17 jul 2024

AS MÚLTIPLAS FACETAS DE ALMA NEGROT

DA SUPERAÇÃO DE UMA FAMÍLIA CONSERVADORA À PERSONIFICAÇÃO DE UMA PINUP DOMINATRIX, A DRAG QUEEN DESAFIA NORMAS E REDEFINE A CENA ARTÍSTICA COM UMA ESTÉTICA REVOLUCIONÁRIA

por LÍVIA MUNIZ

Maquiadora, performer, artista visual, diretora criativa, DJ. São muitos os adjetivos para descrever Alma Negrot, cuja arte transforma a cena drag nacional há mais de uma década. A persona criada pelo gaúcho Raphael Jacques, de 28 anos, quebra paradigmas com uma estética surrealista e exuberante, que rompeu o underground e trouxe o multiartista para o mainstream comercial, com trabalhos icônicos para editoriais de moda, campanhas publicitárias e capas de discos que mantiveram sua identidade. 

“Acho que sou uma pessoa das manualidades, que sempre teve essa relação com a ilustração, com figurino, com o manual. Eu gostava muito de pintar e desenhar quando eu era criança, e ia escondido aos cursos de desenho e pintura, porque era proibido”, diz à Híbrida. “Era coisa de viado.”

Desde muito cedo, Raphael se entende como um “fazedor de arte”. Sua jornada artística começa em Gramado, na Serra Gaúcha, onde foi criado por uma família conservadora. Como acontece com tantas pessoas LGBTQIA+, ele foi expulso de casa com apenas 15 anos por homofobia. Um episódio que mudou e moldou sua trajetória. 

Morando sozinho em Porto Alegre, ele começou a trabalhar em um cruising bar entregando toalhinhas, servindo drinks e colocando músicas para tocar. Mas nessa mesma sauna, rolavam apresentações de drags todas as noites, e muita gente ia lá só para assistir aos shows, por incrível que pareça. 

“Para mim, era muito curioso. Eu era muito jovem, não tinha vivido essas coisas no interior. Era uma coisa nova, parecia um filme. Eu via as pessoas passando de toalha, transando, vivendo os seus desejos…”, lembra. 

“E todos os dias as pessoas sentavam para assistir aos shows de drag.” 

O ano era 2013 e o sucesso comercial do reality show RuPaul Drag’s Race ainda não tinha força no Brasil. Naquela época, as drag queens eram mais old school, e para ver seus shows era preciso ir a inferninhos, saunas ou bordéis. Era impensável ver esse tipo de arte numa boate de classe média frequentada por universitários da UFRGS, onde Raphael cursava Artes Visuais. 

“Eu me apaixonei pelo fazer drag ali. Comecei a querer fazer, mas eu olhava as drags e todas eram cheias de pedrarias e plumas”, lembrou. “Existe um investimento. Eu era um bolsista do Instituto de Artes que morava em uma ocupação.”

Fazer drag é muito caro, a montação, figurino, maquiagem… E eu não tinha esse dinheiro

No entanto, a falta de recursos também foi um estímulo. Assim como na infância, tudo que era proibido ou restrito deixava o jovem Raphael com mais vontade e sede de buscar. É nesse contexto de precariedade financeira que surge Alma Negrot, com maquiagem de tinta acrílica, roupas de brechó remendadas e uma estética de ressignificação dos elementos. 

“Eu me apresentei pela primeira vez em um concurso de drag e deu muito certo”, conta. “Eu não tinha roupa, fiz uma saia com sacos de lixo, flores de cemitério e uns chifres de papel machê.” A improvisação funcionou para destacá-la logo de cara na cena. “As pessoas ficaram muito chocadas porque não tinha nada parecido com aquilo. Todo mundo vinha no bate-cabelo, com aquela peruca linda, longa e loira. Eu era completamente diferente e as pessoas gostaram. Na minha primeira apresentação, eu fiquei em segundo lugar.”

O nascimento de Alma Negrot também fez renascer Raphael Jacques. Se antes o rapaz era tímido, retraído e traumatizado pelas experiências da infância, ele depois passou a se sentir mais confiante e capaz de se relacionar com o público. Afinal, se Alma conseguia, ele também conseguia. 

