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09 ago 2020

O CULTO ÀS DIVAS POP E A CAPTURA DA LUTA POLÍTICA

A INFLUÊNCIA DE POPSTARS NA COMUNIDADE LGBTQ E NA MILITÂNCIA, CONSCIENTE OU NÃO

por VICTOR MIRANDA

Cerca de 20 mil pessoas curtiram uma frase no Twitter dizendo que “o gay que não gosta de Lady Gaga já pode considerar estragado”. O nome da cantora voltou ao auge com o lançamento do disco “Chromatica”, em 29 de maio, entregando tudo o que ela evitava há alguns anos: o pop extravagante para a pista de dança. “Música para os gays”, diria Narcisa Tamborindeguy? Não somente.

Gaga ofereceu um planeta inteiro como refúgio para os gays, como sugeriu a revista americana Vulture. O disco atende a distintos interesses. A faixa Enigma é para os “amigos gays” competirem quem tem a voz mais potente no refrão, como Christina Aguilera em Lady Marmalade. Já a luxuosa Babylon é para desfilar como num salão de voguing, ou mesmo na passarela do reality RuPaul’s Drag Race, como escreveu a The Independent UK.

O fato é que se há Lady Gaga, há gays ali. O exemplo da cantora é o mais fácil para ilustrar que as “divas” da música pop, por algum motivo, contam largamente com o público homossexual. E esse público é altamente organizado.

Diferente de ídolos de outros gêneros musicais, cantoras pop têm exércitos de fãs com nomes próprios, os “fandoms”. Gaga foi a pioneira nessa moda, disse a revista Vice, quando começou a chamar seus fãs de little monsters. Como descreve a revista, o nome surgiu da proximidade de Gaga com seus fãs, quando ela ia à internet para falar de histórias pessoais, sobre como se sentia uma pessoa de fora. Pregava tolerância e igualdade e vocalizava um “sistema de crenças”. Assim, os seus seguidores, os “monstrinhos”, ganharam não só o nome de uma fã-base, mas também o nome de uma ideologia, um símbolo universal para uni-los. Daí os membros das fã-bases da Taylor Swift viraram os swifties, a Rihanna tem seu navy, a Katy Perry os katycats, a Beyoncé os beyhives e por aí vai.

Na análise da Vice, ao descrever exatamente o que um little monster deveria ser, Gaga acelerou um senso de comunidade entre os fãs e, basicamente, “criou um culto” – mas um culto divertido, sem um caráter sinistro. Ela ofereceu mais do que músicas, mas uma série de gestos políticos que fizeram toda a diferença para quem via nela uma compensação de sensações após uma vida de opressão.

Em 2010, a popstar mobilizou milhares contra a política “Não pergunte, não diga” (Don’t Ask, Don’t Tell), que obrigava os militares LGBTs norte-americanos a manterem sigilo sobre sua orientação sexual ou identidade de gênero, sob pena de expulsão. Em 2012, ela lançou a Born This Way Foundation, fundação voltada para o estímulo da autoconfiança de jovens e que leva o nome de seu single de sucesso, famoso por uma letra de enaltecimento a gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais.

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Não seria um erro afirmar que Lady Gaga teve interesse em dar um sentido político para seus fãs gays continuarem com ela. Como bem examinou a Vice, o gesto colaborou. Mas esse tipo de relação – ou de consumo – está presente também em outras fã-bases de divas pop estadunidenses. É o que concluiu uma pesquisa de mestrado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), “A construção das identidades homossexuais masculinos a partir do consumo das divas pop”. O texto nos dá bons caminhos para provocar a questão de que o consumo de divas pop tem um sentido político para a comunidade homossexual. Mas o que os gays brasileiros podem estar absorvendo e reproduzindo politicamente a partir do consumo de cantoras dos Estados Unidos? Como estão sendo influenciados?

Wellthon Rafael Aguiar Leal, autor da pesquisa, investigou a construção das identidades de homens gays em Recife, através do consumo de duas cantoras do pop americano: Beyoncé e Britney Spears. Após entrevistas com membros de fandoms, o pesquisador afirma ter percebido forte relação de “veneração” dessas divas, com costumes semelhantes a “práticas religiosas”.

