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17 set 2021

UMA FRENTE AMPLA DE CIBERATIVISMO, DO TWITTER À CPI DA COVID

“GABINETE PARALELO” MISTURA CULTURA POP COM RESGATE HISTÓRICO DOS DESASTRES NO GOVERNO BOLSONARO

Quarta-feira, 12 de maio de 2021. No Senado, o ex-secretário das Comunicações do governo Bolsonaro, Fabio Wajngarten, presta seu depoimento à CPI da Covid. Na internet, a sessão é transmitida ao vivo por plataformas como o Youtube e a Twitch, e se torna uma espécie de reality show, servindo como rota de fuga para os usuários do Twitter que, além de carentes por entretenimento, desejam respostas sobre o descaso da gestão federal em relação à pandemia que já fez 500 mil vítimas pelo País.

Num dos momentos mais marcantes da “atração”, Wajngarten afirma não ter se envolvido na campanha “O Brasil Não Pode Parar“, alegando que esteve afastado de seu cargo por ter contraído a Covid-19 durante a veiculação do material. Publicada nas redes oficiais do governo federal em março do ano passado, a ação pregava o não cumprimento das normas de isolamento social como única opção para fomentar a economia do País em meio à crise sanitária.

Enquanto isso, no Twitter, a página JairMe Arrependi resgata trecho de uma live realizada no dia 12/03/2020 entre o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL) e o depoente, onde este admitia que estava trabalhando normalmente naquele mês, inclusive aprovando campanhas na Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom). Nos comentários da publicação, diversas arrobas marcam parlamentares, na intenção de que o vídeo chegasse à Praça dos Três Poderes.

O ‘mutirão’ funcionou: Randolfe Rodrigues (REDE-AP) apareceu, dizendo que iria assistir ao vídeo naquele instante e que, depois, o repassaria aos colegas. A interação entre Rodrigues e uma página satírica não era nova. O senador admitiu, em uma live no dia anterior, que estava recebendo contribuições de perfis dedicados a expor os diversos absurdos dos integrantes e colaboradores do atual governo, como a Tesoureiros do Jair, que conta hoje com mais de 120 mil seguidores no Twitter.

O auge no depoimento de Wajngarten veio em instantes, com Rogério Carvalho (PT-SE) que exibiu, ao vivo, o trecho da live compartilhada pela JairMe, demonstrando a contradição do ex-secretário ao dizer que estava ausente de seu cargo no período de vinculação da “O Brasil Não Pode Parar”. Dali em diante, a internet, que já estava em polvorosa, explodiu.

Dados levantados pela startup de inteligência Cortex, de acordo com matéria publicada no Metrópoles, apontam que as interações no Twitter durante o depoimento do ex-secretário aumentaram 434% em relação ao último trimestre, chegando ao pico de 742% de audiência quando áudios da Veja foram divulgados, contendo mais uma leva de inconsistências nas declarações do depoente.

A partir da “checagem em tempo real”, a participação dessas páginas ao longo de toda a CPI se tornou uma constante, ajudando a democratizar e expandir o debate político na internet. Com bom humor, muitas delas têm se proliferado principalmente no Twitter, onde misturam referências a RuPaul’s Drag Race, divas pop e os memes do momento para comentarem a rotina de desastres em Brasília.

“Essa CPI vai para além da disputa política, é a disputa pela narrativa do horror que nós sofremos no último ano para cá”, reflete integrante da JairMe Arrependi sobre o destaque que sua página tem ganhado durante a Comissão. Atualmente, o perfil é um dos mais populares em seu ramo, com mais de 223 mil seguidores no Twitter e 43 mil no Instagram.




Aeleição de 2018 consolidou uma estratégia que estava sendo produzida há anos web. Perfis, que antes não se manifestavam enfaticamente quando o assunto era política, vieram a utilizar do humor para ajudar a disseminar fake news ou até mesmo fazer com que a descrença na política institucional crescesse. Memes foram cooptados pela retórica da extrema-direita e espalhados massivamente por internautas em plataformas como o Whatsapp e o Facebook.

Porém, em dado momento, a maré teria de virar. Com a vitória de Bolsonaro, uma nova onda de páginas foram criadas, dedicadas a revelar a frustração de seus eleitores arrependidos, como é o caso da JairMe Arrependi, fundada em outubro de 2018 e inspirada na estadunidense Trump Regrets. Outras expandiram o debate a partir de anexos de perfis já populares nas redes, como a Bora Conversar Política (BCP), inicialmente associada ao fórum BCharts, que é famoso na comunidade LGBTI+ por cobrir notícias relacionadas à cultura pop.

