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18 jan 2019

NÃO É MERA COINCIDÊNCIA

A DIREITA E A RESSURREIÇÃO DO FASCISMO VIA WEB

POR LUIZ GUILHERME

Em 2017, de acordo com a ONG Grupo Gay da Bahia, nós atingimos a maior média de homicídios de homossexuais no Brasil desde que os dados começaram a ser coletados, ainda em 1980. Infelizmente, isso não é mera coincidência.

Esses números são apenas as últimas consequências de ações e discursos que vêm sendo gestados e difundidos por grupos e alguns agentes da mídia em toda a internet, principalmente nos últimos cinco anos. Um fenômeno de ascensão (ou ressurgimento?) neonazista que, longe de ser um fato isolado, tem assustado não apenas o país, mas o mundo inteiro.

Patrik Hermanson, ativista gay sueco do grupo Hope Not Hate, passou um ano infiltrado entre os grupos de extrema direita nos Estados Unidos e na Europa e, dessa experiência, desenvolveu uma pesquisa que traça o formato e a organização desses coletivos.

Segundo Hamersson, “a ‘Direita Alternativa’ Interacional é um conjunto de grupos e indivíduos de vários países, que operam primeiramente pela internet, apesar de também realizarem ações off-line”. Ele ainda acrescenta que, apesar da natureza aparentemente eclética, quem adere a esses grupos conservadores possui um traço comum: “Todos rejeitam o que acreditam ser a hegemonia cultural dos valores ‘esquerdistas’ no Ocidente e dos direitos advindos deles”.

Patrik Hermanson
Patrik Hermanson. Um ano infiltrado em grupos da extrema direita nos EUA e na Europa. Foto: Divulgação.

Jared Taylor, líder de um desses grupos acompanhados por Patrik, chega a afirmar que eles rejeitam o chamado “perigoso mito da igualdade”, o que para o ativista “significa se opor aos direitos das mulheres, LGBT+ e minorias étnicas, ou se não diretamente a esses direitos, aos movimentos que buscam avançar com eles, como o feminismo”.

Em sua pesquisa, o sueco ainda acrescenta de forma enfática que esses grupos são “amorfos e compostos principalmente por movimentos políticos online em diversos formatos, como blogs, vlogs, websites e podcasts, com apenas algumas organizações off-line de relevância”.

Recentemente, um artigo do jornalista Lee Fang para o The Intercept mostrou como a milionária judia americana Nina Rosenwald está financiando de forma privada o blog Instituto Gatestone, um dos maiores produtores de conteúdo favorável ao partido alemão de extrema direita, AfD (Alternativa para Alemanha).

Não suficiente: de acordo com a reportagem, o site também publica “um fluxo constante de conteúdo sensacionalista sobre a eleição alemã, alimentando principalmente temores sobre imigrantes e muçulmanos”. O repórter ainda observa que “em um dos posts mais recentes, o site alerta para a construção de mesquitas na Alemanha e afirma que o cristianismo está sendo ‘extinto’”.

Essa tendência não se restringe, contudo, aos países da Europa e aos Estados Unidos. Em outra reportagem para o mesmo jornal, Fang mostra como institutos “libertários” norte-americanos estão ajudando a reformular a política na América Latina por um viés de extrema-direita. Esses institutos defendem ideias econômicas de livre mercado, desregulamentação da economia e Estado mínimo.

Consequentemente, se opõem a ações afirmativas do Estado para a manutenção ou ampliação de quaisquer direitos ou movimentos sociais que busquem avançar nas conquistas de grupos minoritários.

Jared Taylor, líder de grupo de extrema direita que acredita, por exemplo, que as raças são  diferentes e melhores em alguns aspectos o que outras. Foto: Washington Post/Getty Images
Jared Taylor, líder de grupo de extrema direita que acredita, por exemplo, que as raças são diferentes e melhores em alguns aspectos o que outras. Foto: Washington Post/Getty Images

Alejandro Chafuen, presidente da Atlas Network, é apontado como um dos responsáveis pela difusão, treinamento e até o financiamento de muitos desses grupos, através da influência e dos contatos da organização que representa.

