12 jun 2024
Thales Bretas fala sobre a paternidade solo e o luto coletivo por Paulo Gustavo

THALES BRETAS SOBRE PATERNIDADE E LUTO: “FALAR AJUDA A LIDAR COM A PERDA”

AOS 35 ANOS, O DERMATOLOGISTA SE SENTE PRONTO PARA FALAR SOBRE A CRIAÇÃO DOS FILHOS E A VIDA APÓS A PERDA DO MARIDO, O MULTITALENTOSO PAULO GUSTAVO, E ASSUME O PAPEL DE APRESENTADOR EM DOIS PODCASTS AUTORAIS

por LÍVIA MUNIZ

Se tem uma palavra que define Thales Bretas é amor. Aos 35 anos, ele nutre o sentimento pela dermatologia, sua profissão; pelos dois filhos, Romeu e Gael, de 3 anos; e nas mensagens que transmite desde que se tornou uma referência quase involuntária para boa parte da comunidade LGBTQIA+, posto este que assumiu quando se casou com o ator Paulo Gustavo em 2015. “Me sinto muito orgulhoso quando as pessoas falam que se espelham em mim, no meu casamento e na minha família”, diz o médico em uma rara entrevista exclusiva à Híbrida

“Sempre foi meu sonho ser pai, mas não sabia que era possível. A paternidade homoafetiva tem alguns caminhos, então pensava em adoção, ou contar com a ajuda de amigas. Quando conheci o Paulo, vi que esse também era o sonho dele”, conta Thales. 

A fertilização in vitro feita por ele e por Paulo Gustavo nos Estados Unidos recebeu ampla cobertura midiática em 2019 e trouxe a paternidade homoafetiva, com todas as suas possibilidades, alegrias e desafios, para o centro do debate no  Brasil. Numa entrevista veiculada em rede nacional pelo Fantástico, o casal contou à época o porquê de terem escolhido o método, como era o acompanhamento feito com a mulher que gestava os bebês e, consequentemente, mostraram ao País como o sonho de construir uma família é igual para casais homoafetivos e heterossexuais.

A ideia de Thales e Paulo foi inspirada no caso de Ricky Martin, que se tornou pai de gêmeos gerados através de uma barriga de aluguel em 2008. O motivo principal por trás da escolha foi a vontade que o casal brasileiro tinha de ver suas características físicas espelhadas nos filhos. 

Mas a primeira tentativa, uma gestação gemelar, acabou sendo interrompida involuntariamente. Pouco tempo depois, o casal optou por duas barrigas, que geraram Romeu e Gael. O sonho de criarem as crianças juntos, entretanto, foi interrompido pela trágica perda de Paulo Gustavo, uma das 703 mil vítimas fatais de covid-19 no Brasil.




Tornar-se um pai solo do dia para a noite trouxe novas nuances e desafios para a rotina de Thales, um peso felizmente amenizado pela rede de apoio que construiu à sua volta, formada pelas babás; e pelos avós, Deia, Júlio e Penha, pais e madrasta de Paulo que vivem no Rio e compartilham a rotina de Romeu e Gael. A experiência, Thales confessa, é única, mas também evita que ele tenha uma visão idealista da parentalidade. 

“Quando me perguntam sobre paternidade, eu falo que só é para ter filho se quiser mesmo. Se estiver na dúvida, se esse não for mesmo o seu sonho, é melhor repensar. Não romantizo, porque filhos mudam muito nossa vida e nossa rotina”, diz.

Criar duas crianças saudáveis e felizes não é uma tarefa fácil, e quando falamos de famílias homoafetivas ainda há o desafio específico do preconceito. Para Thales, uma das saídas para contornar esse problema é cercar Romeu e Gael com pessoas que amam, compreendem e respeitam sua formação familiar. Outra, é manter um diálogo verdadeiro com os dois, mesmo que os dois ainda sejam tão pequenos.

“Eles já me perguntaram sobre a ‘mamãe’ deles, aí eu expliquei que eu e papai Paulo pegamos uma barriga emprestada para tê-los. Eles são bombardeados com essas datas simbólicas, como o Dia das Mães, mas tento explicar da melhor maneira”, confessa. “Não gosto de mentir, de inventar. A figura materna é importante, mas a paterna também é e acredito que tenho cumprido bem esse papel.”

Natural de Belo Horizonte, Thales terminou a graduação em Medicina em 2011 e, desde 2016, é membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, área em que atua na Clínica Bretas, no Rio de Janeiro. Além das consultas, ele também participa de palestras e congressos médicos. Quando foi catapultado para a fama graças à relação com Paulo, ele aos poucos se descobriu também um comunicador. No próximo mês de julho, inclusive, Thales vai lançar dois podcasts sobre medicina: PodPele, com um convidado por episódio; e um segundo, com pegada mais informativa.

“Eu sou médico há praticamente metade da minha vida. Tenho 35 anos e comecei a estudar há 18. Mas eu gosto muito de comunicação também, acho que, modéstia a parte, sou bom em falar”, ri. “Quero muito poder juntar a Medicina e a Comunicação, falar sobre dermatologia, relações homoafetivas, criação dos filhos, bem-estar, temas que eu gosto.”

Apesar do talento para se comunicar, é inevitável que a emoção aflore toda vez que o nome de Paulo surge na conversa. Os olhos de Thales marejam, a voz falha, mas para ele é importante insistir e honrar a memória do homem que define como o “grande amor” da sua vida.

“Por muito tempo, evitei falar (sobre ele). Não gostava. Mas, hoje, entendo também que isso ajuda a lidar com a perda”, afirma. “O Paulo foi o grande amor da minha vida, meu parceiro. Eu sinto que vivi um luto muito pesado, porque era minha perda e de muita gente junto.”




Mesmo transbordando amor, Thales também encontra espaços para o Desejo. E essa é uma palavra que o acompanha desde muito jovem, quando os sonhos de ser dermatologista e pai ainda não haviam se realizado. Mas se antes ele desejava o mundo para si, agora ele o deseja para os filhos, Gael e Romeu.

“Sempre fui alguém que desejava muito”, conta. “Queria muitas coisas, aprender novos idiomas, viajar para vários lugares. Sei que sou um cara privilegiado, branco. Mas quando era mais novo, trabalhei em vários lugares para conseguir dinheiro e viajar, jantar em um lugar legal, realizar minhas coisas. Hoje, tudo que mais desejo é proporcionar isso aos meus filhos.”

“Que eles possam aprender novos idiomas, conhecer novas cidades”, diz. “E desejo que nossa vida seja mais tranquila do que tem sido.”

LÍVIA MUNIZ

LÍVIA MUNIZ

Niteroiense apaixonada pelo Vasco, Livia é formada em Jornalismo pela UFRJ. Trabalhou como repórter e colunista na Goal Brasil durante quatro anos. É nerd, feminista e sonha ser uma ranger rosa.

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