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17 set 2021

CONEXÃO ANGOLA: ENFERMEIRO, PANSEXUAL E ATEU, ALIÚDE ARNALDO FALA SEM TABUS

ENFERMEIRO EM UM DOS MAIORES HOSPITAIS DE LUANDA, ELE FALA SOBRE A PAIXÃO PELA SAÚDE E O ATENDIMENTO ÀS MANAS LGBTIs ANGOLANAS

“Quando eu era mais novo, gostava de brincar com bonecas”, conta Aliúde Arnaldo, enfermeiro de 23 anos, pansexual e ateu que trabalha em um dos maiores hospitais de Vila de Cuaco, na província de Luanda, em Angola. Em entrevista à revista angolana Queer People e reproduzida com exclusividade pela Híbrida, ele fala do seu trabalho como enfermeiro, superações pessoais e profissionais, e como teve que lidar com sua orientação sexual sendo que, até os 18 anos, fazia parte de uma igreja católica.

QP: Como foi lidar com a sua vida sexual na fase da puberdade e qual foi a reação dos seus familiares com relação a isso?

AA: Foi muito doloroso… A minha família é muito crente e, naquele tempo, eu também era (atualmente sou assumidamente ateu risos). Eles me diziam que eu devia lutar contra os meus desejos e motivações sexuais que, até então, eram errados (segundo eles). Vivi em segredo e lutando contra mim mesmo durante toda a adolescência. Claro que tive algumas pegações aqui e ali, como qualquer pessoa (risos), mas sempre mantendo uma imagem digna aos olhos da família e de Deus.

Tudo acabou aos 18 anos, quando percebi que eu não tinha de ser aquilo que não sou na realidade e que tinha de viver a minha vida livremente, pois ela passa muito rápido e não temos tempo de encarnar outros seres. Devemos aproveitar esse bocadinho de tempo que nos resta para sermos nós mesmos. Deixei claro para a minha família que a minha sexualidade é uma particularidade só minha e de ninguém mais, pois ela é só um aspecto da minha vida.

QP: Quando surgiu a sua paixão pela medicina?

AA: Quando essa pergunta é feita, muita gente diz que quando era mais jovem gostava de brincar de ser médico e tudo mais, mas essa não era a minha realidade. Quando eu era mais novo, gostava de brincar com bonecas (risos). Eu gosto de lidar/interagir com as pessoas, orientá-las e ouvi-las, e isso me transmite satisfação. Preferi orientar a minha vida profissional em alguma área que lidasse com isso diretamente, e a saúde foi a mais apropriada.

Quando cheguei ao ensino médio, não achei tão especial, era algo muito básico. Mas quando começamos os estágios, em que tínhamos de lidar diretamente com as pessoas, aquilo me marcou muito. Gostei de ver os profissionais de saúde fazerem tudo o que sabiam e podiam para ajudarem as pessoas. Foi a partir daí que a minha paixão pela enfermagem cresceu, e decidi fazer disso a minha vida.

QP: Como foi lidar com a realidade de ser um jovem de 20 e poucos anos, pansexual e ter de comandar uma seção em que teria de atribuir tarefas/responsabilidades a pessoas bem mais velhas que você?

AA: Embora o Aliúde seja muita coisa no dia-a-dia, no ambiente de trabalho me esforço para ser bastante profissional. É isso que se espera das pessoas, que elas continuem a demonstrar a ética e a deontologia profissional nos seus locais de trabalho. Esse sempre foi o meu foco e os meus orientadores de formação profissional contribuíram muito para a minha postura profissional.

Independentemente de sua orientação sexual, é [importante se manter] respeitável em qualquer ambiente profissional. Então, era visível aos olhos dos meus antigos superiores que eu estava ali para trabalhar, e queria/quero o bem estar das pessoas. Acredito que por eu ter sido muito direito, apresentado sempre sugestões diferentes e comparecido sempre às reuniões, isso fez com que eu subisse de cargo.

No meu local de trabalho, as pessoas questionam entre si sobre a minha postura um tanto fora do padrão do homem hétero-cis, a minha forma de falar… Dizem que eu desfilo muito (muito obrigado, eu desfilo sim risos) e isso chama a atenção. Mas ninguém consegue passar por cima disso porque, acima de tudo, me esforço em ser profissional com todos.

QP: Eles sabem da sua orientação sexual?

AA: Eu tenho alguns colegas que, além disso, são amigos e sabem da minha orientação sexual. Alguns desconfiam, mas eu não acho que seja necessário chegar e bater a bandeira no meu local de trabalho, porque acabo mostrando isso na forma que lido e falo com eles.

Normalmente, pessoas LGBTQIAP+ têm de dar sempre 110% de si para serem credibilizadas nos seus locais de trabalho, principalmente se for não-binária ou trans. E, ainda assim, muitas das vezes esse reconhecimento não chega.

QP: Por ser pansexual, você sente que tem de dar sempre 110% de si para ser reconhecido no seu local trabalho?

