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17 set 2021

IMARA JONES E A “MÁQUINA DE ÓDIO ANTI-TRANS” NOS ESTADOS UNIDOS

JORNALISTA PREMIADA E ATIVISTA, ELA APONTA AS SEMELHANÇAS ENTRE AS TRANSFOBIAS DE TRUMP E BOLSONARO, LEMBRA OS ANOS EM SALVADOR E COMPARA MARSHA P. JOHNSON A MARIELLE FRANCO

por JOÃO KER

Faltando dois dias para as comemorações do Dia do Orgulho em Nova York, exatamente onde a data foi originalmente criada, Imara Jones recebe a Híbrida para uma conversa por videochamada. Assim como tem sido no Brasil dos últimos anos, junho é compreensivelmente um mês agitado para a comunidade LGBTI+ dos Estados Unidos, principalmente para a jornalista, que está prestes a lançar uma nova série limitada de podcasts.

Em Anti Trans Hate Machine” (A Máquina de Ódio Anti-Trans), Imara detalha seu último ano pesquisando um movimento unificado entre evangélicos, políticos da extrema-direita e um “dinheiro obscuro” que tem impulsionado a transfobia institucional nos Estados Unidos. “Eles sempre têm essa linguagem de usar as crianças, como se fosse em defesa delas. O problema é que essa linguagem faz crescer a violência contra nós. E isso me dá raiva, porque essas palavras que eles usam dá licença para todas as pessoas que querem nos agredir”, explica.

A imersão no próprio mundo trans não é novidade para a jornalista, que já venceu um prêmio Emmy e outro Peabody pela campanha sobre HIV/Aids que ajudou a lançar durante seu trabalho na Viacom. Seu último projeto, TransLash, começou como dois vídeos documentais que acompanhavam sua transição de gênero em 2018, mas fez tanto sucesso que evoluiu para uma série de podcast, de conversas e entrevistas virtuais, palestras e filme, além de lhe render mais alguns prêmios de mídia e narrativa.




Mais do que troféus e ganhos profissionais, Imara se tornou uma das novas vozes mais potentes e influentes no movimento trans dos Estados Unidos, emergindo em parcerias com Mariah Carey num dia, invadindo o Instagram de Christina Aguilera no outro ou ampliando o alcance das histórias que conta no TransLash com artigos para a Newsweek e para a CNN.

Abaixo, Imara compara com a Híbrida (em português!) as semelhanças entre as “máquinas de ódio anti-trans” do Brasil e dos Estados Unidos, lembra da época que morou em Salvador, conta como foram os anos sob o governo de Donald Trump e aponta semelhanças entre os ativismos futuristas de Marsha P. Johnson e Marielle Franco.

HÍBRIDA: Como tão os preparativos para a primeira Parada do Orgulho sem a Covid-19?

IMARA JONES: Mais ou menos, porque a Parada está “cancelada”, mas tá tudo bem porque a cidade acabou de abrir os bares, as boates… Então, vamos ter coisas assim, mas não vai ser uma Parada exatamente. A cidade está bastante cheia, muita gente veio celebrar o Orgulho aqui.

Eu tenho amigos que vieram do outro lado do País para se reunirem. Vão ser muitas pessoas na rua, mas não vai ser uma Parada formal. Tem uma coisa que ainda são o contrário de Parada, porque aqui também tem muita gente corporativista, quase como uma versão capitalista da Parada.

H: Eu vi que vocês voltaram a ter problemas com a Polícia de Nova York…

IJ: Essa coisa com a Polícia aqui está muito grande, porque tem muita gente na comunidade que não gosta dos policiais marchando na Parada ou que eles estejam lá para “garantir a segurança” das pessoas. Porque, na realidade, muitas pessoas veem a Polícia como uma forma das Forças Armadas contra nós. A nossa relação aqui com a Polícia é muito, muito tensa.

H: É “engraçado” porque a Parada do Orgulho original, que começou lá no bar do Stonewall Inn, foi basicamente um levante contra a Polícia, né?

IJ: Sim, verdade.

H: Como foi sua experiência morando em Salvador?

IJ: Foi muito interessante, porque Salvador é um lugar que tem muita violência contra mulheres negras, né? Se bem que no Brasil todo é assim, está muito perigoso para nós. Mas eu fiquei bem confortável lá também. Não tive problema nenhum andando na rua. Mas eu sei também que o Brasil geralmente tem duas cabeças sobre as pessoas trans: de um lado, todo mundo adora e nos acolhe. Mas do outro lado, se você não estiver bem afeminada e “passando”, a gente recebe muita violência.