Escândalos políticos, como o Caso Queiroz, também serviram de inspiração. A Tesoureiros do Jair, iniciada em dezembro de 2018, surgiu após divulgação do relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que apontava uma movimentação atípica de mais de R$1.2 milhões na conta bancária de Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e amigo de longa data da família do presidente.

“A gente sabia que discutir a política desta forma mais ‘diferente’ foi o que elegeu Bolsonaro em 2018 e que isso faltava um pouco à esquerda, que às vezes é muito academicista e não chega ao povão”, comenta um dos integrantes do perfil Bora Conversar Política, que reúne quase 32 mil seguidores e vê esse novo horizonte online como uma “tomada de território”.

Num período de questionamento dos nossos direitos em meio às trevas, dá para dizer que a internet, sem fake news e sem robôs, está ajudando a resgatar elementos da democracia. À Híbrida, Renan, um dos criadores/administradores da Bora Conversar Política, e integrantes da JairMe Arrependi e Tesoureiros da Jair, ambos sob anonimato, conversaram sobre o surgimento dos perfis, o papel que estão desempenhando na educação política dos internautas e o que esperam como fruto de seus trabalhos.




HÍBRIDA: Como surgiu a ideia para a criação das páginas?

BORA CONVERSAR POLÍTICA: A BCP começou como braço do fórum e Instagram BCharts, mas que falava só de política. A turma boa, que no caso seriam os eleitores do Ciro Gomes, se juntou para criar essa página que reuniria críticas ao PT, notícias políticas e apoio ao Ciro. Só que tivemos muitas polêmicas no desenvolvimento, até pela falta de maturidade com redes sociais, e o fórum pediu para criarmos um próprio nome. Tivemos de mudar nossa identidade visual, o nome para Bora Conversar Política (BCP) e nos afastamos um pouco de militâncias, saindo da bolha tanto de um candidato quanto de outro.

JAIRME ARREPENDI: Surgiu no dia do resultado do segundo turno das eleições de 2018. Minha página foi inspirada na Trump Regrets, que basicamente retuitava tweets de eleitores do Trump arrependidos. Com o tempo, percebi que ter 100 mil seguidores serviria melhor pra informar a galera sobre os desmandos do governo que pra rir de voto equivocado, e então mudei o foco.

TESOUREIROS DO JAIR: Inicialmente, a ideia era só fazer uma sátira mesmo. Criei a página no dia que tomei conhecimento do caso Queiroz – daí o nome (risos). Mas depois acabei me engajando em temas mais sérios e entendendo mais sobre a máquina político ideológica por trás do Bolsonarismo.

H: São quantas pessoas no total fazendo o trabalho?

BCP: No momento, somos eu e outros três administradores.

JMA: Eu e meus cães no couro.

TDJ: Eu administro a página sozinho. Mas, atualmente, colaboro com mais de 40 pessoas na produção de informações para a CPI. Todos voluntários. Além dos milhares de seguidores das páginas que mandam sugestões e informações o tempo todo.

H: Como vocês classificariam o trabalho que fazem?

BCP: A classificação do nosso trabalho mudou assim que começamos a BCP. Decidimos reforçar que somos uma página de esquerda, para termos maior autonomia e podermos criticar o PT, o PDT, o PSOL etc. Optamos por mais pluralidade (temos administradores militantes do Ciro, do Lula e do Flávio Dino, por exemplo) porque não acreditamos em imparcialidade, então preferimos noticiar de todos os ângulos e todas as visões. Além disso, também somos uma página anti-Bolsonaro.

Quando juntamos essas duas coisas, saímos de nossas bolhas para falar com eleitores que discutem política, mas não são ligados a um partido específico. Depende muito do que está sendo discutido no dia, na semana, no mês, no ano, na eleição, naquele período. Então, acho que classificaria nosso trabalho como plural, de esquerda e, hoje, anti-Bolsonaro.

JMA: Eu classifico como uma espécie de ciberativismo dos tempos atuais. O humor é capaz de furar bolhas que às vezes nem imaginávamos. Houve um período onde, vez ou outra, eu recebia mensagens de ex-eleitores do Bolsonaro dizendo que graças a um ou outro post meu começaram a abrir os olhos. Isso não tem preço.

