Quinze dias não chegou por acaso ao Top 10 Global da Netflix. Dirigido por Daniel Lieff, o romance adolescente prova que a exclusão do gay gordo é um fenômeno mundial. Pode até parecer que o filme foi feito apenas para um público jovem, bem mais jovem que eu, mas no entanto tocou profundamente a mim e a uma multidão de quarenta mais, e muito mais.
Para a nossa nossa geração, a puberdade gay veio tardia, mas isso é assunto para outro texto. O fato é que Quinze Dias me tocou em diversos pontos, mas principalmente por escancarar quantas barreiras uma pessoa que não está dentro do padrão precisa enfrentar para, simplesmente, sair de casa. E, em algumas famílias, apenas sair do quarto.
Felipe, o protagonista vivido pelo estreante Miguel Lallo, é adolescente, gordo e gay, vítima de todo tipo de chacota. Conheci um assim de perto, rs. O longa, baseado no livro homônimo escrito por Vitor Martins, não se prende, no entanto, só a isso – toca também em outras histórias e dores, como a solidão da mãe solo, a solteirice de uma mulher com mais de 50 anos, o filho LGBT+ que é rejeitado pelos pais.
Quinze dias mostra uma luz necessária na escuridão de quase toda vida LGBT+: a importância de encontrar pessoas que nos permitam interagir na verdade, sem medo e sem culpa. De estar entre iguais, formar a “família” fora de casa, o acolhimento fora do lar. Uma comunidade. Entender enfim o sentido da famosa frase “home, sweet home”.
Mas, apesar da carga emocional dessas histórias, tudo isso é mostrado com muito humor e leveza. A direção equilibrada de Daniel Lieff não exagera quando a história, por si só, já é suficientemente dolorosa.
O equilíbrio está na capacidade que o roteiro tem de trazer pra tela o universo dos sonhos do personagem principal, comum a muitos de nós que, em algum momento, vivemos uma comédia romântica musical. Isso, claro, depois da segurança dos encontros certos, numa vida recheada de desencontros (eufemismo pra preconceitos).
Como diz o texto do espetáculo de teatro O Deus de Spinoza, de autoria de Régis de Oliveira, em cartaz em São Paulo: “Nossa vida é o encontro de corpos com outros corpos, por isso somos modificados e modificamos os outros. Essa ação que vem de fora de mim, ela me afeta, me modifica Não comandamos as interferências dos outros corpos, elas são aleatórias”.
É justamente por serem aleatórias que, muitas vezes, as interações nos maltratam tanto. E é também por isso que precisamos buscar os encontros confortáveis, aqueles que nos permitem existir sem precisar nos proteger o tempo todo. Nem sempre isso está a cem metros de distância, como num match de um app qualquer.
Quando isso realmente acontece, como com Felipe e Caio, interpretados com muita maturidade pelos prodígios Miguel Lallo e Diego Lira, a vida ganha outro sentido e a gente até aprende a sorrir.
Você pode assistir a Quinze dias aqui.
