Karla Sofía Gascón poderia estar vivendo um momento ímpar de celebração na sua carreira. Indicada ao Oscar de Melhor Atriz pelo musical Emilia Pérez, a espanhola se tornou a primeira mulher trans a disputar a categoria nos quase 100 anos de história da premiação. Na última semana, porém, o feito foi completamente ofuscado pelo ressurgimento de diversos tweets da atriz, publicados entre 2016 e 2023, contendo uma leva de declarações consideradas racistas, islamofóbicas, xenofóbicas e homofóbicas.

Desde então, Karla vem tentando se defender das acusações, enquanto o mundo busca decifrar o quão longe pode chegar o tão anunciado favoritismo de Emilia Pérez após uma polêmica sem precendentes na temporada de premiações. Abaixo, entenda todo o caso.

O favoritismo inicial de Emilia Pérez

Desde que estreou em Cannes, Emilia Pérez se destacou como um dos grandes nomes da temporada de premiações 2024/2025. Baseado numa adaptação de Écoute, de Boris Razon, o musical sobre a história de um líder de cartel de drogas que decide realizar a transição de gênero encantou o painel do festival francês, levando para a casa o Prêmio do Júri e o troféu de Melhor Atriz, compartilhado entre Gascón, Zoe Saldaña, Selena Gomez e Adriana Paz.

Apesar do sucesso na França, foi a movimentação estratégica da Netflix que acabou consolidando a força de Emilia Pérez em Hollywood. A plataforma, que nos últimos anos foi a responsável pelas várias indicações de filmes como Roma, O Ataque dos Cães e Assassinos da Lua das Flores, garantiu os direitos de distribuição do longa e investiu consideravelmente na campanha para o Oscar.

A estratégia rendeu frutos quando a produção conquistou 4 estatuetas no Globo de Ouro, vencendo as categorias de Melhor Filme Musical/Comédia, Melhor Filme em Língua Estrangeira, Melhor Canção (por “El Mal”) e Melhor Atriz Coadjuvante (Saldaña). O favoritismo, que já era evidente, confirmou-se em janeiro, quando o filme recebeu impressionantes 13 indicações ao Oscar, tornando-se a produção mais nomeada do ano.

América Latina unida contra Emilia Pérez

Apesar dos prêmios e do reconhecimento da crítica internacional, Emilia Pérez encontrou resistência ao chegar na América Latina. A recepção morna do público latino-americano foi motivada, em grande parte, à desconexão entre a narrativa ficcionalizada e a realidade da região. Ambientado no México, o longa foi dirigido por um cineasta francês e protagonizado por três atrizes não nativas, o que levantou questionamentos sobre a falta de representatividade.

As criticas não pararam por aí: muitos espectadores ainda apontaram que o filme reforçava uma visão estereotipada do México, perpetuando a imagem do país como um território dominado pelo crime e pelo narcotráfico.

A situação se agravou quando o diretor Jacques Audiard decidiu abrir a boca. Em entrevista ao site Konbini, o francês afirmou que o espanhol é um “idioma de países modestos, de pobres e migrantes” e justificou a escolha de atrizes não latinas para os papéis principais ao revelar que não havia encontrado opções adequadas no México. As falas geraram indignação nas redes sociais e intensificaram a percepção de que Emilia Pérez era um projeto feito sob um olhar estrangeiro e colonizador que pouco dialogava com as nuances culturais do país retratado.

Curiosamente, Karla Sofía Gascón havia passado ilesa pelas polêmicas até então. Mesmo entre os maiores críticos do filme, sua indicação histórica ao Oscar foi reconhecida como um feito importante, e sua presença se consolidou como peça-chave na campanha da obra, especialmente no ano do retorno de Donald Trump à presidência dos EUA e de suas constantes ameaças aos direitos das pessoas transexuais. A relevância da atriz era evidente: foi ela, inclusive, quem discursou em nome do elenco ao receber o prêmio de Melhor Filme Musical/Comédia no Globo de Ouro.

