15 abr 2024

EXU DO MORRO: ZAYRE KAUS E A ARTE DOS CORPOS TRANSMASCULINOS

NASCIDO EM SÃO GONÇALO, O ARTISTA PLÁSTICO GANHA ESPAÇO NO MUSEU DE ARTE DO RIO COM TRABALHO GALGADO NA ANCESTRALIDADE PRETA

por LÍVIA MUNIZ

[Aviso de gatilho: suicídio]

“Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que só jogou hoje.” Esse é um ditado iorubá que demonstra como a entidade sagrada da comunicação e da linguagem, tantas vezes demonizada pela sociedade, bota a roda para girar e abre os caminhos de seus protegidos. É nesse ensinamento que Zayre Kaus trilha sua jornada artística, pautada no povo preto e favelado. Aos 31 anos, ele busca uma arte que seja acessível para além das instituições e represente pessoas como ele: negro, periférico, trans e de axé. Uma arte que vem do morro para quem está no morro.

“Eu tinha essa necessidade de ver pessoas pretas, originárias e LGBTQIAPN+ e sentia falta dessa demanda. E quando eu via essa arte, não era com pessoas daqui, não eram os crias, não eram os transmasculinos com camisa de time”, relembra em conversa com a Híbrida. “Para mim isso tem muito a ver com um processo racial. Quanto mais eu entendo raça e gênero, mais minha arte prospera. Sempre que busquei a arte, eu estava querendo contar essas histórias, criar e reafirmar essas memórias. Quero reconstituir um lugar de memórias do povo preto, favelado e transexual.”

Natural de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, Zayre é uma pessoa transmasculina, ou seja, não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascimento, mas também não atende à perspectiva da masculinidade hegemônica. “A diferença principal é que a transmasculinidade não procura (emular) a masculinidade cis, mas uma masculinidade única, ancestral”, explica. 




A masculinidade trans vem muito de uma origem africana e indígena, de povos que não buscam o corpo cis

Mas até reconhecer seu próprio gênero, Zayre levou muito tempo para entender o espectro das possibilidades nas quais poderia se inserir. Apesar de sempre saber que não era uma pessoa cis, a falta de acesso à informaçãoe de referências trans atrasaram sua transição. 

“Sempre estive com muitas pessoas trans, entendia que meu corpo era dissidente dessa igeneridade, através de todas as minhas performances de gênero e vivência”, lembra. “Só que me pegava que o único recorte de transgeneridade que eu conhecia era o homem trans mesmo, como o Thammy Gretchen, o Tarso Brant, que são corpos nos quais eu não me vejo.

A transgeneridade surge pra mim quando eu já estava em processo de transição para pessoa não-binária, porque eu nunca quis ser homem. Tem uma procura da masculinidade de si própria, seja ela africana ou originária. Isso pegou para mim quando tive o encontro com os meus, com os corpos que já conheciam isso.”

Para se entender como transmasculino, Zayre sofreu muita disforia e também passou pelo luto da perda do melhor amigo, Demétrio, que vivia os mesmos conflitos que ele em relação ao gênero, mas se suicidou antes de entender a própria transexualidade. 

“Eu velei ele, joguei as cinzas no mar. A gente vivia processos muito próximos. Ele morreu falando que não queria ser homem, mas sabia que não era uma mulher”, recorda o artista. 

“Apesar de a transmasculinidade não ser binária, quando surge o não-binário isso também não me contempla, porque sou uma pessoa que usa pronome masculino e performa masculinidade. Então eu continuava me sentindo ‘eita, e aí?’, conta. “Fui fazendo um lugar de retomada, de conhecer trans indígenas, trans favelados, uma rede de moleques iguais. Entender que eu não estava sozinho, que o Brasil está lotado de transmasculinos.”

O Exu do Morro

Conhecido na cena artística como Exu do Morro, Zayre explica que o apelido foi dado por amigos do Complexo da Otto, conjunto de favelas na zona norte de Niterói, também na região metropolitana do Rio. “Esse apelido pegou porque eu acordava para meditar e pintar de 6h da manhã às 6h da noite, e uma amiga minha disse que toda vez que ela passava na Otto tava eu lá igual um Exu. Todo mundo que convive comigo entra nessas piras.” 

“Agora as coisas estão melhorando, mas antigamente muitas vezes eu não tinha nem dinheiro de passagem para ir para os lugares. Exu é muito bom para mim e ele me traz laços através da comunicação, é sempre através da oralidade”, avalia. “Alguém que conta pra alguém, que conta pra alguém, e as coisas vão fluindo.”

