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17 set 2021

FRENTE DE RESISTÊNCIA TRANSFEMINISTA MARICÓN QUER “LEVANTAR AS BICHAS” DA COLÔMBIA

COLETIVO DE “DISSIDENTES SEXUAIS” TEM COLOCADO O VOGUING NO CENTRO DOS PROTESTOS NACIONAIS QUE ABALAM O PAÍS LATINOAMERICANO

Durante um dos maiores protestos que eclodiram em 28 de abril na Colômbia, um grupo de três dançarinas fazendo voguing em frente à Polícia de Bogotá viralizou com a mesma velocidade que elas batiam cabelo na Plaza Bolívar. Convocadas por uma chamada aberta do coletivo Frente de Resistência TransFeminista Maricón, elas incendiaram o público de manifestante e mostraram ao mundo que aquela cultura criada nos bailes do Harlem, em Nova York, continua forte e como nunca um ato política e de autoexpressão para corpos dissidentes.

Em conversa com a Híbrida, dois dos quase 20 membros da FRTFM contam como o coletivo se juntou “de um dia pro outro”, por meio dos protestos e da arte. Eles também revelam como o movimento tem se expandido e se conectado com outros grupos sociais ao longo das últimas semanas, na luta para “levantar todas as bichas da Colômbia” e mostrar que o voguing é uma reivindicação do direito democrático de protestar e ocupar um espaço com corpo e arte.

Antes de mais nada, Cristal (Cristian Torres) e Lúcifer, bailarino e professor de dança, ambos de 26 anos, deixam claro que não se declaram LGBTs, mas sim “dissidentes sexuais”. “Nossa experiência sexual e de gênero é completamente diferente e não se encaixa nessas categorias tão moldadas, inclusive quando falamos de “gay”, pois reprime várias experiências.”

Confira a entrevista abaixo:

HÍBRIDA: Como vocês entraram em contato com a cultura ballroom?

LUCÍFER: Essa cultura, em Bogotá, já chegou tem uns 3-4 anos. Mas agora que chegamos ao auge por conta do próprio Paro Nacional. Então quando elas fizeram esse ato político de fazer voguing em frente aos policiais, elas abriram vários canais para que nós que estamos praticando vogue, para tornar essa revolução uma revolução das maricas**, das dissidências nos protestos nacionais. Então poder nos apoderar de nossos corpos e poder dizer que como coletivo dissidente estamos trazendo nossa voz e opinião.

CRISTAL: Bom, o movimento começou de forma independente no dia 28 de Abril. Desde o começo dos protestos esse ano. O Paro Nacional* deste ano. Começamos a sair nos protestos dançando e percebemos que dançar ameniza esse sentimento de medo, um espaço onde você podia se soltar. E nos colocamos como coletivo com a primeira ação que fizemos no dia 9 de maio com performance, uma peça chamada Cuerpos Revolucionarios.

**NT: Paro Nacional é o nome oficial, em espanhol, dos protestos em massa que têm acontecido na Colômbia. Em português significa Protesto Nacional, porque unifica o país inteiro em uma causa comum.

H: E vocês se conheceram como, já eram amigos? Ou conheceram pela internet, amigos em comum?

C: Bom, tudo começou pela Demonia, começamos a sair, se encontrar sempre e se juntar em muitos parches* e resolvemos nesses encontros fazer o coletivo, a Frente. Nos juntamos ali mesmo nos protestos, nas marchas. 

*NT: parche, na Colômbia, significa seu grupo, seu rolê, seu bonde.

L: Com essa manifestação artística que é o voguing, temos que deixar claro que essas pessoas não fazem parte do nosso grupo. Eles abriram um canal importante dentro dessa cultura ballroom porque muitos olhares se voltam pro que se faz no exterior, nessa mesma cultura, e trazem isso para Bogotá para dizer que os colombianos estão fazendo voguing também da sua própria maneira, da maneira criolla*.

Acho importante mencionar isso, que elas três abriram um espaço para nós que fazemos voguing para que a gente possa se tornar potência dentro do Paro. Precisamente porque somos artistas e temos também escritoras, que fazem as músicas, fotógrafas dentro do grupo, que chegaram nesse mesmo chamado. A ideia era abrir para quem quisesse chegar nessa primeira manifestação.

*NT: criolla, significa essa mescla entre espanhóis colonizadores e o povo indígena e negro que teve sua terra e corpos invadidos pela colonização.

**NT: marica em Bogotá é uma palavra muito utilizada no vocabulário do dia-a-dia para dizer coisas como amiga, bicha, miga, bee, e tantas outras que usamos no Brasil. Foi uma forma de ressignificar a palavra – que originalmente seria ofensiva como foi viado no Brasil, ou faggot em inglês.

L: Então não foi algo montado para os protestos, foi algo que surgiu de um dia pro outro. Começamos a ver pelo tamanho do grupo que seria necessário nos organizarmos, foi nesse momento que consolidamos o coletivo como está.

