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“Ato Noturno” é um suspense erótico que mistura tesão e reflexão social na mesma medida

"Ato Noturno", de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher (Foto: Divulgação)

Vencedor de três Troféus Redentor no Festival do Rio, incluindo Melhor Filme Brasileiro no Prêmio Félix, Ato Noturno é um suspense erótico que consagra os diretores e roteiristas Marcio Reolon e Filipe Matzembacher como uns dos principais nomes do cinema queer nacional. Inclusive, antes de desembarcar por aqui, o filme também foi indicado a Melhor Longa no Teddy Awards, do Festival de Berlim. 

Ambientado em Porto Alegre, Ato Noturno segue Matias (Gabriel Faryas) e Rafael (Cirillo Luna), um ator e um político em ascensão, que precisam conciliar o relacionamento cada vez mais volátil e perigoso com suas personas cada vez mais públicas. O primeiro ponto de conflito surge quando a relação entre eles evolui além das expectativas de ambos. O que era para ser algo casual e sem repetições, acaba se desenvolvendo aos poucos para um relacionamento complicado e inusitado, entre duas pessoas que parecem incompatíveis no papel, mas acabam descobrindo conforto em um fetiche compartilhado por sexo em locais públicos. É como diz o ditado: uma ereção é mais sincera que um “eu te amo” – algo que, por sinal, eles não dizem em nenhum momento. 

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“A gente quis fazer um filme que fosse como uma forma de celebrar o desejo. O erotismo é super importante nisso. Às vezes, para enfrentar o suspense, talvez o erotismo possa ser um caminho bom”, explica Reolon à Híbrida, durante a estreia do filme no Festival do Rio. “Esses personagens estão nessa jornada de afirmação do desejo, buscando um triunfo desse desejo no final.” 

Ato Noturno traz algumas cenas que já carregam a assinatura da Reolon e Matzembacher, como o momento em que Mathias dança na sala de seu apartamento e a câmera filma o momento de fora para dentro, mostrando como ele transforma um espaço só seu, ainda que dentro de um contexto isolado em meio a prédios e outros apartamentos iguais. Planos parecidos de voyeurismo estão em Tinta Bruta (2018), o longa de estreia da dupla, e no clipe de Me Destrói, de Thiago Pethit, o qual eles também assinam a direção.

Pethit, inclusive, assina a trilha sonora de Ato Noturno, ao lado de Arthur Decloedt e Charles Tixier, com violinos que vão aumentando a tensão do filme à medida que Matias e Rafael se expõem mais e o preço do relacionamento deles custa mais caro a ambos. A aura de suspense é completa por alguns acenos às inspirações da dupla, como o jogo de luz e sombras presente nas obras de Brian de Palma ou, em uma referência mais direta, Parceiros da Noite (William Friedkin, 1980). Eles citam ainda Paul Verhoeven, mestre do gênero, e o brasileiro República dos Assassinos (Miguel Faria Jr., 1979).

"Ato Noturno", de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher (Foto: Divulgação)
“Ato Noturno”, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher (Foto: Divulgação)

Os subtextos de Ato Noturno

Há várias camadas psicológicas e paradoxais que se desdobram de formas diferentes nos dois personagens ao longo da trama, como os paralelos entre a liberdade sexual e o bloqueio sentimental; o limite entre o que é público e privado; a busca constante dos dois por aceitação e, ao mesmo tempo, a facilidade com que eles aceitam se anular para alcançar os seus objetivos.

“É muito interessante pensar como nós temos que reprimir parte de nós para conquistar determinados espaços. “Essa é a grande relação do filme: o quanto estamos dispostos a reprimir quem a gente é, a reprimir a forma que a gente veste, quem a gente deseja e assim por diante, para conquistar um determinado sucesso ou reconhecimento social”, aponta Matzembacher. 

Cartaz oficial de “Ato Noturno”, que chega aos cinemas brasileiros em 15 de janeiro de 2026 (Foto: Divulgação)

Apesar das várias referências a diretores e filmes dos anos 1970, 80 e 90, esta é uma história adaptada para a realidade brasileira atual. Há vários pontos da cultura queer e contemporânea que se aplicam ao Brasil e ao mundo, de forma geral: a ocupação de lugares públicos para cruising, a perda da vida privada através das redes sociais e as relações fugazes dos aplicativos de encontro, apenas para citar alguns. 

Um ponto que chama bastante atenção e não deve passar despercebido pelo público brasileiro é a “coincidência” de um dos protagonistas ser um homem gay que está se candidatando à Prefeitura de Porto Alegre por um partido conservador, que precisa higienizar e controlar sua imagem pública, uma semelhança talvez grande demais com a realidade. Em determinado ponto do filme, dois personagens chegam a discutir que, a essa altura da vida, a sociedade não considera um absurdo a existência de um político gay. O outro responde, em linhas gerais, que não, desde que ele mantenha uma aparência familiar e ande na linha, sem escândalos ou algo do gênero. 

“Ato Noturno” celebra o desejo das relações queer, mas também explora a fragilidade das camadas superficiais que apresentamos como “persona pública”, seja nas redes sociais ou fora delas, propondo reflexões atuais sem abrir mão do tesão

“A gente pegou o exemplo dessas duas profissões para criar nossa narrativa, mas isso é algo que se expande para a sociedade de uma forma geral, em praticamente todos os meios”, aponta Reolon. “Se a gente for conversar com pessoas queer, elas vão relatar que sentem, de uma forma ou de outra, preconceitos pelos desejos delas ou pelas performances de gênero e de sexualidade delas.”

No fim, Ato Noturno alcança o objetivo dos diretores: celebra o desejo e explora a fragilidade das camadas superficiais que apresentamos como “persona pública”, seja nas redes sociais ou fora delas. É um filme que propõe reflexões atuais, principalmente para a comunidade queer e especificamente gay, mas que não abre mão do tesão em nome disso.  

Ato Noturno chega ao circuito comercial de cinemas em 15 de janeiro de 2026. Antes disso, ele será exibido na Mostra Internacional de São Paulo. Confira as datas e horários aqui. Assista ao trailer abaixo. 

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