A empresa possui cerca de 450 think tanks (veículos de comunicação como blogs, vlogs e editoras que recebem financiamento privado para disseminarem uma ideologia específica) afiliados ao seu nome em todo mundo. O investimento aplicado nesses grupos já chegou a cerca de US$5 milhões, apenas em 2016 de acordo com o The Intercept. Na América Latina, o grupo já possui cerca de 80 instituições parceiras, 13 delas apenas no Brasil.

Alejandro Chafuen, presidente da Atlas Network, apontado pelo The Intercept como investidor de think tanks, canais de difusão de ideologia financiados por instituições privadas.
Alejandro Chafuen, presidente da Atlas Network, apontado pelo The Intercept como investidor de think tanks, canais de difusão de ideologia financiados por instituições privadas.

BRASIL

Uma dessas organizações afiliadas já é velha conhecida do público LGBT+: o MBL – Movimento Brasil Livre, que em 2016 participou ativamente do golpe de Estado desferido contra a presidenta eleita Dilma Rousseff é uma das instituições parceiras do Atlas Network, e recebeu não apenas financiamento, como também treinamento de estratégia e organização política nos EUA.  Tanto que Fang usa a atuação do grupo “apartidário” no período do impeachment como a expressão máxima do método de atuação política desenvolvido pelo Atlas Network.

A estratégia é a seguinte: reunir vários grupos de ativistas e institutos de extrema direita, recém-formados através da internet, para trabalharem juntos no fomento ao ressentimento das políticas socialistas, ao mesmo tempo em que são apoiados por alguns escritores de respeito e organizações “acadêmicas”, como Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e o Instituto Millenium.

Essa seria a base teórica do movimento. Em seguida, os ativistas desembarcam já treinados para manterem uma guerra constante na mídia brasileira e na internet contra qualquer ideia que possa ter um cunho de “esquerda”.

Soa familiar?

Além de defender cegamente a aplicação radical dos ditames neoliberais na política e na economia, à revelia de qualquer dado concreto ou raciocínio lógico, esses grupos também vêm protagonizando episódios lamentáveis de censura e perseguição a artistas, intelectuais, políticos ou qualquer figura pública que se posicione a favor de direitos, valores e políticas progressistas.

Queermuseu: obras da exposição foram tiradas de contexto propositalmente para servir a um ataque à esquerda e, assim, enfraquecer o movimento.
Queermuseu: obras da exposição foram tiradas de contexto propositalmente para servir a um ataque à esquerda e, assim, enfraquecer o movimento.

Nos últimos meses, a exposição “Queermuseu” foi encerrada pelo Santander Cultural, em Porto Alegre, em função dos protestos atiçados pelo MBL, que descontextualizou as peças e incutiu em obras de artistas como Adriana Varejão, Portinari e Volpi atentados ao pudor, à moral e aos bons costumes para deslegitimar a exposição.

Também a performance “La Bête” causou polêmica por conta de outra descontextualização intencional, o que acabou em agressão física entre manifestantes de direita e funcionários do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Nela, o bailarino e coreógrafo Wagner Schwartz se apresentou nu, colocando-se no lugar do “bicho” criado pela artista carioca Lygia Clark em sua série de esculturas Bichos (1960).

Para demonizar o artista, foi divulgada apenas uma imagem de uma criança tocando em sua perna. Bastou isso para que ele fosse acusado injustamente de pedofilia: os “defensores da moral” erotizaram a cena, que de erótica não tinha nada – não havia nenhum tipo de estímulo sexual -, e propagaram a imagem sob esse olhar perverso para, mais uma vez, abalar a influência da classe artística que vem se contrapondo a essa ideologia conservadora disfarçada de liberal.

Um dos alvos políticos favoritos dos neofascistas brasileiros é o deputado e ativista LGBT+ Jean Wyllys (PSOL).

