21 jun 2024

Visibilidade Trans: Desejos e sonhos pros próximos 30 anos

Desde 2004, o 29 de janeiro ficou marcado no calendário nacional como o Dia da Visibilidade Trans, em homenagem ao dia que ativistas da comunidade fizeram uma mobilização até então inédita na Câmara dos Deputados para o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”.

Mais que combater a transfobia, a data é uma oportunidade para celebrar e promover a pluralidade, o orgulho e a existência de pessoas transexuais e travestis sobrevivendo no país que é líder mundial em assassinatos dessa população.

Ainda em 2022, o movimento de luta pelos direitos das pessoas trans celebrou 30 anos desde sua primeira articulação social com o nascimento da organização que, mais tarde, se transformaria na Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), principal entidade na atuação da defesa dos direitos de pessoas transgêneras.

Inspirada na celebração desse aniversário e decidida a imaginar um futuro melhor para a comunidade, a Híbrida perguntou para ativistas, intelectuais, artistas e figuras políticas travestis e transexuais:

Que conquista você deseja ver para a população trans e travesti do Brasil nos próximos 30 anos?

As respostas variam de acordo com o campo de atuação da pessoa que respondeu, mas o desejo de uma garantia é comum a toda: o simples direito à vida e à existência.

Erika Hilton, deputada federal pelo PSOL (Foto: Reprodução)

Erika Hilton, deputada federal pelo PSOL 

“Acho que será possível consolidar muitos direitos da população transvestigênere – avançamos em alguns e precisamos avançar em outros. Mas um direito que gostaria de ver assegurado em forma plena e absoluta é à cidadania e à empregabilidade. Só conseguiremos sair da marginalidade e da abjeção quando tivermos conquistado a cidadania plena. Com ela, virá a empregabilidade, moradia, boa alimentação e escolaridade”

“Gostaria que pessoas trans fossem vistas simplesmente como seres humanos, com suas características próprias e direito a educação, saúde, trabalho, família, filhos, ocupando cargos públicos e eletivos, de liderança em empresas etc.”

A advogada Márcia Rocha na 5ª Marcha do Orgulho Trans (Foto: Rafael Monteiro | Híbrida)

Márcia Rocha, advogada 

Verónica Valenttino, atriz e cantora

Verónica Valenttino, atriz e cantora

“Já se falou muito de representatividade, mas é importante proporcionalidade. Não é mais interessante termos somente uma representando todas as travestis. É importante estarmos em todas as possibilidades de espaço, em bonde. Espero que mais oportunidades de trabalho, dignidade, tudo isso seja conquistado pela proporcionalidade, e nossos corpos sejam naturalizados. Que não sejamos zoologizadas e seja natural convivermos numa sociedade minimamente respeitosa”

“Quero ver uma comunidade do nosso povo. Não só existir, mas que tenhamos redes em prol de habitação, renda e afeto, com sonhos para a infância e a juventude trans. Que possamos circular renda entre nós, mantendo diálogo com es aliades cis em uma comunidade trans, travesti, negra, indígena, transbrasileira. Que nosso povo se reconheça em suas masculinidades, não-binaridades e racionalidades, em toda a nossa pluralidade”

Jaqueline Gomes de Jesus (Foto: Rafael Monteiro | Híbrida)
Jaqueline Gomes de Jesus (Foto: Rafael Monteiro | Híbrida)

Jaqueline Gomes de Jesus, professora de psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro e da Fiocruz

Kaíque Theodor, cantor, ator e modelo trans

Kaíque Theodoro, cantor, ator e modelo

“Quero que a gente consiga ocupar mais espaços, que tenhamos mais trans e travestis sendo amades e assumides com todo amor que merecemos. Quero que nossos direitos básicos sejam assegurados de fato, sem vivenciar esse medo e insegurança atuais. Quero que a gente pare de morrer e que consigamos celebrar nossas vidas”

“Desejo que já tenhamos vencido todas as barreiras educacionais que impedem nossa população de adentrar e concluir processos educacionais. Que possamos finalizar o ciclo da educação básica e ter condições equânimes de adentrar o ensino superior, caso seja a nossa vontade. Também temos direito à educação e ele deve ser garantido.”

