29 fev 2024

EUA 2024: UMA ELEIÇÃO DECISIVA PARA OS DIREITOS LGBTQIA+

PRÓXIMA DISPUTA PARA PRESIDENTE NOS ESTADOS UNIDOS PROMETE SER UM CAPÍTULO DECISIVO PARA O RETROCESSO OU AVANÇO DE POLÍTICAS À COMUNIDADE LGBTQIA+

por PEDRO PAIVA

Em menos de um ano e meio, os Estados Unidos vão às urnas decidir qual será o próximo presidente do país a partir de 2024. Além de decidirem se o democrata Joe Biden terá um segundo mandato ou não, os eleitores também decidirão o futuro dos direitos de pessoas LGBTQIA+, nessa que talvez seja a eleição mais decisiva da história recente dos EUA no que diz respeito às garantias duramente conquistadas desde a Revolta de Stonewall.

Assim como o Brasil, a sociedade estadunidense está altamente polarizada, um fenômeno que acompanhou a ascensão da extrema-direita aqui e aí. Em 2020, Joe Biden venceu a eleição com apenas 51,3% dos votos. No próximo pleito, um repeteco entre Biden e Trump é provável. Porém, do lado Republicano, o jogo ainda pode virar se as prévias do partido acabarem escolhendo outro candidato, ainda mais conservador que o ex-presidente. 

A disputa pela vaga do Partido Republicano à eleição presidencial de 2024 tem se mostrado uma batalha sem escrúpulos para provar aos eleitores quem é o candidato mais reacionário. No fogo cruzado, eles atacam os direitos reprodutivos, imigrantes e pessoas LGBTQIA+. Deputados federais e estaduais também têm se esforçado ainda mais para conquistar os votos conservadores nessa reta final de mandato.

É nesse cenário que o governador republicado da Flórida, Ron DeSantis, tem se destacado como o principal adversário de Donald Trump. Mais jovem, mais polido, e com uma rejeição menor, DeSantis é uma versão soft do fascismo americano. Com leis eleitoreiras e discriminatórias, ele transformou seu estado em uma espécie de laboratório e outdoor para um certo tipo de política hostil às mulheres, aos imigrantes e às pessoas LGBTQIA+.

O REICH DA FLÓRIDA

Um dos maiores ataques aos direitos de pessoas LGBTQIA+ na Flórida foi a lei apelidada de “Don’t say gay” (“Não diga gay”, em português). Sancionada por DeSantis, a legislação proibiu toda e qualquer discussão em salas de aula sobre temas relacionados à sexualidade e à identidade de gênero. Algo muito parecido com as tentativas da extrema direita brasileira (vide Escola Sem Partido) de controlar o que é dito no ambiente escolar.

Temas como racismo estrutural, machismo e qualquer crítica à história dos Estados Unidos (ou à forma como ela é contada) também foram banidos. Nem mesmo os livros escaparam. Grupos de extrema direita, alguns abertamente neonazistas, têm se organizado e pressionado as reuniões de diretorias de escolas para proibir diferentes títulos. O discurso, claro, é sempre o mesmo de “proteger as nossas crianças”.

Marcus Valéria, militante LGBTQIA+ brasileiro e membro do coletivo Defend Democracy in Brazil, afirma que essa história “mostra uma face da ultra direita, do fascismo”. Ele vive em Nova York há 30 anos e diz que “quando se começa a proibir livros, a história não nega, você abre uma Caixa de Pandora. Tirar livros de bibliotecas é um absurdo”. 

Tratar esses ataques como fascismo não é exagero. Na Flórida, um dos destinos favoritos dos turistas brasileiros e ex-presidentes derrotados, manifestações neonazistas se tornaram comuns. Apoiadores de DeSantis chegaram a protestar em frente a um parque da Disney com bandeiras do candidato e camisas com suásticas formadas por mapas da Flórida. Isso tudo porque a empresa se manifestou publicamente contra a “Don’t Say Gay”.