No caso da Beyoncé, o gosto pela dança é apontado por entrevistados como motivo para os primeiros contatos com a artista. Para determinados fãs, principalmente negros, a cor da pele, o empoderamento e o uso do discurso político identitário em canções aparecem como motivos contributivos para a relação de admiração.

Já no caso da Britney Spears, fãs apontam a dança e a “vozinha gostosinha, de menininha de 15 anos” como alguns dos motivos para consumo, mas também relatam que sua performance sensualizada de “feminilidade” contribuiu para um processo de empoderamento enquanto gay. Um deles chega a relatar que o momento mais sexual da carreira da cantora coincidiu com o momento em que ele “saiu do armário”.

Em suma, o pesquisador reflete que as mensagens das divas são citadas por entrevistados como recursos para “fortalecer um enfrentamento e resistência em contextos de opressões heteronormativas”, para fugir da realidade, sobretudo em situações em que se sentiu a necessidade de esconder expressões homossexuais. O consumo frequente, ao longo do tempo, traduz-se numa espécie de “ritual sagrado”, em forma da acumulação de objetos, recortes com imagens, repetição de coreografias, além de aquisição de profundo conhecimento sobre a história pessoal e sobre a carreira da cantora, tornando-se uma “enciclopédia” da diva, entre demais fatores, sem esquecer das experiências de “êxtase no consumo” com as idas aos shows.

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Na conclusão, Leal questiona se o empoderamento e a ousadia dessas figuras da mídia têm limites e se podem ser investigados a partir de “estratégias de obtenção de lucro”. Não seria uma problemática nova para muitos. Como bem já mostrou Híbrida, a sede pelo pink money já foi longe demais.

Outra provocação possível é se essas artistas são capazes de questionar a estrutura do sistema em que vivemos. Afinal, já que essas celebridades têm vínculos marcadamente políticos com os fãs, seria possível para elas expor discursos contra-hegemônicos em relação à estrutura econômica à qual estamos submetidos? Ao mesmo tempo, conseguiriam manter o alcance em larga escala? No exemplo do autor, uma crítica ao sistema estrutural econômico vigente não é assimilada. Para ele, figuras como as divas do pop são construídas pelo sistema, garantidas por uma equipe de especialistas, publicitários e agentes investidores que tentam a garantia do lucro como retorno para os produtos produzidos. “Não seria a intenção desses mesmos agentes criticar o sistema que os beneficiam”, argumenta.

A população LGBTQ no Brasil é atravessada de modo particular por profundas desigualdades econômicas estruturais. Condições econômicas de vida colaboram ativamente para que membros desta comunidade estejam submetidos à intolerância no mercado de trabalho, ao assédio militar, à falta de segurança, de acesso a itens básicos, à exclusão do ingresso à educação básica, enfim, à privação de uma série de direitos fundamentais.

Assim como demais populações vulneráveis no país, quando a existência da comunidade LGBTQ, historicamente discriminada, é somada a desigualdades econômicas brutais, ela torna-se ainda mais empurrada para a margem do sistema. Frente a isso, quem são nossas principais inspirações políticas? A que ideais elas – e seus agentes – se associam? A que serve toda a lógica de produção e distribuição que dissemina suas obras? E, ademais, os discursos que incorporamos delas nos ajudam ou nos confundem na luta para mudarmos nossa realidade?

QUANDO MÚSICAS FAZEM POLÍTICA

Há uma passagem interessante em um texto do crítico Victor Lenore, chamado “Por que a direita está ganhando a batalha da música popular? Pop, política e a importância do laço social”. A análise foi publicada em uma revista da Universidade de Cádiz, na Espanha. O autor considera que a música popular tem sofrido clara dominação de letras elitistas, crescentemente anglófilas, ou seja, associadas ao inglês, em especial desde a década de 1970. Para ele, as músicas consideradas como “políticas” não devem ser relacionadas apenas às canções de protesto, que se opõem a um campo ideológico dominante, como quando Billie Holiday cantou Strange Fruit (1939) para denunciar a cruel segregação racial nos Estados Unidos.