Constantemente atacado por trolls de extrema direita, muitos deles fãs do deputado Jair Bolsonaro (PSC), Jean adotou uma nova estratégia para lidar com seus agressores. Quem entrar em seu perfil para agredi-lo ou espalhar notícias falsas envolvendo seu nome terá, além do usual processo por calúnia, difamação ou ameaça, o perfil exposto nas redes sociais do deputado.

Em entrevista exclusiva à Híbrida, que você pode conferir no fim desta matéria, Jean destacou que “não podemos ignorar o impacto das redes sociais, que essa direita soube usar muito eficaz e desonestamente, espalhando mentiras e fake news”.

Jean Wyllys, constantemente atacado pela extrema direita através de mentiras difundidas pelas redes sociais. Vídeo retirado da conta pessoal do deputado no Instagram.

O fenômeno das “fake news” levou esse nome após ser incansavelmente usado por Donald Trump para justificar o trabalho investigativo que a mídia dos Estados Unidos fez ao cobrir sua corrida às eleições, além da ajuda dúbia prestada pelo governo russo e pela Cambridge Analytica, empresa de Big Data com atuação altamente questionada nas eleições americanas e no referendum que votou pela saída da Inglaterra da União Europeia (Brexit).

Hoje, a maior produtora dessas fake news é a própria extrema-direita, que as dissemina diariamente em redes sociais para incitar a população a revoltas e desconfortos com fatos e falas que, na maioria das vezes, nem são reais ou são apresentadas sob uma visão deturpada.

De forma articulada e premeditada, esses grupos conservadores – encabeçados por líderes como o MBL e o próprio deputado Jair Bolsonaro – reeditam vídeos, tiram falas e imagens de contexto, agridem e acusam qualquer indivíduo que não esteja nos seus padrões e mascara todo o preconceito e ignorância com um discurso de defesa dos “valores” e dos “bons costumes”. Uma vez pronta, as notícias falsas começam a rodar: vlogs de reação no Youtube, hashtags revoltadas no Twitter, clipes descontextualizados no Facebook e até as famosas “correntes do Zap” sem qualquer compromisso com a verdade e com os fatos.

O resultado?

Uma indignação tão falsa quanto a notícia publicada, replicada e atirada aos quatro ventos, doa a quem doer.

Alguém fez uma manipulação de imagem para parecer que Jean Wyllys apoia o casamento com crianças. Tudo isso para descreditar o deputado e gerar ódio contra ele. Foto retirada da conta pessoal de Jean no Instagram.

A internet é onde esses grupos transitam com mais desenvoltura e facilidade. É aqui que eles se organizam, marcam eventos, recrutam militantes, criam e divulgam fake news, agridem indivíduos e grupos que defendem ideias diferentes e propagam a maior parte das ideologias conservadoras de extermínio e violência contra minorias. Segundo Fang, esse é um dos principais veículos na guerra contra qualquer política de cunho social. É no ambiente virtual que o verdadeiro monstro se revela.

Mas quem realiza esse trabalho não são apenas os militantes da causa conservadora: são também profissionais de comunicação, que utilizam técnicas de marketing e táticas de venda para angariar fundos, recrutar militantes e principalmente criar e propagar a sua versão dos fatos, a sua narrativa.

A fauna dos grupos conservadores online é diversa, como bem observa Hamerson em sua pesquisa. Contudo, é possível observar que vários dos “artistas”, “intelectuais” e “formadores de opinião” da rede são exatamente os mesmos que trabalham para os grupos da mídia tradicional.

Existe também “um exército de voluntários da causa” entre os usuários das redes sociais, blogs e vlogs, que podem estar ou não associados a esses grupos, mas que compõem uma força poderosa de compartilhamento e divulgação das ideias produzidas por eles. Todas as redes sociais têm um papel importante como veículos nessa batalha, mas o WhatsApp e o Twitter têm se mostrado especialmente eficazes na divulgação das fake news e das ideias machistas, racistas e homofóbicas por trás delas.