TDJ: Até o início da CPI, fazíamos monitoramento e disputa de narrativas. Acompanhamos rotineiramente o que eles estão fazendo e dizendo, pois é o mesmo discurso que depois vai parar nos grupos de whatsapp. E tentamos não só contrapor esses discursos e mostrar as mentiras que espalham (que não são poucas), como também apontar os atos e declarações absurdas que cometem e que infelizmente tem passado impunes.

Com o início da CPI, passamos a reunir documentos oficiais disponíveis ao público, informações, declarações públicas e vídeos (sempre postados em redes sociais e lives públicas, ou mesmo postados nas próprias redes oficiais do governo) que julgamos relevantes e apresentamos dentro do contexto da época. Fizemos isso com a FUNAG (Fundação Alexandre de Gusmão, órgão vinculado ao Itamaraty), que veiculou muita desinformação sobre a pandemia no ano passado, por exemplo.

Durante os depoimentos, apresentamos esses dados nas redes para contrapor informações falsas que os depoentes passam na CPI. Às vezes, as declarações acabam sendo desmentidas durante as sessões com base no que é exposto nas redes sociais. Também recuperamos postagens e registros deletados do governo que já têm se mostrado úteis na CPI, como as postagens deletadas da campanha O Brasil Não Pode Parar.

H: Vocês esperavam o reconhecimento que ganharam, até por parte ‘oficial’ da CPI?

BCP: Foi um processo de tentativa/erro. Quando trocamos o nome e decidimos seguir outro rumo para expandir, o reconhecimento foi muito grande e, quando vimos, havíamos chegado aos 28 mil seguidores em um ano e com uma taxa de engajamento maior. Tivemos três posts muito famosos e impactantes que nos ajudaram a crescer: o do Joe Biden falando sobre a Amazônia, que tinha mais esse perfil satírico, ácido; o do João Dória anunciando a vacina; e a denúncia dos Lins aqui em Manaus, levado por mim.

Esse reconhecimento tem muito a ver com o BBB também, já que discussões misturando o reality e a política nos trouxeram muita visibilidade. Mas a gente não esperava que políticos e jornalistas entrassem em contato conosco tão cedo. Então, estamos bastante surpresos e felizes com tudo isso.

JMA: Não, tanto que eu fiquei sem reação quando a Folha publicou uma charge minha com dois aliados.

TDJ: Lá atrás, quando criei o perfil, não. Mas aos poucos fui me acostumando com a dinâmica das redes, que permitem que uma pessoa normal como eu possa trocar informações com jornalistas e políticos. Isso possibilita, por exemplo, uma coisa muito comum, que é um dos milhares de seguidores encontrar uma informação relevante, eu repassar essa informação adiante e isso acabar repercutindo a nível nacional ou no meio da CPI.

As redes sociais criaram atalhos e facilitaram a conexão entre agentes públicos e a sociedade. Demorou pra eu me acostumar, mas hoje em dia acho comum. Resgato um vídeo de uma coletiva de imprensa do Ministério da Saúde de noite e, no dia seguinte, tem senador usando ele na CPI. Isso tem acontecido, e eu já estou há tanto tempo fazendo esse tipo de coisa que hoje em dia acho normal, rotineiro (embora obviamente não seja risos).

H: Parte do sucesso dos perfis se deve ao humor que vocês imprimem a cada postagem. Por quê vocês acham que este tipo de linguagem agrada tanto?

BCP: Na verdade, essa linguagem começou no BCharts. Quem teve a ideia de pegar esta forma de noticiar e misturar com política fui eu, Renan, lá em 2014/2015, depois da eleição da Dilma. Observei que as pessoas que discutiam política de uma forma muito difícil foram embora do fórum. Então, comecei a usar essa linguagem pop, ácida e de bom humor para tornar a política interessante. Até mesmo clickbait, pra chamar a atenção, trazer as pessoas e, a partir daí, fazer com que elas se interessassem e tornassem os debates melhores. Essa minha fórmula deu muito certo no fórum e foi crescendo, até chegar nas redes sociais da própria BCharts e criarmos a página.

A nossa proposta não é sentar e dar uma aula de ciência política para o eleitor comum. Ela é de que o nosso material seja um ponto de partida e que, neste ponto de partida, a gente use a linguagem mais simples e popular possível, jogando uma mensagem principal que depois o eleitor poderá ir atrás e criar seu próprio senso crítico.