Para Lenore, a indústria tenta nos convencer, indevidamente, de que maior parte das músicas são apolíticas, normais e correntes, sem pretensão de levantar bandeiras. Mas todas as músicas fazem política quando propagam positivamente, de forma acrítica ou não, uma determinada cultura, uma condição social, um modo de ser e de viver. Citando um ativista chamado Rogelio López Cuenca, Lenore questiona que é como se a arte política não tivesse que ser necessariamente crítica com o establishment: “Ao contrário, a maioria o serve, e encantado. É preciso distinguir se esse papel político cumpre um sentido ou outro, se reafirma ou questiona não somente a ordem social, como também os próprios códigos e os canais que utiliza”.

Através dessa reflexão, é possível perceber algum tipo de papel político propagandístico desempenhado pelas divas pop? Quanto destes ideais influencia as aspirações políticas dos fãs que as veneram?

A começar pelas letras e videoclipes, com provocações iniciais bem modestas.

Na canção Party in the USA (2009), Miley Cyrus está deslumbrada após sair de um avião que partiu de Nashville, no estado do Tennessee, e aterrissou em Hollywood. “Bem-vindo à terra do excesso de fama. Eu vou me encaixar?”. O nervosismo de chegar à terra dos famosos dá saudades de casa, mas basta ouvir Britney Spears e Jay-Z, que ela celebra no refrão: “Estão tocando a minha música. Eu sei que ficarei bem, é uma festa nos Estados Unidos”.

Assim como Miley, Demi Lovato também louva os Estados Unidos em Made in the USA (2013), quando canta sobre um romance duradouro com um rapaz. “Sei que nunca vamos romper, porque o nosso amor foi feito nos Estados Unidos”, diz no refrão, em brincadeira com o termo impresso em mercadorias que, de alguma forma, sugerem qualidade.

Katy Perry já cantou sobre as aventuras de uma criminosa na cidade dos cassinos em Waking Up in Vegas (2009), disse como as garotas californianas são inesquecíveis em California Gurls (2010) e associou sua maior música de superação, Firework (2010), ao dia 4 de julho, data em que os Estados Unidos comemoram sua independência.

Em Welcome to New York, Taylor Swift nos diz que há um lugar com luzes brilhantes onde você pode querer quem você quiser, “meninos e meninos, e meninas e meninas”. Já para Miley Cyrus e Kim Petras, Malibu é a praia ideal para se falar de amor.

Ter dinheiro, ser famoso, desfrutar de um amor, estar nos Estados Unidos. Você pode não se sentir convencido de que há um papel político nas homenagens a estas condições de vida. Afinal, as canções políticas apenas são lidas como tal quando se opõem a este sistema, como quando o G1 noticiou, em 2015, o lançamento de um clipe que critica a brutalidade policial nos EUA, em contraposição ao sonho americano: “Rihanna lança clipe politizado de American Oxygen; assista”. Mas Riri também não estaria fazendo política quando se gaba por desfilar em um carro conversível importado ao cantar Bitch Better Have My Money?

Concentrar dinheiro e ter bens é tema de diversas canções. Em Glamorous (2006), Fergie voa de primeira classe, estoura champanhes e canta o glamour e a frescura. Em uma passagem, lembra de sua dura vida de quando tinha apenas um carro simples e se pergunta se a riqueza significa algo.

Em Upgrade U (2006), Beyoncé ostenta limusines, joias, marcas de roupa, e diz ao seu amado que sua “dinastia” não estará completa sem ela. Em Irreplaceable (2006), ter mais dinheiro que o parceiro lhe dá mais segurança para decretar o fim de um romance abusivo. Segundo a letra da canção, o Jaguar está no nome dela. “Você foi um mentiroso, andando por aí com ela no carro que eu comprei para você. Querido, deixe as chaves”. Essa música é citada por um dos entrevistados da pesquisa de Leal como a obra que o cativou a ponto de se tornar um beyhive: “Quando eu ouvi Irreplaceable, achei aquela letra muito forte. Ela não tava nem aí pro cara, sabe? Aquilo me representou muito.”

Já em Formation, há forte protesto contra o racismo nos Estados Unidos, com referências ao movimento anticapitalista e antirracista dos Panteras Negras, em plena performance no Superbowl Halftime Show. Ao mesmo tempo, há breve passagem de um famoso bilionário como ocupante de um lugar a ser conquistado: You just might be a black Bill Gates in the making.

