19 fev 2026

Gabriel Santana fala sobre carreira, BBB, Chiquititas e bissexualidade para a edição #11 da Híbrida, BANDEIRAS (Foto: Anthony Araújo | Híbrida)

por JOÃO KER

“Eu não sei o que é ter uma vida que não seja pública”, diz Gabriel Santana, 26 anos. Não é exagero usar a expressão “cresceu sob os holofotes” para se referir ao “ator, apresentador, produtor, ativista e figura pública”, como ele mesmo se descreve. Hoje já habituado à exposição, o carioca do Méier entra agora em uma nova fase da carreira, produzindo sua própria websérie, com um novo trabalho no streaming e sem medo de levantar bandeiras na via pessoa ou na profissional.

Gabriel começou a trabalhar ainda criança, quando acompanhava a irmã Ana Carolina Santana correndo atrás do sonho de ser modelo. De repente, ele também se viu representado por uma agência e, aos 11 anos, já estava ganhando seu primeiro salário.

“Desde que eu me entendo por gente, eu trabalho. Não sei dizer se isso me trouxe danos ou não, mas me trouxe muitas coisas positivas e negativas ao longo do tempo. A análise ajuda a perceber isso, né? Essa é a única realidade que eu tenho.”

Gabriel Santana fala sobre carreira, BBB, Chiquititas e bissexualidade para a edição #11 da Híbrida, BANDEIRAS (Foto: Anthony Araújo | Híbrida)

Gabriel Santana fala sobre carreira, BBB, Chiquititas e bissexualidade para a edição #11 da Híbrida, BANDEIRAS (Foto: Anthony Araújo | Híbrida)

Foto: Anthony Araújo. Produção: Pedro Castlho. Direção Criativa: João Ker. Direção de Arte: Marcos Rossas. Look: Acervo @hauckmann. Beleza: Vinícius Vilas Boas.

A resposta para “quem é Gabriel Santana?” depende de a quem a pergunta é feita. Millenials cronicamente online podem conhecê-lo como o rapaz bissexual que usava cropped no Big Brother Brasil 23. As gerações posteriores provavelmente o conhecem como o Mosca do remake de Chiquititas, um fenômeno da teledramaturgia infantil que, apesar de lançado em 2013, até hoje figura entre os títulos mais assistidos do streaming nacional. 

Na novela, Gabriel Santana reprisou personagem vivido originalmente pelo ator Pierre Bittencourt na versão de 1993. Um dos protagonistas da trama, ele foi alçado desde cedo ao posto de “galã” para toda uma geração de fãs que têm se renovado ad eternum graças à forma com que a novela infantil é constantemente exibida na internet e reprisada na TV. 

 

“O Mosca é uma imagem fixa no imaginário da população brasileira. E tá tudo certo. Amo o Mosca, devo minha carreira a ele.”

Gabriel Santana fala sobre carreira, BBB, Chiquititas e bissexualidade para a edição #11 da Híbrida, BANDEIRAS (Foto: Anthony Araújo | Híbrida)

Foto: Anthony Araújo. Produção: Pedro Castlho. Direção Criativa: João Ker. Direção de Arte: Marcos Rossas. Look: Acervo @hauckmann. Beleza: Vinícius Vilas Boas.

“Por mais que eu tenha sido exposto midiaticamente, não foi no mesmo nível dos atores de Hollywood ou de alguns dos maiores atores mirins da minha geração, tipo Maísa, Larissa Manoela ou João Guilherme”, comenta, citando alguns colegas de Chiquititas como exemplo. “Ao mesmo tempo, é diferente de quando você começa a trabalhar depois dos 20, 30, 40 anos com uma imagem pública. Eu não tive a mesma adolescência que a maioria das pessoas. Todo mundo acha que pode palpitar e ter opiniões o tempo inteiro.”

Gabriel Santana fala sobre carreira, BBB, Chiquititas e bissexualidade para a edição #11 da Híbrida, BANDEIRAS (Foto: Anthony Araújo | Híbrida)

 

“Na minha época, eu fiz muitas merdas que não foram ao ar. Acho que os novos atores mirins vão sofrer muito mais com essa hiperexposição das redes sociais.”