AA: Não acho. Como disse antes, primo muito pelo profissionalismo no meu local de trabalho, porque se eu não for profissional e rigoroso, vidas podem ser perdidas. Então, é muito importante ser mais do que impecável. Muitos dizem que ser profissional de saúde é brincar de ser Deus. Já imaginou brincar de ser Deus? É muito complicado!

QP: Como foi quando descobriu que seria o chefe de sua seção?

AA: Quatro meses após minha entrada no ministério, fui promovido a subchefe da seção junto a minha parceira de trabalho. Foram muitos desafios encontrados, pois eu era – e continuo sendo – um dos mais novos, e tinha de chefiar pessoas bem mais velhas.

Os profissionais antigos são um tanto quanto mais arrogantes no quesito de aceitar serem chefiados por alguém bem mais novo que eles, e muitos deles, infelizmente, não estão preparados para mudanças (que até certo ponto têm ocorrido ultimamente no país). O que sinceramente me preocupa, mas não me inquieta, pois todos nós temos de acompanhar o carro da mudança, porque se isso não acontece você fica para trás, seja na vida pessoal ou profissional…

Então, mudar para melhor é muito importante para qualquer área. Esse foi o maior desafio encontrado, porque na nossa visão Africana, o mais velho tem poder de tudo… Mas, por mais que os mais velhos tenham aceitado ser chefiados por alguém mais novo, nós nunca podemos deixar a voz da experiência ficar calada… Depois de três meses trabalhando como interino de alguém, eu fui promovido como chefe daquela seção, e a primeira pessoa a saber foi minha mãe (minha parceira em todos os momentos da minha vida). Fiquei muito feliz por esse novo cargo.

QP: Em algum momento as suas questões pessoais abalaram o seu lado profissional?

AA: Oh meu Deus (risos)! Sim! O término do meu relacionamento abalou muito a minha estrutura como pessoa. Ninguém fica feliz quando termina um relacionamento, a não ser que seja com alguém que te tratava muito mal, aí sim é um livramento (risos). Mas não era o meu caso. Isso aconteceu em Novembro de 2019 e me fez ir trabalhar sem energia, pois eu ficava muito mal já que gostava muito daquela pessoa. Mas o que acontece e se espera de todo profissional é: “não misture sua vida pessoal com o trabalho”. Quando você chega na porta do seu local de trabalho, tem de pegar toda a sua maleta de problemas e deixar com o segurança, que nem a sua arma (risos). E quando você tiver que voltar para a casa, pegue a sua maleta de problemas e vá com ela pra lá (risos)…

Mas foi um pouco fácil superar isso, pois no meu trabalho eu me divirto muito. Na maior parte das vezes, não me sinto cansado porque gosto daquilo que faço. Por mais que em alguns momentos eu chegasse meio abatido ou triste, recebia um paciente e precisava ouvi-lo, pois enfermeiros em determinadas situações têm de ter ouvidos de psicólogos, porque o paciente gosta de desabafar e é necessário… E assim consegui superar esse problema.

QP: Já testemunhou no seu local de trabalho algum ato de discriminação contra uma pessoa LGBTQIAP+ por parte de algum colega?

AA: Já tivemos oportunidades de atender algumas pessoas LGBTQIAP+ e o sentimento é diferente quando vou atender uma mana (risos)… Não se espera que profissionais de saúde tratem mal as pessoas, porque nós fomos formados para atender/socorrer todos, independente de sua orientação sexual ou expressão de gênero.

Não é ético tratar com indiferença alguém devido à sua orientação sexual, e quando estou presente e tenho que atender alguém da comunidade, o meu sentimento de carinho aumenta, porque sei o tanto de dificuldades que tivemos de enfrentar para chegar até aqui, e eu jamais vou permitir que alguém seja tratado de modo diferente, principalmente se for da comunidade… E não, nunca testemunhei alguma pessoa LGBTQIAP+ ser destratada no meu local de trabalho, e nesse aspecto é de elogiar os meus colegas, pois tratam todo mundo igual.

QP: Você acredita que essa forma de igualdade que os seus colegas aplicam aos pacientes LGBTQIAP+ tem alguma influência sua?

AA: Eu acredito que sim! Porque o preconceito parte da ignorância. Quando as pessoas não entendem uma coisa, elas tendem a temer e a desacreditar, e quando os seres humanos têm medo, eles tendem a se proteger. Então, muita gente homofóbica acha que a homofobia é uma forma de proteção contra aquilo que não entendem. Então, eu acredito que sim, que é pela experiência que eles têm comigo que eles têm uma visão de respeito pelas pessoas da comunidade.

David Kanga

DAVID KANGA

David Kanga, 22 anos, nasceu e cresceu em Luanda, na Angola, é ativista social em defesa das pessoas LGBTQIAP+. Estudante do curso de Direito, formado em Gestão de Empresas e Empreendedorismo pelo programa YALI, em Moçambique, e fundou em 2018 a primeira revista digital LGBTQIAP+ Angolana, a Queer People.

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