Há uma série de artistas, canções e videoclipes que podem ser trabalhados a partir de referências a um suposto modo de vida estadunidense, à fama e à concentração de riquezas: Lana Del Rey, com National Anthem e American; Lady Gaga com Beautiful, Dirty, Rich e Money Honey, Gwen Stefani com Rich Girl, Britney Spears com Piece of Me e Work Bitch.

Manifestações em relação ao cristianismo, religião predominante nos Estados Unidos, também estão bastante presentes nas obras dessas superestrelas. Apesar de terem sido amplamente abordadas e criticadas quando Madonna usava símbolos cristãos como em Like A Prayer ou Lady Gaga em Judas, em outros casos, a religião cristã é espaço de inspiração.

Podemos lembrar de Beyoncé com Ave Maria e Katy Perry com By The Grace of God, sem contar que boa parte da produção musical no universo pop tem sonoridade semelhante à música gospel. Na pesquisa de Leal, um beyhive relata sobre como a religião o influenciou de forma determinante a se espelhar em Beyoncé.

Buscar similaridades nos valores morais e sociais presentes nas músicas não significa colocá-las no mesmo rol ou impor rótulos ideológicos de forma irresponsável às obras e às artistas.

Dito isso, é preciso investigar se a veneração em relação a agentes culturais americanas, imbricada em sentidos políticos para a comunidade homossexual, colabora para uma espécie de dessensibilização de nossa capacidade de observar, filtrar, selecionar e permanecer em constante posição crítica sobre o que pode, ou não, nos trazer alguma colaboração para a luta por direitos iguais.

PROPAGANDISTAS DE UMA POLÍTICA DE GUERRA?

Um bom fã conhece a fundo a vida pessoal do seu ídolo. Talvez seja pensando nisso que as artistas se esforçam em associar suas imagens a causas sociais, movimentos e figuras políticas. Levando em conta que essas associações ideológicas não se restringem às pautas da comunidade LGBTQ, vale a pena apurar qual o potencial de influência de todo este conjunto de símbolos políticos que uma diva pop americana carrega, principalmente sobre um público que parcialmente as venera.

Lembrada por iniciar a carreira com a explosão do hit I Kissed a Girl (2008), em que canta sobre a experiência do beijo entre duas mulheres, Katy Perry fez um percurso marcado pelo ativismo. Em 2017, a cantora recebeu prêmio da Human Rights Campaign por seu trabalho em prol da comunidade LGBTQ. Em 2019, foi homenageada com o Inspiration Award, por ter sido Embaixadora da Boa Vontade pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Este ano, fez aparição na Parada LGBTQ Virtual de São Paulo.

Em temporadas de eleição presidencial nos EUA, Katy fez vigorosa campanha para Barack Obama, em 2012, e para Hillary Clinton, em 2016. Para a última, emprestou sua música Roar como jingle e lançou Rise em um comício. Lady Gaga e Beyoncé são outros nomes do pop que se juntaram aos candidatos do Partido Democrata em algum momento.

Primeiro presidente negro dos Estados Unidos, Obama também ficou querido por parcela da comunidade LGBTQ após lançar a hashtag #LoveWins em apoio ao casamento homoafetivo. Ao mesmo tempo, jornalistas e estudiosos apuraram sobre a política agressiva de seu governo contra outros povos.

Lady Gaga durante comício de Hillary Clinton, em 2016  (Foto: Justin Sullivan | Getty Images)
Lady Gaga durante comício de Hillary Clinton, em 2016 (Foto: Justin Sullivan | Getty Images)

Em 2017, a BBC News trouxe na manchete: “Obama, o Nobel da Paz que se tornou o 1º presidente dos EUA a estar em guerra durante todos os dias de seu governo”. Com frequentes discursos sobre a paz, Obama enviava milhares de soldados americanos à batalha no Afeganistão, conduta descrita como “controversa” pela Associated Press.

Houve uso de espionagem (inclusive contra a ex-presidente Dilma Rousseff), o comércio de armas teve maior faturamento, o número de países monitorados pelos EUA cresceu, o lançamento de bombas aumentou, os ataques com drones se tornaram mais comuns no Iêmen, Paquistão e Somália, com índices superiores aos de George W. Bush.

