21 fev 2026

COMO A HORA DO PESADELO 2 SE TORNOU UM ÍCONE IMPROVÁVEL DO TERROR QUEER

HÁ MAIS DE 40 ANOS, A SEGUNDA AVENTURA DE FREDDY KRUEGER CHEGAVA AOS CINEMAS MARCANDO A HISTÓRIA DOS SLASHERS E REFLETINDO O GAY PANIC DA ÉPOCA

por MARIA EUGÊNIA GONÇALVES

Há 40 anos, Freddy Krueger voltava aos cinemas com A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy. A sequência, lançada nos EUA em 1985 – dois anos depois no Brasil -, foi dirigida por Jack Sholder e consolidou o assassino onírico criado por Wes Craven como um dos maiores ícones do terror.

A história começa quando Jesse (Mark Patton) chega com a família a Springwood, no interior do estado de Indiana, instalando-se na casa que um dia pertenceu a Nancy Thompson (Heather Langenkamp), sobrevivente do primeiro filme. Lá, o jovem começa a ter pesadelos recorrentes com o monstro de luvas afiadas, que invade seu corpo e o obriga a cometer crimes no mundo real.

Apesar do resultado satisfatório nas bilheterias, parte dos fãs e da crítica não gostou do rumo tomado por Freddy Krueger na continuação. Em parte porque a história modificou a lógica da versão original: agora, o vilão não aparecia somente nos pesadelos dos adolescentes de Elm Street para matá-los, mas era metamorfoseado no corpo de um dos protagonistas para cumprir seus impulsos sanguinários no plano terrestre.

Outro motivo para a decepção é que o posto de protagonista da vez saiu do arquétipo tradicional da final girl, recorrente nos slashers mainstream dos anos 1980 e que permanece até hoje. O novo herói era um garoto ambíguo e introspectivo, que parecia lutar contra algo “mais profundo” do que apenas os sonhos atormentados por Krueger.

Esse “tormento” de Jesse se manifestava nas cenas ambientadas em um clube de fetiches, na tensão latente com seu amigo Grady (Robert Rusler) ou até mesmo no pôster de Kate Bush pendurado na parede do seu quarto. Demorou um pouco, mas o público finalmente percebeu que A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy era um terror recheado de códigos e subtons queer, e que, com o passar dos anos, merecia ganhar dois rótulos importantes para os cinéfilos: “um dos filmes de terror mais gays de todos os tempos” e “clássico cult”.

À esquerda, a tensão de Jesse e Grady quando vividem na cama. À direita, o pôster de Kate Bush no quarto do protagonista da sequência de A Hora do Pesadelo (Fotos: Reprodução)

Ainda assim, o roteirista David Chaskin negou por décadas qualquer intenção de inserir propositalmente elementos identificados como homoeróticos no filme, da mesma forma como os produtores afirmaram não perceberem o subtexto. Essa leitura mais queer da história, porém, não ficou presa apenas aos fãs LGBTQIA+ da franquia.

Robert Englund, o mais marcante dos intérpretes de Krueger, foi um dos que reconheceu na sequência de A Hora do Pesadelo um retrato pioneiro da vulnerabilidade masculina e da marginalidade queer no universo do terror. 

“Eu tinha consciência disso e acho que as pessoas também sabiam mais do que admitem hoje em dia. Principalmente em cenas como aquela em que o Jesse rasteja até o quarto do melhor amigo e se deita na cama com ele”, contou Englund, em 2015, para a The Advocate“É uma cena incrível […], tem um quê de sensualidade e está carregada dessa tensão que permeia o momento. Na minha visão, o que o Freddy fazia ao longo do filme era captar esse subtexto, essa latência do garoto. Ele explorava isso e provocava o personagem do Mark com essa ambiguidade.”

O TERROR COMO ESPELHO DA SOCIEDADE

Para muitos, o cinema de horror vive hoje um período de renascença. A crítica, que por muito tempo subestimou o gênero, finalmente entendeu a adoração do público e tem reagido de acordo a essa demanda nos últimos anos.