H: Quando vocês começaram a conhecer a cultura de ballroom?

L: Historicamente, as pessoas que trouxeram a cultura ballroom pra Colômbia eram da House of Tupamaras*, que criaram as quintas de voguing e chamavam muitas pessoas, com encontros abertos ao público para fazer voguing e conversar. Elas tinham certas perguntas sobre a cultura, e chegaram em Bogotá com isso, “Olhem essa nova forma de se movimentar para as dissidências, para a comunidade LGBTIQ+”.

Graças às Tupamaras e esses primeiros encontros, várias pessoas começaram a explorar isso. O movimento começou a ser mais forte quando começamos a ver mais e mais essa cultura. Faz mais ou menos um ano e meio, que começou a ser mais forte esse movimento**.

*NT: House of Tupamaras, o nome foi inspirado em uma frente guerrilheira no Uruguai chamada Tupamaro que foi muito importante para a luta no país durante os anos 60 e 70.

**NT: Em 2019, durante um dos maiores festivais de música abertos do país, Rock Al Parque, as Tupamaras compartilharam palco com o grupo russo Pussy Riot que também gerou um movimento bastante forte pela cidade.

L: Depois da House of Tupamaras, chegou a House of Cobras e graças a essas duas casas que se abriram vários canais e plataformas para que várias voguers pudessem começar a tocar a cena e tudo mais, como os kikis* que temos até hoje.

*NT: kiki é um termo que surgiu com a cultura negra LGBT norte-americana e significa juntar o bonde, fazer uma festa, fofocar e se encontrar com as bee. O termo se popularizou fora dos grupos POC com a música das Scissor Sisters Let’s Have a Kiki, em 2012.

L: Apesar de já existir uma cultura, ela se tornou ainda mais poderosa com o Paro e com essas três minas que viralizaram depois de terem feito esse voguing em frente aos policiais. Nesse momento, já haviam muitas pessoas fazendo voguing mas ele ainda não era tão conhecido a nível popular. Isso de sair andando pela rua fazendo voguing, esses movimentos, foi pegando força, e agora o grupo, como disse Cristal, é um coletivo dissidente, mas não somos uma casa de voguing.

Nós utilizamos o voguing como forma de nos manifestarmos, mas preciso deixar claro que dentro do nosso grupo temos uma casa que agora está sendo muito importante dentro de toda essa cultura ballroom que é a House of Ywasas*, da qual faço parte e Demonia é a mãe. Todas nós da Ywasas fazemos parte da Frente Transfeminista Nacional, como bracinhos que saem da casa.

Lógico que em Bogotá a cultura está mais forte na quantidade de pessoas fazendo voguing, temos muito mais gente em Bogotá e muito mais casas que em outras cidades. O voguing não chegou a todas as cidades. Posso dizer que as únicas cidades fazendo voguing seriam Bogotá, Pereira e Medellín, onde estão começando, como em Cucutá. Não são muitas, considerando a quantidade de cidades na Colômbia, para dizer que essa cultura já está assentada.

Estamos começando agora a criar tudo que envolve essa cultura. E entrar em espaços onde antes não fazíamos parte, como espaços acadêmicos e outros que nos permitem criar de forma mais acessível, seguindo as necessidades de cada território. Porque, por exemplo, acredito que Colômbia é o único país que faz voguing com guaracha.*

*NT: Guaracha, originalmente, é um ritmo cubano de músicas engraçadas, normalmente cantadas por trovadores que lembram os contadores de histórias e repentes do nordeste brasileiro. Na Colômbia, e principalmente em Bogotá onde a música eletrônica é bastante proeminente, existe a guaracha eletrônica que é um ritmo musical diferente – mais similar a músicas eletrônicas em inglês que ficaram populares no Brasil nos anos 90, porém com a mistura de ritmos latinos. Na Nicarágua, este estilo de guaracha eletrônica também é bastante comum nas festas e o ritmo tem crescido por toda América Latina.

L: A guaracha tem várias razões sociais aqui em Bogotá e na Colômbia, porque era uma música muito ouvida por putas e travestis, algo como um “guilty pleasure”. Quando o voguing começou a pegar força na cultura isso também ajudou a dizer que as putas se respeitam, existem e estamos aqui com elas também. 

H: Por estarem dançando voguing, se reunindo com as putas e com as travestis, vocês costumam receber mais represália e perseguição da polícia?

C: Na verdade, temos utilizado o voguing nos protestos porque esse movimento não gera violência. Estou apenas ocupando meu espaço, meu direito de protestar. Porque eu tenho o direito de protestar, de me reunir. E protestar por um país que realmente está consumindo a gente, que não nos leva a nada. Nos sentimos em uma ditadura. Um povo sair para protestar em plena pandemia é porque as coisas estão muito mal. E precisamos de uma mudança, já não aguentamos mais isso. Então, como dissidências sexuais e de gênero, estamos literalmente resistindo com o corpo, dançando.