A Alma não é uma personagem. A Alma sou eu. Não tem como separar, não tem uma dissociação disso

Alma Negrot também foi uma das drags pioneiras na era das redes sociais. Sua estética esdrúxula e feita com materiais não convencionais rendeu muito sucesso no Instagram, quando a rede ainda focava em fotos e imagens artísticas ao invés de algoritmos viciados.

Muitos dos seus mais de 50 mil seguidores vieram depois de conhecerem Alma Negrot na Drag-se, uma série documental que acompanhava o cotidiano de 13 drag queens cariocas e suas artes performáticas. 

“[A série] foi um marco. A gente tinha uma plataforma para poder falar sobre tudo, de maquiagem a assuntos pessoais. E tinha muita gente assistindo no Brasil todo. Nós éramos 13 drags, e cada uma muito diferente da outra. Eu acho que isso ajudou muito na minha popularização naquela época, porque eu era a mais freak de todas.”

Eu via gente de várias cidades fazendo cílios de papel, perucas de lã, vestidos de plástico derretido, fazendo meus tutoriais de maquiagem. Foi um movimento muito bonito

É claro que, depois de tantos anos, a febre de agora é mesmo os realities shows. Depois de uma estreia de sucesso que coroou Organzza como a primeira campeã brasileira, a segunda temporada de Drag Race Brasil já foi confirmada pela World of Wonders e Alma Negrot não descarta uma participação: “Todo ano alguém fala que Alma Negrot vai entrar no Drag Race. E eu fico calado né? Não falo nada… Mas quem sabe vem aí?”.

O fenômeno de Drag Race realmente transformou a cena drag, popularizando essa arte para o mundo inteiro. Ainda assim, Alma Negrot prefere manter suas raízes e reverenciar as artistas brasileiras que pavimentaram o caminho, como Carrie Myers, Márcia Pantera, Natasha Princess e Ikaro Kadoshi

Muitos jovens tentam fazer imitação de drag do RuPaul’s Drag Race. Mas essas não duram muito não. Essas eu vi nascerem e desistirem rapidamente

Dentre as referências de Alma Negrot, a maior delas, sem dúvidas, é Madonna. Com apenas 5 anos de idade, Raphael ficou encantado com o encarte do álbum The Immaculate Collection, que fazia parte da coleção pessoal da sua mãe, fã declarada da Rainha do Pop. Em uma foto específica, feita pelo renomado Herb Ritts, Madonna surge de lingerie na frente de vários mictórios de um banheiro masculino. Essa brincadeira provocativa do que era masculino ou feminino, certo ou errado, entrou na mente da criança, que também se tornou fã por tabela. 

“Ela era um grande exemplo, porque sua grande força motora é a provocação. E eu queria ser assim. Isso influenciou muito nas minhas escolhas estéticas”, explica. “A performance é isso. Existe uma linha de normatividade no ambiente, a performance chega e quebra isso. Eu acho ótimo, é isso que me interessa.”

Além de Madge, Alma também se inspirou em nomes como Grace Jones, Björk, David Bowie e Elke Maravilha, a qual considera uma guru. Ícones conhecidos por serem únicos e disruptivos, mas que ainda assim faziam parte da cultura pop, tão importante para a representação LGBTQIA+. Hoje, vivendo ativamente como parte dessa comunidade, Alma garante que se sente muito mais inspirada pelos próprios amigos. 

“Eu vibro muito quando vejo a Jup do Bairro, a Ivana Wonder, a Aretha Saddick, a Verónica Valenttino… São as pessoas que mais me inspiram hoje em dia, não é mais a Bjork.”

Foi com Alma Negrot que Raphael Jacques encontrou a vertente artística que mais lhe contemplava. Não era a tela ou os quadros. Era a performance, a possibilidade de criar uma atmosfera mágica nos lugares onde se apresenta. Foi também graças a essa persona que o artista gaúcho conseguiu multiplicar suas facetas artísticas. 

