Em cartaz nos cinemas brasileiros desde 1º de maio, Homem com H, a aguardada cinebiografia de Ney Matogrosso, é uma das poucas produções do gênero que realmente faz jus ao tamanho, à carreira e à pessoa que retrata. Dirigido por Esmir Filho, o filme não tem medo de mostrar os pontos delicados da trajetória de seu personagem principal e conta com um Jesuíta Barbosa totalmente entregue à incorporação para contar essa história.
O roteiro de Homem com H, também assinado por Esmir Filho, mescla momentos já icônicos da carreira de Ney com curiosidades de fato interessantes, como o rápido embate com os censores da ditadura militar, a recusa inicial em gravar a música que dá nome ao filme e a subsequente insistência de Gonzaguinha em convencê-lo, por exemplo.
A luta de Ney para defender a legitimidade da sua visão criativa quando ainda era parte dos Secos e Molhados e, depois, em carreira solo, toma boa parte do filme, assim como a relação complexa com a família, principalmente o pai, Antonio Matogrosso. Desta maneira, a primeira metade de Homem com H é basicamente dedicada a mostrar como o jovem Ney de Souza Pereira saiu de Bela Vista e rodou até se transformar no ícone que o Brasil ama.

O filme mostra como ele enfrentou desde o início da vida questionamentos e críticas incessantes sobre seu gênero, sua sexualidade, seu talento e a forma como deseja expressá-los em cima e fora dos palcos. O combo de maquiagem marcada, peito de fora e quadris balançando (três, seis, vinte vezes que seja) criou uma confusão generalizada na cabeça da família, do público e, depois, de todo o Brasil quando Ney estourou à frente do Secos e Molhados e seguiu ainda mais irreverente ao longo da carreira solo.
Para isso, é fundamental a entrega de Jesuíta Barbosa à complexidade física, emocional e artística de Ney. Com os olhos arregalados, os ombros arqueados, o abdômen marcado e o peito estufado, o ator deixa claro que foi a escolha certa para dar vida ao ícone, desaparecendo por trás dos trejeitos que o público conhece há décadas, ainda que peque vez ou outra pelo excesso.
Outro mérito de Homem com H que merece atenção é a coragem do filme em não fugir do tesão de Ney Matogrosso, rejeitando uma versão higienizada da história. Finalmente, uma cinebiografia sobre algum membro do Olimpo da música brasileira ousou mostrar a liberdade sexual dos anos 1970 e 80. Usando “Postal de Amor” como trilha, Esmir Filho constrói ainda uma bela sequência em que mostra o artista explorando os corpos de homens, mulheres, casais, trios, ativos, passivos etc.
Nesse sentido, seu relacionamento com Cazuza finalmente ganhou na tela a dimensão e o detalhamento que merece e que o público sempre quis saber. O filme mostra momentos íntimos dos dois, sob a perspectiva inestimável de Ney, que guia a história da relação desde o flerte inicial na Praia do Arpoador até a mútua colaboração criativa, a fluidez do sexo, a importância de um pro outro, as brigas causadas pelo vício de Cazuza em cocaína e o desolamento coletivo provocado pela epidemia da Aids.
Homem com H e o ativismo inevitável de Ney Matogrosso
Nos últimos anos, Ney Matogrosso foi repetidamente criticado pelo tribunal da internet por dizer, quando questionado sobre sua militância LGBTQIA+, que “não gosta de levantar bandeiras”. Na prática, pouco importa o que ele disse ou diz sobre o assunto porque, como o filme deixa claro, sua mera presença já é um pronunciamento sobre as liberdade de gênero e sexo, muito antes de existirem os termos e siglas de hoje em dia.
Homem com H é, portanto, uma homenagem há muito tempo devida a Ney Matogrosso, que felizmente foi feita ainda em vida. Capaz de dar a dimensão da sua estatura como artista e a profundidade da sua trajetória pessoal, o filme consegue agradar quem já é fã e converter os que ainda não são.
Assista abaixo ao trailer de Homem com H e confira aqui a disponibilidade de ingressos e sessões.