JMA: Política, para quem não respira isso, é um saco. São muitos nomes, cargos, notícias, implicações, bastidores, articulações. Ainda mais no governo Bolsonaro, onde todo dia é pautado um escândalo diferente. Nós, brasileiros, somos um povo levado a nos desinteressar por ela. Esse é o maior erro que nós podemos cometer. Quando eu posto, penso sempre nas pessoas que não ligam tanto para o tema e como deixá-lo atraente para elas.

Gosto de pensar que meu perfil atua como um facilitador para aproximar as pessoas do tema. Vendo um tweet bobo, com um gif ou uma piada meio sem graça, a pessoa pode se interessar a buscar o tema em outra fonte. Uma das consequências é que vejo algumas pessoas, principalmente jovens, dizendo que só aguentam acompanhar o momento atual do País através do meu perfil devido à leveza que ele traz. Eu acho que o segredo vem daqui: a minha página não é um perfil institucional, então não presto contas, não faço planejamento, o meu humor é o meu humor particular mesmo. Eu sou assim.

TDJ: Por bastante tempo, eu achava política uma coisa complicada de se entender e acompanhar. Hoje, como estou mais envolvido nisso tudo, tento usar uma linguagem fácil e até descontraída para repassar adiante o que eu julgo relevante, de forma que converse mais com o público que tem o mesmo perfil que eu tinha alguns anos atrás.

H: Ainda na questão da linguagem, dá para perceber muitas referências e piadas provenientes da cultura queer nas postagens. Algum (ns) dos integrantes das equipes é LGBTI+?

BCP: Sim, todos são LGBTIs e todos são do fórum BCharts, que sempre foi LGBTI+, reunindo muitos comediantes que ainda não foram descobertos ou pessoas ácidas e inteligentes que discutem diversos assuntos. Aquilo é um caldeirão muito rico. Eu tenho muito orgulho da página ter tido sua origem no fórum BCharts.

JMA: Amor, o nome da página é homenagem a RuPaul’s Drag Race, daí você tira. Bebemos em Pose, RPDR, Legendary, Veneno. Cultura, gente, cultura (risos).

TDJ: Em meu caso, não.

H: Qual a maior dificuldade na rotina de trabalho de vocês?

BCP: Nosso maior problema, no começo, era a rixa entre Lula e Ciro e a militância mais engajada deles. Nosso erro foi querer se meter nisso. Quando você é militante, você não se enxerga. Mas quando você é administrador de uma página, é como se visse no espelho e enxergasse de fora certos comportamentos que você tinha e hoje reprova. Foi uma experiência muito curiosa de transformação e aprendizado.

Além disso, ter uma página de política com poucos administradores e estar rodando ela todo dia com conteúdo não é fácil. Isso exige muito tempo, muito conhecimento, muito domínio de linguagem. Noticiar coisas do governo Bolsonaro, especialmente, acaba com a saúde mental de qualquer um. E ainda ter que lidar com centenas de comentários toda semana de discussões que você já teve. Quanto maior a página fica, menos capacidade a gente tem de acompanhar as coisas. A maior dificuldade, hoje, é a saúde mental. É dar conta de tanta coisa pra fazer e aguentar todos os comentários e xingamentos.

JMA: Nas palavras de Guilherme Boulos, ‘você chama isso de trabalho?’. Brincadeira. Eu tento criar uma barreira entre a personagem JairMeArrependi e minha vida particular. Obviamente fracasso sempre. Então, a maior dificuldade é às vezes perder a paciência com o tanto de informação que recebo. Outra dificuldade é não conseguir atender todo mundo do jeito que eu gostaria, porque, mais uma vez, eu não sou uma entidade, sou apenas um indivíduo.

TDJ: A abundância de provas e evidências. Como a gente está levantando informações a respeito de cada pessoa que vem depor, acaba não dando tempo de levantar tudo que a gente gostaria. Mas a gente aponta o que julga ser mais importante para ver se pode ser útil aos membros da CPI.




H: Já chegaram a receber ameaças? Se sim, como tem sido/ foi lidar com elas?

BCP: Nenhum de nós chegou a receber ameaças, mas chegou até a gente que o governo Bolsonaro monitora todas as páginas de esquerda nas redes sociais, especialmente no Twitter, que é a rede em que ele e os filhos mais atuam. Nunca interagimos com o Flávio Bolsonaro, mas ele nos bloqueou. Também já viralizamos dentro da bolha bolsonarista com um post que tivemos de apagar. Então, eles sabem da nossa existência, mas toda vez que aparece algum seguidor, robô, alguém mais fanático ameaçando e xingando, bloqueamos.