Tudo começou com a banda Francisco El Hombre. O baterista Sebastián Piracés-Ugarte entrou em contato com Alma Negrot pelas redes sociais e perguntou se ela poderia maquiá-los para as fotos do disco Soltasbruxa. A parceria deu tão certo que Alma dirigiu o videoclipe da música “Calor da Rua”

A partir daí, as oportunidades não pararam de aparecer. A primeira capa foi para o álbum Coração, de Johnny Hooker. Depois, colaborou visualmente com Karol Conká, Jão, Teto Preto, Gloria Groove, Criolo, Filipe Catto e muitos mais. Também já dirigiu editoriais para revistas como Elle, GQ e Vogue

“Foi muito mágico pensar que uma coisa que eu já fazia há muito tempo estava sendo reconhecida”, refletiu. “Eu estava estendendo esse olhar para o mundo. As pessoas me chamavam não só para maquiar, mas para dirigir com a imagem, pensar cenário, maquiagem, figurino, tudo junto.”

Hoje, a maior parte do trabalho de Raphael Jacques vem da maquiagem. As performances como Alma Negrot já não são mais tão frequentes como eram antigamentes, quando ela era uma figurinha carimbada em festas como a Mamba Negra e a Dando. O ritmo da noite deixou o artista cansado, principalmente porque a arte drag, apesar de popular, ainda é amplamente desvalorizada no Brasil. 

Hoje eu me monto porque preciso. Se eu não me montar, se eu não performar, se eu não subir num palco, eu entro em depressão

“A gente ganha muito mal, muito mal mesmo”, desabafou. “Eu acabei migrando para o audiovisual e a montação se tornou mais uma coisa de necessidade do que trabalho. Eu faço porque amo fazer.”

Para além dos trabalhos como artista visual, o futuro de Alma Negrot também traz sua faceta como DJ. Desde muito novo, a música tem sido uma inspiração, e agora é também um trabalho. Seja montada como Alma ou como Raphael, ele já apresentou seus sets na noite LGBTQIA+ de São Paulo e agora vai realizar o sonho de se apresentar na Europa.

Alma embarca para o velho mundo logo em breve, depois de ter se apresentado no The Realness Festival 2024, o maior festival de drag queens da América Latina. A turnê vai passar por Amsterdã, Barcelona, Lisboa e Berlim, onde irá tocar no WHOLE Queer Festival, que acontece desde 2017 na capital alemã. 

“Estou muito feliz, porque nunca tinha ido para a Europa. Quero colocar muito da minha identidade, das coisas que eu gosto, do que eu ouço, da minha pesquisa mais particular”, adianta. “Claro que cada festa tem um feeling diferente. Eu vou sentindo e vendo para que caminho vou levar.”

Eu sou movido pela música. Pesquiso música há muito tempo, sempre estive muito conectado com isso

A nova fase traz também uma estética renovada para sua persona drag. Se antes ela se considerava uma “ciborgue voodoo queen dominatrix”, agora tem se interessado muito mais pelo arquétipo das pin-ups e do burlesco. Uma transformação que também tem a ver com sua mudança física. 

“Eu estou me redescobrindo na noite. Mudei bastante a minha estética, estou buscando outra coisa, estudando outros movimentos de corpo”, explica. “Vejo que meu corpo tem mudado muito. Antigamente eu era muito magro e naturalmente andrógino. Eu fazia aquela coisa meio entidade, meio aparição extraterrestre. Hoje, comecei a colocar um pouco mais de sexualidade. É uma mistura de Pete Burns com Bettie Page.”

O processo de montação da Alma Negrot é sempre muito fluido. Ela conta que não existe um croqui. Ao invés disso, se deixa ser transportada pelas cores e o fazer artístico na hora de montar. O resultado é sempre uma surpresa, tanto para o público, quanto para ela mesma. 

“Eu vejo a figura da drag como uma porta-bandeira do movimento LGBT, porque nós somos uma figura caricata, nós somos o excesso do excesso, nós somos o acúmulo dos símbolos de gênero, o escárnio do feminino e do masculino juntos”, define. “É o belo, acima do belo, acima do belo, que se transforma em deboche, um deboche do gênero. É o que a RuPaul fala: ‘Você nasceu pelado, o resto é drag!’.”

LÍVIA MUNIZ

Niteroiense apaixonada pelo Vasco, Livia é formada em Jornalismo pela UFRJ. Trabalhou como repórter e colunista na Goal Brasil durante quatro anos. É nerd, feminista e sonha ser uma ranger rosa.

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