Foto: Anthony Araújo. Produção: Pedro Castlho. Direção Criativa: João Ker. Direção de Arte: Marcos Rossas. Look: Acervo @hauckmann. Beleza: Vinícius Vilas Boas.

Se Chiquititas trouxe um nível absurdo de fama para Gabriel ainda na infância, na vida adulta a exposição veio com sua participação no BBB. Ainda que ele já tivesse participado de algumas novelas na TV Globo, viver na “casa mais vigiada do Brasil” elevou o reconhecimento do seu nome a outro patamar.

Para quem pertence ao grupo do “camarote”, ou seja, já tem algum nível de fama na vida pré-reality, o BBB tem sido uma aposta que se prova mais perigosa a cada edição. Por um lado, os participantes podem sair mais reconhecidos do que entraram e com novas oportunidades profissionais; por outro, correm o risco de destruírem a reputação que construíram aqui fora, vivendo sempre a um deslize de distância do cancelamento. 

Para Gabriel, entretanto, a experiência rendeu zero arrependimentos. “Eu me arrisco a dizer que foi uma das decisões mais legais que tive na minha carreira – como figura pública”, avalia hoje, dois anos depois, sobre o impacto que a participação teve na projeção do seu nome. “As pessoas viam o Tadeu (Schmidt) me chamando de Gabriel, viam os outros participantes me chamando de Gabriel. Tipo assim, foi uma confusão engraçada no começo, mas ajudou o imaginário brasileiro a reconhecer o meu nome enquanto ator. Pela primeira vez na minha carreira, as pessoas deixaram de me ver como um personagem.”

 

“Ganhei mais um rótulo, né? Eu sou ex-ator mirim, eu sou ex-Chiquititas e agora sou ex-BBB também.”

Gabriel Santana fala sobre carreira, BBB, Chiquititas e bissexualidade para a edição #11 da Híbrida, BANDEIRAS (Foto: Anthony Araújo | Híbrida)

Foto: Anthony Araújo. Produção: Pedro Castlho. Direção Criativa: João Ker. Direção de Arte: Marcos Rossas. Look: Acervo @hauckmann. Beleza: Vinícius Vilas Boas.

MASCULINIDADES

Gabriel Santana realmente não tem motivos para se arrepender da sua passagem pelo BBB. Sua participação no reality começou e terminou sem nenhuma polêmica grave e o efeito foi o esperado: aumentar de forma positiva o seu reconhecimento entre o público brasileiro.

Como o 11º eliminado, ele protagonizou momentos que ficaram marcados na edição. O principal foi a demonstração e subsequente discussão aberta sobre bissexualidade, algo que repercutiu aqui dentro e fora da casa quando beijou Fred Nicácio e Sarah Aline ao longo da temporada. 

“Eu senti de falar sobre minha bissexualidade. Vivi ela lá dentro, me relacionei com homem e mulher dentro da casa… Quando saí, vi que isso de fato tinha movimentado muita coisa positiva e negativa aqui fora”, conta. “Acho que foi importante esse movimento que eu fiz, mas eu senti preconceitos tanto de dentro da comunidade quanto de fora, sabe?”

A experiência foi um paradoxo duplo que pegou o ator de surpresa. “Tanto pela bissexualidade quanto por ser uma pessoa preta de pele clara, eu vivo dentro de duas caixinhas que são invisibilizadas, sabe?” Mesmo reconhecendo que tem “mais acessos” do que pessoas transexuais ou de pele retinta, por exemplo, ele comenta que também existe um certo sentimento de ostracização dentro das próprias comunidades preta e LGBTQIA+. 

“Quando eu saí da casa, senti muito isso. Era ataque de todos os lados! Parte do público falando que eu não era bi de verdade, que eu era hétero e tava me fazendo de bissexual porque ‘estava no hype’. ‘Ah, mas ele é bi ou não é bi?’, ‘Ele é preto ou não é preto?’”, lembra. “Ao mesmo tempo, tirando toda essa parte, a experiência foi positiva. Eu acho que virei uma ótima referência.”