A queda do favoritismo de Karla Sofía Gáscon 

Todo e qualquer favoritismo de Emilia Peréz parece ter caído por terra quando, na última semana, uma leva de antigas publicações de Karla Sofía Gascón no X/Twitter veio à tona. Entre as postagens, destacaram-se aquelas nas quais a atriz críticava a “invasão” da cultura muçulmana na Espanha, chamava George Floyd – homem negro cuja morte desencadeou o movimento Black Lives Matter – de “um vigarista drogado” e também se posicionava contra a inclusão e a diversidade nas escolhas da Academia de votantes do Oscar.

“Cada vez mais o #Oscar está parecendo uma cerimônia para filmes independentes e de protesto, não sabia se estava assistindo a um festival afro-coreano, a uma manifestação do Black Lives Matter ou ao Dia Internacional da Mulher. Fora isso, um baile de gala feio, feio”, escreveu, referindo-se à cerimônia de 2021.

A repercussão foi imediata, e as declarações geraram uma onda de críticas que ultrapassaram as bolhas das redes sociais. Frente às consequências, a atriz se viu forçada a engajar numa onda de retratações públicas.

Tweet de Karla Sofía Gascón sobre a cerimônia do Oscar 2021 (Foto: Reprodução)
Tweet de Karla Sofía Gascón sobre a cerimônia do Oscar 2021 (Foto: Reprodução)

Inicialmente, Karla divulgou uma nota oficial, pedindo desculpas àqueles que se sentiram ofendidos por suas palavras. Em seguida, desativou sua conta pessoal no X e, em uma publicação no Instagram, afirmou que suas falas foram tiradas de contexto.

“Não foi bonito como vocês me trataram, tomando como verdade a narrativa que pessoas doentes de ódio quiseram vender para vocês. Nem eu nem minha família somos racistas, jamais fomos – muito pelo contrário –, e ninguém nos apoiou. Vocês me conhecem há anos e tomaram como certo que alguns tweets, que ressaltavam a hipocrisia, o racismo e a maldade que existem no mundo, refletiam meus sentimentos, e não uma denúncia. Que uma piada exagerada era um ataque a uma instituição”, escreveu, em defesa de si mesma.

No sábado (1º), a atriz concedeu uma entrevista de quase uma hora à CNN Espanha, onde manteve a argumentação de que suas palavras haviam sido mal interpretadas. “Eles se dedicaram a buscar e reunir todas as coisas que eu disse em algum momento, em textos que escrevi – a maioria das quais é falsa… Muitas delas eu nem sequer reconheço como algo que escrevi. Juntaram tudo de forma que parece que sou uma pessoa horrível, e me atacam justamente quando podem causar o maior dano, bem no período de votação”, afirmou, referindo-se ao impacto das polêmicas nas chances do filme no Oscar.

Entretanto, as “desculpas” não foram suficientes para conquistar o público. De acordo com Sarah Hagi, jornalista creditada pela Variety como a responsável por descobrir os tweets de Gascón, “quando alguém em uma posição histórica representando um filme baseado em supostos valores progressistas tem um histórico de tweets racistas e preconceituosos, isso expõe a hipocrisia de tudo. Não se trata de uma representação significativa — é apenas marketing. E esse marketing desmorona quando a pessoa no centro disso é uma racista preconceituosa”.

As declarações também não caíram bem entre o público brasileiro. Por aqui, internautas relembraram que, pouco antes do ressurgiento de suas postagens antigas, Karla havia acusado, sem provas, a equipe de Fernanda Torres de orquestrar uma campanha difamatória contra ela e Emilia Pérez.

Ainda assim, a atriz declarou não se importar tanto com o Oscar. “Eu não ligo para prêmios. O que eu me importo é com as pessoas que represento, por causa do que represento neste mundo”, afirmou à CNN.

Questionada se pretendia renunciar à indicação após a pressão popular, a espanhola se manteve firme:  “Eu não posso renunciar a uma indicação porque o que eu fiz foi um trabalho e o que está sendo valorizado é o meu trabalho como atriz. E eu também não posso renunciar a uma indicação porque eu não cometi nenhum crime, nem prejudiquei ninguém, não sou racista, nem sou nada do que essas pessoas se encarregaram de tentar fazer os outros acreditarem que eu sou”.