H: O que você vê de diferente nesse tratamento às pessoas trans no Brasil e nos Estados Unidos?

IJ: Eu ficava muito nervosa em 2019, porque foi a primeira vez que fui a Salvador depois da minha transição. Lá, não fui tratada no gênero errado nenhuma vez. Mas em Nova York, às vezes ainda sou. A diferença é muito interessante, porque geralmente a mulher negra está fora do “ideal” de mulheres dos Estados Unidos. Aqui, o nosso “ideal” é a mulher branca, loira de olhos azuis. E, quanto mais distante você está dessa ideia, “menos mulher” você é. E aí eu sou negra, não sou loira, não tenho “tamanho zero”, sabe? Então é um espaço pior para ser tratada pelo gênero errado.

Mas, quando estou em Salvador, o “ideal” da mulher lá é o da mulher negra.

H: Sim, inclusive Salvador é a cidade onde mais vivem pessoas negras fora da África.

IJ: Claro, é muita coisa! E lá, é uma ideia de cidade negra, então as mulheres estão [representadas] em tudo, altas, baixas, gordas, magras, de pele clara, de pele escura… É um imaginário muito mais amplo. Então, de certa forma, foi mais confortável pra mim, e isso foi uma grande surpresa porque não imaginei isso antes de viajar.

Mas eu sei também que se fosse lá como Imara, a jornalista trans e ativista que sou, acho que eu receberia mais ataques das pessoas de lá. Porque quando você se torna uma ameaça às estruturas de poder, você está na mira. E se eu estiver lá como Imara, como estou aqui, eu estaria mais “na mira”.

H: Como estão os ânimos da comunidade LGBTI+ agora com o Biden na presidência? Principalmente depois de tudo que o Trump fez e falou?

IJ: Foi um inferno mesmo, porque Trump, assim como o amigo dele, Bolsonaro… É interessante, porque as mesmas pessoas que trabalharam na campanha do Trump, também trabalharam na do Bolsonaro, né?

H: Sim, é o mesmo estrategista de fake news, inclusive.

IJ: É isso, eles são a mesma pessoa, com a mesma ideia. E aqui foi um inferno, porque [o Trump] tentou apagar as pessoas trans da vida pública, não só das Forças Armadas. Você não tem direitos iguais na saúde, na educação, no trabalho e coisas assim. Ele tentou apagar isso tudo da gente. Quando o governo diz coisas assim, dá permissão para outras pessoas que querem nos agredir. Todos os anos em que ele esteve na Casa Branca, a violência contra nós cresceu. O último ano dele, em 2020, foi o mais violento para nós.

H: Sim, inclusive vocês tiveram um recorde de ataques e assassinatos contra pessoas trans em 2020.

IJ: Isso. E também é interessante pensarmos que os três países do mundo com mais assassinatos de pessoas trans são o Brasil, o México e os Estados Unidos. E, no centro desses assassinatos aqui, estão as mulheres trans negras.

H: Sim, os três maiores países colonizados na América. O que será que aconteceu, né? (Risos)

IJ: É a mesma coisa! As pessoas que mais estão morrendo somos nós. E o pior é que quando as pessoas fazem isso, elas nem acham que estão erradas! Porque não acham que as mulheres trans sequer são humanas. É muito complicado, porque aqui até que estamos com muita visibilidade.




H: O Biden mencionou pessoas trans diretamente no seu discurso de 100 dias no poder, foi o primeiro presidente dos EUA a fazer isso. Você acha que, com ele, essa questão vai melhorar ou é mais uma coisa de discurso e não tanto de ação?

IJ: Acho que vai melhorar porque é um presidente que nos reconhece, acha que temos valores e direitos humanos. E também porque foi o primeiro presidente a nomear uma pessoa trans para um cargo, a dra. Rachel Levine, que é a terceira pessoa no Departamento de Saúde. Foi algo histórico.

Ao mesmo tempo, existe esse movimento que combina as organizações de direita, um dinheiro obscuro, deputados e governadores, além de evangélicos. Eles estão unidos em um movimento contra nós. Por isso, agora temos 126 projetos de lei sobre o tema tramitando em 36 Estados. Eu chamo esse movimento de “a máquina anti-trans” dos Estados Unidos, porque eles fazem isso tudo junto e é muito perigoso para nós. E vai ser mais ainda no ano que vem, porque vamos ter a eleição para o Congresso.

