17 jul 2024

DES-COLORIR: COLETIVO ANGOLANO CRIANDO ARTE QUEER

EM UM PAÍS QUE HÁ POUCOS ANOS DEIXOU DE CRIMINALIZAR A EXISTÊNCIA DE PESSOAS LGBT+, NOSSOS IRMÃOS AFRICANOS TENTAM DESTRUIR O PRECONCEITO ATRAVÉS DA CULTURA

por LUIZ GUILHERME OSÓRIO

Há alguns anos, nós da Híbrida estabelecemos uma relação de parceria com nossos irmãos da Angola que estão organizados na luta pelos direitos LGBTQIA+ por lá. Naquela ocasião, quando a homossexuaidade estava recentemente descriminalizada no país, tivemos a oportunidade de entrevistar uma das figuras mais icônicas desse movimento, o ativista da Associação Íris Angola, Carlos Fernandes. 

Com apoio de algumas organizações internacionais, ele foi um dos pioneiros na luta por direitos LGBTQIA+ em Angola, encabeçando inúmeros projetos que iam desde a promoção da saúde e prevenção de ISTs até a fomentação da cultura local e de eventos específicos para a comunidade queer. Carlos, todavia, foi encontrado morto na sua casa em fevereiro de 2024, sob circunstâncias pouco esclarecidas. Entretanto, seu legado de luta para a comunidade LGBTQIA+ de todo o mundo permanece. 

Foi inclusive graças a esse legado que conhecemos Vivaldo Félix, um jovem angolano que hoje reside em Santarém, no centro de Portugal, e cujo trabalho vem reunindo diversos artistas e ativistas queer em seu país de origem através do coletivo Des-colorir

O objetivo do Des-colorir é criar e divulgar a arte queer pela Angola, realizando assim uma série de eventos para o público LGBTQIA+, como o hoje reconhecido concurso do Mister Queer Angola

“O coletivo Des-colorir é uma palavra justaposta que significa ‘des’, de desconstruir; e colorir, que tem a ideia de colocar cor, alegria, entretenimento”, explica Vivaldo. “Nós somos um grupo de pessoas majoritariamente acadêmicas que vêm com o objetivo de desconstruir conceitos pré-concebidos através do entretenimento.” 

O APOIO DO ITAMARATY AOS LGBTS DE ANGOLA

Esses eventos estão recebendo um apoio importante do Instituto Guimarães Rosa (IGR), órgão ligado ao Ministério de Relações Exteriores e responsável por difundir a cultura brasileira em países nos quais o Brasil possui representações diplomáticas. Na figura de seu presidente Hugo Lorenzetti Neto, o instituto de Angola vem promovendo em Luanda a integração com a comunidade LGBTQIA+ local e apoiando grupos que lutam por esses direitos no país. 

“O Instituto não foi quem revolucionou nada! Eu abri a porta para uma revolução que já estava acontecendo”, explica Lorenzetti à Híbrida.  

A Angola descriminalizou a homossexualidade apenas em 2019. Foi a partir desse primeiro passo que a comunidade LGBTQIA+ do país se organizou ainda mais politicamente,causando a proliferação de grupos e indivíduos em diversas frentes. A Associação Íris Angola, uma das principais instituições dessa luta no país, teve um papel fundamental nesse processo, pois além de ser uma referência, ela também oferece apoio a quem está chegando agora. 

De acordo com Vivaldo Félix, a troca na presidência do Instituto Guimarães Rosa teve um grande impacto na presença desses grupos e no apoio que o IGR tem oferecido para o trabalho que eles realizam. No início deste ano, uma reunião para viabilizar o Festival Riobaldo, focado no público LGBTQIA+, foi o pontapé inicial para que o Des-colorir conseguisse expandir suas atividades e fortalecer também outros grupos parecidos, como a Associação Íris, o Movimento Eu sou Trans, o Arquivo de Identidade Angolano e a Revista Queer People.

“Nós pensávamos em criar eventos diversos para a comunidade angolana jovem, que trouxesse a questão da educação sobre a cultura queer, mas que também trouxesse entretenimento”, explica o ativista.  