Nesta terça-feira (04), a atriz se posicionou novamente no Instagram. Na publicação, direcionada a diversos canais de mídia, como as revistas Variety, The Hollywood Reporter, Deadline, dentre outros, agradeceu às pessoas envolvidas na produção do filme e alegou estar sendo vítima da “cultura do cancelamento”.

O futuro de Karla Sofía Gascón e Emilia Pérez no Oscar

Após as polêmicas, alguns especialistas apontaram que o suposto favoritismo de Emilia Pérez e de Karla Sofía Gascón no Oscar virou “coisa do passado”. Outros, em contrapartida, alertaram sobre a possibilidade de as falas odiosas da atriz não afetarem significativamente a escolha dos vencedores.

Há uma comparação relevante a ser traçada. Durante a cobertura da temporada de premiações de 2018/2019, Green Book: O Guia vinha sendo amplamente criticado por parte do público nas redes sociais por se ancorar numa narrativa de “branco salvador”, vista como racista e desconectada da contemporaneidade.

A rejeição ao longa aumentou quando internautas descobriram um comentário do roteirista Nick Vallelonga, que alegava, em resposta a um tweet feito por Donald Trump, ter visto “muçulmanos vibrando pela queda das Torres Gêmeas” no atentado de 11 de Setembro de 2001.

As críticas não surtiram efeito. Dirigido por Peter Farrelly, Green Book: O Guia venceu as categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme no Oscar 2019.

O paralelo com Emilia Pérez parece claro: duas produções controversas – dentro e fora das telas – e que, apesar da desaprovação de parte do público, encontraram amparo na premiação mais tradicional de Hollywood.

No entanto, há uma questão crucial – diferentemente de Vallelonga, Karla Sofía Gascón é “a cara” de seu filme. Suas ofensas, além de se direcionarem a diversos grupos vulneráveis, atingem também a própria cerimônia do Oscar, chamada pejorativamente por ela de “festival afro-coreano”. Tais especificidades acabam tornando a situação inédita e sem precedentes.

Resta saber qual será o próximo caminho a ser trilhado por Gascón e a obra da qual faz parte. Segundo o The Hollywood Reporter, a atriz já foi retirada dos anúncios publicitários divulgando o filme, enquanto parte do elenco, como a atriz Zoe Saldaña, parece seguir se esquivando, na medida do possível, do caso.

“Isso me deixa muito triste porque não apoio [falas preconceituosas] e não tenho nenhuma tolerância com qualquer retórica negativa em relação às pessoas de qualquer grupo”, disse Saldaña durante uma divulgação recente do filme em Londres.

Agora é a vez do Brasil no Oscar?

As críticas a Emilia Pérez e a repercussão negativa sobre as falas odiosas de Karla Sofía Gascón parecem, num primeiro instante, beneficiarem as chances do Brasil no Oscar, representado por Ainda Estou Aqui.

Indicado a Melhor Filme Internacional, o longa de Walter Salles tem despontado como um dos favoritos ao prêmio. A recepção positiva, a campanha bem articulada pela Sony Pictures Classic e sua mensagem, que ressoa com o público em um período de retrocessos nos direitos humanos, reforçam as expectativas de uma vitória para os brasileiros.

Especialistas também apontam que há grandes chances para Fernanda Torres, indicada a Melhor Atriz. No entanto, a principal rival da brasileira não parece ser Gascón, mas sim Demi Moore, vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia/Musical por A Substância.

A categoria de Melhor Filme, por sua vez, segue incerta. Com as rejeições vocais à obra de Audiard, a disputa continua aberta, com destaque para O Brutalista (vencedor do Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama), Anora (o queridinho da crítica), Conclave (a opção menos divisiva até o momento) e Wicked (potencial vencedor do SAG de Elenco).

Até lá, nos resta torcer. A cerimônia do Oscar acontece no domingo de carnaval, dia 2 de março.