No início deste ano, uma professora foi denunciada por uma mãe apoiadora dos “Proud Boys”, um grupo de extrema-direita que participou da invasão ao Capitólio, em 2021. O motivo do protesto foi a decisão da educadora de exibir em sala de aula o filme “Mundo Estranho”, que conta a história de uma família de aventureiros e apresenta o primeiro romance entre dois homens em uma produção da Disney. Uma investigação foi aberta contra ela pelo condado de Hernando, onde fica a instituição.

Em uma postagem no TikTok, a professora se defendeu: “Escolhi esse filme porque ele tinha relação com o nosso currículo. O nosso tema na época era ciências e ecossistemas, como eles se interagem, plantas, humanos e animais. Esse filme era perfeito”. A investigação foi encerrada e a professora não sofreu sanções, porque tinha permissão escrita dos pais. Toda a exposição, porém, é irreversível, assim como o medo que gerou em outros professores.

“Essa lei não está protegendo as crianças”, diz Marcus Valéria, “ela está colocando essas crianças em perigo nas escolas, no seu ambiente social. Fazendo com que elas sejam marginalizadas. Essas pessoas existem, elas não vão mudar. Elas são como são e precisam de proteção”. Tal qual o ativista brasileiro, muitos defensores dos Direitos Humanos se mobilizam pelo país contra os retrocessos.

A Flórida é o caso mais emblemático, mas não é o único. De acordo com a American Civil Liberation Union, uma ONG focada em liberdades civis nos Estados Unidos, 491 leis anti-LGBTQIA+ foram apresentadas só em 2023 nas legislaturas estaduais do país. A maioria delas ataca pessoas trans e, principalmente, crianças trans, com a proibição de tratamentos de afirmação de gênero em várias frentes.

A RESISTÊNCIA

No domingo, 25 de junho, Nova York realizou sua tradicional Marcha do Orgulho. O tema foi “Força e Solidariedade”. Nas ruas do Village, cartazes e palavras de ordem contra Ron DeSantis marcaram presença, assim como fantasias que pediam respeito à comunidade trans nos Estados Unidos.

Um grupo de brasileiros, do coletivo que Marcus Valéria faz parte, participou da Queer March, que aconteceu paralelamente à oficial. A manifestação é crítica ao caráter “corporativo” do evento principal e procura levantar mais bandeiras políticas durante o dia. Na concentração, em frente à Prefeitura de Nova York, ativistas discursaram durante o início da tarde e lembraram a importância da resistência neste momento de ataques aos direitos humanos e, principalmente, de pessoas LGBTQIA+. 

Em um dos cartazes, lia-se: “Não a Ron DeSantis e George Santos”.

Santos, brasileiro eleito deputado no ano passado pelo 3º distrito de Nova York, é o primeiro congressista abertamente gay a vencer uma eleição pelo Partido Republicano. Ainda assim, ele é defensor árduo das políticas que retiram direitos de crianças trans.

Júlio Kaczam, cearense que vive nos EUA há quatro anos, encontrou o grupo e se uniu  aos brasileiros durante a manifestação. “Para mim, é muito importante estar aqui e ajudar a preservar a nossa democracia”, disse, estendendo o protesto contra George Santos: “Ele não representa a gente”.

Marcus Valéria, militante LGBTQIA+ brasileiro e membro do coletivo Defend Democracy in Brazil, na Marcha do Orgulho LGBTQ+ de Nova York (Foto: Pedro Paiva | Híbrida)
Marcus Valéria, militante LGBTQIA+ brasileiro e membro do coletivo Defend Democracy in Brazil, na Marcha do Orgulho LGBTQ+ de Nova York (Foto: Pedro Paiva | Híbrida)

PEDRO PAIVA

Jornalista formado pela UFRJ, meio mineiro, meio paulista e carioca por acidente. Apaixonado por política, já trabalhou em diversas campanhas de esquerda no Rio de Janeiro e é voluntário do Democratic Socialists of America, dos Estados Unidos.

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