Conselho Tutelar, onde lutei pelo meu direito de viver e existir fora de um contexto familiar que me era violento e traumatizante.

Lembro-me que escrevia muito sobre tudo que sentia intensamente e tentava registrar isso com os poucos recursos que tinha. Ao atingir a maioridade, busquei casas de acolhimento LGBTIA+ até chegar à CasaNem, onde fui acolhida e potencializada pela minha arte. Indianarae Siqueira sempre me lembrou desse meu potencial, me fazendo acreditar cada vez mais que havia um propósito em mim, e que eu poderia usá-lo em prol da comunidade à qual meu corpo faz parte.

Registro interno da antiga ocupação StoneWall Inn, da CasaNem, dias antes do despejo (Foto: Pokira | Revista Híbrida)
Registro interno da antiga ocupação StoneWall Inn, da CasaNem, dias antes do despejo (Foto: Pokira | Revista Híbrida)
Indianarae e ex-morador da nem trans, entregando quentinhas e máscaras para população de rua (Foto: Pokira | Revista Híbrida)
Indianarae e ex-morador da nem trans, entregando quentinhas e máscaras para população de rua (Foto: Pokira | Revista Híbrida)

Desde então, faço registros de luta, resistência e afeto, e sinto que não há como fazer parte do todo sem se afetar, sem te afeto. Ele é a base e o fundamento, move e conecta o mundo, e é também a maior motivação da minha arte. Quando registro, fotografo ou produzo algum conteúdo visual, faço com a intenção de transmitir esse afeto ao público, sendo espectadora e objeto de observação.

Moradores da Casa Nem erguendo bandeira em ato político contra as privatizações (Foto: Pokira | Casa Nem)
Moradores da Casa Nem erguendo bandeira em ato político contra as privatizações (Foto: Pokira | Casa Nem)
Número da sede da CasaNem, na rua Dois de Dezembro, no Flamengo (Foto: Pokira | Revista Híbrida)
Número da sede da CasaNem, na rua Dois de Dezembro, no Flamengo (Foto: Pokira | Revista Híbrida)

Na CasaNem, pude redescobrir minha arte e ver arte em outros corpos, movimentos, vidas humanas e não-humanas, concretas e inconcretas. O afeto foi o início de tudo e será parte do processo até que o mundo todo possa sentir a afetividade da minha arte e transmiti-la aos outros corpos.

A arte de estar viva e de ressignificar o afeto. Um manifesto artístico-afetivo. Sou, porque muitas antes de mim foram.

Morgana, moradora trans negra da Casa Nem, em ato político na Cinelândia (Foto: Pokira | Revista Híbrida)
Morgana, moradora trans negra da Casa Nem, em ato político na Cinelândia (Foto: Pokira | Revista Híbrida)
Fachada da Sede da CasaNem, depois de cinco anos lutando por um espaço, com arte feita por Pokira (Foto: Pokira | Revista Híbrida)
Fachada da Sede da CasaNem, depois de cinco anos lutando por um espaço, com arte feita por Pokira (Foto: Pokira | Revista Híbrida)
Indianarae em frente à força policial, resistindo contra a remoção em meio à pandemia, horas antes do despejo (Foto: Pokira | Revista Híbrida)
Indianarae em frente à força policial, resistindo contra a remoção em meio à pandemia, horas antes do despejo (Foto: Pokira | Revista Híbrida)

Raphael Fonseca

POKIRA

Pokira, 19 anos, trans não binarie indígene das terras de Mato Grosso do Sul, ativista LGBTIA+, artista visual em fotografia, audiovisual e design gráfico e ex-moradora da CasaNem, onde viveu quase um ano e atualmente contribui com a ONG por seu trabalho.

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