A Frente também faz isso. Vamos a essas cidades que precisam protestar e onde existe essa repressão policial para criar ambientes não tão tensos. E não estamos pedindo, estamos exigindo. Exigindo um espaço seguro para protestar, para todos. Crianças, senhoras, tias, a mulher que saiu pra comprar pão. Elas veem várias maricas dançando e se unem, graças ao voguing.

L: O voguing também tem se tornado o espaço seguro de todas as dissidências, não apenas pessoas LGBT.Não é nenhum segredo que uma pessoa fazendo voguing chama atenção pela maneira de se mexer. Então é um lugar de dar peso ao feminino, do maricón, de dizer que sim, sou bicha, e sua forma de me chamar não me ofende. Que bom ser bicha, que maravilhoso, eu faço uma coisa que você não pode fazer.

H: Quais os próximos passos do coletivo? Como pretendem aumentar esse movimento?

C: Buscamos crescer fora de Bogotá, dentro da Colômbia e no exterior. Vamos começar a trabalhar com outros grupos de outros lugares, teoricamente desde os protestos. Porque justamente o que queremos fazer é isso, empoderar as maricas. E que isso siga porque quanto mais bichas se empoderando, mais nos unimos.

Vimos necessidade em outros lugares como Pereira, também Duitama. Vamos a outra cidade pequena também, que é Sibaté, uma cidadezinha bem conservadora. Queremos colocar todas as bichas da Colômbia de pé.

O que queremos é que a cidade seja nossa e não vamos parar até que isso se torne realidade. Vivemos essa necessidade de políticas públicas, e entendemos essas necessidades que vivemos. O Comité del Paro* está falando que as pessoas não estão mais protestando neste momento, mas estamos sim protestando e precisamos de um comitê onde existam dissidências sexuais.

*NT: o Comité del Paro é uma organização do protesto nacional que tenta representar a população geral nas conversas com o governo. Porém, estudantes, pessoas LGBT, minorias, e muitos outros grupos não se identificam com as decisões do comité. Recentemente em uma reunião com o presidente, o comité decidiu encerrar oficialmente os protestos e aceitar as reformas abusivas propostas. Porém o povo, com outras formas de organização, segue protestando e deixam claro que rejeitam a posição do comitê.

Por exemplo, dentro do próprio grupo temos uma mulher cis. Apesar da maioria do nosso grupo se entender como pessoas trans, como maricas. Isso tem sido algo recorrente. Nos balls que fazemos, sempre existe um momento onde paramos e dizemos que este movimento foi criado para criar comunidade, para exigir nossos direitos, para pedir que nos respeitem.

Então esse movimento tem ficado bastante popular, inclusive em alguns estilos específicos como Sex Siren onde a maioria das pessoas que fazem são as minas trans que praticam a prostituição. E é um componente importante dentro de uma categoria porque nem todas as pessoas de todos os territórios fazem este estilo. O único lugar onde se pode fazer isso abertamente neste momento é Bogotá.*

*NT: Aqui se menciona um estilo de voguing popularizado na cultura ballroom por trabalhadoras sexuais que começaram a participar dos balls para celebrar a tremenda habilidade que é necessária para viver deste tipo de trabalho.

JOÃO KER

Mineiro de nascença e carioca de alma, João é formado em jornalismo pela UFRJ e já passou por empresas como Canal Futura, Jornal do Brasil, Sony, Yahoo e The Intercept, antes de lançar a Híbrida. É também repórter do jornal O Estado de S. Paulo.

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Juliana Senra

JULIANA SENRA

Juliana é do interior de Minas, começou sua graduação em Belo Horizonte mas concluiu no Rio de Janeiro. Mudou-se para São Paulo, onde conheceu a @, e hoje elas vivem juntas em Bogotá, Colômbia. É Diretora de Arte, com passagem por agências como W/McCannDDB e Publicis. Acredita que a representatividade na publicidade e propaganda brasileira começa com a descentralização – macho-hetera-normativa-zona sul carioca– do departamento de criação.

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Mari Pinheiro

MARI PINHEIRO_tradutora

Mari, apesar de nascida em São Paulo, sempre foi do mundo. Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Flórida, ela já passou por Recife, Curitiba e tantas outras cidades brasileiras antes de se mudar para o Panamá, Colômbia e Estados Unidos. Atualmente estuda feminismo e gênero na Universidade Nacional da Colômbia e mora com a esposa Juliana, que trouxe ela pra Híbrida. Tradutora, editora e do tipo que faz bicos em todas as áreas, ela acredita no poder da linguagem, da música e da comunicação para abrir caminhos mais diversos onde o mundo inteiro pode se encontrar no amor e na aceitação.

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