“Direitos econômicos e sociais estão sendo desmontados, um após o outro. Estamos falando em cura gay, ensino religioso confessional nas escolas, censura a obras de arte, proibição de peças de teatro… Há pedidos de intervenção militar vindo inclusive de generais da ativa”

– Jean Wyllys

Para Jean, um dos motivos pelos quais esse renascimento dos discursos de ódio tem sido tão popular e reproduzido atualmente é a crise econômica global. “Isso levou milhões de pessoas a situações desesperadoras, criando as condições para que essas medidas populistas, que oferecem soluções fáceis e simplistas, ganhassem força”.

O deputado observa que, gradativamente, os efeitos colaterais desse conservadorismo já têm se espalhado país afora: “Direitos econômicos e sociais estão sendo desmontados, um após o outro. Estamos falando em cura gay, ensino religioso confessional nas escolas, censura a obras de arte, proibição de peças de teatro… Há pedidos de intervenção militar vindo inclusive de generais da ativa”, alerta.

O desmonte, contudo, vai muito além de uma simples resposta da população ao processo cíclico da crise econômica.

Tais discursos populistas vêm sendo claramente induzidos por diversos agentes que, em conjunto, trabalham para transformar essa narrativa na base da solução para todos os seus problemas. A proliferação de institutos econômicos e think tanks, a organização de grupos militantes e a realização de eventos para propagar ideias conservadoras mostra que existe claramente uma coordenação por trás desse processo.

UM TIME DE FUTEBOL

Articulação por trás da “coincidência”.

A estrutura e o método são bem simples. Hélio Beltrão, presidente do Instituto Mises (um dos think tanks de extrema-direita parceiros da Atlas Network no Brasil), compara essa operação a um time de futebol. “Defesa é a academia. Os atacantes são os políticos”. Olhando um pouco mais de perto, não fica difícil identificar a metáfora nas atuações que os grupos protagonizaram nos últimos anos.

O próprio Beltrão conta que, há 10 anos, havia apenas três institutos “libertários” (leia-se extrema-direita) no Brasil. Depois, com a parceria e o apoio da Atlas, já são mais de 30 institutos ativos e trabalhando em parceria com grupos como o MBL e o Estudantes pela Liberdade (Students for Liberty).

Esses institutos “libertários” são os incubadores dos discursos pseudoacadêmicos (sem metodologia científica ou respaldo de qualquer instituição acadêmica de excelência reconhecida) que são produzidos por figuras como Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino, Marco Antonio Villa, Leandro Narloch, Guilherme Fiuza, Luiz Felipe Pondé, Denis Rosenfield, Stephan Kanitz, José Nêumanne Pinto, Carlos Alberto SardenbergDemétrio Magnoli e o próprio Hélio Beltrão, dentre outros. Estes, como manda a estratégia, apenas reproduzem e adaptam as ideias econômicas altamente questionáveis do austríaco Friedrick von Hayek e do americano Milton Friedman, desenvolvedores da teoria econômica Neoliberal, para a realidade brasileira.

Hélio Beltrão, presidente do Instituto Mises, think tank brasileiro parceiro do Atlas Network.
Hélio Beltrão, presidente do Instituto Mises, think tank brasileiro parceiro do Atlas Network.

A Editora Record é uma das empresas da grande mídia que publica boa parte das obras conservadoras que vêm inundando o mercado editorial nacional.

Carlos Andreazza, editor da maior parte dessas obras, disse ao jornal El País que a editora investiu pesado para se tornar referência e líder neste mercado. Segundo ele, as recentes publicações têm obtido “vendas consistentes e perenes, e com presença nas listas de livros mais vendidos do país”.

Mas a Editora Record não é a única a dar voz a esses grupos. Diversos jornais, agências de notícias, canais de TV aberta e por assinatura, publicam textos desses autores, dão espaço de opinião em suas grades e até mesmo os mantêm como empregados ou colaboradores regulares.

Se para Hélio “a academia é a defesa e o ataque fica com a política”, essa última definitivamente não tem deixado sua retaguarda na mão.