Filmes como A Bruxa (2015), Hereditário (2018) e Midsommar (2019) trouxeram ao vocabulário cultural termos como “terror elevado” para designar obras que pareciam mais “sérias” ou intelectualmente ambiciosas, pontuando temas sociais da contemporaneidade como depressão, luto, violência de gênero e trauma geracional. No entanto, essa noção ignora um ponto crucial: o terror sempre refletiu as questões da sociedade.

Dos zumbis de George A. Romero ao moralismo sexual retratado nos slashers dos anos 1980, seguido pela dessensibilização da violência explorada nos chamados torture porn e até mesmo através das novas leituras do found footage sob a ótica da internet, dentre muitos outros exemplos, o gênero tem sido, desde sempre, um espelho do seu tempo.

A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy não poderia ser diferente. Lançado durante o pico da epidemia de Aids nos anos 1980, o filme serviu como um desses reflexos sociais, dialogando com a guinada conservadora que os Estados Unidos viveram durante os mandatos do republicano Ronald Reagan.

Em um período que ser LGBTQIA+ era sinônimo de contaminação, o filme traduziu, por meio de metáforas corporais e psicológicas, o medo das pessoas que viviam à margem e o temor coletivo em lidar com elas. Isso se evidencia na maneira como Jesse circula entre os outros: ele quer pertencer, mas as próprias inquietações (e a constante ameaça de Krueger) o puxam de volta, criando uma oscilação entre a abertura e a retração, que explicita o clima de desconfiança dirigido a quem fugia das normas da época.

As leituras que aproximam A Hora do Pesadelo 2 do imaginário da AIDS também se consolidaram na crítica acadêmica. O pesquisador Ragan Fox, professor de Comunicação da Universidade do Estado da Califórnia, identifica na metamorfose de Jesse um espelhamento das ansiedades que marcaram os primeiros anos da epidemia. 

“O corpo jovem, macio e bonito de Jesse se abre para revelar a pele queimada e marcada de Krueger. Essa transformação lembra, de maneira inquietante, a forma como a AIDS devastou os corpos de tantos homens gays nos anos 1980. As queimaduras úmidas de Krueger evocam as lesões do sarcoma de Kaposi, comuns em infecções ligadas à doença”, observou em um artigo.

O impacto sobre Mark Patton, o ator que interpretou Jesse – e que era gay na vida real -, reforçou esse peso social. À época, ele enfrentou a pressão da indústria para esconder sua orientação sexual, enquanto suspeitas de infecção pelo vírus do HIV também alastraram o pânico moral pelos estúdios e bastidores de Hollywood. Somava-se a isso o conflito com o roteirista, que por anos minimizou o subtexto queer do filme, atribuindo à performance considerada “feminilizada” de Patton a responsabilidade por uma leitura homoerótica que o público fez da narrativa.

Mais tarde, entretanto, até Patton admitiu o valor cultural da obra e a relação duradoura com os fãs LGBTQIA+ que se viram refletidos nela, como enfatizado nos documentários Never Sleep Again: The Elm Street Legacy (Andrew Kasch e Daniel Farrands, 2010) e Scream, Queen! My Nightmare on Elm Street (Roman Chimienti e Tyler Jensen, 2019). Neste último, inclusive, o ator recebe um pedido direto de desculpas de Chaskin pelas acusações de ter tornado o filme “mais gay do que deveria”.

A EXPERIÊNCIA QUEER COMO SUBTEXTO

Ao trabalhar o corpo como espaço de conflito, A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy também explorou outro subgênero do terror carregado de simbolismos e comumente abraçado pela comunidade LGBTQIA+ no cinema: o body horror.

Seja clássicos como Alien (1979) e O Enigma de Outro Mundo (1982), obras recentes como Tempo (2021) e Titane (2021) ou boa parte da filmografia aclamada de David Cronenberg, há uma lista enorme de filmes de terror que colocaram o corpo no centro do audiovisual e que acabaram sendo apropriados por espectadores LGBTQIA+, especialmente pessoas trans, que veem nessas imagens uma forma catártica de identificação com suas próprias experiências.

