15 abr 2024

EM MEMÓRIA DE JAMES “THE CLUBBER” HOLIES

NASCIDO THIAGO DOS SANTOS, JAMES “THE CLUBBER” HOLIES FOI PEÇA FUNDAMENTAL DA CENA NOTURNA CARIOCA COMO PRESENÇA FIXA EM FESTAS COMO V DE VIADÃO, INJUSTIÇADA E KODE

por TIAGO BASTOS

Dedico o espaço desta coluna a celebrar umas das figuras que conquistou a cena noturna carioca, uma club kid querida entre os boêmios da cidade: James “The Clubber” Holies, nascido e batizado Thiago do Santos. Peça fundamental nas noites do Rio de Janeiro, que infelizmente nos deixou nesse plano com apenas 28 anos de idade, em 30 de agosto de 2023.

James, conhecido como “James The Clubber”, era morador de São João de Meriti, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Filho de pais religiosos, ele saiu de casa aos 18 anos para viver de uma forma livre, fugindo dos costumes conservadores que o cercavam em um lar evangélico. 

Reconhecido por sua presença única e pela criatividade em suas produções, que frequentemente misturavam música, performance e moda, ele foi um artista e influenciador na cena da vida noturna. Inspirado em seus grandes ícones e divas, gerou comoção e interesse nas pessoas que passaram a consultá-lo sobre festas e looks, tirando daí e das festas o seu ofício e renda. 

Sua figura era conhecida por promover eventos exclusivos e festas temáticas na cidade, como as populares V de Viadão, Injustiçada, Kode, FA4 e muitas outras, sempre com energia e estilo únicos. Sua presença marcante sempre foi aguardada com expectativa pelos frequentadores dos eventos onde ele passava. 

Ele foi fiel apoiador de cena LGBTQIA+ e seu trabalho deu visibilidade a artistas que trabalham e recebem com cuidado a comunidade. Espaços esses que criam ambientes seguros e inclusivos para pessoas de todas as orientações sexuais e identidades de gênero, promovendo a aceitação e a celebração da diversidade. As festas que ele frequentava ou organizava carregam o compromisso com a igualdade e a justiça social, com produções artísticas que abordam questões relevantes para a comunidade.

Era grande fã de música pop, sendo fascinado por alguns artistas, como Demi Lovato, em particular. Ele amava sair com os amigos e estar nos mais diversos festivais, aproveitando cada oportunidade de viver experiências únicas.

Acredito que, para James, a música e a vida noturna eram mais do que apenas entretenimento, mas também uma forma de se expressar, se conectar com os outros e criar memórias duradouras. Era muito prazeroso participar de uma festa onde todos queriam estar pela música, para celebrar os amigos e encontrá-lo ali, como um anfitrião da noite (mesmo sem ter esse título oficial), compartilhando suas vivências, vendo o que ele tinha pensando para usar naquele momento e, principalmente, dividindo um front e o palco com James The Clubber. A definição “front do poder” veio do momento em que podíamos partilhar desse espaço de liberdade com ele. 

Pedro Koor, criador da drag queen Lashonda, lembra da primeira vez em que viu James pessoalmente, ainda na segunda edição da festa Batekoo, no Rio de Janeiro. “Nós fazíamos parte de um grupo de pessoas negras no facebook e nos conhecemos na ocasião quando o defendi de um ataque racista que ele havia sofrido por gringos na festa. 

A partir desse momento, passamos a nos encontrar sempre, ele inclusive frequentou muito o concurso que participei de drags (Queens) e festas como a V de Viadão, uma amizade de boate.” 

“Na pandemia, ficamos mais próximos. Nossos amigos se encontravam frequentemente e ele sempre estava presente. Nisso, ficamos grudados e nos falávamos diariamente por mensagens em grupo..”, continua Pedro. “James sempre foi ‘a pessoa da festa’. Quando pensava que iríamos fazer nada no fim de semana, ele surgia com uma festa que não podíamos perder, que teríamos ingressos e que seria muito boa. Uma pessoa que você poderia contar sempre se o objetivo fosse curtir. Saímos muito, montamos diversos looks e compartilhamos de muitos em vários eventos com nossos amigos. Amávamos fazer isso em festas e festivais”, lembra, dizendo que o amigo acabava se arrumando na sua casa ou na de outras pessoas do grupo “porque a família dele era muito conservadora”. 

Pedro lembra que James ficou mais conhecido entre os boêmios cariocas quando criou um grupo no Whatsapp para anunciar ingressos e eventos gratuitos no primeiro carnaval depois da pandemia do coronavírus. “Assim nasceu o James The Clubber. A forma positiva que ele encarava a vida, principalmente quando contávamos nossas questões pessoais para ele, é uma coisa que sinto muita falta e que ainda estou aprendendo a lidar. Estamos aprendendo a lidar sem a presença dessa estrela, tanto nas festas quanto na vida.” 

A passagem de James por esse mundo foi importante, valorosa e emblemática. Que sua memória possa ser lembrada como um ícone dessa comunidade, da cena noturna e alternativa e nunca seja esquecida. Aos amigos e familiares, deixo os mais sinceros abraços calorosos. Foi muito bom conhecer e viver com essa pessoa incrível que foi James The Clubber.

Raphael Fonseca

TIAGO BASTOS

Carioca, 28 anos e não binário. DJ, Produtor cultural e diretor da ONG Voz das Comunidades.

Twitter