Os tradicionais políticos conservadores do nosso já gasto sistema eleitoral buscaram se reinventar, associando-se aos grupos mais jovens como no clássico caso Cunha/MBL/DEM/Caiado. Desse casamento, nasceram diversas aberrações. Algumas foram instaladas em diversos cargos de confiança em todos os poderes do Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário), por todos os entes da Federação (Municípios, Estados e União).

A editora Record assume publicamente que quer se tornar referência no segmento de livros voltados para a divulgação dos ideais da direita conservadora. Na foto, o livro "Por trás da máscara: do Passe Livre aos Black Blocs, as Manifestações que Tomaram as Ruas do Brasil", de Flavio Morgenstern, escritor que ganhou a atenção da editora Record depois de se destacar nas redes sociais.
A editora Record assume publicamente que quer se tornar referência no segmento de livros voltados para a divulgação dos ideais da direita conservadora. Na foto, o livro "Por trás da máscara: do Passe Livre aos Black Blocs, as Manifestações que Tomaram as Ruas do Brasil", de Flavio Morgenstern, escritor que ganhou a atenção da editora Record depois de se destacar nas redes sociais.

As demais aberrações foram eleitas em coligações de legendas conservadoras em prol do subdesenvolvimento. Só o MBL venceu 8 das 45 candidaturas que lançou. Entre elas, podemos encontrar o prefeito do município de Monte Sião (MG), Zé Pocai (PPS); em Maringá (PR), onde o candidato Homero Marchese (PV) foi o vereador mais votado; e o já famoso Fernando Holiday (DEM), um dos líderes dos protestos das ruas, que recebeu 48.055 votos e ficou em 13º lugar entre os vereadores de São Paulo.

Se antes o Estado se mantinha majoritariamente omisso em relação à violência perpetrada contra grupos minoritários como mulheres, gays, negros e mestiços, assim como fez vista grossa à organização dos grupos de extrema direita na sociedade – agindo apenas quando requisitado na esfera legal ou nas políticas de ação afirmativa dos governos do PT -, ele agora trabalha “discretamente” para reforça-las.

O governo golpista de Michel Temer chegou ao poder em grande parte com apoio desses grupos, pagando o favor com cargos comissionados e recebendo de volta o apoio dos seus integrantes eleitos.

Na realidade, o aumento nos casos de violência contra minorias também não é mera coincidência e está diretamente conectado com o crescimento desse discurso conservador, dos grupos de extrema direita, dos institutos libertários e da participação desses indivíduos na política.

Grupos como o MBL estão emplacando os interesses da extrema direita no governo. Na foto, retirada do Instagram do grupo, eles entregam assinaturas pedindo pelo projeto Escola Sem Partido.
Grupos como o MBL estão emplacando os interesses da extrema direita no governo. Na foto, retirada do Instagram do grupo, eles entregam assinaturas pedindo pelo projeto Escola Sem Partido.

O objetivo desses grupos é dividir a sociedade entre os “cidadãos de bem” que concordam e se alinham com suas ideias, e “feminazis, mortadelas, gayzistas e petralhas” ou qualquer outro grupo que defenda ideias progressistas.

A estratégia é basicamente explorar os medos e preconceitos da população, transformando-os em ódio ao inimigo comum, construído como o responsável por todos esses problemas e mazelas da humanidade.

A única solução possível apresentada por esses grupos seria a conformação de todos os indivíduos ao ideal de uma sociedade branca e patriarcal, em que o cristianismo e os valores econômicos neoliberais são inquestionáveis, ou a total eliminação dos dissidentes, considerados inimigos.

Na distopia oferecida, liberdades de expressão e de individualidade não existiriam mais. Ou melhor: existiriam ainda menos do que já existem hoje.

Diante desse cenário, fica claro que não existe um único agente imperialista e estrangeiro responsável pela implantação de todo esse movimento. É possível identificar associações a partir de necessidades comuns dentre os inúmeros grupos, organizações e indivíduos, que trabalham juntos para colocar em prática sua agenda política e econômica quando seus objetivos coincidem. Tudo isso financiado pelo consórcio de empresários nacionais e estrangeiros para alcançarem a sua própria agenda de benefícios, sejam eles fiscais, ambientais ou trabalhistas.