Symmy Larrat, secretária nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+

Symmy Larrat, secretária nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+

Anne Celestino Mota fotografada por Ana Barbosa para a Revista Híbrida

Anne Mota, atriz

“Desejo que personagens trans estejam mais inclusos em novelas, séries, filmes, audiovisual e teatro. Que tenhamos mais oportunidades de interpretarmos personagens trans e ter o transfake combatido, para que pessoas cisgêneres não interpretem mais pessoas trans. Que nossa identidade seja naturalizada e que possamos fazer personagens cis para ampliarmos oportunidades no mercado.”

“Desejo que já tenhamos vencido todas as barreiras educacionais que impedem nossa população de adentrar e concluir processos educacionais. Que possamos finalizar o ciclo da educação básica e ter condições equânimes de adentrar o ensino superior, caso seja a nossa vontade. Também temos direito à educação e ele deve ser garantido.”

Maria Clara Araújo, socióloga e pedagoga

Maria Clara Araújo, socióloga e pedagoga

Bruna Benevides, secretária de Articulação Política da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)

Bruna Benevides, secretária de Articulação Política da ANTRA

“É urgente lutarmos para todas as conquistas no STF serem ratificadas com leis e políticas públicas efetivas e acessíveis para toda a população trans.

Mas mais ainda, precisamos travestilizar a poltica e o fazer ativismo LGBTQIA+. Assegurando a participação efetiva de travestis e demais pessoas trans politicamente organizadas em espaços de produção de saber, acadêmicos ou não; em espaços de decisão e poder; e onde não haja pessoas trans tensionando o cissexismo.

Deve ser prioridade a coletivização de nossas lutas, o reconhecimento da importância da ANTRA (e suas contribuições) para a história do País e o fortalecimento das instituições da sociedade civil que defendem os direitos trans.

E, principalmente, assegurar um enfrentamento da despolitização acusada pela polarização, a formação de novos quadros de ativistas e o rompimento em definitivo com práticas denodas a nossa luta.”

“Desejo uma expectativa de vida maior para nós. A pensar que a expectativa de vida de uma travesti/trans no Brasil é de 35 anos e, se for preta, cai para 25, desejo vida e com qualidade. Desejo a invisibilidade cisgênera e que nossos problemas sejam triviais, não somente falando sobre gênero ou sexualidade. Desejo paz!”

Valéria Barcellos: Cantora, preta, trans e viva (Foto: Theo Tajes | Revista Híbrida)

Valéria Barcellos, cantora

Wescla Vasconcelos

Wescla Vasconcelos, travesti cearense e pedagoga, mestra em Cultura e Territorialidade

“Como uma geração mais nova em relação à dos anos 1980 e 90, vejo que o acesso à educação básica e pública pode ser garantido de forma mais ampla para travestis e transexuais. Também acredito que o debate na saúde será ampliado na perspectiva de corpos, assegurando harmonização, apoio à saúde mental e acesso a benefícios sociais. Que também garantam cuidados a homens trans na gravidez, pré-natal e puerpério. Que haja avanços na cultura para produtores, artistas e categoriais que envolvem nossa população, com editais, homenagem e consolidação de espaços a serem ocupados”

“Quero ver uma comunidade de verdade, na epistemologia da palavra e no pertencimento. Ao longo dos anos, percebi como era comum ver pessoas trans minando os esforços de outras, à medida que uma instituição ou pessoa crescia. Essa opressão lateral é verdade, porque muites de nós, infelizmente, saíram de traumas e abusos, e replicar esse sistema opressor é  jogo ao que fomos condicionades. Mas quero ver uma comunidade que se apoia, coopera e não engaja em abordagens destrutivas por causa desse sistema cisheteropatriarcal de crenças tão introjetadas'”

Pri Bertucci, fundador da Marcha do Orgulho Trans

Pri Bertucci, fundador da Marcha do Orgulho Trans

Gabrielle-Weber

Gabrielle Weber, professora de Álgebra Linear na USP e subcoordenadora do grupo Corpas Trans na USP

“Gostaria de não ouvir mais ‘Fulana é a primeira travesti a fazer alguma coisa’. Que nossas existências estejam normalizadas, a ponto de que não tenhamos que ficar nos explicando, justificando ou adaptando para podermos subexistir em um mundo que não foi feito para nós. Enfim, gostaria que pudéssemos apenas existir como uma pessoa comum.”

“Desejo mais amor por quem somos. Precisamos nos amar e nos aceitar para, assim, querermos que o próximo nos ame. Sermos mais resilientes e menos duros com nós mesmos. Acredito muito que o amor é a chave para tudo o que queremos em nossas vidas.”

Bernardo Rabello, Mister Trans Brasil

Bernardo Rabello, Mister Trans Brasil 2021