 

“As pessoas dentro da própria comunidade LGBTQIA+ têm uma visão muito restrita de masculinidade”

Foto: Anthony Araújo. Produção: Pedro Castlho. Direção Criativa: João Ker. Direção de Arte: Marcos Rossas. Look: Acervo @hauckmann. Beleza: Vinícius Vilas Boas.

As críticas à masculinidade frágil do público e de parte da comunidade LGBTQIA+ se referem, por exemplo, ao uso do cropped, algo que virou sua marca registrada dentro do BBB e pode parecer até insignificante a priori, mas acaba ajudou a desconstruir uma visão até hoje engessada sobre a relação entre roupas e gênero.

“Cara, usar uma saia, um cropped, não vai mudar o desejo sexual que você sente pelas pessoas. Se você é ativo, vai continuar sendo ativo. Se você é versátil, vai continuar sendo versátil. Se você é passivo e usar uma polo, você não vai deixar de ser passivo, tá ligado?”

Foto: Anthony Araújo. Produção: Pedro Castlho. Direção Criativa: João Ker. Direção de Arte: Marcos Rossas. Look: Acervo @hauckmann. Beleza: Vinícius Vilas Boas.

GABRIEL SANTANA, ALÉM DAS CAIXINHAS E RÓTULOS

Ainda que não se incomode com o reconhecimento de “ex-ator mirim, ex-Chiquititas e ex-BBB”, Gabriel Santana já construiu uma carreira que extrapola os rótulos citados acima. Seu currículo inclui novelas como Malhação e Pantanal, a série Carcereiros e, agora, a recém-lançada Jogo Cruzado, do Disney+.

Na dramédia criada pela argentina Ariana Saiegh, ele vive o jogador de futebol Cauê, cujo peso da sexualidade acaba afetando seus relacionamentos pessoais, profissionais e até o desempenho do time para o qual joga. 

“O grande dilema do Cauê é esse: ele tem muito medo de decepcionar a família, os amigos, o time, os torcedores, os patrocinadores e deixa de ser quem é por medo dessa pressão externa”, explica Gabriel, que vê semelhanças entre a história do personagem e de muitas outras pessoas LGBTQIA+. “A gente tem essas expectativas, esse medo do que a nossa mãe vai achar das nossas atitudes, do que a gente faz, do que deixa de fazer. Só que uma figura pública, de maneira geral, tem isso potencializado mil vezes, porque não é só com a família, os amigos e as pessoas que você conhece. É com o Brasil inteiro, com o mundo inteiro.”

Essa pressão inevitavelmente tem um peso diferente também para os atores. Não à toa, ainda são raros os casos daqueles que têm coragem de declarar publicamente sua sexualidade. O principal risco é óbvio: perder a credibilidade no mercado e/ou entre o público, caindo no limbo de ficar estereotipado para um único tipo de personagem LGBTQIA+, que na grande maioria dos casos será coadjuvante, isso quando existir. 

Gabriel Santana fala sobre carreira, BBB, Chiquititas e bissexualidade para a edição #11 da Híbrida, BANDEIRAS (Foto: Anthony Araújo | Híbrida)

Foto: Anthony Araújo. Produção: Pedro Castlho. Direção Criativa: João Ker. Direção de Arte: Marcos Rossas. Look: Acervo @hauckmann. Beleza: Vinícius Vilas Boas.

“A gente não pode ser hipócrita de achar que o mundo está revolucionado e que não existe preconceito. Preconceito é uma forma inclusive política de ganhar dinheiro”, diz Gabriel.

Ele desenvolve o argumento, mas mede as palavras com mais cuidado do que no restante da entrevista. “A partir do momento que a arte também é capitalizada, não tem como você imaginar que isso não afeta a performance do ator e a quantidade de trabalhos ou papéis para os quais ele vai ser chamado quando levanta uma bandeira marginalizada.” 

“Os galãs são os galãs, os gays são os gays e as princesinhas são as princesinhas. O fato de você ser mulher de uma certa ou quanto mais retinta for a sua pele, a sua sexualidade ou como você performa socialmente ou como você se veste… Tudo isso vai afetar o seu trabalho. É questão de você entender que a arte é muito maior do que isso tudo.”