Os membros da elite, não se deixe enganar, são capazes de tudo para assegurarem sua eterna posição como únicos e verdadeiros gestores do orçamento da União.

A extrema direita age descontextualizando e simplificando questões complexas, oferecendo soluções que se encaixem nos ideais conservadores, aproveitando sempre que podem para demonizar qualquer ideal progressista.

No tweet acima, o grupo desvirtua pontos importantes levantados sobre a educação mais inclusiva e menos machista das crianças – por exemplo, alegando que a esquerda quer proibir que as crianças brinquem de boneca, quando na verdade o que se quer é que todos possam brincar, não apenas meninas – , batendo novamente na tecla da performance “La Bete”, colocando-a como pedofilia e, dessa forma, deslegitimando as pautas levantadas.

Ainda não existe, contudo, uma fórmula mágica para lidar com esse problema. Mas para começar a desenvolver qualquer estratégia de reação que busque a diminuição dos índices de violência, a integração social e a prevalência de direitos humanos é preciso saber com quem estamos lidando.

É preciso descobrir e expor como essas pessoas estão agindo, por que estão se organizando e quais são os seus objetivos. Só assim teremos qualquer chance de viver em um mundo no qual o respeito às diferenças e o amor entre as pessoas seja a regra e não a exceção.

A equipe da Revista Híbrida traz para você uma entrevista inédita com Jean Wyllys para conhecer mais profundamente o seu posicionamento e entender um pouco mais sobre a situação política atual no Brasil. Confira abaixo.

HÍBRIDA – Vemos um crescimento absurdo da extrema-direita nos últimos anos, em todo o mundo, com líderes políticos sendo eleitos graças a ideias radicais e conservadoras. O que você acha que contribuiu para isso?

Jean Wyllys: Muitos fatores contribuíram.

Por um lado, há um profundo descrédito dos movimentos políticos tradicionais, tanto os de centro-direita ou direta moderada quanto os progressistas ou de esquerda, que decepcionaram seus próprios eleitores.

A direita produziu desigualdade e foi incapaz de se adaptar ao século XXI, a social-democracia foi recuando do seu programa econômico e social até que ficou difícil diferenciá-la da direita neoliberal. E a esquerda, em sua maioria, ficou presa a um discurso que atrasa mais de um século e não dá conta dos desafios do presente.

Por outro lado, a crise econômica global levou milhões de pessoas a situações desesperadoras, criando as condições para que discursos populistas, que oferecen soluções fáceis e simplistas, ganhassem força. De um lado, uma extrema direita xenófoba, homofóbica, machista, ultraconservadora; do outro, uma esquerda demagógica, nacionalista, militarista, autoritária e contrária à democracia e às liberdades individuais.

Figuras como Marine Le Pen, Donald Trump e Nicolás Maduro simbolizam esses extremos. No caso da Europa, governos progressistas e outros da direita liberal clássica, como o da Angela Merkel, não souberam lidar de forma democrática, sensata e até pedagógica com o fenômeno dos refugiados e imigrantes do Oriente Médio e da África, que traz uma série de desafios que foram ignorados, como é o problema do fundamentalismo.

E foi a extrema direita xenófoba que capitalizou isso politicamente.

Por último, não podemos ignorar o impacto das redes sociais, que essa direita soube usar muito eficaz e desonestamente, espalhando mentiras e fake news. Algo que também faz muito bem o neofascismo brasileiro!

HÍBRIDA – Nos EUA, o ápice desse movimento foi o “protesto” da Supremacia Branca (ou os Neo-Nazis) em Charlottesville. De que forma você acha que o Brasil passa ou pode passar por algo semelhante?