“Como uma mulher trans que lutou com a disforia a vida inteira, este pode ser o único gênero de filme que se preocupa com a carne tanto quanto eu”, escreveu Nadine Smith, crítica de cinema e mulher trans, sobre sua relação com o subgênero em um artigo para a them.

Essa capacidade de identificação se estendeu também a outras obras do horror, independentemente do nicho. O monstro de O Babadook (2014), por exemplo, foi logo adotado como um ícone queer. Parte dessa apropriação se deu de forma irônica, quando o filme entrou no catálogo da Netflix classificado como “LGBTQIA+”. Houve também uma decodificação afetiva: o vilão parecia encarnar sentimentos de rejeição, diferença e não-pertencimento, tão comuns entre pessoas da comunidade.

Não foi diferente com o palhaço Pennywise, de It (originalmente lançado em 1990 e regravado em 2017); o boneco Chucky, de Brinquedo Assassino (1988), que se tornou oficialmente um aliado queer na série adaptada pelo criador Don Mancini (2021-2024); e até mesmo o brutamontes Leatherface, que em O Massacre da Serra Elétrica – O Retorno (1994) performou elementos típicos da arte drag. 

“Muitos de nós somos atraídos pelo terror. É um dos gêneros mais populares na comunidade queer. Acho que parte disso se deve ao fato de que, por décadas, foi um dos poucos gêneros em que tínhamos alguma representação, fosse ela boa ou ruim”, apontou Derek Le Beau, diretor do Queer Cinema Archive, à LGBTQ Nation. “Creio que essa é uma das razões pelas quais tantos de nós nos sentimos conectados a ele e por que podemos nos identificar com um vilão codificado como LGBTQIA+.”

Como bem sintetizou o diretor Darren Stein em entrevista ao Pink News, “a ‘queerness’ do terror e o terror de ser queer estão, de certa forma, ligados um ao outro. É uma maneira de a gente soltar um pouco a válvula de escape da pressão de viver em um mundo onde nos sentimos constantemente observados, diferentes ou, de algum modo, inaceitáveis”.

Babadook e Chucky: mestres do terror e improváveis ícones LGBTQIA+ (Fotos: Divulgação)

VISIBILIDADE EXPLÍCITA

A ideia de que só o “terror elevado” consegue dialogar enfaticamente com a realidade é reducionista, mas é certo que hoje a representatividade deixou de ficar apenas nas entrelinhas para ocupar o centro da narrativa.

Papéis interpretados por atores LGBTQIA+ têm permitido uma identificação mais direta da audiência com esses temas e personagens. Exemplo disso é o Pinhead do remake de Hellraiser (2022). No livro Hellraiser: Renascido do Inferno (Clive Barker, 1986), que serviu de base para a adaptação cinematográfica original, o personagem é descrito como uma figura andrógina de voz feminina. Na nova versão, essa característica ganha uma dimensão ainda maior e mais significativa com a escalação da atriz trans Jamie Clayton – em contraste às sequências anteriores, que traziam homens cisgêneros no papel do vilão.

Outras obras atuais também seguem lógica semelhante, incluindo protagonistas não-heteronormativos de forma explícita ou desenvolvendo arcos narrativos que permitem ao público queer se reconhecer na hiostória – pelo bem ou pelo mal. Entre elas, podemos listar Morte Morte Morte (2022), They/Them (2022), a trilogia da Rua do Medo lançada pela Netflix, as novas sequências da franquia Pânico e muitos outros trabalhos que surgem de estúdios grandes e tradicionais ou de forma independente pelos festivais mundo afora. 

Jamie Clayton no remake de “Hellraiser”, “Morte Morte Morte” e “They/Them” (Fotos: Divulgação)

Diretores contemporâneos assumidamente LGBTQIA+ também têm ampliado essa representatividade de forma consistente. Jane Schoenbrun (Eu Vi o Brilho da TV, 2024), Dutch Marich (Horror in the High Desert, 2021) Yann Gonzalez (Faca no coração, 2018), Christopher Landon (Freaky – No Corpo de um Assassino, 2020), assim como os brasileiros Juliana Rojas (As Boas Maneiras, 2017 e Cidade; Campo, 2024) e Matheus Marchetti (Verão Fantasma, 2025), seguem atualizando o legado deixado por nomes históricos como Clive Barker, Joel Schumacher, Tony Scott e James Whale.