Há ainda um intenso debate sobre a participação do governo Obama em um golpe de estado na Ucrânia, que resultou na tomada de poder pela extrema-direita. Seu mandato também se preocupou em apoiar projetos de combate à “desinformação” originária de países não-alinhados, como Rússia e China, por meio de doações milionárias para organizações não-governamentais, instituições e profissionais envolvidos em comunicação.

Neste período, as agressões militares dos EUA contra outros povos não protagonizaram o discurso político de Katy Perry. O exército americano, na verdade, já foi retratado de forma positiva duas vezes pela artista. No videoclipe de Thinking of You (2008), ela interpreta uma viúva de um soldado que morreu na guerra. Em Part of Me (2012), ela encontra a sua emancipação após se alistar nas Forças Armadas dos Estados Unidos.

Lady Gaga, como dito, defendeu ativamente a inclusão dos LGBTs nas forças militares americanas. Anos depois, cantou o hino nacional dos Estados Unidos durante o Superbowl Halftime Show e, em certo momento, há uma homenagem ao exército americano enviado ao Afeganistão.

Em algum desses casos, as divas pop fazem política? Desempenham determinado papel de propaganda da política americana? Conscientemente ou acriticamente? E que importância os seus discípulos dão a isso?

É possível compreender o apoio a determinado candidato, quando o oponente lhe parece mais ameaçador, como nas eleições entre Hillary Clinton e Donald Trump. Mas o melhor debate não é esse. Há uma questão complexa ligada ao bipartidarismo americano, o que na verdade o jornalista Pepe Escobar chamaria de “partido da guerra” ou “uma hidra de duas cabeças”.

O interessante nesta discussão é se o nosso horizonte ideológico fica restrito quando estas são as nossas referências políticas, em que pese a nossa condição de gays moradores de um país periférico como o Brasil. Venerar valores de agentes culturais do centro do capitalismo nos ajuda ou nos dificulta a aguçar nossa visão para a luta social brasileira, principalmente quando elas se tornam referências políticas em um país de terceiro mundo?

A BOA FÉ É UMA ARMA

Aliar-se a causas justas, criar fundações de solidariedade e engajar-se em missões internacionais pode ser um ato de prestígio quando há boa fé. Contudo, há que se apurar de que forma estes canais também são instrumentos para a expansão da política externa dos Estados Unidos, e sob que interesses. Esta discussão não é nova e antecede as divas pop. Ao mesmo tempo, é interessante perceber como a operação internacional dos EUA utiliza meios sofisticados para fazer política.

Vamos começar por alguns indícios com fins de reflexão: a ação de fundações privadas. Sob a causa da promoção de esforços pela democracia e pelos direitos humanos, a fundação americana Open Society, do bilionário George Soros, já atua em 120 países, segundo o The New York Times. Sua atenção tem aumentado para programas de proteção a gays e lésbicas e para a redução de abusos da polícia. A filantropia custa uma fortuna, mas a organização não tem fins lucrativos.

Estender a discussão sobre este caso não é propósito deste artigo, no entanto, vale a pena observar questionamentos sobre a ação desta fundação. A Open Society foi citada, por exemplo, pelo cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira em entrevista à revista CartaCapital como uma ONG de fachada para promover mudanças de governos em outros países sem aparências de golpe de estado. O estudioso sustentava que Washington utiliza essas organizações para mobilizar forças domésticas e “fazer avançar seus interesses econômicos e geoestratégicos”.

Estas ONGs seriam financiadas, por exemplo, pela National Endowment Democracy (NED), USAID, CIA e outras instituições públicas e privadas. Citada por Moniz Bandeira, a NED também é descrita pelo especialista em geopolítica Godfree Roberts como financiadora de organizações que atuam na desestabilização do ambiente político na China, com doações milionárias a determinados grupos.

Artistas são canais interessantes de propaganda política para os Estados Unidos, como mostrou o portal UOL. Em 28 de maio, o jornalista Jamil Chade reportou que o governo dos EUA financiou bandas de rock, com envolvimento da NED, na esperança de ampliar mobilizações contra o governo de Hugo Chávez, na Venezuela. “A meta, ao financiar tais grupos, era garantir que eles escrevessem ‘novas canções que lidem com a importância de promover e proteger a liberdade de expressão na Venezuela’”.

