02 abr 2026
A drag queen Ivana Wonder fotografada por Anthony Araújo para a Híbrida

O SUBCONSCIENTE NOSTÁLGICO E MELANCÓLICO DE IVANA WONDER

por JOÃO KER

“Por muito tempo, eu cantei o que outras pessoas tinham a dizer. Agora, quero cantar o que eu tenho a dizer”, diz a drag queen Ivana Wonder, de 32 anos. Na noite paulistana, a persona criada pelo designer Victor Ivanon tem chamado atenção pela forma como reverencia as divas brasileiras do século passado, as mesmas que inspiram agora o seu primeiro disco autoral, com lançamento previsto para ainda este ano. 

Até então, o repertório musical de Ivana reintroduzia para as novas gerações a melancolia imortalizada em algumas das maiores cantoras brasileiras do século passado. Pense em Dalva de Oliveira, Ângela Maria e, principalmente, Maysa (“Eu fiquei obcecado quando lançaram a série dela”). Divas cujas vozes atravessaram as décadas por ondas de rádio, tv e, agora, tentam sobreviver no streaming. 

“É algo que eu tenho desde criança. Cresci ouvindo rádio com os meus avós e convivi com pessoas muito mais velhas. No fim, acabei absorvendo um pouco da música que essas pessoas consumiam”, conta. “De alguma maneira que eu não sei explicar, isso me tocou desde sempre.”

O objetivo de Ivana Wonder não é exatamente emular uma diva dos anos 1950, mas sim dá-las uma nova roupagem com a qual possa traduzir esse universo às novas gerações. “É uma outra coisa, mas que traz essas mensagens. É quase como uma ressignificação de tudo isso pra hoje. Como esses sentimentos, essas canções, esses poemas – que as pessoas também tinham a dizer há 60 anos – ainda reverberam no coração de todo mundo”, explica. “Elas ainda batem na gente, ainda fazem sentido.” 

Ivana Wonder (Foto: Anthony Araújo)

Ivana Wonder (Foto: Anthony Araújo)

Formado em Design pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU/USP), Ivanon diz que a criação de Ivana Wonder, em 2014, foi influenciada pelo curso de graduação e vice-versa, uma vez que a drag foi seu projeto de conclusão. “Talvez eu não seria a drag que eu sou se não fosse designer.”

“[Criar uma drag queen] demanda a construção de uma personalidade, de um mundo – pelo menos eu encarei dessa maneira -, de uma estética, de uma imagem, de uma semiótica sobre aquilo”, explica, também provocando: “Qual a mensagem que você passa através da sua drag, da sua maquiagem, do que você interpreta, do que você canta, como você fala…?”. 

Nesse caldeirão de referências utilizadas para dar vida a Ivana, nomes como Divine, Grace Jones e Lady Gaga também são citadas como inspiração. Estrelas que ocupam em comum “um lugar de transgressão”. O resultado, entretanto, é uma artista totalmente original, que nasceu após anos de reflexão e autodescoberta. 

“Eu preciso mais do que cantar sentimentos passados, por mais que eles possam fazer sentido hoje. Mas como eu me sinto hoje? O que eu tenho a dizer? Como é a minha vida, as minhas experiências… Porque eu existo agora, adianta Ivana sobre o début. 

Antes disso, já dá pra ouvir nas plataformas o seu primeiro single autoral, “Melancholic Blue”, uma canção que, como o próprio nome indica, mergulha de cabeça na fossa, com direito a piano pesado e clima cabaré. Não à toa, versos tipo “Quando eu olho além do espelho, só me vejo desistir” e “Mas nesse azul profundo, eu só quero chorar” são destilados na potência vocal de Ivana, cujas confissões melancólicas foram compostas ainda na pandemia. 

Ivana Wonder (Foto: Anthony Araújo)

“Eu nunca tive a ambição de ser uma compositora. Não tive estudo formal de música, mas ela veio através de mim. Meus sentimentos [foram] aflorando ao ponto de eu começar a me sentir impelida a colocar isso pra fora – compor, escrever e não mais só interpretar o que os outros tinham a dizer”, explica. 

Mesmo que esteja “aprendendo enquanto faz” e tenha nascido “de maneira despretensiosa, por pura diversão”, Ivana Wonder já é distinguível entre o mar de nomes fugazes que surgem e somem na cena drag quase todos os dias. Sua visão criativa alinhada à potência artística que demonstra nos palcos formam uma mistura inegável de talento e trabalho duro. 

“A Ivana nasce de um estado de melancolia, na figura de um palhaço, nessa busca por usar a maquiagem e a drag como uma forma de expressão”, revela. “Analisando isso depois de muitos anos, [me dei conta que] tudo foi construído de maneira muito inconsciente. São manifestações do meu subconsciente.”

Abaixo, veja o restante do ensaio exclusivo onde parte desse subconsciente de Ivana Wonder ganha vida em um ensaio inspirado no conto “Apenas um saxofone”, de Lygia Fagundes Telles, e clicado pelo fotógrafo Anthony Araújo

Ivana Wonder (Foto: Anthony Araújo)

Ivana Wonder (Foto: Anthony Araújo)

Ivana Wonder (Foto: Anthony Araújo)

Ivana Wonder (Foto: Anthony Araújo)

Ivana Wonder (Foto: Anthony Araújo)

Direção criativa: @todecastilho
Foto: @anthonyarjph
Ass foto: @ninagleal e @c.bonsi
Styling: @lucazroberto
Produção de moda: @lirmxt
Direção de arte: @anthonyarjph e @todecastilho
Set designer: @roberthaugsto
Ass set designer: @luizatorresluiza
Ass produção: @onnasilva

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