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17 set 2021

A ARTE PIONEIRA DE PUMA CAMILLÊ NA INTERSEÇÃO ENTRE VOGUING E CAPOEIRA

CAPOEIRISTA E EDUCADOR PAULISTA CONTA COMO CONQUISTOU O MUNDO MESCLANDO DUAS ARTES FORJADAS NA RESISTÊNCIA

por LÍVIA MUNIZ

É um pouco difícil definir quem é Puma Camillê com apenas algumas palavras, mas mesmo assim vamos tentar: negro, artista, capoeirista, digital influencer, dançarino, coreógrafo, modelo, educador social, palestrante e ativista. Mas além de todas essas funções, identidades e atributos, Puma é pioneiro à sua própria maneira, ao integrar a comunidade LGBTQ+ na capoeiragem e fundir essa arte e luta secular ao voguing.

“Eu juntei o voguing com a capoeira não porque pensei nisso, mas porque eu sou capoeira, faz parte de mim. E quando conheci a cultura, passei a entender que aquilo também fazia parte de mim. O voguing potencializou o que há dentro de mim, na maneira como eu danço, como me visto, como eu me coloco”, conta em entrevista para a Híbrida.

Puma Camillê nem sempre se apresentou com esse nome. Nascido Luiz Otávio Camilo Martins, ele cresceu com a família e foi criado pela mãe Dona Sílvia e pela irmã mais velha Adriana, igualmente mãe, em Campinas, no interior paulista, mas nunca considerou aquele o seu lugar de origem. Tanto Luiz Otávio quanto Puma Camillê sempre foram cidadãos de lugar nenhum. Mesmo sem um local de pertencimento, ele sabia que era capoeira, desde o primeiro contato com essa cultura ancestral, aos sete anos. Foi a partir desse encontro que Puma descobriu uma nova forma de se comunicar e de se conectar com o próprio corpo.




Puma Camillê clicado na Finlândia por Ana Barbosa (Foto: Revista Híbrida)
Puma Camillê clicado na Finlândia por Ana Barbosa (Foto: Revista Híbrida)

Foto: Ana Barbosa (@_anabarbosa)

“Foi mágico, porque apesar de eu estar em movimento, eu era um pouco retraído, tímido, talvez até pela questão da sexualidade, já que eu entendia que aquilo não podia ser expresso em vários lugares. E na capoeira, aquilo não era questionado, porque brincar de ponta cabeça não era coisa de menino ou de menina, era de quem estivesse ali praticando. Os meninos brincavam de futebol e as meninas de estrelinha, amarelinha. Mas na capoeira eu podia ficar no meio de todos”, lembra.

Após esse primeiro contato, Camillê foi logo desestimulado pelos tios evangélicos, que eram sua referência, e não viam com bons olhos os elementos da cultura afro. Mas a capoeira era ele, e ele era capoeira. Por isso, aos 14 anos, eles voltaram a se encontrar através do Grupo Arte Cultural de Campinas, que fez uma incursão dentro da própria igreja, suavizando alguns aspectos da cultura para serem mais aceitos.

Foto: Ana Barbosa (@_anabarbosa)

Foi o início de uma jornada que levou Puma Camillê a conhecer mais de 40 países, divulgando a capoeira e fazendo aquilo que ele descobriu amar e ser bom: ensinar. Ainda assim, uma parte sua seguia negligenciada, já que viver no ambiente da capoeiragem exigia performar uma masculinidade muitas vezes tóxica. Isso até que em uma de suas viagens a Israel, Camillê percebeu que estava tudo bem ser e viver como LGBTI+. Na volta, ele estava disposto a se permitir o mesmo e mudar o que se encontrava ao seu redor.

“Fui na Parada do Orgulho cheio de cartazes para uma aula de capoeira exclusiva para LGBT que eu queria fazer. No mesmo dia, a aula foi cancelada quando a dona do lugar descobriu que ia ter um monte de drag queen, travesti, bicha e sapatão. Eu já tinha até pagado e ela me devolveu o dinheiro. Até que fui apresentado ao Centro de Referência LGBT de Campinas, e ali passei a dar aulas de capoeira”, conta.