Viagem demais? Lembremos rapidamente, por último, apenas mais um elemento interessante: a ação política dos Estados Unidos na América Latina por meio da arte. No artigo “Arte e imperialismo na América Latina: das políticas de modernização cultural à arte conceitual”, os doutorandos da Universidade de São Paulo (USP), Luiza Mader Paladino e Bruno Sayão, abordaram a presença dos Estados Unidos na região latina desde a segunda metade do século passado, para tratar de assuntos estratégicos que incluíam a criação de projetos de modernização cultural, com o objetivo de garantir o caminho de uma transformação política.

“O interesse político no continente, sob o temor do avanço comunista que ameaçava a liberdade na região, promoveu a liberação de verbas pelo Congresso estadunidense para o apoio econômico, que visava alterar a relação de artistas e intelectuais com o pensamento de esquerda”, escrevem.

Entre as empresas que procuraram atualizar a arte latino-americana relativamente às modas norte-americanas e europeias, estiveram a União Pan-Americana, a CIA e as multinacionais Esso, Standart Oil, Shell e General Motors. No decorrer do trabalho, os pesquisadores enxergam objetivos discursivos dos Estados Unidos sobre a produção artística latina, o que, naquele contexto, representou a imposição de um simbolismo à “supremacia estadunidense” e ao “êxito do capitalismo”.

Feita uma breve reflexão, é possível cogitarmos que, às vezes, a arte, os artistas e as causas sociais são usados como meios de persuasão política, sob interesses profundamente obscuros.

Voltemos à adoração das divas pop.

Em sua pesquisa de mestrado, Leal descreve o quão escassa é a produção de estudos que relacionem a cultura de consumo entre homens gays com a construção de identidade. Então, aqui justifico o uso de outros artifícios para arriscar entender esta relação entre veneração e militância para a comunidade LGBTQ.

Assim como o pesquisador, é da intenção deste artigo entrar nesta nuvem que mistura a sensibilidade dos fãs gays e uma crítica ao sistema que nos alimenta com representações da ordem dominante. Por último, então, vamos ver dois estudos que analisam o cruzamento entre a periferia e o centro, e nós.

A PERIFERIA VAI AO CENTRO E VICE-VERSA

Uma estudiosa de comunicação da Colômbia chamada Tania Lucia Cobos escreveu que, pelas vias econômica, política, militar, comunicacional e cultural, é possível observar a relação entre o centro e a periferia em alguns níveis de dominação. E, portanto, a dominação pode resultar na recriação de certos aspectos do sistema de valores, ideias, modelos e métodos do centro para a periferia. Ela usa este pensamento no texto “Imperialismo estrutural ou teoria estrutural do imperialismo: o caso de Shakira, uma diva pop”.

Descendente de libaneses, Shakira Mebarak nasceu na cidade de Barranquila, Colômbia. Apesar de começar a vida em uma casa rica, a falência de seu pai fez com que levasse uma vida mais modesta. Sua trajetória se desenvolveu no centro de uma periferia. Pouco a pouco, conta a pensadora, Shakira realizou um processo de americanização, assimilando elementos da elite americana dominante. Essa transformação da popstar envolveu aspectos como o cabelo, a roupa, o corpo, e também gerou trabalhos filantrópicos por meio de uma fundação privada, construindo escolas em cidades colombianas pobres. Hoje, ela mora em Barcelona com um esportista espanhol.

Em certo momento, Tania também descreve uma relação de adoração com Shakira entre seus compatriotas, segundo sua observação. “Consideramos que esse relacionamento é evidente, pois esses setores consideram a diva como seu ‘redentor’ ou ‘salvador’, satisfazendo necessidades que não foram atendidas pelo governo local. Dessa forma, ela consegue atrair um público que a idolatra pelo favor recebido (…). Shakira se torna um modelo para as gerações mais jovens desses setores”, comenta.

Um estudo mais profundo poderia investigar as reais influências que a diva colombiana tem sobre seus seguidores, a partir de suas músicas, seu modo de vida e dos lugares que escolheu para viver.