BRASIL COMEÇA ARTICULAÇÃO PARA POLÍTICAS LGBTQIA+

Apesar da ajuda oferecida até aqui, o próprio Lorenzetti ressalta que ainda não existe uma política pública bem definida para atuação e promoção dos direitos LGBTQIA+ pelo Itamaraty. Essa iniciativa específica veio através do interesse individual do próprio Lorenzetti, mas também principalmente pela demanda dos grupos angolanos por apoio e espaço. 

“A gente não tem necessariamente uma política cultural orientada para o público LGBT. A gente não tem ainda nenhuma política muito bem desenhada. Tem-se tentado fazer isso agora”, aponta Lorenzetti, acrescentando que o assunto tem surgido por iniciativa do grupo LGBTQIA+ do Itamaraty, com apoio de Symmy Larrat, secretária nacional de Defesa dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ e primeira travesti a alcançar um posto deste nível no governo federal brasileiro. 

”Antes disso, nem em um governo progressista nós tínhamos abertura para discutir esse tipo de coisa”, explica. “Agora, a gente tem algum tipo de preocupação de que as coisas aconteçam de uma forma sistêmica, o que tem a ver com o modo como a Symmy Larrat conduz a discussão.”

Mas mesmo que essa política sistêmica voltada ao público LGBTQIA+ ainda não esteja plenamente desenvolvida, é perceptível a mudança de postura do governo em relação à pauta, principalmente quando comparado à administração anterior, de extrema-direita, que não só negava como também atacava os direitos dessa população. A própria abertura dos espaços diplomáticos em Angola, como o Instituto Guimarães Rosa, já representa um passo significativo para os grupos do país africano.    

Tanto o Mister Queer Angola 2024 quanto o Stand Up Comedy Queer e o Festival Riobaldo, todos produzidos pelo Des-colorir, foram realizados no espaço físico do instituto, que funciona em um prédio neoclássico datado de 1910, que antes abrigava o Grande Hotel Luanda. Durante a Guerra Civil Angolana, o prédio foi transformado em local de refúgio para os habitantes que chegavam fugindo dos conflitos no Norte do país. 

Hugo menciona esse caráter de refúgio que o prédio tinha para também justificar sua ocupação hoje pelos grupos e coletivos de uma comunidade que era ilegal e criminalizada até cinco anos atrás. Através de Vivaldo, a intenção de acolhimento fica ainda mais palpável: “O Instituto é a sua casa”, diz. 

Todo esse trabalho tem ajudado a normalizar as vivências e os corpos LGBTQIA+ no país, assim como combater velhos hábitos e expressões pejorativas para a comunidade, como “panina”, por exemplo. Segundo Vivaldo, a gíria é usada de forma pejorativa para descrever um homem gay afeminado. A partir de um artigo da Híbrida, em parceria com David Kanga, da Queer People, a consciência de que essa palavra deveria ser evitada dentro da comunidade começou a surgir. 

“A matéria foi produzida pela Queer People e compartilhada pela Híbrida, e nas sessões de stand up houve um momento em que se falou sobre estes termos usados e como deveriam ser evitados”, lembra.    

Para além da questão do termo em si, isso mostra que existe uma consciência nascente de luta por respeito e reconhecimento entre a própria comunidade LGBTQIA+ – e na sociedade angolana como um todo. 

Para Lorenzetti, a descriminalização da homossexualidade e o crescimento desses movimentos em defesa dos direitos LGBTQIA+ tem começado a abrir a mente da população angolana, mas o preconceito e o silenciamento ainda são latentes. “Você tem a convivência das duas coisas, né. Do tipo Milton Santos, são as camadas. Uma camada muito globalizada vai ter um tipo de circulação de ideias e de comportamento; outra, até menos globalizada, vai ter uma expansão de um olhar mais positivo, mais acolhedor para a nossa comunidade”, aponta. “Mas eu acho que ainda existem as duas coisas.”

LUIZ GUILHERME OSÓRIO

Formado em International Business pela UCLA e Comunicação Social pela UFRJ. Passou um período pela faculdade de Direito da UFJF, trabalhou na Revista Seleções e hoje trabalha como especialista em Direitos Autorais e Propriedade Intelectual na internet em Los Angeles. É gay, casado e feliz, e tenta contribuir para o benefício de todos os seres sencientes do universo.

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