É o caso também de A Herança (2024), de João Cândido Zacharias. “É engraçado você ter uma personagem queer onde isso não é o tema. ‘Nossa, meu Deus, ele é gay’. Não, por acaso esse personagem é queer. O filme não é sobre estas questões”, pontuou o ator Diego Montez em entrevista à Híbrida. Sua fala evidencia um movimento consciente do terror atual: a identidade queer – agora mais explícita do que apenas sugerida – não precisa necessariamente justificar a trama, mas pode coexistir com ela. 

“O horror queer não apenas se libertou de muitos estereótipos, como também se tornou mais representativo da comunidade. A presença de personagens LGBTQIA+ no cinema de terror contemporâneo vem se tornando cada vez mais diversa e positiva. Não só aumentou o número de personagens LGBTQIA+ no gênero, como também a variedade de representações. Hoje, não vemos apenas personagens gays e lésbicas; já começam a aparecer também personagens bissexuais e trans”, ressaltou Makenna N. Lambert, da Universidade do Leste do Kentucky, no artigo “Queer Representation in the Horror Genre: An Analysis of Queer Stereotypes”.

Os diretores Jane Schoenbrun (Foto: X/Reprodução), Christopher Landon (Foto: Universal/Divulgação) e Juliana Rojas (Foto: Harald Krichel/Berlinale)

O MEDO COMO CATARSE

Em A Hora do Pesadelo 2, Freddy Krueger aparenta ser finalmente derrotado quando Lisa (Kim Myers) revela seu amor por Jesse. À primeira vista, o desfecho pode sugerir a ideia de que a heterossexualidade compulsória seria a chave para a aceitação social e pessoal de um jovem inseguro. No início do filme, Jesse é um sujeito isolado no ônibus da escola; por fim, quando encontra reciprocidade afetiva em alguém do sexo oposto, ele está rodeado de colegas, integrado ao grupo.

Os instantes finais, no entanto, carregam uma ambiguidade sutil: quando Jesse diz a Lisa que pretende esquecer os acontecimentos anteriores, Freddy ressurge, rasgando o corpo de uma amiga que interage com eles. Esse gesto, mais que garantir o mero “susto final” da trama, evidencia que a ameaça não desaparece com a negação de si mesmo.

“A homofobia estava em alta e comecei a pensar no nosso público principal (adolescentes do sexo masculino) e em como tudo isso poderia estar influenciando suas mentes numa idade em que os hormônios estão à flor da pele, gerando sonhos e impulsos que os fazem, mesmo que inconscientemente, começar a questionar a própria sexualidade. Eu pensei que explorar essa angústia daria um impacto a mais ao horror”, admitiu Chaskin para o Buzzfeed, em uma entrevista de 2016.

À luz da fala do roteirista, o final parece abandonar a sugestão de uma “cura” pela heterossexualidade, para revelar-se como alegoria da repressão da homossexualidade de Jesse: enquanto o jovem rejeitar quem ele mesmo é, o monstro seguirá se manifestando.

A simbiose entre a imagem e as experiências subjetivas ajuda a explicar por que A Hora do Pesadelo 2, mesmo décadas após seu lançamento, permanece um marco no gênero. Freddy Krueger, além de um assassino que oscila entre a brutalidade e o cômico, pode ser também o reflexo das pressões que permeiam a sociedade. 

Mais que uma mera sequência de uma obra de sucesso, A Hora do Pesadelo 2, e tantos outros filmes do gênero, são provas de que o cinema de horror para o público queer é – e promete continuar – um lugar seguro para enfrentar, compreender e, finalmente, transcender os próprios medos.

MARIA EUGÊNIA GONÇALVES

Bacharel em Ciências Humanas pela UFJF. Fã de cultura pop desde criança, encantada pelo cinema desde a adolescência e apaixonada por História e Estudos de Gênero na idade adulta.

Instagram

Ir para o conteúdo