JMA: De vez em quando mandam um xaveco de perfil anônimo para perfil anônimo. Mas não funciona. A covardia da ameaça vem do momento em que sua vida está exposta, mas a de quem te ameaça não está. Eles vão ameaçar quem? O quê? Onde? Aliás, essa é a única vantagem do perfil anônimo. Quando uma ameaça desse tipo chega, eu faço rir. A pessoa tá falando “sozinha”.

TDJ: Até onde me lembro e até onde vi, só uma vez, e foi depois do início da CPI. Um perfil desses recém criado, que nem dei bola. Mas tenho certeza que não mexem comigo por causa do anonimato, pois vejo pessoas não anônimas sofrerem ameaças frequentemente por fazerem oposição ao governo nas redes sociais.

H: Qual o maior sonho de vocês em relação a esses trabalhos? O que imaginam para o futuro?

JMA: O Brasil é o cemitério dos sonhos. Se eu sobreviver e me vacinar, já tô no lucro. Meu maior sonho é ver o presidente no mínimo preso.

BCP: Para a página, a gente deseja que ela cresça bastante no Twitter, saia do Instagram e vire um tipo de referência. O atual comandante do perfil, que é mais velho e tem mais experiência, disse que quer profissionalizar e, quem sabe, um dia transformar a BCP num jornal, em um editorial, uma página com CNPJ mais séria. É um caminho longo, vai demorar, mas acho que é isso. Tornar isso bastante sério e se diferenciar um pouco em relação às outras páginas, porque agora já tem muita coisa igual, mas como a gente, antes não tinha. E nós temos o nosso nicho.

TDJ: Que não tenha sido em vão. Não só o esforço que todo mundo (senadores e suas equipes, pesquisadores, jornalistas e todos os voluntários) estão desempenhando para trazer tudo à tona, mas principalmente as centenas de milhares de mortes decorrentes da política adotada pelo governo na condução da pandemia. Espero que os responsáveis sejam punidos e que, com o fim da pandemia, as decisões e omissões que nos levaram a este ponto não sejam esquecidas, para que em 2022 não se venha com um discurso de “dois extremos”, colocando qualquer pessoa do campo democrático no mesmo páreo de Jair Bolsonaro ou qualquer pessoa que o represente.

H: Como tem sido acompanhar o destaque que a página tem ganhado durante a CPI da Covid?

JMA: Acho bonitinho. Os senadores foram muito receptivos a essa participação do Twitter nas redes, capitaneada pela Tesoureiros. Lógico, é divertido vê-los interagir conosco, usar um vídeo publicado por nós para pôr em xeque um bolsonarista e tudo mais, mas a conquista mais importante vem da sensação de participação popular que essas interações proporcionam.

Essa CPI vai para além da disputa política, é a disputa pela narrativa do horror que nós sofremos no último ano para cá. Cada brasileiro viveu ou testemunhou uma tragédia particular envolvendo o vírus, muitas causadas pela inconsequência do Bolsonaro. Vamos esclarecer os fatos ou vamos deixá-lo chutar nossos mortos, afirmando que morreu menos gente que o reportado, que um coquetel mágico defendido por ele curaria a doença?!

TDJ: Eu acho tudo bem natural. O governo Bolsonaro tem se utilizado demais das redes sociais, notadamente o Twitter, para emplacar suas narrativas distorcidas e engajar seus apoiadores em torno das pautas ideológicas e da pandemia. A gente sempre esteve ali fazendo o contraponto, e mostrando a forma como eles atuavam e construíam o discurso. Tudo isso está vindo à tona agora na CPI. Com isso, as páginas ganharam mais relevância. O fato de os senadores estarem abertos a receber nossas sugestões ajudou bastante também.

Maria Eugênia Gonçalves

MARIA EUGÊNIA GONÇALVES

Maria Eugênia (Jeane, para os íntimos) já caminhou pelo Design, pelo Direito, pelo Jornalismo e pela Publicidade, mas agora está se graduando nas Ciências Humanas pela UFJF. Fã de cultura pop desde criança, sua grande paixão é a sétima arte e tudo que envolve o mundo audiovisual: da produção até a forma que reflete o mais íntimo de nosso cotidiano.

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