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17 set 2021

6 PERGUNTAS PARA IRAN GIUSTI

JORNALISTA FUNDADOR DA CASA 1 CONTA OS PLANOS FUTUROS PARA O ESPAÇO 

por JOÃO KER

Aos 32 anos, o jornalista Iran Giusti conta que se sente “salvo” pelo projeto da Casa 1, que começou como uma ideia de couchsurfing no seu próprio apartamento. Hoje, o espaço se tornou referência em São Paulo e abriga jovens LGBTI+ em situação de vulnerabilidade, muitos deles expulsos de casa pela própria família.

Abaixo, Iran detalha o funcionamento, os critérios, os perrengues e os sonhos para a Casa 1:

HÍBRIDA: Quais são os critérios de triagem para os moradores da Casa 1?

IRAN GIUSTI: Ser LGBTI+, entre 18 e 25 anos, residente de São Paulo e que não tenha questões severas de saúde mental e drogadição. Quando eu falo “questão severa”, é porque uma coisa é um quadro de depressão ou histórico de ansiedade, outra coisa é um quadro esquizofrênico, que depende de uma medicação e acompanhamento mais regular que nós não temos.

Foto: Vinícius Martin (@viniciuspontomartin)
Foto: Vinícius Martin (@viniciuspontomartin)

H: Em 2019, a Casa 1 quase encerrou suas atividades por falta de apoio financeiro. Como vocês trabalham isso hoje?

IG: Eu sou muito resistente com histórias de superação. Sempre prefiro seguir a ideia de que o problema é estrutural e não personalizar as questões. Mas essa foi uma cena muito emblemática pra mim. Eu olhei e falei: a gente fez uma ação com a Ambev, que é tipo 2% do PIB do Brasil, a gente fez uma ação com a Pepsi, mais outras 14 ações do Orgulho, a gente tem 400 pessoas ajudando, trabalha sete dias por semana, de 15 a 20 horas por dia, se matando, e agora temos que pedir arroz e feijão, que é realmente o básico da alimentação no país.

Acabou que, naquele ano, tivemos uma puta mobilização, mais do que no lançamento da Casa. O financiamento recorrente chegou a R$ 100 mil por mês, muita empresa veio perguntando como poderia ajudar. Então, a gente arrumou todas as contas e conseguiu fazer um fundo de caixa, alugar o prédio da clínica… Foi um boom muito foda.

H: Como funciona a Casa 1 hoje?

IG: Hoje, a gente tem 27 contratados. As pessoas que estão trabalhando aqui fizeram uma escolha de vida. Pela primeira vez, a gente teve um fundo de caixa, porque antes era como em toda casa brasileira – um mês pagava água e no outro a luz, pra não cortar nada. Agora, se baixarem um decreto novo, se aparecer multa ou qualquer coisa, a gente tem dinheiro pra pagar isso. Mas o nosso anjo da guarda é muito potente, porque foi o que fez com que conseguíssemos passar pela pandemia.

Antes da pandemia, nós funcionávamos das 10h às 22h, de segunda a segunda. Sobre a programação, todos os alunos que vêm fazer curso aqui recebem transporte, alimentação e saem com o kit montado para continuarem trabalhando com aquilo depois que as aulas terminam. Também fazemos mutirão de retificação [dos documentos], pagamos todas as taxas. A gente acredita nisso, numa reforma estrutural, num processo de base e de construção conjunta.




Iran Giusti no Galpão Casa 1 | Foto: Vinícius Martin (@viniciuspontomartin)
Iran Giusti no Galpão Casa 1 | Foto: Vinícius Martin (@viniciuspontomartin)

H: Como é a política de acolhimento para LGBTIs menores de idade? Vocês recebem?

IG: Esse é um grande drama que a gente não consegue acolher. Mas a gente atende e recebe muita demanda de conselhos tutelares e abrigos de jovens trans, em especial. Elas vêm aqui e as assistentes sociais falam que querem socializar mais as pessoas acolhidas, fazer um encaminhamento posterior. Demos entrada agora no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), depois de quatro anos.

Pessoas que já estão em situação de rua também não conseguimos [acolher], porque são muitas demandas. Precisaria de alguém limpando, alguém cozinhando, e na Casa 1 nós nem falamos mais que somos um “centro de acolhida”, mas sim uma “república de acolhida”, onde cada um é responsável por limpar, cozinhar e cuidar do ambiente. Nesses casos, nós encaminhamos para os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), que estão mais “preparados”, entre aspas, para cuidar dessa demanda.

H: Quais são os principais planos pra Casa 1?

IG: Nós conseguimos apoio para reestruturar toda essa parte onde damos os cursos de maquiagem, estamos brincando que vai ser o “SEBRAE das bichas”. A gente também tem no radar dois sonhos muito antigos: primeiro, a criação de uma corporativa de catadores/catadoras trans, para trabalhar com resíduos. E uma outra coisa que queremos muito é abrir uma lavanderia pública.

Há pouco tempo, conseguimos passar também em um edital do Magazine Luiza para incluir o debate sobre agressão doméstica em mulheres bissexuais, trans, travestis e lésbicas. Foram quatro anos tentando isso. Eu já me sentei com muitas empresas que têm como pauta o combate à violência contra a mulher e todas falavam claramente “Olha, a gente ainda não tá pronto para falar sobre violência contra mulheres trans e travestis, nosso público não vai entender”.

Agora, também estamos no processo de conversar com as parlamentares e entender como podemos nos ajudar.

Foto: Vinícius Martin (@viniciuspontomartin)
Foto: Vinícius Martin (@viniciuspontomartin)

H: Vocês mantêm contato com quem passa pela Casa 1? Chegam a receber um feedback depois de como essas pessoas estão?

IG: A gente estima que 60% dos ex-moradores e moradoras ficam no território, moram aqui na região do Bixiga e têm uma articulação direta com o local, seja participando da programação, buscando cesta básica ou quando precisa de alguma ajuda jurídica. Outros 30%, a gente sabe por onde está, porque acompanhamos as redes sociais e aparecem aqui pontualmente, a cada seis meses ou um ano. Já 10%, a gente não tem noção mesmo do que aconteceu, porque é uma galera que, em geral, tem perfil socioeconômico ou de escolaridade um pouquinho melhor, que tende a não retornar. Mas também é um perfil muito raro de recebermos.

O que fazemos é plantar uma sementinha da saúde mental ali. Muitos deles, talvez se não tivessem passado pela casa, não estariam vivos. O resultado do nosso trabalho se dá de forma muito distinta em cada uma dessas pessoas, em graus completamente diferentes. Eu costumo dizer: “Não quero que você volte tão cedo. Quero que você volte bem daqui um, dois anos, pra dar um oi, ajudar a gente e ainda dar um cheque de doação. É isso que eu quero de vocês” (risos).

JOÃO KER

Mineiro de nascença e carioca de alma, João é formado em jornalismo pela UFRJ e já passou por empresas como Canal Futura, Jornal do Brasil, Sony, Yahoo e The Intercept, antes de lançar a Híbrida. É também repórter do jornal O Estado de S. Paulo.

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