 

“Eu não me importo em perder trabalhos por ser quem eu sou e levantar as bandeiras que eu levanto”

Foto: Anthony Araújo. Produção: Pedro Castlho. Direção Criativa: João Ker. Direção de Arte: Marcos Rossas. Look: Acervo @hauckmann. Beleza: Vinícius Vilas Boas.

Aqui, ele volta ao papo inicial de ser colocado em caixinhas. Mas, nesse caso, Gabriel não tem como fugir, porque a alternativa seria “voltar ao armário”, algo que está fora de cogitação. “Eu sou a mudança, o meu corpo é a mudança que eu quero no espaço artístico que eu vivo. Então, se eu precisar fazer menos papéis, se eu precisar ganhar menos dinheiro, se eu precisar trabalhar 20 vezes mais, eu vou fazer isso. Eu trabalho com a minha imagem, mas na ponta do lápis, eu sou artista. E ser artista não é a mesma coisa que ser figura pública.”

Gabriel Santana fala sobre carreira, BBB, Chiquititas e bissexualidade para a edição #11 da Híbrida, BANDEIRAS (Foto: Anthony Araújo | Híbrida)

 

“Eu nasci artista, eu não nasci para ganhar dinheiro de publi e, sei lá, viver de indo a eventos”

Foto: Anthony Araújo. Produção: Pedro Castlho. Direção Criativa: João Ker. Direção de Arte: Marcos Rossas. Look: Acervo @hauckmann. Beleza: Vinícius Vilas Boas.

Uma das formas que ele tem encontrado para contornar esses entraves é produzindo seus próprios projetos, como uma websérie exibida pelo TikTok, na qual mistura turismo e relacionamento, com uma pegada de… reality.  “A internet democratiza muitas coisas. A arte sempre foi elitista, quem discorda disso não estudou história o suficiente”, afirma.

“O que eu critico é você achar que ser produtor de conteúdo te faz artista. Não, as pessoas confundiram a imagem de um influencer, de uma figura pública com um militante e o artista”, ele avalia, antes de pensar melhor e completar: “Eu tenho a sorte de ser artista e figura pública. Mas são duas coisas completamente diferentes.”

Gabriel Santana fala sobre carreira, BBB, Chiquititas e bissexualidade para a edição #11 da Híbrida, BANDEIRAS (Foto: Anthony Araújo | Híbrida)

JOÃO KER_reportagem e direção criativa

Mineiro de nascença e carioca de alma, João é formado em jornalismo pela UFRJ e já passou por empresas como Canal Futura, Jornal do Brasil, Sony, Yahoo e The Intercept, antes de lançar a Híbrida. É também repórter do jornal O Estado de S. Paulo.

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MARCOS ROSSAS_diretor de arte

Marcos Rossas, 26 anos, é diretor de arte paraense de Belém do Pará. Formado em Publicidade pelo CESUPA e morando em São Paulo há 3 anos, traz a estética e a cultura amazônica como inspiração para seus trabalhos. Além da publicidade, cria conteúdo de humor e apresenta, com Pedro Castilho, o podcast Entre o Colapso e o Colírio.

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PEDRO CASTILHO_produção

Apesar de publicitário por formação e trabalhar como gerente de operações em um estúdio criativo, sou apaixonado por moda e pelo processo de criação de imagens. Então meu hobby é criar histórias e pensar em imagens e que contém essas narrativas. Sou do interior do Paraná, já morei no Rio de Janeiro, e todo meu repertório foi sendo construído através das referências e subjetividades dos lugares que passei.

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Anthony Araújo, fotógrafo baseado em São Paulo, desenvolve um trabalho que combina moda, experimentação estética e narrativas visuais marcantes.

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MARIA EUGÊNIA GONÇALVES_diagramação

Bacharel em Ciências Humanas pela UFJF. Fã de cultura pop desde criança, encantada pelo cinema desde a adolescência e apaixonada por História e Estudos de Gênero na idade adulta.

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