Então, essas duas coisas estão acontecendo simultaneamente. Eu passei o último ano estudando esse movimento e agora vamos fazer uma série de podcasts sobre isso, para educar a população sobre eles. Isso não vai acabar, mas ao mesmo tempo temos um presidente que nos reconhece.

H: Aqui no Brasil também temos o mesmo movimento, inclusive em São Paulo tramitou uma lei recente tentando vetar a presença de representatividade LGBTI+ em propagandas para crianças e adolescentes.

IJ: Eles sempre têm essa linguagem de usar as crianças, como se fosse em defesa delas. O problema é que essa linguagem faz crescer a violência contra nós. E isso me dá raiva, porque essas palavras que eles usam dá licença para todas as pessoas que querem nos agredir. É uma conversa muito perigosa.

H: Como tem sido a inclusão de pessoas trans no movimento negro dos Estados Unidos? E qual a importância de braços como o Black Trans Lives Matter? Principalmente, depois que os protestos nas ruas aumentaram de novo com a morte do George Floyd?

IJ: É interessante, porque duas das três mulheres negras que começaram o Black Lives Matter são LGBTs, a Patrisse [Cullors] e a Alicia [Garza]*, que é casada com um homen trans [Malachi Garza]. Então, essa foi a formação original do movimento. Mas por causa do Black Lives Matter ter se descentralizado, existem hoje muitas diferenças entre a ideia original dessas três mulheres e a forma como ele está acontecendo pelo País, porque muda muito em cada comunidade.

Até 2020, o Black Lives Matter infelizmente se tornou um espaço cada vez menos confortável para quem é LGBT. Mas o interessante é que, desde o ano passado, o movimento voltou às suas raízes. Primeiro, porque as pessoas trans disseram “Nós também somos negros, também estamos aqui e também somos líderes desse movimento e não vamos ser excluídos”. Ao mesmo tempo, um homem trans, Tony McDade, foi assassinado um pouco antes do George Floyd, o que abriu o olho de muita gente. Além disso, a comunidade de pessoas trans e negras aqui organizaram essa manifestação em Brooklyn, no ano passado, a Brooklyn Liberation March, que é a maior Parada de transexuais na história dos Estados Unidos.

O que aconteceu é que as pessoas trans negras têm assumido posições de liderança e lutado mais, o que tem mudado a cabeça do BLM. Porque muitas pessoas achavam antes que o movimento não estava abrangendo as “vidas negras importam”, mas “homens negros importam”. E isso já era uma queixa antes de George Floyd.

*Nota: a terceira mulher responsável por criar o Black Lives Matter é Opal Tometi

H: É triste, porque a própria Marsha P. Johnson passou por isso em vida. Ela e a Sylvia Rivera foram meio que “recusadas” pelos gays da época por serem trans e prostitutas. Por sinal, você acha que Marsha recebeu o reconhecimento devido ainda viva?

IJ: Essas pessoas agora são ícones não só do nosso movimento, mas de liberdade. E acho que é porque tiveram uma visão muito à frente do tempo delas, uma ideia que não existia enquanto estavam. Esse sonho foi botado acima delas, era algo que veio 25, 30 anos depois. E isso porque as pessoas não reconhecem o que está na sua frente.

Sylvia e Marsha foram pessoas do futuro, não dos anos 1960 ou 1970. Eu sinto que elas viajaram no tempo. Por isso reconhecemos a visão delas de agora, de nós. E por isso que nos inspiramos nelas agora. Elas foram diminuídas, mas cresceram de novo e vão continuar crescendo, porque representaram e representam um sinal do futuro, do caminho que devemos andar. Marielle [Franco] também era uma pessoa do futuro. Acho que ainda teremos uma presidente do Brasil que será inspirada nela. Assim como a Érica Malunguinho, que nos representa agora.

JOÃO KER

Mineiro de nascença e carioca de alma, João é formado em jornalismo pela UFRJ e já passou por empresas como Canal Futura, Jornal do Brasil, Sony, Yahoo e The Intercept, antes de lançar a Híbrida. É também repórter do jornal O Estado de S. Paulo.

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