Jean Wyllys: A candidatura de Bolsonaro expressa esse mesmo fenômeno: um discurso fascista, homofóbico, machista, racista, autoritário e profundamente estúpido que, porém, cativa uma parte da classe média antipetista e uma parcela da juventude que não teve acesso a uma educação pública de qualidade.

A maioria da mídia e da classe política ainda não percebeu o quanto esse fenômeno é perigoso. Já existem pesquisas medindo o apoio para uma intervenção militar.

O perigo do fascismo é real e concreto e precisamos enfrentá-lo urgentemente.

HÍBRIDA – Claro que, por aqui, a população negra nunca esteve realmente segura, vide os índices de morte e manchas de criminalidade dentro desse recorte. Mas de que forma e por que motivo o discurso escrachadamente racista, homofóbico, misógino e preconceituoso tem crescido de forma tão pública?

Jean Wyllys: Esse discurso é perigoso porque ajuda a dar legitimidade ao racismo no imaginário social, mas o racismo brasileiro é muito mais antigo e continua como herança do período escravocrata não apenas em termos culturais, mas fundamentalmente na estrutura econômica e na composição das classes sociais no país.

A pobreza e a miséria no Brasil têm cor. As favelas têm cor. As prisões têm cor. Os índices de homicídios têm cor. São pretos. E o governo, a elite econômica, o establishment midiático, o parlamento e a política são brancos, como são heterossexuais e masculinos.

HÍBRIDA – Você concorda com o pensamento de que a Bancada Evangélica liderada por nomes como Malafaia e Bolsonaro é o equivalente brasileiro à Supremacia Branca norte-americana?

Jean Wyllys: Sem dúvidas. São mais do que isso, porque têm muito mais poder político e econômico.

HÍBRIDA – Em um mini-doc produzido pela Vice, um dos líderes do movimento de Charlottesville disse que pessoas como ele estão se organizando melhor e, mais do que nunca, estão dispostos a “ganharem de volta” seus espaços. No Brasil, não é difícil vermos, mesmo que online, movimentos como “Orgulho Hétero” e outras passeatas pelos “valores tradicionais e dos bons costumes”. Na sua opinião, o que atrai a “pessoa comum” para um discurso como esse? De que forma acha que podemos combater esse pensamento?

Jean Wyllys: Acho que respondi isso na primeira resposta. Não é um único fator, são vários.

O primeiro passo é tomarmos consciência. Eu às vezes me sinto muito sozinho nesse enfrentamento na política, no parlamento e até na esquerda!

HÍBRIDA – A esquerda brasileira, de forma geral, parece desunida no Brasil. Dentro do próprio movimento LGBT+ essa separação parece mais latente e prejudicial do que nunca. Por que você acha que isso ocorre e como superar esse impasse?

Jean Wyllys: A desunião da esquerda é um crime.

Estamos vivendo um período perigoso de golpe, governo ilegítimo, crescimento do fascismo e do fundamentalismo e cada vez mais situações assustadoras. Não sabemos se vai ter eleições em 2018 e, se tiver, não sabemos se o candidato que lidera as pesquisas vai ser proscrito.

Temos o exército ocupando as favelas. Os direitos econômicos e sociais estão sendo desmontados um após o outro. Estamos falando em cura gay, ensino religioso confessional nas escolas, censura a obras de arte, proibição de peças de teatro. Há pedidos de intervenção militar inclusive de generais da ativa. A frente única antifascista nunca foi tão necessária!

Por que não somos capazes de construir um programa mínimo comum para tirar o Brasil desta situação e oferecer uma alternativa democrática e progressista?

Temos de ser capazes!

Luiz Guilherme Osorio

LUIZ GUILHERME OSORIO

Formado em Internacional Business pela UCLA e Comunicação Social pela UFRJ. Passou um período pela faculdade de Direito da UFJF, trabalhou na Revista Seleções e hoje trabalha como especialista em Direitos Autorais e Propriedade Intelectual na internet em uma empresa de tecnologia em Los Angeles. É gay, casado e feliz, e tenta fazer tudo ao seu alcance para contribuir para o benefício de todos os seres sencientes do universo.