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Em um programa da TV Itararé, do Nordeste brasileiro, um fã de Campina Grande (PB) conta sobre sua devoção a Shakira. Seu quarto é tomado por pôsteres, há uma coleção de objetos raros, perfumes, ele administra um site dedicado a ela e se endivida para estar presente em suas turnês.

Esta relação pode não despertar qualquer suspeita de influência política ou ideológica. Afinal, o Brasil e os Estados Unidos têm uma interação cultural bastante naturalizada. Não há perigo.

Mas e quando a interação cultural entre dois países não é naturalizada? Para finalizar, trago um interessante estudo de Thiago Soares, professor da UFPE, que analisou a devoção de jovens de Cuba a Lady Gaga.

No texto “Lady Gaga em Cuba”, Soares já começa afirmando que a cantora nunca esteve na ilha. O país caribenho é vítima de bloqueio econômico dos Estados Unidos desde o século passado e sofre uma contrapropaganda por ter um governo de orientação socialista. Em 1962, noticiava-se o bloqueio unilateral contra os cubanos, por parte do então presidente John F. Kennedy. Neste ano, em plena pandemia de coronavírus, Cuba ainda sofre punições por não se alinhar ao país norte-americano.

Ao mesmo tempo, o pesquisador aponta que fãs cubanos ostentam a imagem de Lady Gaga, sobretudo em camisas. Talvez por um histórico revolucionário somado a décadas de opressão econômica e cultural por agentes externos, o pesquisador aponta que ser fã de Lady Gaga em Cuba significa aderir à cultura anglófila e, de alguma forma, negar o que chama de “clichê do cubano revolucionário”. Ainda assim, ser little monster, segundo ele, tem motivações políticas, através da corporificação da cantora pop.

O panorama homossexual em Cuba não está totalmente claro para este artigo. A homossexualidade não é crime no país desde 1979, mas ainda se debate a liberação do casamento LGBT. Há de se investigar comparações com o Brasil, mas estudiosos relatam que o preconceito ainda é uma prática por lá, o que pode nos fazer crer que jovens cubanos LGBTs sintam falta de alguma representatividade.

Marty é uma travesti cubana que espera que “um dia” consiga ver o show de Lady Gaga na ilha. Ela é descrita na pesquisa de Soares como alguém afastada “das linhas mestras do socialismo cubano”, apontando “dissidências sobre certo projeto comum para os viventes da ilha”. Ao passo que se distanciou da rumba, da salsa e do merengue, passou a se interessar por cantoras de língua inglesa.

Em uma parabólica clandestina no passado, ela obtinha fitas de Britney Spears e Christina Aguilera. Aos cerca dos 20 anos, estava longe de um ideal revolucionário, Soares conta. Nas horas vagas, falava inglês e dava entrevistas imaginárias para programas de celebridade. “Se Stefani se transformou em Lady Gaga, Simón pode ser Marty”, diz ela durante o fim de um encontro com o estudioso.

Para alguém empático aos ideais da revolução cubana e crítico à indústria cultural americana, Lady Gaga seria uma má influência para os jovens gays da ilha? Ao mesmo tempo, para quem tenta ser compreensivo às sensibilidades subjetivas da comunidade LGBTQ, é possível estar descuidado com as influências culturais que buscamos?

Em um misto de exemplos de fãs, artistas, canções, modos de vida, o autor deste artigo ouviu de um amigo: “Você pode estar vendo o fiel e o santo, mas não está vendo a igreja”. Isso significa que pode faltar a este texto uma exposição mais assertiva sobre como opera a indústria cultural atualmente, quem as financia, como os produtos são compostos e distribuídos, a história de seus suportes de produção, o desenvolvimento e a filosofia de sua lógica. Além disso, também pode nos faltar um olhar histórico sobre o movimento por direitos igualitários LGBTQ, seus conflitos no centro e na periferia. Para assim, possivelmente, poder olhar para a indústria cultural americana e descrever com precisão sobre sua operação como um movimento político, e seus efeitos sobre a compreensão de nós mesmos.

Mas a questão que se provoca é a seguinte: deve a comunidade LGBTQ nutrir venerações a estas figuras, atribuir sentido político a elas, aos valores que elas propagam, e ignorar os sistemas que as suportam?

VICTOR MIRANDA

Victor Miranda, jornalista, formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), acompanhante da política, da ciência e das pessoas.