Sem as amarras de antes, Puma Camillê se conectou cada vez mais com a comunidade LGBTI+, permitindo-se adentrar novos espaços e culturas. É como ele conhece o ballroom. A conexão foi instantânea, assim como sua percepção de que vários elementos da dança voguing eram semelhantes aos que ele encontrava na capoeira: os duelos, as pernas para o ar, a roda com observadores em volta batendo palmas e energizando, os movimentos no ritmo da música… A diferença era que as corpas travestis que honramos no voguing usualmente performam a feminilidade, enquanto na capoeira à qual ele foi apresentado evocava a masculinidade.




(Foto: Ana Barbosa | Revista Híbrida)
(Foto: Ana Barbosa | Revista Híbrida)

Foto: Ana Barbosa (@_anabarbosa)

“Quando você mexe o corpo, você tem acesso à história, ao medo, à timidez, a muita coisa. Eu comecei a entender que a capoeira poderia ser ensinada a partir disso. O voguing vem para além do corpo, mas também como ferramenta política, então eu faço novas alianças, para entender que o que aprendi poderia chegar a vários lugares”, analisa Camillê.

No Brasil, já existe registro da capoeiragem desde o século XVI, quando chegou aqui desenvolvida por africanos escravizados e seus descendentes. Mas foi apenas na década de 1930, graças aos esforços de Mestre Pastinha e Mestre Bimba, que ela saiu da ilegalidade e se transformou em patrimônio cultural imaterial do Brasil, não sem antes se verter a um modelo contra o qual havia lutado anteriormente.

Foto: Ana Barbosa (@_anabarbosa)

“A capoeira sempre foi uma luta contra a normativa, mas precisou estar junto com a normativa para não morrer. Era o que dava no momento. Ela deixou de ser um filtro para ser algo registrado, e eu sei quem tinha poder de registro naquela época. Dentro de qualquer cultura preta, você não ensina assim, você entrega falando, na oralidade. Não é a partir do registro, mas sim da vivência, pois ela tem outra profundidade”, explica Camillê.

O movimento ballroom, por sua vez, surgiu na década de 1960 como um refúgio para a comunidade negra e latina LGBTI+ da comunidade do Harlem, em Nova York. Dentre tantos aspectos ligados a essa cultura está o voguing, a dança inspirada nas poses e desfiles dos ícones fashion e das capas de revista da época. Nisso, há uma interseção inegável de que tanto a cultura ballroom quanto a capoeira vêm da necessidade de grupos marginalizados sobreviverem e se expressarem.

“O meu olhar a cada dia mais me permite entender o que é feito no voguing e as histórias contadas ali”, diz Camillê. “Quando você se coloca de corpo em qualquer categoria da ballroom, você se encontra com muita potêcia, ousadia, outra forma de encarar os medos e vulnerabilidades. Ao mesmo tempo,  é uma cultura que se joga, que cuida, é acolhimento pensando os corpos dissidentes, gênero, classe, saúde pública, e que está acontecendo nas periferias, potencializando pessoas.”

Foto: Ana Barbosa (@_anabarbosa)

“A gente se conecta a partir da dor, e quando isso acontece é perigoso, pois a gente acaba reproduzindo nossas próprias dores. Hoje, entendo que minha militância é a minha própria existência. Com esse olhar, meu ativismo tem um alcance muito maior. Não falo em questão de números, mas de profundidade. A fusão de ballroom com capoeira me traz a percepção de quem eu sou”, completa.

Representante da House of Manzamussa, Puma Camillê segue firme em sua missão de espalhar a fusão Capoeira & Voguing pelo mundo. São pelo menos dois documentários produzidos, ensaios para a Vogue Itália, workshops, turnê europeia marcada com passagens por Finlândia, Grécia e Barcelona, além do plano não tão distante de se mudar para Nova York, o berço da cultura ballroom. Assim como as suas mil e uma atribuições, não é pouca coisa.




LÍVIA MUNIZ

LÍVIA MUNIZ_editora

Niteroiense apaixonada pelo Vasco, Livia é formada em Jornalismo pela UFRJ. Trabalhou como repórter e colunista na Goal Brasil durante quatro anos. É nerd, feminista e sonha ser uma ranger rosa.

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Ana Barbosa

ANA BARBOSA

Fotógrafa, apaixonada por contar histórias em imagens. Começou sua jornada estudando artes visuais, se formou em audiovisual pela UFRJ, trabalhou com cinema e TV e hoje usa esse olhar na sua fotografia.

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