A Casa Nem teve um papel importantíssimo na trajetória de Zayre. Criada em 2016 por Indianarae Siqueira, o espaço é um centro de acolhimento à comunidade LGBTQIAPN+ no Rio de Janeiro e desenvolve vários projetos para o desenvolvimento de pessoas da comunidade. Foi no curso de comunicação que ele pôde desenvolver sua criatividade e criar sua própria estética. 

“Naquela época, eu ainda não me entendia como pessoa trans, mas já andava com os meus. Era um lugar que eu podia existir. Para mim foi muito importante, porque comecei a criar um conceito de figuras, de imagens através de um mundo que se abriu para mim pela lente de câmeras que eu pude acessar lá”, afirma. “Mas eu nem entendia que era artista, não entendia a possibilidade de um favelado exercer essa área de trabalho. A Casa Nem foi o lugar que me deu uma possibilidade profissional.”

Atualmente, ele conta com quatro obras na exposição Funk: um grito de ousadia e liberdade, que reúne mais de 900 peças de 100 artistas diferentes no Museu de Arte do Rio (MAR), um dos mais importantes da cidade. 

Ironicamente, o endereço do MAR é a Praça Mauá, onde a poucos metros, no Cais do Valongo, negros escravizados foram comercializados durante três séculos. Historiadores estimam que cerca de 800 mil pessoas escravizadas passaram por ali, fazendo com que o local fosse reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial e o maior sítio de memória da diáspora africana. 

“Essa exposição foi feita por favelado, só tem favelado, ela já é um marco histórico por si só. Tá no Centro do Rio, onde nós éramos traficados, e agora é a tropa da arte”, avalia Zayre. “Foi muito foda só de participar. Quando entrei lá, só chorei. Fui com minha família trans, encontrei vários caras que eu também sou fã, referências que também estão lá. Me senti retomando um legado. Não foi uma conquista sozinho. É sobre minha comunidade, sobre minha família. Um dos momentos mais incríveis que vivenciei.”

Viver de arte em um país como o Brasil é uma montanha russa, principalmente para um alguém preto e favelado, como Zayre. A falta de segurança financeira ainda é uma realidade para o autodidata, que luta diariamente contra a estrutura colonial na cultura brasileira.

“É um campo muito hostil. Toda vez que eu diálogo com artistas, a gente troca a mesma coisa ‘porra, não dá pra alugar uma sala, um atelier’. Porque em um mês você trabalha a beça e no outro você não trabalha”, explica. Essa semana eu vendi obras caríssimas por R$ 100 e um mano me perguntou o que tava acontecendo, e eu falei ‘tá acontecendo que eu preciso fazer dinheiro’. Acontece um racismo geográfico.”

Mesmo com todas as dificuldades, Zayre se recusa a desistir. Até mesmo porque a arte faz parte dele, de maneira intrínseca e ancestral. Em religiões de matriz africana, os ensinamentos são passados de geração a geração através da oralidade. Agora, ele sente que sua missão é transmitir essas mesmas lições em suas pinturas.

A arte é o que eu sou, tal qual a minha espiritualidade, tal qual meu gênero. Não tem como desistir

“Muitas das vezes, eu preciso sobreviver. Algumas artes são instintivas, papo de dormir e orixá me dar. Isso mostra que eu não tenho opção”, conta. “Eu já trabalhei de tudo, de lícito e ilícito. Quando eu me encontrei artista, eu entendi que isso é o que eu sou. Eu tenho 31 anos, quando eu era mais novo, sabia que minha outra opção era o crime. Isso me lembra muito o movimento hip-hop, de quantos manos o rap salvou a vida. E no meu caso, a arte salvou a vida. É exatamente tudo que eu sou.”

Zayre é casado com a professora travesti Julien Côrtes, que foi musa inspiradora para uma de suas obras no MAR. Quando fala do filho, João, ele se derrete completamente. Antes de contar sobre sua transição, o artista teve receio sobre a reação do pequeno e seu entendimento. 

“Quando fui conversar com ele e com a minha mãe, falei cheio de mais-mais que eu não era uma mina, que não era para me tratar como menina e ele falou ‘ah, tá bom’”, lembra, narrando a sorte ou determinação celestial que tem acompanhado todos os aspectos da sua vida. “Achei que seria uma questão, e no outro dia ele estava me chamando de pai.”

LÍVIA MUNIZ

LÍVIA MUNIZ

Niteroiense apaixonada pelo Vasco, Livia é formada em Jornalismo pela UFRJ. Trabalhou como repórter e colunista na Goal Brasil durante quatro anos. É nerd, feminista e sonha ser uma ranger rosa.

Facebook | Twitter Instagram